26/11/2016

Vontade de poder


«A vontade de poder, denunciada ou glorificada pelos pensadores modernos de Hobbes a Nietzsche, longe de ser uma característica do forte, é, como a cobiça e a inveja, um dos vícios do fraco, talvez o mais perigoso vício.»


Hannah Arendt, in A Condição Humana



10/11/2016

Homo cepranensis

O Homo cepranensis (Homem de Ceprano) é o nome proposto para uma espécie para uma espécie do género Homo, conhecida através de uma única calota craniana descoberta em 1994. O fóssil foi desenterrado acidentalmente num projeto de construção de uma autoestrada. Apesar de danificada por uma retroescavadora, foi reconhecida, documentada e descrita pelo arqueólogo Italo Bidditu, que por acaso se encontrava perto do local quando a caveira quase completa do hominídeo apareceu, alcunhado de Argila pelo seu descobridor  e Homem Ceprano, em consequência da cidade próxima de Ceprano na província de Frosine, a 89 km a sudeste de Roma, na Itália.
A morfologia geral robusta encontrada no fóssil mostra características peculiares, especialmente no osso frontal, e até à data não se encontrou equivalente, seja na Europa ou fora desta. O seu estatuto taxonómico. Tem sido um assunto controverso uma vez que se mostra diferente de outras espécies de hominídeos como o H. ergaster, o H. erectus e o H. heidelbergensis. Os resultados das análises morfométricas e cladisticas e as comparações com outros fósseis, levaram à conclusão que este fóssil é uma espécie hominídea distinta.
O holótipo do Homo cepranensis tem uma combinação única de características:
  • O sulco supraorbital incompleto;
  • O tubéculo frontal é fracamente desenvolvido e deslocado medialmente;
  • A região supraorbital apresenta-se medialmente concava;
  • Uma posição intermediária do meato auditivo externo em relação à apófise zigomática temporal;
  • Por um lado mostra traços derivados: visíveis no toro ocipital transverso e na concavidade médio lateral do tubéculo auricular
  • Por outro lado, ainda mantém traços primitivos, como são os casos das características da crista petrotimpânica orientada para baixo, o opistocrânio coincidente com o ínion, a apófise retro-mastoide e no torus angularis parietalis.
Inicialmente estimou-se que o fóssil tivesse entre 700.000 a 900.000 anos, usando como base as correlações regionais e uma série de datas absolutas. Após esclarecimento de sua relação geoestratégica, bioestratigráfica e arqueológica com o local próximo  bastante conhecido Acheulean de Fontana Ranuccio, datado de 487.000 +/-6.000 anos, Muttoni sugeriu qye Ceprano teria, mais provavelmente, cerca de 450.000 anos, pertencendo ao Pleistocenio Médio. Levando em consideração as circunstâncias da recuperação do fóssil, A. Ascenzi declarou em 2001: «... Dada a ausência nos sedimentos que contêm o crânio de quaisquer remanescentes leuciosos da atividade vulcânica mais recente conhecida na região - que se referem à faixa entre 100 e 700 ka e a presença acima do próprio crânio de uma clara discordância estratigráfica que marca o limite mais baixo dos piroclastos leuciosos arenosos, uma idade entre 800 e 900 ka é actualmente a nossa melhor estimativa cronológica.»

As características cranianas dos ossos parecem ser intermédias entre as que se encontram no Homo erectus e as da espécie mais tardia, Homo heidelbergensis, que dominou a Europa muito antes do Homo neanderthalensis, como foi demonstrado após a reconstrução dos fragmentos pelo geólogo Aldo Segre e pela paleantóloga Eugénia Naldini, estimou-se que a capacidade craniana deste hominídeo seria de cerca de 1200 milímetros cúbicos, o que o tornava possuidor de um cérebro maior do que os Homo ergaster e Homo erectus.
Estima-se que pesasse cerca de 70 quilogramas e medisse 1,70 metros de altura.

Um estudo de 2011 sugeriu que este fóssil pertencesse a um ancestral do Homo neanderthalensis.
 


Fontes:
https://en.wikipedia.org/wiki/Homo_cepranensis
http://www.avph.com.br/homocepranensis.htm

02/11/2016

Paulo de Tarso

Poucos dias depois da crucificação de Jesus surgiram rumores de que este havia ressuscitado dos mortos. Desta forma, mostrou que era mais do que um homem, e que era verdadeiramente «Filho de Deus».
Pode-se dizer que a Igreja cristã teve início nessa manhã de Páscoa, com o anúncio da ressurreição de Jesus. Já Paulo esclareceu: «Se Jesus não ressuscitou, então a nossa prédica é vã, vã a nossa fé.»
A partir daquele momento, todos os homens podiam ter esperança na ressurreição da carne. Jesus foi crucificado para a salvação dos homens. Não se trata da imortalidade da alma ou reencarnação, esta era uma concepção grega (logo, indo-europeia). O cristianismo diz que não há nada no homem  - por exemplo, nenhuma «alma» - que fosse imortal por si. A Igreja acredita na ressurreição da carne e na vida eterna, mas é justamente graças a Deus que o homem é salvo da morte e da perdição. Não é mérito deste, nem se deve a nenhuma qualidade natural ou inata.
Os primeiros cristãos começaram então a anunciar a «boa nova» da salvação através da fé em Jesus Cristo. Com a sua mensagem de redenção, o reino de Deus estava iminente. Todo o mundo podia então ser conquistado por Jesus. (A palavra Cristo é uma tradução grega da palavra hebraica «Messias» e significa, portanto, «o Ungido»).
Poucos anos após a morte de Jesus, o fariseu Paulo converteu-se ao cristianismo. Através das suas muitas viagens de missionário por todo o mundo grego-romano, o cristianismo tornou-se uma religião universal. Toma-se conhecimento disto nos Atos dos Apóstolos. A pregação de Paulo e as suas diretivas fornecidas aos cristãos foram também difundidas por meio das epístolas que enviou às primeiras comunidades cristãs.
Também esteve em Atenas. Caminhava na ágora da capital da filosofia, e mostrava-se indignado, «de tal forma via a cidade tão idólatra», segundo se diz. Visitou a sinagoga de Atenas e falou com os filósofos epicuristas e estóicos da cidade. Levaram-no ao Areópago. Aí, disseram: «Também podemos saber que doutrina nova é essa que ensinas? Porque tu trazes algo novo para os nossos ouvidos; por isso, gostaríamos muito de saber o que é.
A doutrina de salvação cristã acabou por ser um choque à filosofia grega, no entanto, Paulo conseguiu fazer-se ouvir pelos atenienses. Enquanto se encontra no Areópago - entre os imponentes templos da Acrópole - faz o seguinte discurso:

« Atenienses, eu vejo que sois em todos os aspetos muito religiosos. Indo a passar, vi os vossos cultos e encontrei um altar sobre o qual estava escrito: "Ao Deus desconhecido." Agora, anuncio-vos aquele ao qual prestais culto sem saber. Deus, que fez o mundo e tudo o que nele há, uma vez que é o senhor do céu e da terra, não habita nos templos feitos pelos homens. Também não é servido pelas mãos dos homens, como se precisasse de alguém, ele que dá a todos a vida e o alento por toda a parte.
E de um só fez todo o género humano, para que habitasse em toda a face da terra, e colocou o limite para o tempo e o lugar da habitação; para que busquem o Senhor como que às apalpadelas. E na verdade,ele não está longe de cada um de nós. Pois nele vivemos, nos movemos e existimos; como também disseram alguns dos vossos poetas: nós somos da sua linhagem. Sendo nós da linhagem de Deus, Não devemos pensar que a divindade é igual às imagens douradas, prateadas e de pedra feitas pela arte dos homens. E na verdade, Deus não teve em conta o tempo da ignorância; mas ordena a todos os homens, por toda a parte, que façam penitência, porque ele estabeleceu um dia em que há-de julgar o mundo com justiça através de um homem  que escolheu e no qual todos têm fé, depois de o ter ressuscitado dos mortos.»

O cristianismo infiltra-se aos poucos no mundo greco-romano, como algo de diferente das filosofias epicuristas, estóicas ou neoplatónicas. No entanto, Paulo encontra nesta cultura um apoio sólido. Diz que a busca de Deus está presente em todos os homens, o que não era algo de novo para os gregos. O que Paulo anuncia de novo é que Deus se revelou aos homens e que foi verdadeiramente ao seu encontro. Não é apenas um «Deus filosófico» ao qual os homens podem aspirar com a razão. Também não se assemelha a nenhuma imagem de «ouro, prata ou pedra» - Já era suficiente o que havia na Acrópole e na ágora. Mas Deus «não habita em templos feitos pelos homens». É um Deus pessoal que intervém na história e morre na cruz pelos homens.
Depois de Paulo ter feito o seu discurso no Areópago, os Actos dos Apóstolos contam que alguns fizeram troça dele por ele ter contado que Cristo tinha ressuscitado dos mortos. Mas laguns ouvintes afirmaram também: «Queremos que nos voltes a falar disso.» Outros juntaram-se, por fim, a ele e tornaram-se cristãos. Entre esses estava uma mulher, Dâmaris. Nesta altura houve muitas mulheres que se converteram ao cristianismo.
Paulo prosseguiu a sua atividade missionária. Poucas décadas depois da morte de Cristo existiam comunidades cristãs em todas as cidades gregas e romanas mais importantes - em Atenas, Roma, Alexandria, Éfeso. No decorrer de três, quatro séculos, todo o mundo greco-romano estava cristianizado.

Mas a importância de Paulo de Tarso para o cristianismo não se limitou à sua importante atividade missionária. Também teve uma grande influência dentro das comunidades cristãs. Havia uma grande necessidade de instrução espiritual.
Nos primeiros anos após a morte de Jesus, levantou-se uma questão: teriam os não-judeus de passar primeiro pelo judaísmo? Por exemplo, teria um grego que observar as leis de Moisés? Paulo não achava isso necessário. O Cristianismo era mais do que uma seita hebraica. Dirigia-se a todos os homens com uma mensagem universal de salvação. A Velha Aliança, entre Deus e Israel, era substituída pela Nova Aliança, que Jesus concluíra entre Deus e todos os homens.
Mas o cristianismo não era a única religião daquele tempo. O Helenismo era caracterizado por uma mistura de religiões. Por isso, a Igreja tinha de delinear claramente a doutrina cristã. Era importante evitar uma cisão entre a Igreja Cristã e a demarcação em relação a outras religiões. Desta forma, surgiu a profissão de fé, que teve como objetivo reunir os mais importantes «dogmas» cristãos.
Um desses dogmas afirma que Jesus foi simultaneamente Deus e um homem. Portanto, ele não foi «filho de Deus» apenas pelos seus atos. Ele próprio era Deus, mas foi também um «verdadeiro» homem que partilhou a vida dos homens e sofreu verdadeiramente na cruz.
Isto pode parecer uma contradição, mas a mensagem da Igreja era de que Deus se havia tornado homem. Jesus não era nenhum «semi-deus» (meio humano e meio divino). A crença em tais semideuses encontrava-se bastante difundida nas religiões grega e helenísticas. A Igreja ensinava que Jesus é «inteiramente Deus, inteiramente homem».





Fontes
O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, Editorial Presença, Lisboa, 30ª edição, Maio 2011
Imagem
Paulo de Tarso de Rembrandt

31/10/2016

Importância


Não há nada de mais absurdo que a própria vida.

Existe apenas para se perpetuar, num enorme ciclo. Por mais que o Homo sapiens ache que é importante, e que preencha a sua vida com "coisas importantes", a verdade é que é puro egocentrismo e ilusão. Pergunte-se a todas as outras espécies se acha a existência do H. sapiens importante, por elas até seria melhor que nem existíssemos.

Vivemos para a vida e a vida existe para a vida. Somos reféns deste ciclo vicioso.

Criamos sonhos, fantasias de propósitos, de finalidades, numa tentativa de preencher este vazio. De evitarmos ver este eterno absurdo.

Levantamo-nos de manhã, preenchemos o dia, a semana, o mês, o ano... Um longo solitário - ou curto. A verdade é que o Homem tem a tendência a fazer planos, criando-lhes raízes numa vida vazia por si mesma, quando bem pode não viver sequer a próxima noite. E quando vive esses planos, que tão bem esquematizou, sente-se vazio... Porquê? Porque não são nada para além de passatempos, não têm qualquer importância, são uma ilusão.

Tal como a nossa existência. Só mesmo pela nossa arrogância é que achamos que somos algo de importante, tanto como espécie, quanto como indivíduos.

E, no entanto... aqui está este eterno instinto a criar ilusões de forma a que a Vida perpetue a Vida.

De manhã levantamo-nos, ocupamos o dia, a semana, o mês, o ano... e depois acabou, e passado algum tempo, esquecidas as memórias, levadas pelo vento do tempo, a existência nunca foi.

Não tem importância.



19/10/2016

Vazio

 
 
 

É impressão minha ou há algo de errado com o Mundo?

   ... Um vazio...

Ou será que este vazio sempre cá esteve, sendo parte inerente do próprio Homem? No entanto, acho que está a piorar.

Talvez o problema esteja na quantidade, esta quantidade enorme de tudo, impede que se avalie cada coisa, cada pouco...

é demasiado, suponho...

                                                          Não sei... talvez seja mesma a ausência natural de tudo, apenas preenchida com tudos-nadas.

14/10/2016

A mulher que subiu ao trono papal

«Segundo a lenda, em 855 d. C., uma mulher sucedeu ao papa Leão IV no trono papal. Joana, que se diz ter sido filha de um missionário inglês, nasceu na Alemanha cerca 818. Era notada pela sua beleza, e o seu gosto pelo saber era evidente. Mais tarde, apaixonada por um monge de Fulda, passou a vestir trajes de monge para poder estar com ele, e juntos viajavam de um centro de cultura para outro.
 Eleita com o nome de João VIII, Joana desempenhou os seus deveres de forma capaz durante mais de dois anos, até que certo dia cedeu à sua condição de mulher. Estava longe de ser o único papa a ter um filho, mas a maternidade não se esconde facilmente. Joana teve um especial azar porque, não sabendo a data prevista para o nascimento da criança, provocou um escândalo, dando à luz um rapaz no meio da rua durante uma procissão solene entre o Coliseu e a Igreja de S. Clemente.
Uma revelação tão pública do sexo de Joana foi embaraçosa não só para ela, mas também para a Igreja, pelo que a sua morte, ocorrida pouco depois, foi bastante conveniente. O acontecimento foi abafado e o seu nome retirado das crónicas da Igreja. Ainda hoje, os papas evitam o percurso seguido por Joana até S. Clemente.
Embora a história da papisa Joana tenha sido posta a circular pela primeira vez no século IX por um historiador romano, parece haver poucas dúvidas de que se trata de uma invenção, presumivelmente destinada a desacreditar o papado na época medieval.»




Fonte:Viagem ao Desconhecido, Selecções do Reader's Digest


07/10/2016

Homo heidelbergensis


O Homo heidelbergensis, é uma espécie extinta do género Homo que viveu na África (oriental e sul), Europa e África ocidental, entre 600.000 a 200.000 anos atrás. Os crânios desta espécie partilham características com o Homo erectus e com o Homo sapiens - o crânio do H. heidelbergensis era quase tão grande quanto o do H. sapiens. Embora a primeira descoberta - uma mandíbula - tenha sido feita em 1907, perto de Heidelberg, na Alemanha, onde foi descrita e nomeada por Otto Schoetensack, " a grande maioria dos fósseis atribuídos ao Homo heidelbergensis [só] tem sido obtida recentemente, com início em 1997". A caverna Sima de los Huesos, em Atapuerca, no norte de Espanha, é, particularmente, rica em diversas camadas de depósitos que "representam uma reserva excecional de dados" onde as escavações ainda continuam em curso.
Atualmente considera-se que as espécies Neandertal, Denisovana e homem moderno são descendentes do Homo heidelbergensis, que terá aparecido há cerca de 700.000 anos atrás, em África. Foram recuperados fósseis na Etiópia, Namíbia e África do Sul. Entre 300.000 a 400.000 anos atrás, um grupo de Homo heidelbergensis migrou para a Europa e Ásia ocidental através de rotas ainda desconhecidas e, eventualmente, terão evoluído em Neandertais. Até ao momento foram encontrados locais arqueológicos existentes em Espanha, Itália, França, Inglaterra, Alemanha, Hungria e Grécia. Posteriormente, outro grupo de Homo heidelbergensis ter-se-à aventurado para leste, até à Ásia continental, a qual, por sua vez, evoluiu para o hominídeo de Denisova. Já a população de Homo heidelbergensis africano (Homo rhodesiensis) terá evoluído para o Homo sapiens há cerca de 130.000 anos, e depois terá migrado até à Europa e Ásia numa "segunda onda" entre 125.000 e 60.000 anos atrás.
A atribuição correta de muitos fósseis para uma determinada cronoespécie é difícil e muitas vezes gera controvérsias entre os paleoantropólogos, devido à ausência de linhas divisórias bem definidas e universalmente aceites (autopomorfias) entre o Homo erectus, o Homo heidelbergensis e o Homo neanderthalensis. Alguns investigadores sugerem que os achados associados ao Homo heidelbergensis são apenas variantes do Homo erectus.

Morfologia
Tanto o Homo antecessor quanto o Homo heidelbergensis são, provavelmente, descendentes do morfologicamente muito semelhante Homo ergaster, de África. Mas, devido ao facto de o Homo heidelbergensis possuir uma caixa craniana maior - com um volume craniano típico de cerca de 1250 cm³ - e ter ferramentas e um comportamento mais avançadas, foi-lhe dada uma classificação de espécie diferente «A anatomia [do Homo heidelbergensis] é claramente mais primitiva do que a do Neandertal, mas o arco dentário harmoniosamente arredondado e a fileira de dentes completa... é tipicamente humana.» - Johanna Kontny, Reisetagebuch eines Fossils. In  Günther A. Wagner
Durante mais de meio século muitos especialistas mostraram relutância em  aceitar o Homo heidelbergensis como um grupo taxonómico diferente devido à raridade de amostras, o que impediu que houvesse informações morfológicas suficientes e a distinção do Homo heidelbergensis como uma espécie à parte. O nome da espécie «heidelbergensis» apenas obteve um renascimento por causa das muitas descobertas que têm sido feitas nos últimos 30 anos e, na atualidade, cada vez mais investigadores a reconhecem como uma espécie por si mesma. No entanto, muitos ainda sustêm que o desenvolvimento evolucionário na África e Europa foi um processo gradual através do Homo erectus até ao que é considerado Homo heidelbergensis até ao Neandertal. Os paleoantropólogos referem-se muitas vezes às incertezas à volta destas amostras, à sua datação e morfologia, como "à confusão no meio".
O facto de aparentemente não haver transições claras torna difícil desenhar uma lista única de características do Homo heidelbergensis que o distinga do Homo erectus e do Homo neanderthalensis. Geralmente, os achados mostram um rumo de uma continuação evolucionária que emergiram a partir do Pleistoceno Médio e Inferior. Juntamente com mudanças na robustez das características cranianas e dentárias, o aumento notável no tamanho do cérebro do Homo erectus até ao Homo heiderlbergensis são incríveis.
Os machos do H. heidelbergensis mediam cerca de 1,75 m de altura e 62 kg, enquanto que as médias das fêmeas eram de 1,57 m de altura e 51 kg de peso. A reconstrução de 27 ossos dos membros humanos, encontrados em Atapuerca (Burgos, Espanha) ajudou a determinar o peso do H. heidelbergensis relativamente ao H. neanderthalensis: a conclusão foi de que os primeiros eram ligeiramente mais altos do que os segundos.

Existem indícios, na forma de ferramentas alteradas pelo fogo e madeira queimada no local de Gesher Benot Ya-aqov, em Israel, sugerem que o Homo heidelbergensis era capaz de controlar o fogo aos construírem fogueiras, ou lareiras primitivas, há cerca de 790.000 anos atrás. Os grupos sociais, muito provavelmente, juntavam em torno das suas fogueiras a comida que seria compartilhada, de forma a ficar quente. O fogo seria usado, igualmente para afastar os predadores.
O H. heidelbergensis terá aproveitado os abrigos naturais existentes, mas esta espécie, aparentemente, foi a primeira a construir abrigos simples. As evidências deste facto provêm de Terra Amata, em França. Outra característica é que o H. heidelbergensis também terá sido a primeira espécie de hominídeos a caçar animais de grande porte, como mostram os restos de veados selvagens, cavalos, elefantes hipopótamos e rinoceronte com marcas de corte nos ossos e que foram encontrados juntos com fósseis de Homo heidelbergensis. Lanças de madeira com 400.000 anos, encontradas em Schöningen, na Alemanha, que foram encontradas juntamente com utensílios de pedra e os restos de mais de 10 cavalos são, igualmente, uma indicação deste tipo de caça.

Esta espécie deu mostras de ter tido comportamento ritualístico através dos ossos encontrados numa cavidade em Simos de los Huesos, em Atapuerca, com mais de 400.000, onde foram encontrados mais de 30 indivíduos do H. heidelbergensis que haviam sido, claramente, atirados de forma propositada para o local. Neste local, também foi encontrado um machado de mão, bastante bem construído, simétrico, o que ilustra a capacidade de construção de ferramentas desta espécie.
Steven Mithen acredita que o Homo heidelbergensis, tal como o seu descendente, Homo neanderthalensis, terá adquirido um sistema de comunicação pré-linguístico. Não se encontraram nenhumas formas de arte, apesar de ter sido encontrado ocre vermelho em Terra Amata, no sul de França.



Uma evolução divergente
O Homo erectus original, que viver há cerca de 700.000 anos atrás, evoluiu para uma espécie humana nova com um cérebro muito maior, que usava para fabricar ferramentas de pedra bem manufacturadas (conhecida como a cultura Auchalense) a qual, numa segunda propagação (teoria Saída de África II), terá migrado para o sul de África, incluindo Alemanha e Inglaterra. Todos os representantes desta espécie humana mais avançada encontram-se classificadas como Homo heidelbergensis. A sua constituição robusta e capacidades de caça parecem estar adequadas às flutuações climáticas europeias. O H. heidelbergensis evoluiu para o H. Neanderthalensis à cerca de 250.000 a 300.000 anos atrás, durante o Período Wolstiniano.
Devido à migração do H. heidelbergensis de África para a Europa, as duas populações ficaram na sua maior parte isoladas durante o Período Wolstoniano  e Período Eemiano, o último dos períodos glaciares quaternários prolongados. Eventualmente,  H. sapiens ter-se-à separado num novo ramo,  entre 200.000 e 100.000 anos atrás em África. Fósseis como o crânio Atapuerca em Espanha e o crânio Kabwe são representativos deste surgimento de novos ramos na árvore do H. heidelbergensis. Adicionalmente, «a imagem que surge é a de um Homo erectus espalhado, espécie polítipica, com grupos a persistirem durante mais tempo nalgumas regiões do que noutras. O padrão documentado na China, e especialmente em Java contrasta com o do ocidente, onde o Homo erectus parece ter desaparecido do registo numa data relativamente precoce.» - "Human Evolution in the Middle Pleistocene: The Role of Homo heidelbergensis by G. Philip Rightmire" (PDF).

O H. neanderthalensis reteve a maior parte das características do H. heidelbergensis após a separação evolucionária. Apesar de mais baixos, os Neandertais eram mais robustos, tinham cumes da testa mais salientes, uma face ligeiramente proeminente e faltava-lhe um queixo saliente. Com uma capacidade craniana idêntica à do Cro-Magnon, apresentavam o crânio maior do que o dos outros hominídeos. O Homo sapiens, por outro lado, apresentava a fronte mais pequena de todos os hominídeos conhecidos, são mais altos e movem-se mais gracilmente, e e têm um rosto plano com um queixo saliente. Em média, o H. sapiens tem um cérebro maior do que o do Homo heidelbergensis, mas mais pequeno do que o do Homo neandethalensis.

Em 2013, foi publicado a sequência de ADN de fósseis da caverna de Sima de los Huesos, nas montanhas de Atapuerca, todos classificados como membros do H. heidelbergensis e que se pensa terem dado origem ao H. neanderthalensis. «A identidade dos fósseis tornou-se de repente complicada quando um estudo do ADN mitocondrial, herdado maternalmente, de um dos fósseis mostrou que não se assemelhava aos Neandertais. Invés, está mais aproxima-se mais do ADN mitocondrial de um denisovano...» - "DNA from Neandertal relative may shake up human family tree". American Association for the Advancement of Science. September 11, 2015. Retrieved November 29, 2015.

Num artigo de 2015, Matthias Meyer do Instituto Max Planck para a Antropologia Evolucionária declara: «De facto, a Sima de Los Huesos são Neandertais primitivos ou relacionados a Neandertais primitivos.», após a sua equipa ter examinado este ADN à procura de marcadores encontrados apenas nos Neandertais. Já os Denisovianos e homens modernos eles viram que o genoma central nestas espécies era muito mais semelhante aos dos Neandertais. «O que sugere que a separação neandertal-denisovana deu-se antes de 430.000 anos atrás.» - "Researchers Sequenced 430,000-Year-Old DNA From Neanderthal Relative". IFLScience. September 13, 2015. Retrieved November 29, 2015.





Fontes
https://en.wikipedia.org/wiki/Homo_heidelbergensis
http://humanorigins.si.edu/evidence/human-fossils/species/homo-heidelbergensis

Imagens
(1) https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Spread_and_evolution_of_Denisovans.jpg
(2) Homo heidelbergensis, macho. Reconstrução baseada em Kabwe por John Gurche (http://humanorigins.si.edu)
(3) http://frontiersofzoology.blogspot.pt/2012/03/homo-sapiens-heidelbergensis-big-daddy.html
(4) By Homo_splitter_(deutsch).png: Martin0815derivative work: Gerbil (talk) - Homo_splitter_(deutsch).png, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=12406813


O Homens Fortes

Qual o fascinio pelos "homens fortes" (leia-se "ditadores"). Terá a história alguma influência na sua ascênsão? - pergun...