17/06/2016

Relato do tempo



«O número de mortes há muito que excedeu aquele dos que alguma vez viverão. A noite do tempo superou largamente o dia, e alguém saberá quando foi o equinócio? Cada hora soma-se a essa aritmética corrente, incapaz de se deter por um momento [...] Quem sabe se o melhor dos homens será reconhecido, ou se não existirão mais pessoas extraordinárias esquecidas do que aquelas que são recordadas no relato do tempo?»

Sir Thomas Browne, Urne Buriall (1658)

Os Filósofos Pré-Socráticos


Os primeiros filósofos ocidentais foram os designados Pré-Socráticos, (também designados por «filósofos da natureza», pois interessavam-se principalmente pela natureza e pelos processos físicos), ofereceram bastantes teorias acerca do mundo, sendo que muitas viriam a ser sujeitas a interpretações erronias, enquanto que outras tiveram um impacto tão profundo, que influencia o pensamento atual.

Os filósofos pré-socráticos foram os responsáveis pela ruptura com o passado por duas principais razoes:

  1. Tentavam compreender o mundo através do uso da razão, sem recorrerem à religião, à revelação, à autoridade ou à tradição. O que era ousado e novo e foi um dos marcos mais importantes no desenvolvimento do pensamento humano.
  2. Ensinavam as pessoas as pessoas a usarem, igualmente, o seu próprio raciocíno e a pensar por si só - o que fazia com que nem sequer esperassem que os seus discípulos concordassem necessariamente com eles. Foram os primeiros professores que não tentaram transmitir um conjunto de conhecimentos puro e inviolável, mas, em vez disso, tentaram incentivar os discípulos a discutir, a argumentar, a debater, e a apresentar as suas próprias ideias.
Estes dois desenvolvimentos na via mental dos dos homens ocidentais, ambos revolucionários, encontram-se interligados, razão pela qual aparecem sempre juntos. Depois de terem sido apresentados, desencadearam uma taxa de crescimento sem paralelo no conhecimento e no entendimento do mundo pelo homem.

Os primeiros pensadores deste tipo surgiram na antiga Grécia durante o século VI a.C. Sendo que Tales é tido como sendo o primeiro de todos. Tales era um grego que vivia na cidade de Mileto, na costa da Ásia Menor, na atual Turquia. Devido ao nome da cidade, o filósofo e os seus seguidores ficaram conhecidos como a escola de Mileto. Não se conhecem as datas do seu nascimento nem da sua morte, mas sabe-se que Tales ainda se encontrava activo e vigoroso na década de 580 a.C., porque previu com precisão um eclipse do Sol que ocorreu em 585 a.C. Foi também um dos primeiros engenheiros civis, realizando a proeza de desviar as águas do rio Hális para permitir que o rei Creso passasse.

De que são feitas as coisas?
A pergunta que mais obcecava Tales de Mileto era: «De que é feito o mundo?» Parecia-lhe que o mundo deveria ser constituído fundamentalmente por um único elemento. Atualmente sabe-se que esta conclusão surpreendente é verdadeira, apesar de muito pouco óbvia: hoje em dia sabe-se que todos os objetos materiais se reduzem à energia. No entanto, tal ideia não poderia ter ocorrido a Tales, pois a física que havia de levar a esta conclusão ainda não tinha sido inventada.. Sendo assim, o filósofo chegou à conclusão de que tudo se resumia a água, de uma forma ou de outra. Era capaz de ver que a água se transformava em pedra a temperaturas muito baixas e em ar a temperaturas muito elevadas. Sempre que chovia, as plantas brotavam da terra, sendo então evidente, para o filósofo, de que estas seriam constituídas por água numa outra forma. Todos os seres vivos precisam de uma enorme e constante ingestão de água para continuarem vivos (na verdade o corpo humano possui cerca de 65% de água em homens adultos e 60% em mulheres adultas). Tales via que todas as massas da Terra terminavam à beira da água; assim, o pensador chegou à conclusão de que tal significava que a Terra inteira flutuava sobre água, tendo, por conseguinte, surgido da água e, por isso, era constituída por água.

Tales teve um discípulo chamado Anaximandro, que nasceu em Mileto em 610 a.C. e viveu até cerca de 546 a.C. Anaximandro percebeu que, se, tal como Tales dizia, a Terra fosse apoiada pelo mar, este teria que ser apoiado por qualquer outra coisa - e assim sucessivamente, ad infinitum: depararíamos com aquilo a que se dá o nome de retorno infinito. Anaximandro resolveu o problema com a noção espantosa de que a Terra não está apoiada por absolutamente nada. Ela é apenas um objeto sólido suspenso no espaço e mantém-se na mesma posição pela sua equidistância em relação a tudo o resto. Anaximandro não considerava a Terra como sendo um globo, pois parecia-lhe óbvio que esta era plana, considerando-a, então, cilindrica: «A Terra... não é apoiada por nada, mas permanece estacionária devido ao facto de que está à mesma distância de todas as ouras coisas. O seu formato... é como o de um tambor. Caminhamos sobre uma das suas superfícies planas, enquanto os outros se encontram no lado oposto.»

14/06/2016

Folha caída

A tua ausência faz-se sentir todos os dias, deixando um rasto de saudade que o tempo não apaga... intensifica.

Procuro as tuas palavras, aquelas que tanto me adoçaram o coração. O teu carinho, que embalou a minha alma, mas é o vazio que tenho encontrado. Um vazio que preencho com a recordação do sonho vivido.

Já não me atrevo a procurar a Lua, essa feiticeira branca que conhece os ínfimos segredos das nossas sombras, do nossos desejos, dos nossos sonhos. Não a procuro, evito-a, finjo que não sei que ela está lá, por receio que ao levantar o meu olhar ela me responda. Também não me atrevo a vislumbrar o brilhar das estrelas, com medo que elas zombem do meu apelo.

Considero o Outono uma estação linda, uma estação cheia de cor, madura, mas também é uma estação de finitude... aquela bela folha, tão verde, que lutou tanto por crescer naquele galho, amadurece e desprende-se, acabando por ser levada pelo sopro do deus Noto. A não ser que um olhar a distinga, admire, e com um gesto a apanhe e guarde nalgum livro que pertence, ou traz as linhas, do coração de quem a apanhou.

São as folhas de Outono que se guardam, mas é preciso apanhá-las. As outras até poderão ser admiradas, mas nunca o saberão, se não houver aquele pequeno gesto, tão grande, no entanto, e acabarão por perecer nalgum canto escondido, solitárias, ou entre outras solitárias.

Assim o meu coração é... desejando pertencer a algum livro cujas palavras sussurrem ao teu íntimo... No entanto, este é um livro que já foi fechado e no qual já se começa a notar a fina camada de pó, que o protege do Tempo, tornando-o parte da Eternidade.


No meu coração, na minha alma, no meu corpo, no meu espirito, é aí que te encontro, pois as tuas letras encontram-se gravadas em mim, tornando-se parte do meu próprio ser.

Histórias de fantasmas

Muito provavelmente as histórias de fantasmas são tão antigas quanto o homem, e os Gregos e os Romanos também as tinham, e em grande número. Plínio, o Jovem, escritor do século I d. C., relata a história de uma casa assombrada do seu tempo.
Contava-se que todas as noites, numa mansão de Atenas, na Grécia, aparecia o fantasma de um velho fazendo tinir correntes de ferro. Os ocupantes abandonaram a casa, e ninguém queria comprá-la ou viver nela. Mais tarde, o filósofo Atenodoro veio a arrendar a casa. Atenodoro que fora o tutor do jovem Augusto, o qual viria a ser imperador de Roma, era um homem de forte personalidade. Mandando os seus criados para a cama, acendeu um candeeiro e sentou-se a escrever. A meio da noite, começaram-se a ouvir os sons das correntes, mas Atenodoro ignorou-os. Então, o fantasma apareceu-lhe à porta, mas o filósofo fez-lhe sinal para esperar. Impaciente, o fantasma aproximou-se e começou a chocalhar as correntes sobre a sua cabeça. Atenodoro seguiu-o até ao exterior e, quando o fantasma desapareceu no pátio, marcou o local com folhas. Na manhã seguinte, chamou os magistrados da cidade. Ao cavarem o local que ele assinalara, descobriram o esqueleto de um homem acorrentado. Depois de os restos mortais terem recebido sepultura condigna, a casa deixou de estar assombrada.
Os campos de batalha eram tidos como os locais com maior probabilidade de serem assombrados. Dâmaso diz-nos em Vita Isidori que, depois de uma batalha fora das muralhas de Roma contra Átila e os Hunos, em 452 d.C., os fantasmas dos mortos tinham lutado três dias e três noites, ouvindo-se claramente na cidade o ruído das armas. O Guia da Grécia, de Pausânias, relata que em Maratona, onde os Atenienses haviam rechaçado os Persas em 490 a.C., o som de homens a lutarem e de cavalos a relincharem ainda se ouvia à noite 500 anos após a batalha.
Mas o lugar mais assombrado, segundo Heroicus, de Filóstrato, era a planície à entrada de Tróia, onde, dizia-se, os fantasmas dos heróis da Guerra de Tróia (c.1200 a.C.) se tinham arrastado de 1000 anos, chegando o seu aspecto a ser interpretado como oráculos. Aparições cobertas de pó prenunciavam seca; espectros encharcados em suor anunciavam chuva, e fantasmas cobertos de sangue antecediam uma peste. Esses fantasmas não se deixavam insultar. Conta-se que o fantasma de Heitor afogou um rapaz  que o tratara de forma grosseira. Dizia-se que o fantasma de Aquiles, assassino de Heitor, aparecia num turbilhão no campo de batalha. No entanto, Máximo de Tiro escreveu, nas Dissertações, que Aquiles passou a vida além-túmulo com Helena de Tróia na ilha Branca, no mar Negro, algures perto da foz do Danúbio. Nesse local, ouviam-se ruídos de batalha durante a noite, e marinheiros que passavam diziam ter visto um rapaz louro com uma armadura dourada a executar uma dança guerreira na praia.
Os imperadores romanos, sobretudo os que morriam de morte violenta, também podiam reaparecer como fantasmas. Em Vidas dos Césares, Suetónio conta que, depois do seu assassínio, em 41 d.c., Calígula apareceu por várias vezes nos Jardins Lamianos de Roma, onde o seu corpo fora enterrado à pressa. As aparições cessaram quando as irmãs de Calígula o enterraram de novo com cerimonial adequado. Também se dizia que, ainda em 1099 d.C., mais de 1000 anos após a sua morte, o imperador Nero continuava a vaguear pela cidade. Só descansou depois da construção de uma igreja sobre o seu túmulos.




Fonte:Viagem ao Desconhecido, Selecções do Reader's Digest

07/06/2016

As etapas do Homem na pré-história - Idade do Bronze

O uso do bronze espalha-se pela Europa graças ao movimento das populações que se verificaram no final do 3º milénio. As bases económicas eram ainda a agricultura e a criação do gado, embora com instrumentos muito mais aperfeiçoados. No entanto, a metalurgia e o comércio foram adquirindo uma importância progressiva, devido ao intercâmbio não só de matérias-primas como de todo o tipo de objetos. Criaram-se rotas comerciais, como a que ia das costas do Báltico para a Itália, atravessando o centro da Europa.
Deu-se uma mudança de ideologia que se manifesta na transformação dos enterros: a cremação e os túmulos individuais substituem as formas anteriores.
Mas há que ter em conta que a expansão das técnicas metalúrgicas não se deu de uma forma uniforme, pois enquanto a bacia oriental do Mediterrâneo estava em plena Idade do Bronze, a Europa do norte ainda mantinha estilos de vida neolíticos.  

Europa setentrional
Nesta região não se começou a usar o metal até à Idade do Bronze Médio, altura em que surgiu uma cultura cujos enterros eram individuais e o cadáver era depositado num tronco esvaziado. Junto deste aparecem punhais, espadas e objetos ornamentais de ouro. Este tipo de enterro foi substituído pela incineração no final da Idade do Bronze.

Europa Oriental
Uma das culturas mais representativas é a dos «Fatyanovo», que por volta do 2º milénio se estenderia ao centro da Rússia. Encontraram-se machados , punhais e foices em pedra, e machados de combate, em bronze.
O Bronze Médio encontra-se representado pela cultura do «Abashevo» (1500 a. C. - 1300 a.C), cujos materiais são foices, adagas, anzóis para pescar e machados planos. A fase do Bronze terminará com a cultura «Koben» e a «Civilização Báltica».

Europa Mediterrânica
Na ilha da Sardenha desenrola-se a cultura «nurague», que se difundiu na Idade do Bronze. O elemento mais característico são construções em forma de cone truncado, construídas com enormes pedras e cobertas por abóbadas de falsa cúpula. Pensa-se que eram fortalezas e lugares de culto. No norte da Itália surge a cultura dos «Terramaras», que perdurou durante toda a época do Bronze.

Europa Central
O Bronze antigo está representado pela cultura «Aunjetitz» (1800 a.C - 1400 a.C.). Tratou-se de uma importante cultura do metal, pois desenvolveu um comércio de bronze, âmbar e ouro que, através de toda a Europa, colocava o Báltico e a Grécia em contacto.
A civilização dos «túmulos» corresponde ao Bronze Médio. O cadáver enterrava-se numa numa cova e era coberta de pedras, formando um túmulo. Na sua fase final incineravam-se os cadáveres sempre sob o túmulo.
Rota do Âmbar
A fase final do Bronze corresponde à cultura dos «campos de urnas», que perdurou até ao início da Idade do Ferro. Eram populações agrícolas, com uma indústria do cobre e do ouro, que comercializavam com Micenas. Os enterros efectuavam-se em urnas, depois de se incinerar o corpo.

Europa Ocidental
Na Inglaterra surge a cultura de «Wessex», que foi a exploração e o comércio de cobre, do estanho, do ouro e do âmbar. Chegou até ao Egeu seguindo as rotas do Reno e do Elba. Durante o Bronze Médio, a cultura das «urnas cinerárias» estende-se às Ilhas Britânicas. Em França, sobretudo na Bretanha, surgiu a cultura «Amoricana» que manteve relações comerciais com Almeria e a Europa Central.
Na Península Ibérica desenvolveu-se no Bronze Médio, a cultura do «Argar» (1800 a.C - 1200 a.C.), que se estendeu pelo sudoeste e cuja influência alcançou outras regiões. A economia baseava-se na agricultura e na exploração de jazídas metalíferas, cujos produtos comercializavam com o resto da Península Ibérica e do Mediterrâneo. Os utensílios litícos consistem em machados polidos, serras dentadas e moinhos de mão. Entre os objetos de metal encontram-se alabardas, punhais, punções, etc. a cerâmica, fabricada à mão e geralmente por decorar, apresenta formas muito variadas: potes de fundo esférico, taças de pé e vasos carenados. Os enterros eram individuais, em talhas ou cestas. Nos recheios das casas encontraram-se muitos objetos, entre os quais se destaca um diadema de ouro e prata, sem decoração, em forma de lâmina e com um apêndice circular.
O Bronze final não possui uma cultura determinada. Aumentam os utensílios de metal relativamente aos de pedra: espadas, pontas de lança, fíbulas e cinturões. Na sua última época apareceu a cerâmica excisa.
Durante toda a idade do Bronze surgiu em diferentes pontos da Península Ibérica a arte rupestre «esquemática».
Nas ilhas Baleares, a Idade do Bronze é representada pela cultura talaiótica, com construções como os talaiots, torres de planta quadrada ou circular cuja função era funerária. Os taules tinham um carácter possivelmente funerário.

Barcos de pedra da Idade do Bronze



06/06/2016

Homo habilis

Esta espécie, um dos primeiros membros do género Homo, que viveu há aproximadamente 2,1 a 1,5 milhões de anos atrás, durante o Pleistoceno, na África. Tem um crânio ligeiramente maior e uma face e dentes menores do que os Australopithecus ou que outras espécies de hominídeos mais antigas. No entanto, ainda mantém algumas características mais simiescas, incluindo braços longos e uma face moderadamente prognática.
O seu nome, que significa "homem habilidoso", foi-lhe atribuído em 1964, pois pensava-se, na altura, que seria o primeiro fabricante de ferramentas de pedra. Atualmente, o utensílio de pedra mais antigo que se conhece, é anterior à época do Homo habilis.
Foram encontrados fósseis desta espécie na Tanzânia, Etiópia, Quénia e África do Sul.

A descoberta do Homo habilis deu-se por uma equipa liderada pelos cientistas Louis e Mary Leakey descobriram os restos fossilizados de um único, foi encontrado por Jonathan Leakey humano primitivo, entre 1960 e 1963, em Olduvai George, na Tanzânia. O tipo do especimen, OH7, foi encontrado por Jonathan Leakey e alcunhado de "criança do Jonny". Porque este homem primitivo apresenta uma combinação de características diferentes das vistas no género Australopithecus. Louis Leakey, o cientista sul-africano Philip Tobias e o cientistas britânico John Napier declararam que estes fósseis pertenciam a uma nova espécie, e chamaram-na de Homo habilis, porque suspeitavam de que este seria o humano detentor de um crânio ligeiramente maior, que fabricara os milhares de ferramentas de pedra encontradas igualmente em Olduvai George.

Os Homo primitivos tinham dentes mais pequenos que o Australopithecus, mas o seu esmalte dentário continuava a ser grosso e as mandíbulas fortes, indicando que os seus dentes continuavam adaptados à mastigação de alimentos duros (possivelmente de forma sazonal, quando os seus alimentos favoritos eram mais escassos). Os estudos do gasto micro-dentário sugerem que a dieta do H. habilis era flexível, versátil, e eles eram capazes de ingerir uma variedade vasta de alimentos, incluindo alguns mais duros como folhas, plantas lenhosas e alguns tecidos de animais, mas que não os consumiam regularmente, nem se especializaram em consumir alimentos duros como nozes quebradiças ou sementes, carne seca, ou tubérculos muito duros.
Outra linha de evidência para a dieta do H. habilis vem das marcas e cortes encontrados em ossos de há 2,6 milhões de anos atrás. Os cientistas associam, geralmente, estes traços à matança de grandes animais, uma evidência directa do consumo de carne e medula, no início do aparecimento do género Homo, incluindo o Homo habilis. Muitos cientistas pensam que os primeiros Homo, incluindo esta espécie, fabricaram e usaram as primeiras ferramentas de pedra encontradas no registo fóssil, no entanto, esta hipótese é confrontada com o facto de outras espécies de humanos primitivos viverem na mesma época, na mesma área geográfica, onde as primeiras ferramentas de pedra foram encontradas.
Os cérebros do H. habilis eram grandes, entre os hominídeos, com 550 a 680 centímetros cúbicos, e as mãos, ágeis e firmes, eram muito úteis para a vida nómada no leste de África.

01/06/2016

A velhice


Muito se ouve reclamar da velhice, da chegada da velhice, no entanto sempre achei que todas as idades têm os seus aspectos positivos, se a juventude está plena de vigor físico, também é recheada de erros e mal-entendidos. Só à medida que vamos envelhecendo, e o nosso corpo vai perdendo algum do seu vigor, é que o nosso espírito vai fortalecendo a sua força e sabedoria.
Mas é necessário trabalhar, pois o espírito, a mente e o corpo todos possuem algo em comum para serem saudáveis - têm de ser trabalhados, e com insistência. E aqui também sublinho o coração, o poder de perdoar, de amar, é algo que deve ser exercitado todos os dias.
Se trabalharmos a todo instante por tal, todas as idades são belas, há é pouco reconhecimento de tal.

Mas não se pense que a arte do queixume é atual, já é tão antiga, julgo eu, quanto o homem.

Vejamos alguns trechos da obra de Cícero, "Catão-o-Velho ou da Velhice", político, orador e homem de letras romano, nascido em 106 e falecido a 43 a.C.

«Foi realmente para mim tanta a alegria na composição desta obra que, além de ter dissipado todas as moléstias da velhice, tornou esta mesma suave e espirituosa. Logo, jamais a filosofia poderá ser justamente louvada com dignidade: é que para quem a pratica toda a idade da vida pode ser superada.»

«Para aqueles que não possuem, eles próprios qualquer recurso para viver bem e com felicidade, para esses toda a idade é penosa. Para aqueles que reclamam para si todos os bens, para esses nenhuma coisa, que a necessidade natural possa trazer, pode ser vista como um mal.»

«De muitos conheci uma velhice que desconheceu as lamentações; esses não só se desvincularam sem dificuldade dos prazeres como também nunca foram desprezados pelos seus.»

«Cipião e Lélio, as artes e a prática da virtude são as armas mais próprias à velhice, as quais devem ser cultivadas em todas as idades

«Depois de uma vida simples e serena, gerida com equilíbrio, vem aquela velhice plácida e calma, como a de Platão que, conforme nos foi ensinado, morreu ainda escrevendo aos oitenta anos, como a de Isócrates, o qual afirma ter escrito o seu discurso intitulado Panatenaico aos noventa, vivendo mais cinco anos; seu mestre, Górgias de Leontinos, chegou aos cento e sete e nem uma só vez abandonou a leitura e o estudo...»

«...distingo quatro causas às quais possa a velhice parecer infeliz: uma, porque aparta da administração dos negócios; outra, porque debilita o corpo; a terceira, porque impede o desfrutar de quase todos os prazeres; a quarta, porque está próximo da morte.»

«Não se realizam grandes feitos recorrendo à força, à agilidade ou destreza físicas, antes, pelo conselho, pela autoridade, pelo prestígio, dos quais a velhice não só se não encontra privada como ainda os engrandece.»

«Exercito a memória, à boa maneira dos Pitagóricos, relembrando, todas as noites, o que disse, ouvi e fiz nesse mesmo dia. São estes os exercícios do intelecto, tais as linhas do meu pensamento.»

«...aquele que vive sempre nestes estudos e ocupações, não se apercebe como a velhice imperceptivelmente se avizinha. Assim envelhecemos naturalmente, sem darmos por isso, sem acabarmos abruptamente, extinguindo-nos lentamente.»

«Dizia ele [Quinto Máximo] que para o homem nada de mais funesto existia para além dos prazeres corporais; inspiram estes paixões ardentes que buscam irreflectida e desregradamente ser satisfeitas. Daqui advêm as traições à pátria, as conspirações contra o estado, os acordos secretos com o inimigo, enfim, não há crime ou desígnio criminoso que seja capaz de resistir aos deleites do prazer e da paixão. O rapto, o adultério, assim como toda a espécie de tal ignomínia, não são provocados por nenhuns outros engodos que não sejam aqueles originados pelo prazer; e como a natureza - ou talvez algum deus - outorgou ao homem nada mais excelente do que o seu intelecto, não tem, por conseguinte, esta dádiva divina inimigo mais hediondo do que o prazer.
12.41 Nem tão pouco, quando a paixão é dominante pode ter lugar a moderação, nem mesmo a virtude poderá sobreviver no reino da luxúria.»

«Para quê tudo isto? Para poderdes compreender o seguinte: se a razão e a sabedoria não nos permitem afastar o prazer, é necessário, então, que estejamos imensamente agradecidos à velhice por eliminar aquela ânsia de fazer o que não deveria ser feito.»

«Como é uma felicidade para o espírito, ao libertar-se, por assim dizer, do serviço militar do prazer, da ambição, das rivalidades, das inimizades, de toda a cupidez, ficar a sós consigo e assim viver, consigo mesmo! Se encontrar algum alimento no estudo e na ciência, então nada de mais feliz do que uma velhice ociosa.»

«Os senadores, isto é, os velhos, viviam nos campos [...] terá sido miserável a velhice destes, que se dedicaram a cultivar os campos? Pelo que me toca, duvido existir algo de mais feliz, não só pela sua utilidade, já que para o ser humano é salutar a vida rural, mas ainda devido ao prazer de que falei, e ainda pela abundância de todos os produtos destinados ao sustento do homem e ao culto dos deuses.»

«Nada de mais benéfico, ou de mais belo, do que um campo cultivado.»

«Tende, porém, bem presente que eu discuto aquela velhice que começa por radicar nos tempos da juventude. Daqui se segue que, tal como afirmei um dia com a aprovação de todos, miserável é aquela velhice que se defende apenas com palavras. Os cabelos brancos não ganham prestígio de repente, nem tão pouco as rugas; mas, uma vida honesta e sabiamente gerida colhe sempre do prestígio os melhores frutos.»

«Que mais insensato do que tomar o certo pelo incerto, e o falso pelo verdadeiro? O velho não tem necessariamente que esperar coisa alguma. Encontra-se, contudo, em melhor situação do que o jovem em virtude de ter já alcançado aquilo porque esperou. Um quer viver durante longo tempo, o outro já viveu durante muito tempo.»

«Enquanto estamos a morrer podemos ainda sentir algo durante pouco tempo, e isto acontece aos velhos especialmente. Depois da morte, ou não existe sensação ou, se existe, ela é agradável. Devemos meditar sobre o desprezo pela morte desde os tempos da adolescência. Sem tal reflexão ninguém pode estar de espírito tranquilo.»

«Enfim, existem os interesses que são próprios da velhice, logo, assim como os das idades precedentes se desvaneceram, também os da velhice se apagam e, quando isso acontece, a saciedade de viver cede o lugar ao tempo propício à morte.»



Fontes: Da Velhice, Marco Túlio Cícero, tradução do latim de Carlos Humberto Gomes, editora Biblioteca Editores Independentes

Imagem: O Velho e o Mar de Aleksandr Petrov, óleo sobre placas de vidro


O Homens Fortes

Qual o fascinio pelos "homens fortes" (leia-se "ditadores"). Terá a história alguma influência na sua ascênsão? - pergun...