07/12/2015

Fausto

A noite vai já avançada na cidade alemã de Erfurt. As lojas estão fechadas, a universidade adormecida. Os gatos esgueiram-se pelas ruas medievais... Um deles, no entanto, mantém-se imóvel. Viu uma luz tremeluzir lá no alto, numa trapeira, sob o telhado inclinado de uma casa. Devagar, aproxima-se, salta de murete em murete, percorre a cornija, posta-se no canto do telhado e fica à espera. O homem está sozinho. Apoia a cabeça nas mãos, curvado sobre a secretária: à sua volta, em pilhas, centenas de livros. Papéis dispersos, cobertos por uma caligrafia inclinada. E, num canto, frascos e pós - o material da alquimia. As orelhas do felino espetam-se. O homem agora mexe-se. Ergue a cabeça - tem um ar cansado, rugas no rosto, olheiras sob os olhos. Geme, pronunciando palavras sem seguimento. «Portanto nunca hei-de conseguir... Todos estes anos queimados em vão... Estudar... Compreender... Que fiz eu da minha vida? Tudo me foge! Que o Diabo me leve... Isto não tem sentido... Perdi a esperança... Mais vale morrer... » O velho sábio agarra então num frasco pousado sobre a mesa e prepara-se para o levar à boca quando...
Dir-se-ia que alguém arranhou a porta. Um visitante a esta hora tardia? O velho professor levanta-se e coloca o frasco em cima da mesa. Todo curvado, atravessa a divisão atulhada, puxa dois grandes ferrolhos  e entreabre o batente da porta. Sim, é realmente um visitante, alto, vestido de negro, cujo rosto se esconde na sombra. «Doutor Fausto?», pronuncia uma voz cavernosa.
- Sim, sou eu. Com quem tenho a honra de falar?
- Mefistófeles é o meu nome. E Lúcifer o nome daquele que me envia!
Fauto fica siderado. Involuntariamente dá um passo atrás. O visitante aproveita para entrar na sala. Fecha a porta, coloca os ferrolhos. Depois, volta-se. A chama da vela ilumina, então, o seu rosto; é um homem jovem e incrivelmente belo. Lentamente, descalça as luvas, deixando ver as mãos brancas. Depois continua:
- O meu Mestre, que te tem em grande estima, caro doutor, está a par de todas as dúvidas e dificuldades por que tens passado e deseja ajudar-te. Para isso, encarregou-me de te fazer uma oferta. Ou, digamos, de te propor um pacto.
- Em que consiste esse pacto? pergunta Fausto, que pouco a pouco se vai recompondo.
- A tua alma. - responde Mefistófeles com frieza, fixando ardentemente o sábio.

O Diabo e o Contador de histórias

«Tem reputação assegurada por toda a cidade e ninguém contesta o seu êxito, pelo contrário... Sem a menor dúvida, Seifudine é o maior entre os contadores de histórias. Ninguém por estas bandas possui uma voz tão quente e expressiva, uma imaginação tão fértil. Pois Deus sabe quanto são apreciados os contos e as histórias à noite, ao serão, sob o céu estrelado do Oriente!


Quando a noite cai, o ilustre contador está instalado em casa do rico comerciante Bukara. Na mais bela sala da casa, aberta para o pátio, o tanque e os renques de laranjeiras, numerosos convidados estão reclinados sobre os divãs, instalados nos sofás ou simplesmente sentados nos almofadões colocados sobre os degraus. Toda a assembleia aqui presente, imponente e brilhante, observa o mais completo silêncio, esperando que Seifudine comece a falar. E eis que, ao erguer-se a voz melodiosa do contador de histórias, a magia se faz sentir: a audiência está presa...
Mesmo os animais parecem enfeitiçados. Por detrás dos muxarabis, os gatos erguem a cabeça; estendidos nos caminhos do jardim, os cães arrebitam as orelhas; nenhum burro zurra, nenhum camelo blatera; pousados sobre as árvores, os melros e os rouxinóis calam-se e as borboletas deixam de esvoaçar sobre os tufos de flores. O tempo pára... E os contos sucedem-se, cada um mais maravilhoso, mais cativante que os outros... Um pouco afastadas, duas crianças divertem-se a contá-los, alinhando pequenos seixos brancos no chão. Dez, quinze, vinte... Alguns ouvintes dormitam. Vinte e cinco, trinta... Outros adormecem de facto, não porque estejam enfadados, mas porque a Lua, lá no alto, já começou a descer. Ao trigésimo sétimo conto, os convidados nas filas de trás tombam, como que embriagados por tantas aventuras extraordinárias, Bebedos de palavras, de imagens e de sonhos. No jardim, os pássaros que ouviam caem ao chão, entorpecidos pelo sono! Pouco a pouco, toda a audiência, animais e homens, dorme, maravilhada mas exausta. As crianças pararam de contar e dormem a sono solto. Apenas Bukara sabe que vão no septuagésimo sétimo conto! Está morto de cansaço. No entanto, nada seria mais desonroso do que interromper um contador tão maravilhoso... «Quando será que ele acaba?», pensa para consigo. Ouve-o delicadamente, mas ao mesmo tempo pede a Deus que aquele fluxo ininterrupto cesse... Nada feito, as histórias de Seifudine sucedem-se umas atrás das outras. Já sem saber o que fazer, Bukara decide então interpelar Satanás: «Peço-te, imploro-te, livra-me de Seifudine!»

A torre de Babel

«Sob o calor esmagador do sol, Erez sofre. Sofre como todos os dias que Deus cria, como sofria ontem, como sofrerá amanhã... Só a esperança da noite, com a frescura e o repouso demasiado breve que ela há-de trazer, o sustenta...Tem o corpo dorido, os músculos em fogo, o suor perla-lhe a testa e s ombros. Como ele, há milhares que andam para trás e para diante sem parar, obreiros de uma obra da qual não compreendem verdadeiramente a utilidade. Mas também não lhes cabe deterem-se em conjeturas: a sua única tarefa é avançar, carregando ou puxando a sua pesada carga de tijolos, largar a carga, voltar ao ponto de partida e recomeçar...
Sobre a planície de Chinear, há gente vinda de todo o lado. Aqueles ali são filhos de Hadoram, de Abimäel ou de Seba, de Sídon ou de Heth, de Asquenaz ou de Kittim, de tantos outros ainda, mas todos eles linhagem de Noé e de seus filhos. Com eles estão também outros homens originários de terras longínquas. As mulheres ajudam, as crianças descobrem tarefas à medida das suas forças e os velhos têm sempre uma palavra de encorajamento ou um conselho para oferecer. Todos os povos, todas as nações, estão aqui representados. Todos participam numa obra que ninguém sabe dizer quando terminará, uma construção louca, inimaginável e sem dúvida ferida de vaidade: a edificação de uma cidade em cujo centro se elevará uma torre até ao céu!

Desobediência a Deus

«A serpente, que era o mais astuto de todos os animais selvagens criados por Deus, disse à mulher: "Com que então Deus proibiu-vos de comerem do fruto de todas as árvores do jardim!" Mas a mulher respondeu-lhe: "Nós podemos comer o fruto das árvores do jardim. Só nos proibiu de comer do fruto da árvore que está no meio do jardim. Se tocássemos no seu fruto, morreríamos."


A serpente replicou-lhe: "Vocês não têm de morrer. De maneira nenhuma! O que acontece é que Deus sabe que, n dia em que comerem desse fruto, vocês abrirão os olhos e ficarão a conhecer o mal e o bem, tal como Deus."
A mulher pensou então que devia ser bom comer do fruto daquela árvore, que era apetitoso e agradável à vista e útil para alcançar a sabedoria. Apanhou-o, comeu e deu ao seu marido que comeu também. Nesse momento, abriram-se os olhos de ambos e deram-se conta de que andavam nus. Coseram então folhas de figueira, para com elas poderem cobrir a cintura. Nisto, ouviram que o Senhor Deus andava a passear no jardim, pela fresca da tarde, e o homem foi-se esconder com a sua mulher no meio das árvores do jardim. O Deus chamou pelo homem e perguntou: "Onde estás?"
O homem respondeu: "Apercebi-me de que andavas no jardim; tive medo, por estar nu, e escondi-me."
Deus perguntou-lhe: "Quem é que te disse que estavas nu? Será que foste comer do fruto daquela árvore, que eu tinha proibido?"
O homem replicou: "A mulher que me deste para viver comigo é que me deu do fruto da árvore e eu comi."
O Deus disse então à mulher: "Que é que fizeste?"
A mulher  respondeu: "A serpente enganou-me e eu comi."
Deus disse então à serpente: "Já que fizeste isto, maldita sejas tu entre todos os animais, domésticos ou selvagens. Terás que arrastar-te pelo chão e comer terra, durante toda a vida. Farei com que tu e a mulher sejam inimigas, bem como a tua descendência e e descendência dela. A descendência da mulher há-de atingir-te a cabeça e tu procurarás atingir-lhe o calcanhar."
E à mulher disse: "Vou fazer com que sofras os incómodos da gravidez e terás que dar à luz com muitas dores."
E ao homem disse: "Já que deste ouvidos à tua mulher e comeste do fruto da árvore da qual eu te tinha proibido de comer, a terra fica amaldiçoada por tua causa, e será com enorme sacrifício que dela hás-de tirar alimento, durante toda a tua vida. Só produzirá espinhos e cardos e tu terás de comer a erva que cresce no campo. Só à custa de muito suor conseguirás arranjar o necessário para comer, até que um dia te venhas a transformar de novo em terra, pois dela foste formado. Na verdade, tu és pó e em pó hás-de transformar de novo."
O homem, Adão, deu à sua  mulher o nome de Eva, isto é Vida, porque ela era a mãe de todos os seres humanos.
O Deus arranjou para o homem e para a sua mulher roupas de pele de animais para que se vestissem com elas.
Deus disse então: "O homem tornou-se semelhante a um deus, conhecendo o bem e o mal. Agora só falta que vá também colher do fruto da árvore da vida, para dele comer e ter vida para sempre!" Por isso, Deus, expulsou-o do jardim do èden e o homem teve que cultivar a terra, da qual tinha sido formado.
Depois de ter expulsado o homem, Deus colocou diante do jardim do Éden os querubins e uma espada de fogo, que se movia de um lado para o outro, de modo a impedir o caminho para a árvore da vida.»



As mais belas parábolas da Bíblia, 7 dias 6 Noites, Editores Unipessoal, Lda, Dezembro 2009




Lilit, a primeira de todas as mulheres

«Ela foi criada no final do sexto dia, quando o crepúsculo caía sobre o Éden... Já havia a Terra e o Céu, as trevas e o dia, o reino das águas, as plantas e os pássaros. Os leões, os ursos e os lobos vagueavam pela selva. Então, o Senhor disse: "Façamos o ser humano à nossa imagem." Com a mesma argila fina, moldou o homem e uma mulher, Adão e Lilit.
Ela surgiu à beira da água quando a sombra descia. A princípio, foi apenas um sopro sobre a Terra, um estremecimento que trespassava sobre o pó. Depois, o vento modelou-a e a noite deu-lhe carne. Quando abriu os olhos, as estrelas tremeram. Então, Deus disse: "O teu nome será Lilit porque nasceste da noite e do vento. Eis aqi Adão, teu igual e tua cópia."
Quando a viu, com a sua pele escura e olhos ardentes, Adão sentiu desejo - e Deus soube que podia descansar. "Crescei e multiplicai-vos", disse-lhes. Depois, adormeceu.
De início, tudo corria pelo melhor. Adão amava Lilit. Recitava-lhe poemas, entrançava-lhe colares de flores. Gostava de deitar-se sobre ela e sentir as suas coxas abrirem-se docemente por baixo dele. Queria que seguissem as ordens do Eterno, que ela lhe desse muitos filhos. Mas Lilit começou a achar a perspetiva demasiado aborrecida... Tinha horror a deitar-se na terra e ser coberta, fazia-lhe lembrar as lobas que rastejam, rosnando, na selva. Não queria ver o seu ventre deformado todos os anos. O que ela queria era ser mulher aos olhos de Adão e montá-lo, livre e ligeira, como sua igual!

Islão

A Religião que veio do deserto

Maomé recebeu as suas revelações divinas aos quarenta anos numa caverna chamada Ghar Hira, perto de Meca, no que é atualmente a Arábia Saudita. Antes disso, o profeta tinha vivido no deserto por diversas décadas e estava completamente consciente dos perigos aí existentes. A vida no deserto é difícil, e as pessoas que vivem em tal ambiente sabem que só conseguem sobreviver se seguirem regras restritas dentro de uma comunidade forte. O deserto junta as pessoas pois para sobreviverem é necessário que mantenham laços fortes entre si.
Durante os primeiros séculos do calendário islâmico, isto é, desde o século VII d. C., esta solidariedade incondicional dentro da tribo teve um papel muito importante na ascenção do império dos Árabes Islamizados. Reciprocamente, a crença islamica num único, e poderoso Deus deu a confiança aos nómadas que renunciaram ao politeísmo a tornarem-se muçulmanos: puderam assim ser criadas comunidades funcionais num período de tempo relativamente curto, ao juntarem-se na crença de um único Deus, invés de muitos deuses.


Os valores do deserto

Um Deus - Alá - e uma lei - Sharia -, uma tribo e uma única fé: é basicamente o que define os Árabes e a  sua cultura tem sido moldada, se não exclusivamente, então extremamente influenciada, pelas condições de vida do deserto. Entender o Islão como é praticado no mundo árabe e a sua importancia no terceiro milénio, requer um reconhecimento da influência do deserto. Só para nomear um aspeto, o deserto dá a base aos valores tão importantes e intemporais como uma lealdade familiar bastante forte e a coesão tribal.



O Profeta Maomé

O início da vida de Maomé

Maomé (Abū al-Qāsim Muḥammad ibn ʿAbd Allāh ibn ʿAbd al-Muṭṭalib ibn Hāshim) nasceu cerca de 570 d.C. em Meca. Muito antes do nascimento de Maomé, a mãe deste, Amina, diz-se, que teria ouvido a voz de um anjo, que lhe profetizou: «O filho que esperas será o Senhor e Profeta do teu povo.»
O pai de Maomé morreu pouco antes do filho nascer, e a mãe também veio a morrer quando Maomé ainda só tinha seis anos. Pouco mais se sabe acerca da infância de Maomé, juventude ou mesmo quando era um jovem adulto. Geralmente é descrito como tímido e reservado, mas aberto quando entre amigos. Diz-se que tinha um sorriso caloroso e que falava de uma maneira particular, articulando cada silaba individualmente.
Os muçulmanos rejeitam as representações do Profeta, no entanto,ainda se pode fazer um esboço  da sua aparência exterior, com base nas descrições fornecidas pelas fontes que ainda sobrevivem.

Figuras do Cristianismo


Santo Agostinho (c.350-430)
O teólogo e filósofo Agostinho foi decisivo para a moldagem do pensamento ocidental. Compôs tanto textos teológicos quanto científicos, e a sua filosofia contém elementos platónicos.
Filho de mãe cristã, numa cidade do Norte de África, ele próprio só aceitou o Cristianismo e batismo já em adulto. De grande importância para o desenvolvimento deste grande professor da Igreja foi o fato de ele ter seguido uma vida «selvagem», na qual deixou alguns pecados sem julgamento, durante décadas antes de se converter ao Cristianismo.
Em 389, estabeleceu uma comunidade com um estilo de vida de monge, no seu país: os servi dei - «os servos de Deus».
Agostinho propôs a noção de dualidade do corpo e da alma. Na sua procura da verdade, ele viu-se a si mesmo como prova para a sua existência. Séculos mais tarde o filósofo francês René Descartes (1596-1650) iria expressar esta mesma ideia na sua famosa declaração cogito, ergo sum («Penso, logo existo»).
Agostinho entrou na experiência mística quando começou a procurar a verdade dentro de si mesmo. Chegou à conclusão que a última verdade estava com Deus, que a garante aos seres humanos através da iluminação.
Agostinho entendeu a Trindade como três existências iguais e considerou o tempo como um fenómeno puramente subjetivo.

O Homens Fortes

Qual o fascinio pelos "homens fortes" (leia-se "ditadores"). Terá a história alguma influência na sua ascênsão? - pergun...