31/10/2016

Importância


Não há nada de mais absurdo que a própria vida.

Existe apenas para se perpetuar, num enorme ciclo. Por mais que o Homo sapiens ache que é importante, e que preencha a sua vida com "coisas importantes", a verdade é que é puro egocentrismo e ilusão. Pergunte-se a todas as outras espécies se acha a existência do H. sapiens importante, por elas até seria melhor que nem existíssemos.

Vivemos para a vida e a vida existe para a vida. Somos reféns deste ciclo vicioso.

Criamos sonhos, fantasias de propósitos, de finalidades, numa tentativa de preencher este vazio. De evitarmos ver este eterno absurdo.

Levantamo-nos de manhã, preenchemos o dia, a semana, o mês, o ano... Um longo solitário - ou curto. A verdade é que o Homem tem a tendência a fazer planos, criando-lhes raízes numa vida vazia por si mesma, quando bem pode não viver sequer a próxima noite. E quando vive esses planos, que tão bem esquematizou, sente-se vazio... Porquê? Porque não são nada para além de passatempos, não têm qualquer importância, são uma ilusão.

Tal como a nossa existência. Só mesmo pela nossa arrogância é que achamos que somos algo de importante, tanto como espécie, quanto como indivíduos.

E, no entanto... aqui está este eterno instinto a criar ilusões de forma a que a Vida perpetue a Vida.

De manhã levantamo-nos, ocupamos o dia, a semana, o mês, o ano... e depois acabou, e passado algum tempo, esquecidas as memórias, levadas pelo vento do tempo, a existência nunca foi.

Não tem importância.



19/10/2016

Vazio

 
 
 

É impressão minha ou há algo de errado com o Mundo?

   ... Um vazio...

Ou será que este vazio sempre cá esteve, sendo parte inerente do próprio Homem? No entanto, acho que está a piorar.

Talvez o problema esteja na quantidade, esta quantidade enorme de tudo, impede que se avalie cada coisa, cada pouco...

é demasiado, suponho...

                                                          Não sei... talvez seja mesma a ausência natural de tudo, apenas preenchida com tudos-nadas.

14/10/2016

A mulher que subiu ao trono papal

«Segundo a lenda, em 855 d. C., uma mulher sucedeu ao papa Leão IV no trono papal. Joana, que se diz ter sido filha de um missionário inglês, nasceu na Alemanha cerca 818. Era notada pela sua beleza, e o seu gosto pelo saber era evidente. Mais tarde, apaixonada por um monge de Fulda, passou a vestir trajes de monge para poder estar com ele, e juntos viajavam de um centro de cultura para outro.
 Eleita com o nome de João VIII, Joana desempenhou os seus deveres de forma capaz durante mais de dois anos, até que certo dia cedeu à sua condição de mulher. Estava longe de ser o único papa a ter um filho, mas a maternidade não se esconde facilmente. Joana teve um especial azar porque, não sabendo a data prevista para o nascimento da criança, provocou um escândalo, dando à luz um rapaz no meio da rua durante uma procissão solene entre o Coliseu e a Igreja de S. Clemente.
Uma revelação tão pública do sexo de Joana foi embaraçosa não só para ela, mas também para a Igreja, pelo que a sua morte, ocorrida pouco depois, foi bastante conveniente. O acontecimento foi abafado e o seu nome retirado das crónicas da Igreja. Ainda hoje, os papas evitam o percurso seguido por Joana até S. Clemente.
Embora a história da papisa Joana tenha sido posta a circular pela primeira vez no século IX por um historiador romano, parece haver poucas dúvidas de que se trata de uma invenção, presumivelmente destinada a desacreditar o papado na época medieval.»




Fonte:Viagem ao Desconhecido, Selecções do Reader's Digest


07/10/2016

Homo heidelbergensis


O Homo heidelbergensis, é uma espécie extinta do género Homo que viveu na África (oriental e sul), Europa e África ocidental, entre 600.000 a 200.000 anos atrás. Os crânios desta espécie partilham características com o Homo erectus e com o Homo sapiens - o crânio do H. heidelbergensis era quase tão grande quanto o do H. sapiens. Embora a primeira descoberta - uma mandíbula - tenha sido feita em 1907, perto de Heidelberg, na Alemanha, onde foi descrita e nomeada por Otto Schoetensack, " a grande maioria dos fósseis atribuídos ao Homo heidelbergensis [só] tem sido obtida recentemente, com início em 1997". A caverna Sima de los Huesos, em Atapuerca, no norte de Espanha, é, particularmente, rica em diversas camadas de depósitos que "representam uma reserva excecional de dados" onde as escavações ainda continuam em curso.
Atualmente considera-se que as espécies Neandertal, Denisovana e homem moderno são descendentes do Homo heidelbergensis, que terá aparecido há cerca de 700.000 anos atrás, em África. Foram recuperados fósseis na Etiópia, Namíbia e África do Sul. Entre 300.000 a 400.000 anos atrás, um grupo de Homo heidelbergensis migrou para a Europa e Ásia ocidental através de rotas ainda desconhecidas e, eventualmente, terão evoluído em Neandertais. Até ao momento foram encontrados locais arqueológicos existentes em Espanha, Itália, França, Inglaterra, Alemanha, Hungria e Grécia. Posteriormente, outro grupo de Homo heidelbergensis ter-se-à aventurado para leste, até à Ásia continental, a qual, por sua vez, evoluiu para o hominídeo de Denisova. Já a população de Homo heidelbergensis africano (Homo rhodesiensis) terá evoluído para o Homo sapiens há cerca de 130.000 anos, e depois terá migrado até à Europa e Ásia numa "segunda onda" entre 125.000 e 60.000 anos atrás.
A atribuição correta de muitos fósseis para uma determinada cronoespécie é difícil e muitas vezes gera controvérsias entre os paleoantropólogos, devido à ausência de linhas divisórias bem definidas e universalmente aceites (autopomorfias) entre o Homo erectus, o Homo heidelbergensis e o Homo neanderthalensis. Alguns investigadores sugerem que os achados associados ao Homo heidelbergensis são apenas variantes do Homo erectus.

Morfologia
Tanto o Homo antecessor quanto o Homo heidelbergensis são, provavelmente, descendentes do morfologicamente muito semelhante Homo ergaster, de África. Mas, devido ao facto de o Homo heidelbergensis possuir uma caixa craniana maior - com um volume craniano típico de cerca de 1250 cm³ - e ter ferramentas e um comportamento mais avançadas, foi-lhe dada uma classificação de espécie diferente «A anatomia [do Homo heidelbergensis] é claramente mais primitiva do que a do Neandertal, mas o arco dentário harmoniosamente arredondado e a fileira de dentes completa... é tipicamente humana.» - Johanna Kontny, Reisetagebuch eines Fossils. In  Günther A. Wagner
Durante mais de meio século muitos especialistas mostraram relutância em  aceitar o Homo heidelbergensis como um grupo taxonómico diferente devido à raridade de amostras, o que impediu que houvesse informações morfológicas suficientes e a distinção do Homo heidelbergensis como uma espécie à parte. O nome da espécie «heidelbergensis» apenas obteve um renascimento por causa das muitas descobertas que têm sido feitas nos últimos 30 anos e, na atualidade, cada vez mais investigadores a reconhecem como uma espécie por si mesma. No entanto, muitos ainda sustêm que o desenvolvimento evolucionário na África e Europa foi um processo gradual através do Homo erectus até ao que é considerado Homo heidelbergensis até ao Neandertal. Os paleoantropólogos referem-se muitas vezes às incertezas à volta destas amostras, à sua datação e morfologia, como "à confusão no meio".
O facto de aparentemente não haver transições claras torna difícil desenhar uma lista única de características do Homo heidelbergensis que o distinga do Homo erectus e do Homo neanderthalensis. Geralmente, os achados mostram um rumo de uma continuação evolucionária que emergiram a partir do Pleistoceno Médio e Inferior. Juntamente com mudanças na robustez das características cranianas e dentárias, o aumento notável no tamanho do cérebro do Homo erectus até ao Homo heiderlbergensis são incríveis.
Os machos do H. heidelbergensis mediam cerca de 1,75 m de altura e 62 kg, enquanto que as médias das fêmeas eram de 1,57 m de altura e 51 kg de peso. A reconstrução de 27 ossos dos membros humanos, encontrados em Atapuerca (Burgos, Espanha) ajudou a determinar o peso do H. heidelbergensis relativamente ao H. neanderthalensis: a conclusão foi de que os primeiros eram ligeiramente mais altos do que os segundos.

Existem indícios, na forma de ferramentas alteradas pelo fogo e madeira queimada no local de Gesher Benot Ya-aqov, em Israel, sugerem que o Homo heidelbergensis era capaz de controlar o fogo aos construírem fogueiras, ou lareiras primitivas, há cerca de 790.000 anos atrás. Os grupos sociais, muito provavelmente, juntavam em torno das suas fogueiras a comida que seria compartilhada, de forma a ficar quente. O fogo seria usado, igualmente para afastar os predadores.
O H. heidelbergensis terá aproveitado os abrigos naturais existentes, mas esta espécie, aparentemente, foi a primeira a construir abrigos simples. As evidências deste facto provêm de Terra Amata, em França. Outra característica é que o H. heidelbergensis também terá sido a primeira espécie de hominídeos a caçar animais de grande porte, como mostram os restos de veados selvagens, cavalos, elefantes hipopótamos e rinoceronte com marcas de corte nos ossos e que foram encontrados juntos com fósseis de Homo heidelbergensis. Lanças de madeira com 400.000 anos, encontradas em Schöningen, na Alemanha, que foram encontradas juntamente com utensílios de pedra e os restos de mais de 10 cavalos são, igualmente, uma indicação deste tipo de caça.

Esta espécie deu mostras de ter tido comportamento ritualístico através dos ossos encontrados numa cavidade em Simos de los Huesos, em Atapuerca, com mais de 400.000, onde foram encontrados mais de 30 indivíduos do H. heidelbergensis que haviam sido, claramente, atirados de forma propositada para o local. Neste local, também foi encontrado um machado de mão, bastante bem construído, simétrico, o que ilustra a capacidade de construção de ferramentas desta espécie.
Steven Mithen acredita que o Homo heidelbergensis, tal como o seu descendente, Homo neanderthalensis, terá adquirido um sistema de comunicação pré-linguístico. Não se encontraram nenhumas formas de arte, apesar de ter sido encontrado ocre vermelho em Terra Amata, no sul de França.



Uma evolução divergente
O Homo erectus original, que viver há cerca de 700.000 anos atrás, evoluiu para uma espécie humana nova com um cérebro muito maior, que usava para fabricar ferramentas de pedra bem manufacturadas (conhecida como a cultura Auchalense) a qual, numa segunda propagação (teoria Saída de África II), terá migrado para o sul de África, incluindo Alemanha e Inglaterra. Todos os representantes desta espécie humana mais avançada encontram-se classificadas como Homo heidelbergensis. A sua constituição robusta e capacidades de caça parecem estar adequadas às flutuações climáticas europeias. O H. heidelbergensis evoluiu para o H. Neanderthalensis à cerca de 250.000 a 300.000 anos atrás, durante o Período Wolstiniano.
Devido à migração do H. heidelbergensis de África para a Europa, as duas populações ficaram na sua maior parte isoladas durante o Período Wolstoniano  e Período Eemiano, o último dos períodos glaciares quaternários prolongados. Eventualmente,  H. sapiens ter-se-à separado num novo ramo,  entre 200.000 e 100.000 anos atrás em África. Fósseis como o crânio Atapuerca em Espanha e o crânio Kabwe são representativos deste surgimento de novos ramos na árvore do H. heidelbergensis. Adicionalmente, «a imagem que surge é a de um Homo erectus espalhado, espécie polítipica, com grupos a persistirem durante mais tempo nalgumas regiões do que noutras. O padrão documentado na China, e especialmente em Java contrasta com o do ocidente, onde o Homo erectus parece ter desaparecido do registo numa data relativamente precoce.» - "Human Evolution in the Middle Pleistocene: The Role of Homo heidelbergensis by G. Philip Rightmire" (PDF).

O H. neanderthalensis reteve a maior parte das características do H. heidelbergensis após a separação evolucionária. Apesar de mais baixos, os Neandertais eram mais robustos, tinham cumes da testa mais salientes, uma face ligeiramente proeminente e faltava-lhe um queixo saliente. Com uma capacidade craniana idêntica à do Cro-Magnon, apresentavam o crânio maior do que o dos outros hominídeos. O Homo sapiens, por outro lado, apresentava a fronte mais pequena de todos os hominídeos conhecidos, são mais altos e movem-se mais gracilmente, e e têm um rosto plano com um queixo saliente. Em média, o H. sapiens tem um cérebro maior do que o do Homo heidelbergensis, mas mais pequeno do que o do Homo neandethalensis.

Em 2013, foi publicado a sequência de ADN de fósseis da caverna de Sima de los Huesos, nas montanhas de Atapuerca, todos classificados como membros do H. heidelbergensis e que se pensa terem dado origem ao H. neanderthalensis. «A identidade dos fósseis tornou-se de repente complicada quando um estudo do ADN mitocondrial, herdado maternalmente, de um dos fósseis mostrou que não se assemelhava aos Neandertais. Invés, está mais aproxima-se mais do ADN mitocondrial de um denisovano...» - "DNA from Neandertal relative may shake up human family tree". American Association for the Advancement of Science. September 11, 2015. Retrieved November 29, 2015.

Num artigo de 2015, Matthias Meyer do Instituto Max Planck para a Antropologia Evolucionária declara: «De facto, a Sima de Los Huesos são Neandertais primitivos ou relacionados a Neandertais primitivos.», após a sua equipa ter examinado este ADN à procura de marcadores encontrados apenas nos Neandertais. Já os Denisovianos e homens modernos eles viram que o genoma central nestas espécies era muito mais semelhante aos dos Neandertais. «O que sugere que a separação neandertal-denisovana deu-se antes de 430.000 anos atrás.» - "Researchers Sequenced 430,000-Year-Old DNA From Neanderthal Relative". IFLScience. September 13, 2015. Retrieved November 29, 2015.





Fontes
https://en.wikipedia.org/wiki/Homo_heidelbergensis
http://humanorigins.si.edu/evidence/human-fossils/species/homo-heidelbergensis

Imagens
(1) https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Spread_and_evolution_of_Denisovans.jpg
(2) Homo heidelbergensis, macho. Reconstrução baseada em Kabwe por John Gurche (http://humanorigins.si.edu)
(3) http://frontiersofzoology.blogspot.pt/2012/03/homo-sapiens-heidelbergensis-big-daddy.html
(4) By Homo_splitter_(deutsch).png: Martin0815derivative work: Gerbil (talk) - Homo_splitter_(deutsch).png, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=12406813


28/09/2016

Os semitas

Os semitas eram originários da península árabe, com uma cultura e língua completamente diferente das dos indo-europeus, como estes, expandiram-se por diversas regiões do globo. Esta cultura ficou marcada pelo afastamento dos judeus das suas raízes originárias, pelo surgimento do cristianismo e alcance de uma vasta área por se ter tornado a religião oficial romana no século IV e pela conquista de um grande território pelo islamismo.
As três religiões ocidentais - judaísmo, cristianismo e islamismo - têm uma base semítica. O Alcorão, o texto sagrado do islamismo, e o Antigo Testamento encontram-se escritos em línguas semíticas aparentadas. Uma das palavras do Antigo Testamento para «Deus» tem a mesma raiz linguística que o Alá dos muçulmanos (a palavra «Alá» significa simplesmente «Deus»).
O quadro do cristianismo já se mostra mais complicado. Esta religião também tem uma base semítica, mas o Novo Testamento foi escrito em grego, e quando a teologia cristã foi formulada, recebeu a influencia das línguas grega e latina, e consequentemente da filosofia grega.
Sabe-se que os indo-europeus eram politeístas, enquanto que os semitas adoptaram desde muito cedo ao monoteísmo. No judaísmo, no cristianismo e no islamismo a existência de um só Deus é uma ideia fundamental.
Uma outra característica semítica é a concepção linear da história (em contraste à concepção cíclica dos indo-europeus), o que significa que a história era vista linearmente. Deus criou o mundo, e nesse momento começou a história, que terminará no dia do «juízo final», quando Deus julgar os vivos e os mortos.
Uma característica importante das três grandes religiões ocidentais é precisamente o papel da história. Deus intervém na história e esta existe apenas para que Deus realize a sua vontade no mundo. Tal como outrora Deus conduziu Abraão à Terra Prometida, dirige a vida dos homens através da história até ao dia do juízo final, momento em que será erradicado todo o mal do mundo.
Devido à importância da ação divina na história, os semitas ocuparam-se da historiografia desde há muitos milhares de anos. As raízes históricas estão no centro dos seus escritos religiosos.
Atualmente, Jerusalém continua a ser um centro religioso muito importante para judeus, cristãos e muçulmanos, o que demonstra a base histórica comum destas três religiões. Existem em Jerusalém importantes sinagogas (judeus), igrejas (cristãos) e mesquitas (muçulmanos).
Se a visão era importante para os indo-europeus, já para os semitas o sentido que se destaca é a audição. Não é por acaso que o acto de fé judaica começa com as palavras «Ouve, Israel!». No Antigo Testamento lê-se como os homens «ouviam» as palavras do Senhor, e os profetas judeus iniciavam as suas predições com a fórmula «Assim falou Jeová» (Deus). No cristianismo, também se dá importância a «ouvir» a palavra de Deus. As cerimónias religiosas hebraicas, cristãs e muçulmanas são caracterizadas sobretudo pela leitura em voz alta dos textos sagrados.
Se os indo-europeus faziam representações em esculturas e pinturas dos seus deuses, já para os semitas era proibido a representação de Deus ou de tudo o que fosse sagrado. Também no Antigo Testamento se afirma que os homens não podem criar nenhuma imagem de Deus. Esta norma ainda é válida para o islamismo e judaísmo. No islamismo, existe uma aversão geral pela fotografia e arte plástica em geral. Os homens não devem competir com Deus em «criar» algo.
Já a Igreja Cristã é rica em representações de Deus e Jesus, no que se denota a influência greco-romana.
Na Igreja Ortodoxa (Grécia e Rússia) ainda existe a proibição de criar imagens esculpidas, isto é, esculturas e crucifixos com cenas da história bíblica.
Contrariamente às religiões orientais, as três religiões ocidentais defendem uma separação entre Deus e a sua Criação. O fim não é a libertação da reencarnação, mas ser-se libertado do pecado e da culpa. Além disso, a vida religiosa baseia-se mais na oração, no sermão e na leitura da Bíblia do que na concentração e meditação.



Fontes
O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, Editorial Presença, Lisboa, 30ª edição, Maio 2011



27/09/2016

Os indo-europeus


Designa-se por indo-europeus todos os países e culturas onde se falam línguas indo-europeias. Pertencem a este grupo todas as línguas europeias, com exceção das línguas ugro-fínicas (lapão, finlandês, estónio e húngaro) e basco. A maior parte das línguas indianas e iranianas pertencem à família linguística indo-europeia.
Há cerca de quatro mil anos, os primeiros indo-europeus viviam provavelmente na região do mar Negro e do mar Cáspio. Pouco depois, essa tribos indo-europeias começaram a migrar para o sudeste, para os territórios que são atualmente o Irão e para a Índia; para o sudoeste, para os Grécia, Itália e Espanha; para o oeste, através da Europa Central, para Inglaterra e França; para o noroeste, Escandinávia; e para o norte, Europa do Leste e Rússia. Por toda a parte, os indo-europeus foram-se misturando com as culturas autoctónes, ainda que a religião e a língua indo-europeia acabassem por desempenhar um papel dominante.
Tanto os antigos escribas indianos védicos como a filosofia grega e até mesmo a mitologia de Snorri são linguísticamente aparentados. Daí poder falar-se de uma cultura indo-europeia.
A cultura indo-europeia era sobretudo caracterizada pela crença em diversos deuses, isto é, pelo politeísmo. Encontra-se em toda a área indo-europeia nomes de deuses, muitos termos religiosos importantes e expressões semelhantes. Por exemplo, os antigos hindus veneravam o deus Dyaus, em grego este deus chama-se Zeus, e em latim Júpiter (na realidade Iovpater, ou seja, «pai Iov»), e em antigo nórdico Tyr. Os nomes Dyaus, Zeus, Iov e Tyr são diferentes variantes da mesma palavra.
Os Vikings do norte da Europa veneravam deuses  a que chamavam ases. Este termo também é encontrado para «deuses» no conjunto do âmbito indo-europeu. Em antigo hindu (sânscrito), os deuses chamavam-se asura, em antigo persa daeva, em latim deus e em antigo nórdico tivurr.
No norte da Europa havia ainda um grupo próprio da divindade da fertilidade (por exemplo, Njörd, Freyr, Freyja). Estas divindades eram designadas vanes. Esta palavra é aparentada com o nome da deusa latina da fertilidade Vénus. Em sânscrito há o termo aparentado vani, que significa «prazer» ou «desejo».
Determinados mitos apresentam em toda a área indo-europeia um claro parentesco. Quando Snorri fala acerca dos antigos deuses nórdicos, alguns mitos fazem recordar mitos hindus que foram narrados dois ou três mil anos antes. Naturalmente, os mitos de Snorri estão relacionados com a natureza nórdica e as indianas com a natureza indiana. Mas muitos dos mitos apresentam um núcleo que aponta para uma origem comum. Este núcleo é claramente visível nos mitos sobre as poções da imortalidade e sobre a luta dos deuses contra as forças do caos.
Também são visíveis conexões no próprio pensamento das culturas indo-europeias. Uma semelhança reside no facto de conceberem o mundo como um combate eterno entre as forças do bem e as forças do mal, o que levou a que os indo-europeus procurassem predizer o futuro do mundo.
Pode-se afirmar que  não é por acaso que a filosofia grega nasceu justamente no âmbito da cultura indo-europeia. As mitologias indiana, grega e nórdica apresentam claros princípios de um pensamento filosófico ou «especulativo». Os indo-europeus procuravam ter conhecimento da evolução do mundo. Pode-se, inclusivamente, seguir em toda a área indo-europeia um termo preciso para «conhecimento» ou «saber» de cultura para cultura. Em sânscrito, este termo é vidya. Esta palavra é idêntica à grega idea que desempenha um papel importante na filosofia de Platão. Do latim, conhece-se a palavra video, que para os romanos significava simplesmente «ver». No inglês surgem as palavras wise e wisdom (sabedoria). No alemão, weise e Wissen; em norueguês, viten. Assim, a palavra norueguesa «viten» tem as mesmas raízes que a palavra indiana «vidya», a grega «idea» e a latina «video».
Pode-se, assim, concluir que a visão era o sentido mais importante para os indo-europeus. Entre os indianos, gregos, iranianos e germanos, a literatura é caracterizada por grandes visões cósmicas. Também era costume nas culturas indo-europeias produzir pinturas e esculturas dos deuses e dos acontecimentos mitológicos.
Finalmente, os indo-europeus tinham uma concepção cíclica da história. Isto é, para eles, a história decorre circularmente - ou em «em ciclos» - tal como as estações do ano alternam entre Verão e Inverno. Não há, assim, um verdadeiro começo nem um verdadeiro fim da história. Trata-se de civilizações diversas que nascem e perecem na alternância constante entre nascimento e morte.
Ambas as grandes religiões orientais - hinduísmo e budismo - são de origem indo-europeia. O mesmo é válido para a filosofia grega, e são visíveis claros paralelismos entre o hinduísmo e o budismo, por um lado e a filosofia grega, por outro. Ainda hoje o hinduísmo e o budismo estão fortemente influenciados pela reflexão filosófica.
É frequente colocar-se em evidência que no hinduísmo e no budismo o divino está presente em tudo (panteísmo) e que o homem pode alcançar a unidade com Deus através do conhecimento religioso, para o qual é necessário, geralmente, uma grande concentração e meditação. No Oriente, a passividade e o recolhimento são um ideal religioso. Na Grécia, era frequente pensar-se que o homem tinha de viver uma vida de ascese - ou retiro religioso - para libertar a sua alma. Alguns elementos da vida monástica medieval remontam a essas concepções do mundo grego-romano.
Em muitas culturas indo-europeias a crença na metempsicose era também muito importante; assim, no hinduísmo, o objetivo de cada crente é ser libertado um dia da migração das almas. E Platão também acreditava na migração das almas.


20/09/2016

Ofertas ao chefe mochica


Não se conhece bem os povos pré-colombianos da América do Sul porque eles não tinham sistemas de escrita, mas sabe-se, através da arqueologia, que os membros de um desses grupos, o dos Mochicas, ou Moches, eram exímios ceramistas, tecelões, metalúrgicos e muralistas. Além disso, bebiam o sangue dos seus inimigos.
Os Mochicas, que viveram na costa norte do Peru desde a época de Cristo a 759 d.C, ergueram algumas das maiores estruturas de adobe jamais construídas. Contudo, são mais conhecidos pela sua cerâmica, muito diversificada e que representa objetos de uso quotidiano e animais, como jaguares e peixes. Algumas figuras são esqueletos; outras são representadas por desenhos de traços finos. 
A beleza da arte mochica pode ocultar o seu verdadeiro significado. O arqueólogo Cristopher Donan sugere que tal significado é essencialmente religioso e identificou um pequeno número de temas básicos nas peças de cerâmicas achadas até à data. Um deles, a que chamou tema de apresentação, aparece em muitos potes e murais. Este tema sugere que a civilização mochica foi construída sobre sacrifícios de sangue e que a justificação para as guerras era de cariz religioso. Nas representações pictóricas, individuos ricamente vestidos rodeiam um grande ser humano de capacete cónico, de cuja cabeça e ombros emanam raios. Um prisioneiro, nu, amarrado, é sangrado por um ser humano ou por uma figura felina antropomórfica, ou por ambos. Outra figura, semi-humana, semi-ave, apresenta ao chefe uma taça que se supõe conter o sangue da vítima. Também podem estar presentes guerreiros-raposas, aves e felinos e ainda cães e serpentes.
Os Mochicas e outros povos da América do Sul pré-colombiana não faziam distinção entre o mundo religioso e o secular. Para eles, uma taça nunca era apenas uma taça. Não há dúvida de que os recipientes achados nas suas sepulturas têm um significado religioso relacionado com a ingestão de sangue dos seus inimigos.
Ecos de tais crenças ainda se podem encontrar na atualidade nos Andes. Em certas cerimónias religiosas, os homens bebem sangue de animais para ter força. E também é crença geral que os xamãs podem usar certas partes do corpo de uma pessoa para lhe fazer mal.



O Homens Fortes

Qual o fascinio pelos "homens fortes" (leia-se "ditadores"). Terá a história alguma influência na sua ascênsão? - pergun...