14/06/2020

Egoísmo e altruísmo

Eu e LS temos este costume, desafiarmo-nos sobre determinados temas, que o outro terá de desenvolver, tipo a brincadeira que fazia com a minha irmã quando eramos pequenas e olhando  o céu víamos determinadas formas nas nuvens que ali se encontrassem.




LS: "Ultimamente, de vez em quando o tema egoísmo passa-me pela cabeça. Todos dizem que estamos numa época de muito egoísmo, mas penso que, na sua essência, a natureza humana é a mesma agora ou há 2 mil anos atrás. Mas o modo como se manifesta toma partido do que está disponível (tecnologia, por exemplo). Divaguei um pouco agora. Voltando ao egoísmo, tenho muitas vezes a sensação que mesmo o altruísmo, muita vez, é um ato de egoísmo (parece contradição não é...). Porque muita vez é feito para que a pessoa que o faz se sinta bem. O desafio é: é possível fazer uma apologia do egoísmo?"
A primeira coisa que direi é: LS divaga sempre, nunca te prendas.

Mas vamos ao desafio que considero interessante e com muito para desenvolver, a uma característica que poderíamos dizer que é humana, mas quem tem animais de estimação, ou mesmo veja o BBC Vida Selvagem, discordará, e dirá que é inerente à própria Vida. Assim como o altruísmo.

O dicionário da Porto Editora diz-nos sobre o egoísmo "amor exclusivo da sua pessoa ou dos seus interesses" já do altruísmo diz: "1. sentimento de interesse e dedicação por outrem; 2. doutrina moral segundo a qual o bem consiste no interesse pelos nossos semelhantes; filantropia; 3. FILOSOFIA doutrina que considera a dedicação aos outros como norma suprema de moralidade; 4. abnegação"
Sendo assim como se podem conciliar o egoísmo com o altruísmo? Kant dizia que para uma ação ter um verdadeiro valor moral, esta ação não deveria ter qualquer fim, sendo executada apenas pelo desejo de a executar, que uma vontade efetivamente boa, não é a sua aptidão para atingir este ou aquele fim que se tenha proposto, mas somente o querer; quer isto dizer que é em si mesma que ela é boa".
Lendo Kant, que está de acordo com a filosofia budista (não estou a dizer que Kant tenha sequer lido sobre o budismo, mas que se encontram) em que deve haver desapego, para que uma ação seja boa, não pode haver altruísmo sequer, porque senão vamos à questão que tanta curiosidade causa a LS - o altruísmo é egoísmo. Para tal temos de pensar em seres vivos que vivem em comunhão e que evoluem. De onde vieram essas características? Da evolução dos seres vivos. O altruísmo e o egoísmo são formas de sobrevivência. Se formos a ver o nosso organismo é constituído por inúmeras células que por si só não sobreviveriam mas que para aumentarem a sua própria sobrevivência, juntaram-se e trabalham juntas. Assim também o acontece a uma escala maior, nos organismos multicelulares, nas sociedades. De forma inconsciente os seres sentem a necessidade de ajudar o próximo, pois sem se aperceberem disso, estão a ajudar a sobrevivência da sociedade, do todo, e a sua. O acto do altruísmo é um acto de egoísmo em que se nega o bem do individuo em nome do bem do(s) outro(s), para que no final possa ajudar-se.
O egoísmo, por sua vez, toma a forma de ações individuais, a célula procura o seu próprio bem e sobreviver à custa das outras, criando uma situação que em casos extremos, pode matar o organismo todo. Podemos comparar a células cancerígenas. Nos macro-organismos, esse egoísmo pode tomar formas mais leves, como pequenos atos que o ser ache que o vai beneficiar mas sem grande dano ao seu redor, ou ter uma influencia maior, como é o caso de muitos ditadores.
Tanto o egoísmo como o altruísmo estão escritos no nosso código genético, e vão alternando-se, com o único objetivo da sobrevivência. Durante algum tempo a espécie poderá desenvolver com uma predominância egoísta, mas a medio longo prazo, essa predominância mostrar-se-à prejudicial ao desenvolvimento do todo, e dessa forma o grupo altruísta ganhará espaço.

O mesmo se passa com as sociedades humanas, mas tal como referiste LS, muito do egoísmo que se fala hoje em dia, apesar, de como demonstrado acima, ser inerente, ao próprio ser humano, pode-se manifestar e sobreviver com maior vigor nas sociedades ocidentais do que por exemplo em pequenos grupos e tribos, em que o individuo sozinho teria dificuldade em sobreviver e expandir-se. Que diferença existe então nas sociedades atuais? Defendo a tua ideia, LS, a tecnologia. E também penso que há um fator muito importante a referir, que é o facto de vivermos em sociedades de consumo. A própria sociedade, as suas empresas, necessitam que haja uma vontade egoísta, isto é, de o individuo sentir a necessitar de olhar mais para si, de viver de forma mais autónoma, pois essa é a base de sobrevivência das empresas (mas parecendo um circulo, este egoísmo e individualismo tão necessário à sobrevivência das empresas, acaba por mostrar-se uma necessidade para a sobrevivência de todos, pois é o que faz com que os empregos se mantenham, haja mais recursos para educação, cultura, etc).
Por outro lado vê-se cada vez mais a uma reação ao egoísmo corporativo e aos seus danos, a defesa do ambiente era o tema central antes do surgimento do COVID19, depois foi a saúde, atualmente o racismo. Note-se que nunca houve tantas Organizações Humanitárias, nunca houve tanta preocupação com o outro - toma uma escala global.
O egoísmo e o altruísmo irão sempre existir. Demasiado altruísmo levaria ao dano do organismo, pois não haveria um cuidado com a sua própria sobrevivência, demasiado egoísmo, seria o oposto, o individuo sobreviveria, em prol do todo. São necessários e complementam-se, embora eu acredite que o altruísmo seja a força maior e aquela que tem mostrado um maior desenvolvimento.

Sem comentários:

Publicar um comentário

O Homens Fortes

Qual o fascinio pelos "homens fortes" (leia-se "ditadores"). Terá a história alguma influência na sua ascênsão? - pergun...