A noite vai já avançada na cidade alemã de Erfurt. As lojas estão fechadas, a universidade adormecida. Os gatos esgueiram-se pelas ruas medievais... Um deles, no entanto, mantém-se imóvel. Viu uma luz tremeluzir lá no alto, numa trapeira, sob o telhado inclinado de uma casa. Devagar, aproxima-se, salta de murete em murete, percorre a cornija, posta-se no canto do telhado e fica à espera. O homem está sozinho. Apoia a cabeça nas mãos, curvado sobre a secretária: à sua volta, em pilhas, centenas de livros. Papéis dispersos, cobertos por uma caligrafia inclinada. E, num canto, frascos e pós - o material da alquimia. As orelhas do felino espetam-se. O homem agora mexe-se. Ergue a cabeça - tem um ar cansado, rugas no rosto, olheiras sob os olhos. Geme, pronunciando palavras sem seguimento. «Portanto nunca hei-de conseguir... Todos estes anos queimados em vão... Estudar... Compreender... Que fiz eu da minha vida? Tudo me foge! Que o Diabo me leve... Isto não tem sentido... Perdi a esperança... Mais vale morrer... » O velho sábio agarra então num frasco pousado sobre a mesa e prepara-se para o levar à boca quando...
Dir-se-ia que alguém arranhou a porta. Um visitante a esta hora tardia? O velho professor levanta-se e coloca o frasco em cima da mesa. Todo curvado, atravessa a divisão atulhada, puxa dois grandes ferrolhos e entreabre o batente da porta. Sim, é realmente um visitante, alto, vestido de negro, cujo rosto se esconde na sombra. «Doutor Fausto?», pronuncia uma voz cavernosa.
- Sim, sou eu. Com quem tenho a honra de falar?
- Mefistófeles é o meu nome. E Lúcifer o nome daquele que me envia!
Fauto fica siderado. Involuntariamente dá um passo atrás. O visitante aproveita para entrar na sala. Fecha a porta, coloca os ferrolhos. Depois, volta-se. A chama da vela ilumina, então, o seu rosto; é um homem jovem e incrivelmente belo. Lentamente, descalça as luvas, deixando ver as mãos brancas. Depois continua:
- O meu Mestre, que te tem em grande estima, caro doutor, está a par de todas as dúvidas e dificuldades por que tens passado e deseja ajudar-te. Para isso, encarregou-me de te fazer uma oferta. Ou, digamos, de te propor um pacto.
- Em que consiste esse pacto? pergunta Fausto, que pouco a pouco se vai recompondo.
- A tua alma. - responde Mefistófeles com frieza, fixando ardentemente o sábio.






