28/09/2016

Os semitas

Os semitas eram originários da península árabe, com uma cultura e língua completamente diferente das dos indo-europeus, como estes, expandiram-se por diversas regiões do globo. Esta cultura ficou marcada pelo afastamento dos judeus das suas raízes originárias, pelo surgimento do cristianismo e alcance de uma vasta área por se ter tornado a religião oficial romana no século IV e pela conquista de um grande território pelo islamismo.
As três religiões ocidentais - judaísmo, cristianismo e islamismo - têm uma base semítica. O Alcorão, o texto sagrado do islamismo, e o Antigo Testamento encontram-se escritos em línguas semíticas aparentadas. Uma das palavras do Antigo Testamento para «Deus» tem a mesma raiz linguística que o Alá dos muçulmanos (a palavra «Alá» significa simplesmente «Deus»).
O quadro do cristianismo já se mostra mais complicado. Esta religião também tem uma base semítica, mas o Novo Testamento foi escrito em grego, e quando a teologia cristã foi formulada, recebeu a influencia das línguas grega e latina, e consequentemente da filosofia grega.
Sabe-se que os indo-europeus eram politeístas, enquanto que os semitas adoptaram desde muito cedo ao monoteísmo. No judaísmo, no cristianismo e no islamismo a existência de um só Deus é uma ideia fundamental.
Uma outra característica semítica é a concepção linear da história (em contraste à concepção cíclica dos indo-europeus), o que significa que a história era vista linearmente. Deus criou o mundo, e nesse momento começou a história, que terminará no dia do «juízo final», quando Deus julgar os vivos e os mortos.
Uma característica importante das três grandes religiões ocidentais é precisamente o papel da história. Deus intervém na história e esta existe apenas para que Deus realize a sua vontade no mundo. Tal como outrora Deus conduziu Abraão à Terra Prometida, dirige a vida dos homens através da história até ao dia do juízo final, momento em que será erradicado todo o mal do mundo.
Devido à importância da ação divina na história, os semitas ocuparam-se da historiografia desde há muitos milhares de anos. As raízes históricas estão no centro dos seus escritos religiosos.
Atualmente, Jerusalém continua a ser um centro religioso muito importante para judeus, cristãos e muçulmanos, o que demonstra a base histórica comum destas três religiões. Existem em Jerusalém importantes sinagogas (judeus), igrejas (cristãos) e mesquitas (muçulmanos).
Se a visão era importante para os indo-europeus, já para os semitas o sentido que se destaca é a audição. Não é por acaso que o acto de fé judaica começa com as palavras «Ouve, Israel!». No Antigo Testamento lê-se como os homens «ouviam» as palavras do Senhor, e os profetas judeus iniciavam as suas predições com a fórmula «Assim falou Jeová» (Deus). No cristianismo, também se dá importância a «ouvir» a palavra de Deus. As cerimónias religiosas hebraicas, cristãs e muçulmanas são caracterizadas sobretudo pela leitura em voz alta dos textos sagrados.
Se os indo-europeus faziam representações em esculturas e pinturas dos seus deuses, já para os semitas era proibido a representação de Deus ou de tudo o que fosse sagrado. Também no Antigo Testamento se afirma que os homens não podem criar nenhuma imagem de Deus. Esta norma ainda é válida para o islamismo e judaísmo. No islamismo, existe uma aversão geral pela fotografia e arte plástica em geral. Os homens não devem competir com Deus em «criar» algo.
Já a Igreja Cristã é rica em representações de Deus e Jesus, no que se denota a influência greco-romana.
Na Igreja Ortodoxa (Grécia e Rússia) ainda existe a proibição de criar imagens esculpidas, isto é, esculturas e crucifixos com cenas da história bíblica.
Contrariamente às religiões orientais, as três religiões ocidentais defendem uma separação entre Deus e a sua Criação. O fim não é a libertação da reencarnação, mas ser-se libertado do pecado e da culpa. Além disso, a vida religiosa baseia-se mais na oração, no sermão e na leitura da Bíblia do que na concentração e meditação.



Fontes
O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, Editorial Presença, Lisboa, 30ª edição, Maio 2011



27/09/2016

Os indo-europeus


Designa-se por indo-europeus todos os países e culturas onde se falam línguas indo-europeias. Pertencem a este grupo todas as línguas europeias, com exceção das línguas ugro-fínicas (lapão, finlandês, estónio e húngaro) e basco. A maior parte das línguas indianas e iranianas pertencem à família linguística indo-europeia.
Há cerca de quatro mil anos, os primeiros indo-europeus viviam provavelmente na região do mar Negro e do mar Cáspio. Pouco depois, essa tribos indo-europeias começaram a migrar para o sudeste, para os territórios que são atualmente o Irão e para a Índia; para o sudoeste, para os Grécia, Itália e Espanha; para o oeste, através da Europa Central, para Inglaterra e França; para o noroeste, Escandinávia; e para o norte, Europa do Leste e Rússia. Por toda a parte, os indo-europeus foram-se misturando com as culturas autoctónes, ainda que a religião e a língua indo-europeia acabassem por desempenhar um papel dominante.
Tanto os antigos escribas indianos védicos como a filosofia grega e até mesmo a mitologia de Snorri são linguísticamente aparentados. Daí poder falar-se de uma cultura indo-europeia.
A cultura indo-europeia era sobretudo caracterizada pela crença em diversos deuses, isto é, pelo politeísmo. Encontra-se em toda a área indo-europeia nomes de deuses, muitos termos religiosos importantes e expressões semelhantes. Por exemplo, os antigos hindus veneravam o deus Dyaus, em grego este deus chama-se Zeus, e em latim Júpiter (na realidade Iovpater, ou seja, «pai Iov»), e em antigo nórdico Tyr. Os nomes Dyaus, Zeus, Iov e Tyr são diferentes variantes da mesma palavra.
Os Vikings do norte da Europa veneravam deuses  a que chamavam ases. Este termo também é encontrado para «deuses» no conjunto do âmbito indo-europeu. Em antigo hindu (sânscrito), os deuses chamavam-se asura, em antigo persa daeva, em latim deus e em antigo nórdico tivurr.
No norte da Europa havia ainda um grupo próprio da divindade da fertilidade (por exemplo, Njörd, Freyr, Freyja). Estas divindades eram designadas vanes. Esta palavra é aparentada com o nome da deusa latina da fertilidade Vénus. Em sânscrito há o termo aparentado vani, que significa «prazer» ou «desejo».
Determinados mitos apresentam em toda a área indo-europeia um claro parentesco. Quando Snorri fala acerca dos antigos deuses nórdicos, alguns mitos fazem recordar mitos hindus que foram narrados dois ou três mil anos antes. Naturalmente, os mitos de Snorri estão relacionados com a natureza nórdica e as indianas com a natureza indiana. Mas muitos dos mitos apresentam um núcleo que aponta para uma origem comum. Este núcleo é claramente visível nos mitos sobre as poções da imortalidade e sobre a luta dos deuses contra as forças do caos.
Também são visíveis conexões no próprio pensamento das culturas indo-europeias. Uma semelhança reside no facto de conceberem o mundo como um combate eterno entre as forças do bem e as forças do mal, o que levou a que os indo-europeus procurassem predizer o futuro do mundo.
Pode-se afirmar que  não é por acaso que a filosofia grega nasceu justamente no âmbito da cultura indo-europeia. As mitologias indiana, grega e nórdica apresentam claros princípios de um pensamento filosófico ou «especulativo». Os indo-europeus procuravam ter conhecimento da evolução do mundo. Pode-se, inclusivamente, seguir em toda a área indo-europeia um termo preciso para «conhecimento» ou «saber» de cultura para cultura. Em sânscrito, este termo é vidya. Esta palavra é idêntica à grega idea que desempenha um papel importante na filosofia de Platão. Do latim, conhece-se a palavra video, que para os romanos significava simplesmente «ver». No inglês surgem as palavras wise e wisdom (sabedoria). No alemão, weise e Wissen; em norueguês, viten. Assim, a palavra norueguesa «viten» tem as mesmas raízes que a palavra indiana «vidya», a grega «idea» e a latina «video».
Pode-se, assim, concluir que a visão era o sentido mais importante para os indo-europeus. Entre os indianos, gregos, iranianos e germanos, a literatura é caracterizada por grandes visões cósmicas. Também era costume nas culturas indo-europeias produzir pinturas e esculturas dos deuses e dos acontecimentos mitológicos.
Finalmente, os indo-europeus tinham uma concepção cíclica da história. Isto é, para eles, a história decorre circularmente - ou em «em ciclos» - tal como as estações do ano alternam entre Verão e Inverno. Não há, assim, um verdadeiro começo nem um verdadeiro fim da história. Trata-se de civilizações diversas que nascem e perecem na alternância constante entre nascimento e morte.
Ambas as grandes religiões orientais - hinduísmo e budismo - são de origem indo-europeia. O mesmo é válido para a filosofia grega, e são visíveis claros paralelismos entre o hinduísmo e o budismo, por um lado e a filosofia grega, por outro. Ainda hoje o hinduísmo e o budismo estão fortemente influenciados pela reflexão filosófica.
É frequente colocar-se em evidência que no hinduísmo e no budismo o divino está presente em tudo (panteísmo) e que o homem pode alcançar a unidade com Deus através do conhecimento religioso, para o qual é necessário, geralmente, uma grande concentração e meditação. No Oriente, a passividade e o recolhimento são um ideal religioso. Na Grécia, era frequente pensar-se que o homem tinha de viver uma vida de ascese - ou retiro religioso - para libertar a sua alma. Alguns elementos da vida monástica medieval remontam a essas concepções do mundo grego-romano.
Em muitas culturas indo-europeias a crença na metempsicose era também muito importante; assim, no hinduísmo, o objetivo de cada crente é ser libertado um dia da migração das almas. E Platão também acreditava na migração das almas.


20/09/2016

Ofertas ao chefe mochica


Não se conhece bem os povos pré-colombianos da América do Sul porque eles não tinham sistemas de escrita, mas sabe-se, através da arqueologia, que os membros de um desses grupos, o dos Mochicas, ou Moches, eram exímios ceramistas, tecelões, metalúrgicos e muralistas. Além disso, bebiam o sangue dos seus inimigos.
Os Mochicas, que viveram na costa norte do Peru desde a época de Cristo a 759 d.C, ergueram algumas das maiores estruturas de adobe jamais construídas. Contudo, são mais conhecidos pela sua cerâmica, muito diversificada e que representa objetos de uso quotidiano e animais, como jaguares e peixes. Algumas figuras são esqueletos; outras são representadas por desenhos de traços finos. 
A beleza da arte mochica pode ocultar o seu verdadeiro significado. O arqueólogo Cristopher Donan sugere que tal significado é essencialmente religioso e identificou um pequeno número de temas básicos nas peças de cerâmicas achadas até à data. Um deles, a que chamou tema de apresentação, aparece em muitos potes e murais. Este tema sugere que a civilização mochica foi construída sobre sacrifícios de sangue e que a justificação para as guerras era de cariz religioso. Nas representações pictóricas, individuos ricamente vestidos rodeiam um grande ser humano de capacete cónico, de cuja cabeça e ombros emanam raios. Um prisioneiro, nu, amarrado, é sangrado por um ser humano ou por uma figura felina antropomórfica, ou por ambos. Outra figura, semi-humana, semi-ave, apresenta ao chefe uma taça que se supõe conter o sangue da vítima. Também podem estar presentes guerreiros-raposas, aves e felinos e ainda cães e serpentes.
Os Mochicas e outros povos da América do Sul pré-colombiana não faziam distinção entre o mundo religioso e o secular. Para eles, uma taça nunca era apenas uma taça. Não há dúvida de que os recipientes achados nas suas sepulturas têm um significado religioso relacionado com a ingestão de sangue dos seus inimigos.
Ecos de tais crenças ainda se podem encontrar na atualidade nos Andes. Em certas cerimónias religiosas, os homens bebem sangue de animais para ter força. E também é crença geral que os xamãs podem usar certas partes do corpo de uma pessoa para lhe fazer mal.



16/09/2016

Misticismo

Uma experiência mística é uma experiência de unidade com Deus ou com o «mundo espiritual». Embora muitas religiões defendam que existe um abismo entre a Criação e Deus, o misticismo afirma que na realidade não existe, defendendo por sua vez uma «fusão com Deus».
Segundo estes  o «eu» não é o verdadeiro eu da pessoa, o homem pode ter a experiência de uma identificação com um eu maior. Alguns chamam-lhe Deus, outros «mundo espiritual», «natureza absoluta» ou «universo». Na fusão, o místico sente que «se perde a si mesmo», desaparece ou perde-se em Deus, tal como uma gota de água se perde quando se mistura no oceano. Segundo as palavras de um místico indiano: «Quando eu existia, Deus não existia. Agora, Deus existe e eu já não existo».
Numa experiência mística a pessoa perde-se quanto à forma que possui no momento, mas ao mesmo tempo compreende que na realidade é algo infinitamente maior. É todo o universo. É a alma do mundo. É Deus. O verdadeiro eu é, para os místicos, um fogo maravilhoso que arde eternamente.
Mas uma experiência mística deste género nem sempre vem por si mesma. Muitas vezes, o místico tem de percorrer uma via de purificação e de iluminação para poder encontrar Deus. Essa via consiste numa vida simples e na meditação.
Encontram-se em todas as religiões correntes místicas, e o que os diferentes místicos escrevem sobre as suas experiências apresenta uma semelhança notável, apesar das diferenças culturais. O ambiente cultural só se manifesta quando os místicos tentam dar uma interpretação religiosa ou filosófica ao acontecimento.
Na mística ocidental - no judaísmo, cristianismo e islamismo - o místico afirma sentir o encontro com um Deus pessoal. Apesar de Deus estar presente na natureza e na alma humana, está além deste mundo. Na mística oriental - no hinduísmo, budismo e religião chinesa - o místico experimenta uma fusão total com Deus ou com a «alma do mundo».
Antes de Platão, havia fortes correntes místicas, sobretudo na Índia. Swami Vivekananda que contribuiu para a difusão do hinduísmo no Ocidente, afirmou: «Tal como certas religiões do mundo afirmam  que um homem que não acredita num Deus pessoal transcendente é ateu, nós afirmamos que o homem que não acredita em si mesmo é ateu. Não acreditar na grandeza da própria alma é aquilo a que chamamos de ateísmo.
Homens que não pertençam a nenhuma religião também podem relatar experiências místicas. De repente vivem aquilo a que se chama de «consciência cósmica» ou «sentimento oceânico». Sentem-se arrancadas do tempo e vêem o mundo «do ponto de vista da perspectiva da eternidade».



O neoplatonismo

Os cínicos, os estóicos e os epicuristas tinham as suas bases filosóficas assentes na doutrina de Sócrates. Recorrendo, igualmente a filósofos pré-socráticos como Demócrito e Heraclito. No entanto, a corrente filosófica mais notável da Antiguidade tardia inspirou-se sobretudo na teoria das ideias de Platão, sendo por isso designada de «neoplatonismo».
O neoplatónico com maior realce foi Plotino (Licopólis, 205 - Egito, 270)autor de Enéadas, discípulo de Amónio Sacas por onze anos e mestre de Porfírio), que estudou filosofia em Alexandria, tendo-se transferido posteriormente para Roma. É de notar que Plotino vinha de Alexandria, cidade que era já há muitos séculos o grande ponto de encontro da filosofia grega e da mística oriental. Assim, o filósofo levou consigo para Roma uma doutrina de salvação que viria a tornar-se uma séria concorrente do cristianismo que começara a afirmar-se, acabando por exercer uma forte influência nesta jovem religião.
Platão distinguia o mundo inteligível do mundo sensível e, consequentemente, acabava por haver uma clara separação da alma do homem do seu corpo. Assim, o homem tornou-se um ser duplo: segundo Platão o corpo era constituído por terra e pó, tal como todas as coisas que pertencem ao mundo sensível, mas o homem possui igualmente uma alma imortal. Esta concepção do homem já estava muito difundida na Grécia antes de Platão. Plotino para além de conhecer a teoria platónica estava também muito familiarizado com as concepções asiáticas que se assemelhavam a esta corrente filosófica grega.
Plotino via o mundo separado em dois pólos. Num extremo estando a luz divina, que ele designava por Uno. Por vezes, chamava-lhe também Deus. No outro extremo reinava  a escuridão total que a luz do Uno não alcança. Mas para Plotino, essa escuridão não existe de facto. É apenas uma ausência de luz. A única coisa que existe é Deus ou o Uno, mas tal como uma fonte luminosa se perde progressivamente na escuridão, também existe um limite para o alcance dos raios divinos.
Para Plotino, a luz do Uno ilumina a alma, ao passo que a matéria é a escuridão que na realidade não existe. Mas as formas da natureza também possuem um fraco reflexo do Uno.
Pode-se imaginar uma fogueira numa noite escura, o que arde é Deus - e a escuridão exterior é a matéria gelada de que os homens e os homens são feitos. Junto de Deus estão as ideias eternas que são os arquétipos de todas as criaturas. A alma humana é sobretudo uma «centelha de fogo». Mas em toda a natureza brilha um pouco dessa luz divina. É possível observá-la em todos os seres vivos, inclusivamente uma rosa ou um jacinto têm esse reflexo divino. A terra, a água e as pedras são o que se encontra mais afastado de Deus.
Em tudo existe algo do mistério divino, no entanto o homem está mais próximo de Deus na sua alma, só aí é possível a união com o mistério da vida.
As imagens usadas por Plotino lembram a alegoria da caverna de Platão. Quanto mais se se aproxima da  entrada da caverna, mais se aproxima da origem de tudo o que existe. Mas, ao contrário da clara bipartição da realidade de Platão, o pensamento de Plotino denota uma experiência do todo. Tudo é Uno - porque tudo é Deus. Mesmo as sombras na caverna de Platão são um fraco reflexo no Uno.
Plotino experimentou algumas vezes na vida a fusão da sua alma com Deus (experiência mística).



15/09/2016

Os epicuristas

Sócrates queria descobrir como é que o homem pode viver uma vida feliz. Os cínicos e estóicos afirmavam que para ser feliz, o homem deveria libertar-se do luxo material. Mas Sócrates também teve um discípulo que se chamava Aristipo. Para Aristipo, a finalidade da vida era obter o máximo prazer sensível. O supremo bem era o prazer e, o grande mal era a dor. Por isso, queria desenvolver uma arte de viver que evitasse todas as formas de dor . (O objetivo que norteava os cínicos e os estóicos era o de suportar todas as formas de dor).
Cerca do ano 300 a.C., Epicuro de Samos (341-270 a.C.) fundou em Atenas uma escola de filosofia. Desenvolveu a ética do prazer de Aristipo e combinou-a com a teoria atomista de Demócrito.
Julga-se que os epicuristas se juntavam num jardim, tendo sido, por isso, também designados de «filósofos do jardim». Diz-se que, por cima do portão do jardim estava escrito: «Estranho, aqui serás feliz. Aqui, o prazer é o bem supremo».
Epicuro esclareceu que o resultado agradável de uma ação tem de ser sempre confrontado com os seus eventuais efeitos secundários.
O filósofo pretendia confrontar um resultado agradável a curto prazo com um prazer maior, mais duradouro ou intenso a longo prazo. Contrariamente aos animais, defendia, o homem tem a possibilidade de planear a sua vida, tem a capacidade de fazer um «cálculo dos prazeres».
Mas Epicuro também sublinhava que «prazer» não era necessariamente o mesmo que «prazer físico» (por exemplo, também a amizade e a contemplação de uma obra de arte podem ser agradáveis). Uma condição para a fruição da vida seriam também os antigos ideais gregos como o autodomínio, a temperança e a serenidade, porque a concupiscência tem de ser refreada. Deste modo, a serenidade era um meio de ajudar a suportar a dor.
Os frequentadores do jardim de Epicuro, eram sobretudo homens atormentados com angústias de natureza religiosa. Neste sentido, a teoria atomista de Demócrito era um remédio útil contra a religião e a superstição. Para se obter uma vida feliz é importante superar o medo da morte, e neste sentido Epicuro recorria à teoria de Demócrito relativamente aos «átomos da alma» (Demócrito não acreditava na vida além da morte porque os «átomos da alma» se dispersavam em todas as direções).
«Porque é que haveríamos de ter medo da morte?», perguntava Epicuro, «Porque enquanto existimos, a morte não está aqui, e logo que ela vem, nós não existimos.»

O próprio Epicuro resumia a sua filosofia libertadora através daquilo a que designou de remédio quádruplo:

Não precisamos temer os deuses. Não precisamos de nos preocupar com a morte. É fácil atingir o bem. O mal suporta-se facilmente.

Na Grécia antiga, comparava-se muitas vezes a atividade do filósofo com a do médico. Segundo Epicuro, o homem deve munir-se de uma «farmácia portátil filosófica» que conteria os quatro ingredientes essenciais acima assinalados.
Contrariamente aos estóicos, os epicuristas interessavam-se pouco por política e pela sociedade. «Vive escondido!» era o conselho de Epicuro. Poder-se-á comparar o seu jardim com algumas comunidades atuais em que procuram um lugar  onde se possam refugiar para fugir à sociedade.
Após a morte de Epicuro, muitos epicuristas orientaram-se apenas no sentido de uma busca constante de prazeres. O seu mote passou a ser »Vive o momento!». O termo «epicurista» é hoje aplicado pejorativamente a uma pessoa que vive apenas para o prazer.




Fontes
O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, Editorial Presença, Lisboa, 30ª edição, Maio 2011


14/09/2016

Os estóicos

O estoicismo foi fundado por Zenão de Cítio (334 - 262 a.C.) que, oriundo de Chipre, se veio a juntar aos cínicos de Atenas, após um naufrágio, no início do século III a.C. 
O nome estóico vem do termo grego que designa «pórtico» (stoa), por Zenão juntar os seus ouvintes num pórtico. O estoicismo viria, posteriormente a adquirir uma grande influência e importância para a cultura romana.
Os estóicos ensinavam que as emoções destrutivas eram resultantes de erros de julgamento, a relação ativa entre determinismo cósmico e liberdade humana e a crença de que é virtuoso manter uma vontade (prohairesis) que está de acordo com a natureza. Assim, apresentaram uma filosofia como um modo de vida e defendiam que a melhor indicação da filosofia de um indivíduo não era o que uma pessoa diz mas como essa pessoa se comporta. Para se viver uma boa vida, era preciso entender as regras da ordem natural, uma vez que ensinavam que tudo estava enraizado na natureza.
Tal como Heraclito, os estóicos achavam que todos os homens participavam da mesma razão universal - ou do mesmo logos. Para os estóicos, cada homem era um mundo em miniatura, um «microcosmos» que refletia o «macrocosmos».
Esta teoria levou à convicção de um direito universalmente válido, o direito natural. O direito natural baseia-se na razão intemporal do homem e do universo, por isso não se altera no tempo e no espaço. Neste aspeto, os estóicos tomavam o partido de Sócrates contra os sofistas.
O direito natural é válido para todos os homens, inclusivamente para os escravos. As leis dos diversos Estados era para os estóicos cópias imperfeitas de um direito que se baseava na própria natureza.
Assim como os estóicos aboliam a diferença entre o indivíduo e o universo, também contestavam uma oposição entre «espírito» e «matéria». Segundo esta escola, há apenas uma natureza. A esta concepção dá-se a denominação de monismo (ao contrário de, por exemplo, do flagrante dualismo de Platão, a bipolarização da realidade).
Como verdadeiros filhos do seu tempo, os estóicos eram cosmopolitas («cidadãos do mundo»). Estavam portanto mais abertos à cultura contemporânea do que os «filósofos do tonel» (os cínicos). Segundo eles, a comunidade dos homens devia interessar-se por política, e muitos estóicos foram estadistas ativos, como, por exemplo, o imperador romano Marco Aurélio (121-180 d.C.). Contribuíram para que a cultura e filosofia gregas fossem difundidas em Roma sobretudo graças ao orador, filósofo e político Cícero (106-43 a.C.), que criou o conceito de humanismo, ou seja, uma concepção do mundo que tem o individuo como centro. O estóico Séneca (4 a.C. - 65 d.C.) disse alguns anos mais tarde que o homem era sagrado para o homem, afirmação que se tornaria o mote de todo o humanismo.
Os estóicos também sublinharam que todos os processos naturais - por exemplo, a vida e a morte - seguiam as leis constantes da natureza. Por isso, o homem tem de se reconciliar com o seu destino. Segundo estes, nada acontece por acaso. Tudo acontece por necessidade e de pouco serve a lamentação quando o destino bate à porta. Mesmo as situações felizes da vida devem ser aceites com uma grande serenidade. Esta posição é semelhante à dos cínicos, para quem todas as coisas exteriores do mundo eram indiferentes. Ainda hoje se fala de uma «serenidade estóica», quando alguém não se deixa arrebatar pelos sentimentos.

O estoicismo era caracterizado pelos seguintes pontos:
  • Virtude é o único bem e caminho para a felicidade;
  • Indivíduo deve negar os sentimentos externos;
  • O prazer é um inimigo do homem sábio;
  • Universo governado por uma razão universal natural;
  • Valorização da apatia (indiferença);


Fontes
O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, Editorial Presença, Lisboa, 30ª edição, Maio 2011
https://pt.wikipedia.org/wiki/Estoicismo



O Homens Fortes

Qual o fascinio pelos "homens fortes" (leia-se "ditadores"). Terá a história alguma influência na sua ascênsão? - pergun...