31/07/2016

Libertado por um anjo

 Inimigo visceral dos cristãos, o rei Herodes Agripa mandou prender o apóstolo Pedro, pretendendo executá-lo a seguir à Páscoa. O apóstolo estava fortemente guardado e, na noite anterior ao dia em que devia ser trazido à presença do povo, dormia acorrentado entre dois soldados, enquanto outros dois guardavam a porta. De súbito, uma luz invadiu a cela. Apareceu um anjo que acordou Pedro, cujos grilhões se soltaram. «Ergue-te depressa», disse o anjo, «... e segue-me.» Convencido de que estava a sonhar, Pedro seguiu o anjo, passando em silêncio pelos guardas, até ao portão de ferro que conduzia à cidade. O portão abriu-se sozinho, e os dois percorreram várias ruas até que o anjo desapareceu. Acordando como de um estado de transe, Pedro ficou muito admirado ao ver que estava livre.
Dirigiu-se imediatamente a casa de Maria, mãe de Marcos, onde estavam reunidas várias pessoas para rezar por ele.Uma criada ouviu-o bater à porta e reconheceu a sua voz, mas quando o anunciou aos outros, eles disseram que ela estava louca. Como ela insistia, eles concluíram: «É o seu anjo.» Mas Pedro continuava a bater, e quando finalmente o deixaram entrar, ficaram estupefactos ao escutar a narrativa de tudo o que acontecera. Pedro fugiu então da cidade para escapar à ira de Herodes.O rei, furioso, exigiu uma explicação daquilo que sucedera  ao seu prisioneiro - e como ninguém lhe soubesse responder, condenou à morte os infelizes soldados que naquela noite tinham estado de guarda ao apóstolo.







Fonte:Viagem ao Desconhecido, Selecções do Reader's Digest
Imagem: Libertação de St. Pedro, Bartolome Esteban Murillo, 1667


26/07/2016

Paranthropus robustus

O Paranthropus robustus é um exemplo de um australopitecíneo robusto. Esta espécie era possuidora de pré-molares e molares bastante largos e esmalte bastante espesso, com foco na mastigação na parte anterior da mandíbula. Grandes arcos zigomáticos (ossos da face) permitiam a passagem de largos músculos de mastigação até à mandíbula  e deu as características de um rosto largo ao P. robustus. Uma crista sagital grande providenciava uma área ampla para ancorar estes músculos de mastigação para o crânio. Estas adaptações providenciaram ao P. robustus uma forte capacidade de trituração de alimentos fibrosos. O termo "robustus" refere-se apenas ao tamanho dos dentes e do rosto, e não ao tamanho do corpo.

Quando o cientista Robert Broom comprou um fragmento de mandíbula e de um molar em 1938, estes não se pareciam em nada com os fósseis dos Australopithecus africanus que ele havia encontrado durante a sua carreira. Soube logo que estava no rasto de algo novo. Após explorar Krondraai, na África do Sul, o local de onde os curiosos fósseis vieram, Broom recolheu muitos outros fósseis e dentes, convencendo-o que tinha entre mãos uma nova espécie, a qual denominou de Paranthropus robustus (em que Paranthropus significa "ao lado do Homem"). Foram encontrados fósseis do P. robustus nas regiões de Drimolen, Kromdrai, Swartkrans, gondolin e cavernas de Cooper, sendo todos os locais pertencentes à África do Sul.

Os machos tinham uma altura média de 1,20 metros e um peso médio de 54 quilogramas, já as fêmeas apresentavam uma altura média de 1 metro e um peso médio de 40 quilogramas. O tamanho cerebral médio desta espécie era de 410 a 530 centímetros cúbicos.



Ainda existem muitas questões por responder relativamente a esta espécie, entre as quais:

  • A partir de que espécie evoluiu o P. robustus? Terá o P. robustus evoluído a partir do P. aethipicus, ou eram espécies regionais distintas das linhagens de Australopithecus (o que significaria que o Paranthropus robustus teria evoluído de uma outra espécie, na atual África do Sul, talvez o Australopithecus africanus)?
  • Têm-se encontrado várias ferramentas de pedra para escavar os montes de térmita, as quais se pensam terem pertencido ao P. robustus, em diversos locais da África do Sul. Seria este comportamento, de fabricação destas ferramentas, partilhado por todas as populações desta espécie, ou tratava-se apenas de um comportamento regional?
As espécies robustas, como o Paranthtopus robustus tinham dentes largos, assim como uma crista sagital, onde se ligavam fortes músculos de mastigação. Estas características permitiam aos indivíduos esmagar e triturar alimentos duros como nozes, sementes, raízes e tubérculos na parte anterior da mandíbula. No entanto, o P. robustus não se sustentava apenas de alimentos duros. Este humano ancestral pode ter tido uma dieta variada, indo deste tipo de alimentos a outros mais moles como frutas e possivelmente folhas jovens, insetos e carne. 
Apesar de os cientistas não terem encontrado nenhuma ferramenta de pedra associada aos fósseis do Paranthropus robustus, os estudos experimentais microscópicos dos fragmentos dos ossos mostram que estes humanos primitivos terão usado, provavelmente, ferramentas de osso para escavar os montes de térmitas. Após o uso repetido, as pontas destas ferramentas tornaram-se redondas e polidas. As térmitas são ricas em proteínas e terão sido uma fonte alimentar nutritiva para o Paranthropus robustus.

Desde a década de 1940 até à de 1960, que tem havido imensos debates acerca se esta espécie representaria is machos do Australopithecus africanus. Eventualmente, os cientistas vieram a reconhecer que as formas "robustas" eram suficientemente distintas das outras para serem consideradas uma espécie, originalmente chamadas de Australopithecus robustus. Mais tarde, as três espécie de "robustus" (aethiopicus, robustus e boisei) foram reconhecidas como sendo diferentes o suficiente dos Australopithecus - e suficientemente parecidas entre si - para serem consideradas um género à parte, o Paranthropus.



18/07/2016

O amanhã


O mundo está estranho... desordenado, incerto, inseguro...
Todas as certezas que se tinham, o caminho para o qual se percorria parece estar a tombar. Luta-se pela continuação do sonho de um mundo melhor, democrático, pacifista, ordenado e igualitário, mas parece que tudo enlouqueceu. Ideais nefastos que se julgava estarem a perder força estão a tomar território e as pessoas encontram-se desorientadas. Seja pelo mundo grande lá fora que não oferece certezas, seja pelo seu próprio mundo, que nos empregos, já não se pode pensar para além de um mês; ou em certos valores que se tomavam por certos, familiares e de amizade.

É um tempo incerto, um tempo em que a roupa que vestimos durante tantas décadas se começa a romper, desgastada, que usámos sem que déssemos conta que ela se encontrava já tão frágil.

Que vai trazer o amanhã? Já ninguém sabe. E por mais aventureiro que seja um coração, este necessita sempre de um canto onde possa repousar.

17/07/2016

Os primeiros a contemplar a noite

Foi mesmo antes de se aperceber que se encontrava num planeta que a espécie humana começou a interrogar-se acerca dos outros planetas. Acocorados à entrada de uma caverna, à luz mortiça de uma fogueira, o homem estendeu a mão em direção às estrelas e ponderou sobre o que poderiam ser aquelas luzes no céu, a que distância se encontrariam e que relação teriam com o resto do mundo - com os montes, os rios, os campos, as manadas de caribus e com a sua própria tribo. Algumas estrelas pareciam ser mais fixas do que as outras; não reluziam como lanternas ao vento. Procurou, então, estas estranhas estrelas, noite após noite, e observou como de mês para mês, de estação para estação, percorriam o céu lentamente, ora brilhando numa constelação ora noutra. Os Gregos deram a estas luzes os nomes usados atualmente - planetas, isto é, vagabundos. Os vagabundos foram não só estudados por filósofos gregos, mas também por todos aqueles que se encontravam interessados em contemplar a noite.
Os arqueólogos encontraram nas selvas do Iucatão templos e pirâmides em ruínas construídos pelos antigos maias. Há três mil anos, ou seja, seiscentos anos antes de Aristóteles, os alinhamentos de pedra gravadas com o nascer e o pôr do Sol, a Lua e planetas, permitiram aos sacerdotes maias representar as estações em mudança. É este o primeiro observatório conhecido no hemisfério ocidental, o qual, tendo sido construído a uma escala tão ambiciosa, deve ter representado para os Maias o mesmo que o atual programa espacial.
Povos sem escrita ou conhecimento de trabalhar a pedra deixaram por toda a Europa pré-histórica observatórios constituídos por círculos de pedra rudemente trabalhada, sendo o de Stonehenge, na planície de Salisbury, em Inglaterra, o mais famoso de todos.
Em Meca, perto do Mar Vermelho, encontra-se uma construção cúbica e sem janelas, denominada Caaba. Existem pedras sagradas incrustadas nas suas paredes e a Pedra Negra, considerada a mais sagrada, poderá tratar-se de um meteorito, um pedaço de ferro de 30 cm de diâmetro que caiu do espaço aterrando na Arábia Ocidental. A Caaba tem sido, desde a morte de Maomet, o principal ponto sagrado no qual está focalizada a atenção de todo o islão. Não obstante, alguns eruditos crêem que antes de adotada pelos discípulos de Maomet, a Caaba tenha servido para um fim idêntico ao dos círculos de pedra. As paredes e esquinas da Caaba, assim como a própria Pedra Negra, encontram-se em alinhamento com o movimento dos céus e com os ventos árabes, o shamal, vento do Norte, e o yamin, vento do Sul. A Caaba poderá igualmente ter sido um observatório.
Não obstante o engenho dos antigos, existiam limites quanto ao que, a olho nu, se poderia aprender scudi. galileu voltou então o telescópio para as estrelas.
acerca dos céus. Poderá dizer-se que a astronomia moderna data de 1609, ano em que Galileu Galilei, professor de Matemática em Pádua, ouviu dizer que certo oculista holandês se encontrava ocupado a construir tubos mágicos através dos quais os objetos distantes poderiam ser vistos com tanta nitidez como se estivessem próximos. Galilei passou uma noite a rever todo o seu conhecimento de óptica, deduzindo assim o truque do seu colega flamengo. Ao cabo de alguns dias havia construído o seu próprio telescópio. Tratava-se de um tubo construído a partir de uma chapa metálica envolta em cetineta carmesim, que possuía uma lente em cada extremidade, sendo uma côncava e outra convexa. Em Veneza, no cimo da Torre de São Marcos, Galileu mostrou a sua invenção aos senadores dessa cidade, os quais se apressaram a dobrar o seu salário para a quantia de 1000
Existem aproximadamente 3600 estrelas visíveis a olho nu, o que levara as pessoas a pensar não existirem mais. Foi através do seu simples telescópio que Galileu examinou conhecidas constelações, tal como Oríon, a Ursa Maior, a Ursa Menor e as Plêiades, e observou muitas luzes jamais vistas. A Via Láctea, essa estrada de luz extensa e poeirenta que atravessa o Zodíaco, fê-lo decidir-se a inspecionar milhares e milhares de estrelas  indistintas.
Ao olhar para a luz brilhante de Júpiter, Galileu descobriu nas suas proximidades diversas luzes baças. Ao estudar estas luzes, Galileu deduziu que Júpiter possuía luas que giravam ao seu redor, uma ou duas das quais se ocultam, em certas noites, por detrás do planeta.
Ao voltar o seu telescópio em direção à Lua, Galileu descobriu que a sua superfície, ao contrário da opinião partilhada até então pela maioria dos filósofos quanto à natureza dos corpos celestes, «não era lisa e esférica, mas antes cheia de irregularidades, covas e protuberâncias, à semelhança da superfície da terra, que apresenta por toda a parte altas montanhas e vales profundos».
A partir destas descobertas surgiram a Galileu ideias surpreendentes acerca do planeta Terra. A maior parte dos seus contemporâneos interpretava ainda aquilo que os rodeava de acordo com as tradições dos filósofos gregos. Segundo Aristóteles, as estrelas seriam peças de decoração, jóias que se encontravam colocadas no céu apenas para puro prazer humano. Sendo assim, pensou Galileu, porque existiriam tantas estrelas demasiado pequenas para serem vistas a olho nu? Aparentemente, a humanidade não era, então, a razão de ser do universo. As estrelas tinham a sua própria razão de ser.
Aristóteles afirmara ser o céu de uma perfeição cristalina, o reino do absoluto.No entanto, Galileu demonstrou estar a face da Lua coberta de cicatrizes e manchas. Podia ver com os seus próprios olhos que os corpos celestes não eram mais perfeitos que a Terra.
Aristóteles afirmara que todos os corpos celestes, incluindo o Sol, a Lua, as estrelas e os planetas, giravam em torno da Terra. Como poderia então Júpiter possuir luas próprias que rodopiavam em seu redor? Se Júpiter fosse o centro de algum movimento celestial, então a Terra não era o centro único e absoluto do cosmos. 
Estava prestes a dar-se uma revolução. Copérnico demonstrara que poderia haver uma explicação para os movimentos aparentemente erráticos dos planetas vagabundos, se considerássemos que estes descreviam uma órbita não em redor da Terra, mas sim em torno do Sol. Johann Kepler deduzira a forma exata das suas órbitas, afirmara que nao só se moviam em torno do Sol, como possuíam não uma órbita circular (anteriormente suposta pelos Gregos já que o círculo constituía a sua ideia de perfeição) mas uma óbita elíptica. Todos os que, com abertura de espirito, ouviram tal assunto, sentiram-se entusiasmados, desorientados e levemente receosos. Os filósofos naturais encontravam-se à beira da nova visão do espaço. Haviam descoberto o facto, que ainda hoje por vezes esquecemos, de que a Terra e o céu constituem um único reino. Tudo o que existe na Terra e no céu é parte integrante de um vasto reino, distante e turbulento, a que chamamos universo.



Fonte
Planeta Terra, Jonathan Weiner, editora Gradiva

15/07/2016

Os cínicos

Diz-se que certo dia, Sócrates parou diante de uma banca onde se encontravam expostas muitas mercadorias. Por fim exclamou: «Vejam só de quantas coisas os Atenienses precisam para viver!» 
Embora o grande filósofo, ele próprio não fosse um cínico, é nesta base que os cínicos foram buscar as suas crenças.

Os cínicos defendiam que a verdadeira felicidade não dependia das coisas exteriores, como o luxo material, o poder político e uma boa saúde. A verdadeira felicidade significava não se tornar dependente dessas coisas casuais e efémeras. Precisamente por não repousar sobre essas coisas, a felicidade podia ser alcançada por todos. E uma vez alcançada não se podia voltar a perder.

Cínico significa «como um cão» e o mais famoso de todos os cínicos, Diógenes, explicou esta alcunha: «Eu sou um cão, porque bajulo todos aqueles que me dão alguma coisa. Ladro aos que recusam e finco os dentes nos velhacos.» A palavra «cínico» ainda hoje se utiliza, mas no sentido de designar alguém que tem sempre a pior opinião possível das motivações dos outros.
Alexandre, O Grande, construiu um império com base na direção de cidades «gregas» (mundo helénico). Logo após a morte de Alexandre, o seu império dividiu-se em facções antagónicas. E todas as quatro escolas filosóficas que surgiram - os cínicos, os cépticos, os epicuristas e os estóicos - refletiam este facto. Todas apresentavam preocupação com a forma como um homem civilizado devia viver num mundo inseguro, instável e perigoso.
Os primeiros a aparecer foram os cínicos. São o que atualmente se designaria de desertores.
O seu precursor foi Antístenes, um discípulo de Sócrates e contemporâneo de Platão. Até à meia-idade viveu uma vida convencional nesse círculo aristocrático de filósofos. Mas com a morte de Sócrates e a queda de Atenas o mundo de Antístenes abalou-se de tal forma que o filósofo acabou por tomar a decisão de abandonar a velha forma de estar na vida e enveredar por uma forma simples e básica de viver.
Começou a vestir-se como um operário, a viver entre os pobres e proclamou que não queria governo, nem propriedade privada, nem casamento, nem uma religião estabelecida. Antístenes teve um seguidor que se tornou mais famoso do que ele próprio, um homem chamado Diógenes (404-323 a.C). Diógenes escarnecia agressivamente de todas as convenções e chocava deliberadamente as pessoas por não se lavar, quer por andar nu ou por vestir andrajos, quer por viver num túmulo, ou ingerir comida nojenta, assim como por cometer actos flagrantes de indecência pública. Ele vivia como um cão, e por esta razão  as pessoas deram-lha a alcunha de o Cínico, da palavra grega Kynikos, que significa «como um cão».
Conta-se que certo dia, estava Diógenes a tomar banho de sol à frente do seu tonel quando Alexandre, o Grande, o visitou. Este apresentou-se ao cínico e disse-lhe que lhe daria o que ele desejasse. Diógenes pediu a Alexandre que não lhe tapasse o sol. Foi assim que Diógenes demonstrou que era mais feliz e rico do que o grande homem.


O primeiro cosmopolita
Diógenes e os seus seguidores não eram cínicos no sentido atual da palavra. Possuiam uma crença positiva da virtude. Mas a sua convicção básica era que a diferença entre os valores verdadeiros e falsos era a única distinção que importava: todas as outras distinções não prestavam - todas as convenções sociais - eram um perfeito disparate.
Diógenes tinha o mesmo desprezo pela distinção entre Gregos e estrangeiros - por isso, quando lhe perguntavam qual era o seu país, ele respondia: «Eu sou um cidadão do mundo» e ao fazer isso, acabou por inventar a única palavra grega na qual exprimia o seu pensamento, «cosmopolita».





Fontes
História da Filosofia, Bryan Magee, Círculo de Leitores, Março de 1999
O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, Editorial Presença, Lisboa, 30ª edição, Maio 2011


Imagem
Diógenes e Alexandre, o Grande. Pintura de Nicolas-Andre Monsiau (1754-1837)

09/07/2016

Aristóteles - Um só mundo


Aristóteles nasceu em Estagira, em 384 a.C. e morreu a 322 a.C, vítima de uma neoplasia gástrica em Cálcis.
O pai era médico na corte do rei da Macedónia e foi através desta ligação que passou a tutor de Alexandre, o Grande, e morreu quando Aristóteles era apenas uma criança. Aos 17 anos o tutor enviou-o para Atenas, a fim de ser educado na Academia de Platão, tendo ficado aí cerca de vinte anos.
Após a morte da esposa Pitíade I, julga-se que 327 a.C., a qual lhe deu como filha Pitíade II, Aristóteles junta-se sentimentalmente a uma jovem de Estagira, Herpílis, sendo que deste relacionamento nasceu  o filho Nicómaco (existem muitas dúvidas em relação às datas de morte da esposa, e quanto a se Nicómaco seria ou não filho natural de Aristóteles).
Por volta de 335 a.C. fundou a sua própria escola, à qual chamou de Liceu, dedicado a Apolo, após ter conseguido retornar a Atenas, depois de uma saída forçada quinze anos antes. Mais tarde, e por motivos igualmente políticos, Aristóteles viria a ser uma vitima indireta da morte de Alexandre, o Grande em 323 a.C., tendo de deixar Atenas, quando na altura já, muito provavelmente estaria doente, no mesmo ano da morte do seu antigo púpilo.
Aristóteles foi discípulo de Platão, mas rejeitava a ideia de deste de dois mundos. Para este filósofo havia um só mundo, onde se podia filosofar, que é o mundo onde os seres humanos vivem e sofrem. Um mundo de fascínio e admiração. Na verdade, Aristóteles acreditava que era este sentido de admiração que fazia com que os seres humanos fossem capazes de filosofar quer como indivíduos, quer como raça - este é um mundo que querem conhecer e compreender.
Aristóteles não acreditava que houvesse terra firme fora deste mundo.
Seja o que for que se encontre fora dele, todas as possibilidades de experiência não podem ser nada para o individuo. Não há nenhuma maneira válida de se referir ou falar sobre ele, logo não pode entrar no discurso de uma forma confiante: se o ser humano deambular para além do terreno coberto pela experiência, irá vaguear por entre uma conversa vazia.
O desejo de Aristóteles de saber sobre o mundo da experiência era apaixonante e ao longo da sua vida dedicou-se a uma investigação incrivelmente variada.
Elaborou pela primeira vez muitos dos campos básicos da interrogação: lógica, física, ciência política, economia, psicologia, metafísica, meteorologia, retórica e ética.
Também inventou os termos técnicos nestes campos, os quais têm sido utilizados desde então, por exemplo: energia, dinâmica, indução, demonstração, substância, atributo, essência, propriedade , acidente, categorias, tópico, proposição e universal.
Para além de tudo isto, sistematizou a lógica, avaliando quais as formas de inferência que são válidas e as que são inválidas.

A Natureza do ser
Aristóteles perguntou: «A pergunta que foi formulada há muito tempo e está a ser feita agora e é sempre uma questão difícil: O que é ser?»
Primeira conclusão importante: as coisas não são apenas a matéria em que consistem materialmente. Para algo ser algo, tudo tem de estar agrupado de uma determinada maneira, com uma estrutura muito específica e pormenorizada, e é em virtude dessa estrutura que surge esse algo.
Estes argumentos de Aristóteles, contra o tipo de materialismo cru que afirma que apenas existe a matéria, são devastadores e nunca foram devidamente respondidos. No entanto, até poderem responder às objeções de Aristóteles, a sua posição podia parecer pedir um pouco mais de consideração. Então, o filósofo estabeleceu que uma coisa é o que é devido à sua forma. Mas isso traz outro problema: O que é exatamente a forma neste sentido? Se não é material, o que é? Aristóteles já havia rejeitado a teoria de Platão, logo não poderia ser uma espécie de entidade sobrenatural - tinha de fazer parte deste mundo!

As quatro causas
Segundo Aristóteles, a forma é o que faz com que uma coisa seja o que é. Isso leva-o a examinar a noção de «causa» neste contexto; e ele acaba por partir o conceito de «forma» em quatro espécies diferentes e complementares de «causa». Uma vez que o que ele chama «as quatro causas» constitui as razões por que uma coisa é o que é, pode ser útil chamar-lhe os quatro porquês. A forma é a explicação das coisas.
As quatro causas são:

  • causa material
  • causa eficiente
  • causa formal
  • causa final
Em relação à segunda, terceira e quarta causas, duas ou mais podem ser as mesmas num caso individual. Isto acontece essencialmente no campo das ciências.
Para Aristóteles, a forma de um objeto, apesar de não ser algo material, é inerente neste objeto deste mundo e não pode existir mais isoladamente, assim como a constituição de um homem não pode existir separadamente do seu corpo.
O verdadeiro objetivo de todas as coisas é o que elas fazem e para que servem. A mudança ocorre quando o material continuo que faz parte de uma coisa adquire uma forma que não tinha anteriormente.

Salvar as aparências
Em todas as tentativas para compreender o mundo, segundo Aristóteles, nunca se deve perder de vista o facto de que é este mundo que estamos a tentar compreender. Nunca se deve aceitar explicações a seu respeito que neguem a validade dessas mesmas experiências que se estão a tentar explicar. Devemos fazer dele uma questão de método em todas as investigações, para se conseguir dominar essas mesmas experiências que são apresentadas. Também se devem examiná-las a cada passo, porque só compreendendo-as é que se pode obter, por assim dizer, a causa final das interrogações. Para aliviar um pouco essa vigilância, para se abraçar algo que não se conhece, estar-se-á a incorrer num erro enorme.
Aristóteles parte da proposição que o que cada ser humano quer é uma vida feliz no sentido mais completo da expressão. O que proporciona isso é o mais completo desenvolvimento e exercício das capacidades do individuo, que seja compatível com o viver em sociedade. O comodismo e a arrogância desenfreados irão sempre conduzir a um conflito perpétuo com as outras pessoas e é mau para o carácter.
«Termo médio» - uma virtude é o ponto intermédio entre dois extremos, sendo cada um deles um vício.
Um aspeto marcante da filosofia moral de Aristóteles, é o facto de ter tão pouca moralização. O seu objetivo é essencialmente prático.

Segundo Aristóteles, o verdadeiro objetivo do governo é proporcionar aos seus cidadãos uma vida preenchida e feliz. Um indivíduo só consegue tal sendo membro de uma sociedade  - a felicidade e a realização pessoal não se encontram no isolamento individual.

Aristóteles afirma que a experiência emocional que se vive quando se assiste a uma tragédia é a catarse, a qual ele definiu como sendo uma purgação ou uma purificação através da piedade e do terror.

A escala da natureza
Quando Aristóteles quer «pôr ordem» na existência, ele aponta primeiro para o facto de que tudo o que há na natureza pode ser dividido em dois grupos principais:
  • coisas inanimadas - como pedras, gotas de água e torrões de terra. Nelas não está inerente nenhuma potencialidade de mudança. Essas coisas inanimadas só se podem alterar por ação do exterior.
  • coisas animadas - nestas é inerente a possibilidade de se alterarem.  Dentro deste grupo principal, existem dois secundários, o do reino vegetal (ou das plantas) e o de todos os outros seres vivos. Este último, por sua vez, sofre mais uma divisão - o dos animais e o dos homens.


O leitor
Segundo a tradição, apesar da discordância entre Platão e Aristóteles quanto à visão do mundo, o mestre tinha em grande apreço as qualidades deste seu colaborador talentoso. Mas não só na visão filosófica os dois grandes filósofos discordavam.
Nas antigas Vidas neoplatónicas, atribuem-se ao Mestre ateniense duas alcunhas que este costumaria atribuir ao discípulo. A primeira, compreensivelmente, seria «a inteligência», ou »a inteligência da aula» ou «da disputa». 
Já a segunda alcunha tem uma ressonância cultural, em que Platão chamaria Aristóteles «o leitor», dizendo muitas vezes «Vamos a casa do leitor». 
O  interesse desta designação, se verdadeira, é mais do que um apontamento de uma idiossincrasia de Aristóteles, mas devido a uma profunda alteração nos hábitos de leitura que o filósofo introduziu na cultura grega.
Com efeito, até Aristóteles, os livros não eram lidos, mas sim escutados. Os gregos contemporâneos do Estagira não liam eles próprios os textos, reclinavam-se passivamente enquanto absorviam a leitura que um servo fazia para eles. Aristóteles introduziu a novidade de acumular a dupla função de recitador e de ouvinte, fazendo assim evoluir a noção arcaica de «leitor» como aquele que lê alto para outrem e fundando a partir dela a noção moderna de «leitor» como alguém que lê baixo, ou em pensamento, para si mesmo.
Esta nova maneira de se ler, fará com que surjam imensas mudanças a atividade científica. Deve-se a esta inovação as institucionalização de rotinas de pesquisa, a atenção à recolha de dados, o pendor para o colecionismo histórico do erudito, a criação da transmissão escolar e da prosa científica, o interesse sistemático pela tradição das disciplinas. É o próprio Aristóteles que no seu primeiro livro dos Tópicos, recomenda a prática de sublinhar a anotar os manuscritos à margem, de os transcrever e de elaborar fichas de trabalho.

Breve cronologia da vida de Aristóteles  (os anos considerados são a. C.)
  • 425 - Nascimento do pai de Aristóteles, Nicómaco de Estagira
  • 385 - Nicómaco médico de Amintas.
  • 384 - Nascimento de Aristóteles.
  • c. 374-372 - Morte dos pais de Aristóteles. Aristoteles parte para junto de Arimnesta e Próxeno (sua irmã e seu cunhado), em Atarneu.
  • 367 - Chegada de Aristóteles a Atenas. Passagem pela escola de Isócrates (?). Ingresso na Academia.
  • 365 - 361 - Início da atividade como professor na Academia (362 ?)
  • 357 - Redação do diálogo Grilo (?).
  • 350 - 349 - Primeiros esboços dos Tópicos e da Retórica (?)
  • Abandono da Academia, juntamente com Xenócrates (na Primavera, pouco antes da morte de Platão). Partida para Aterneu. Estabelecimento em Asso.
  • 345 - Passagem para Mitilene, na ilha de Lesbos.
  • 343 - Partida para Péla, a convite de Filipe o Grande. Início das funções como preceptor de Alexandre.
  • 343 - 341 - Revisão do texto da Iliada (?). Redação das Dificuldades Homéricas e do diálogo Sobre os poetas (?). Redação de Sobre a realeza (?).
  • 341 -  Redação dos Dikaiomata e início da recolha das Constituições gregas (?). Abandono das funções docentes e breve estadia em Péla.
  • 340 - Regresso a Estagira (?). Compilação da História dos Jogos Píticos em parceria com Calístenes (?).
  • 339 - Casamento com Pitíade (?).
  • 335 - Regresso a Atenas e início do ensino no Liceu.
  • 334 - Nascimento da filha, Pitíade II (?).
  • 330 - Redação de Sobre as cheias do Nilo (?).
  • 327 - Morte da mulher, Pitíade I, de parto (?).
  • 326 - União com Herpílis (?)
  • 324 - Redação de Alexandre ou Sobre a colonização (?). Nascimento de Nicómaco (?)
  • 323 - Acusação do hierofanta Eurímedon contra Aristóteles. Partida para Cálcis (na mudança do ano 323/322, não depois da Primavera de 322).
  • 322 - Morte de Aristóteles (ligeiramente antes de Demóstenes).







Fontes
História da Filosofia, Bryan Magee, Círculo de Leitores, Março de 1999
Vida de Aristóteles, António Pedro Mesquita, Edições Sílabo, 1ª edição, 2006
O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, Editorial Presença, Lisboa, 30ª edição, Maio 2011

08/07/2016

Sosípatra, filósofa e clarividente

Enquanto conduzia ao longo de uma estrada acidentada, Filometor, um jovem estudante aristocrata, virou o seu carro e foi atirado para debaixo do veículo. Filometor escapou milagrosamente, tendo sofrido apenas algumas escoriações insignificantes. Quando os criados o transportaram para casa, em Pérgamo, descobriram que já todos os habitantes da cidade sabiam o que acontecera. Sosípatra, a famosa filosofa e clarividente, «vira» o acidente durante uma das suas palestras, interrompendo-a subitamente para descrever a cena... precisamente à hora em que esta se desenrolava.
Sosípatra nasceu por volta de 340 d. C. no seio de uma família rica de Éfeso, na Turquia Ocidental. Quando ela tinha cinco anos, dois estrangeiros misteriosos vieram trabalhar numa das propriedades da família. Os dois homens produziram uma colheita tão abundante de uvas que se suspeitou da intervenção divina.
Os homens recusaram recompensas, pedindo em vez disso que Sosípatra lhes fosse confiada durante cinco anos. O pai da criança concordou, e os estrangeiros começaram-lhe a ensinar a sabedoria dos filósofos, a iniciá-la em rituais misticos e a usar os seus poderes psíquicos. No dia em que o pai de Sosípatra foi buscá-la, ela descreveu-lhe os pormenores exatos da sua viagem até à propriedade.
Os professores de Sosípatra admitiram ser muto versados na cultura dos Babilónios, conhecedores de astrologia, magia e sabedoria religiosa, e, recusando de novo qualquer pagamento, desapareceram sem deixar rasto.
Quando, mais tarde, Sosípatra se casou com o filósofo Eustácio, profetizou de antemão que lhe daria três filhos e que ele morreria cinco anos depois do casamento. Depois da morte do marido, tal como ela predissera, Sosípatra mudou-se para Pérgamo, onde  viria a tornar-se famosa como professora de filosofia. As suas visões clarividentes prosseguiram até ao fim da sua vida. Segundo o seu biógrafo, Eunápio, Sosípatra convencia toda a gente de que «nada acontecia sem que ela estivesse presente para ver».





Fonte:Viagem ao Desconhecido, Selecções do Reader's Digest


O Homens Fortes

Qual o fascinio pelos "homens fortes" (leia-se "ditadores"). Terá a história alguma influência na sua ascênsão? - pergun...