Mitologia e Religiões

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo
.
Fernando Pessoa


«Os complexos fenómenos da natureza foram certamente os primeiros a serem explicados de forma fantástica, sendo aí que nasce verdadeiramente o primeiro conjunto de narrativas míticas organizadas em texto escrito, muito depois de terem circulado de geração em geração até ao tempo de Homero e Hesíodo.»
Carlos Ceia


Ao contrário do que muitos defendem, Schelling diz que o mito não é um artifício mentiroso forjado pela aliança dos déspotas e dos padres, mas sim o cadinho da humanidade. Muito mais do que invenções do homem, é na sua língua, na sociedade e na religião, e por elas, que o homem se inventa a si próprio.


O mito tem sido utilizado desde sempre pelas diversas civilizações ao longo do globo. Trata-se de narrativas de aspetos simbólicos que tentam descrever realidades, fenómenos naturais, a origem do Mundo e do Homem através da intervenção dos deuses, semi-deuses e heróis.

Segundo Mircea Eliade, “o mito é considerado como uma história sagrada, e portanto uma história verdadeira, porque se refere sempre a realidades. O mito cosmogónico é verdadeiro porque a existência do mundo está aí para o provar, o mito da origem da morte é também verdadeiro porque a mortalidade do homem prova-o...e pelo facto de o mito relatar as gestas dos seres sobrenaturais e manifestações dos seus poderes sagrados, ele torna-se o modelo exemplar de todas as actividades humanas significativas”.
Mircea Eliade, Aspectos do Mito, pág.13


Os mitos são necessários pois são estórias que o homem comum utiliza para procurar encontrar resposta a questões que o perturbam, uma busca pela verdade, pela razão da sua própria existência  e porque é como é. Os mitos têm geralmente uma 
vertente virada pela busca do Homem ao seu interior, e àquilo que têm de comum entre si.

“Os mitos estão perto do inconsciente coletivo e por isso são infinitos na sua revelação”.
                                                                                                                 Joseph Campbell

O mito aparece e funciona como mediação simbólica entre o sagrado e o profano, condição necessária à ordem do mundo e às relações entre os seres.
O fato de algumas formas de mitos mais profundas se referirem a interesses a temas e interesses que transcendem a experiência imediata, o senso comum e a razão: Deus, a origem, o bem e o mal, o comportamento ético e o destino último do mundo e da humanidade e aprópria ritualidade têm semelhanças com a religião, estando mesmo, em certas religiões em contato profundo se não interligados. Assim, o mito torna-se uma linguagem apropriada para a religião.
Socialmente o mito está ligado às formas de linguagem e comportamentos dos homens,  pois têm uma função, igualmente, de transmissão de tradições e moralidade.                                                                                                            
Existem diversos tipos de mitos:
  • Cosmogonias: Mitos de origem e destruição, incluindo os messiânicos e milenários.
  • Mitos folclóricos
  • Mitos fundadores, onde se explica a origem de um rito, uma crença, uma filosofia, uma cidade ou comunidade
  • Mito narrativo
  • Mitos de providência e destino
  • Mitos de renascimento e renovação, incluindo os de memória e esquecimento
  • Mitos de seres superiores e dos seus descendentes
  • Mitos de tempo e eternidade
  • Soteriológicos: de salvadores e heróis


Características do mito:
  • não são verdadeiros nem falsos;
  • não são realistas ou lógicos;
  • são simbólicos;
  • tradicionais;
  • públicos;
  • paradóxicos (os opostos não se cancelam);
  • têm funções culturais
Uma explicação da diferença entre mito e lenda, é enquanto que o primeiro procura dar explicação a acontecimentos reais ou fenómenos da natureza através de narrativas, as lendas são transmitidas oralmente como tentativa de explicar fenómenos misteriosos ou sobrenaturais.
O mito ao longo do tempo
O mito não foi visto de forma consensual ao longo da história, diferentes pensadores, em diferentes épocas, têm-no visto de forma diferente (aqui serão apresentados apenas alguns exemplos):

ANTIGUIDADE
  • Antigo manuscrito de autor anónimo (data desconhecida):
«Entre algumas pessoas, estas coisas não são permitidas, devido às amostras de indecências.»
  • Platão (c. 429 - 437 a.C.)
«Tais afirmações são ímpias e falsas... Para além disso são prejudiciais àqueles que as ouvem. Todo o homem será misericordioso com os seus actos errados se estiver convencido que estes são ou foram acções [dos deuses]...»
  • Xenófanes de Cólofon (séculos VI - V a.C.)
« Os mortais consideram que os deuses nascem, que se vestem e que falam como eles próprios. Os Etíopes dizem que os seus deuses têm nariz arrebitado e são negros. Os Trácios que os seus têm olhos azuis e são ruivos. »
  • Metrodorus de Lampsacus (século V a. C. )
« Nem Hera, nem Atena, nem Zeus são aquilo que quem lhes consagra templos e muralhas consideram ser, sendo antes manifestações da natureza e arranjos dos elementos... Agamemnon é ar, Aquiles é o sol, Helena a terra e Páris o ar, Heitor é a lua. Mas entre os deuses, Deméter é o fígado, Dioniso o baço e Apolo a bílis. »
  • Aristárco da Samotrácia ( c. 216 - 144 a. C.)
Resumo das suas ideias por um autor porterior
«Aristarco pensava que o leitor devia apreender as coisas ditas pelos poetas mais como lendas, de acordo com a liberdade poética e não se preocupar com outras coisas para além das ditas pelo poeta. »
  • Evémero (séculos IV - III a. C. )
(Resumo das suas ideias por um autor posterior)
« Os deuses, é-nos dito, foram seres terrestres que ganharam honras imortais e forma devido às suas beneces para com a humanidade... Sobre estes deuses, muitas e variadas descrições foram proferidas pelos escritores da história e da mitologia. »

IDADE  MODERNA
  • Clérigos medievais
Para estes os mitos eram estórias antigas, que carregavam em si um pouco de erudição - Fabula / fabulae (pl).
  • Bernard de Fontanelle (1657 - 1757)
Segundo Fontanelle os mitos nasceram como uma reacção natural dos humanos antigos ao ambiente que os rodeava, tratando-se de tentativas de explicar e entender as estranhas características do mundo que se lhes apresentavam.
  • David Hume ( 1711 - 1776 )
Hume, tal como outros pensadores do seu tempo, do Século das Luzes, mostrava-se bastante impaciente em relação à mentalidade mitógica. Para eles, homens defensores do pensamento racional, os mitos não eram algo que merecesse a sua atenção.
  • Christian Gottlob Heyne (1729 - 1812)
Por seu lado, Hume sendo um estudioso bastante interessado pelo mundo antigo, tendo os seus estudos sido um género daquilo que é na atualidade designado de Clássicos, mostrou-se interessado pelos mitos.
Para Heyne os mitos eram uma fonte de erudição de onde podia tirar conhecimentos que o ajudavam a compreender melhor os Gregos e os Romanos. 
O mito era o resultado de um sentimento de receio e fascínio, isto é, os seres humanos criaram os mitos  num estado de medo mas também de maravilha em relação ao mundo que os rodeava.
Heyne, achando que o termo fabulae não o satisfazia, procurou entre os escritos antigos um que se melhor adaptasse, tendo encontrado muthos, de onde provém o termo atual mitos.
De acordo com Heynes os Antigos tinham uma linguagem muito concreta, sem termos com os quais pudessem expressar o abstrato, a complexidade que os rodeava. Assim, usaram coisas concretas para expressar ideias abstratas. Tendo o mito, desta forma, tornado-se a concretização de ideias complexas, como por exemplo, a ligação dos seres humanos ao ambiente natural que os rodeava.
  • Johann Gottfried Herder (1744 - 1803)
Tendo sido o precursor do Romantismo, Herder foi contra as ideias dos Iluministas, defendendo que os mitos eram verdades profundas.
Segundo Herder os mitos são o resultado do comportamento inato quando os seres humanos se viram confrontados com o meio natural que os rodeava e com o consequente sentimento de temor / maravilha que trazia.
Os mitos vêm de dentro dos seres humanos, sendo uma forma, uma habilidade, que os humanos encontraram para exprimirem aquilo que sentiam. Desta forma, o mito é idêntico à poesia, à religião, à linguagem.
  • Walter Burket (1931 - )
O mito é uma estória natural que é contada incluindo uma referência secundária a algo de muito importante.

Muthos
Termo grego para designar estória, conto.
Só há três tipos de discurso com a designação de muthos na Iliada:
  1. Uma ordem, uma ostentação ou um insulto;
  2. Uma recitação de uma lembrança de factos;
  3. Mistura dos dois conceitos anteriores. O deus ou o heroi ordena, ostenta ou insulta usando uma narrativa de algo que aconteceu, poderá acontecer, deveria ser ou não ser. Muitas vezes são utilizadas as geneologias.
Todo o muthos é algo de vivo, uma performance discursiva bastante poderosa.

Rito
O rito está diretamente ligado ao mito. Os ritos, apesar de seguirem padrões, podem atualizar os mitos, seguindo assim ensinamentos ancestrais e sagrados. São a forma como o mito se expressa através  de gestos, linguagem, símbolos e comportamentos. 
Os mitos descrevem muitas vezes, e os ritos promulgam, eventos catastróficos, ações violentas, regras quebradas, espaços transgredidos. Assim, o rito pode ser visto, enquanto função cultural, como promover o oposto desses eventos: a permanência das estruturas sociais, a observância das regras, o respeito pelos limites.
Podem ser caracterizados como sendo:
- repetitivos,
- sagrados,
- formalizados,
- tradicionais
- intencionais.

Muitas vezes são levados a cabo rituais semelhantes tanto no culto de heróis quanto dos deuses, sendo que na Antiga Grécia e Roma estes podiam tomar as formas de sacrifício, oferendas, libações, procissões, rituais de limpeza e purificação, e orações.


Fontes
História do Cristianismo, Direcção de Alain Corbin, Editorial Presença, dezembro de 2008





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