09/07/2019

Discurso populista


 "[...] a retórica populista dos movimentos fascistas cria organismos especializados em novas formas e métodos de propaganda, virados quer para a eficácia da mobilização das massas, quer para o reforço do seu controlo político e ideológico. Em Portugal, António Ferro explicava-o lapidamente num célebre artigo do Diário de Notícias, em 1932, um ano antes de ser nomeado chefe do Secretariado de Propaganda Nacional por Salazar. Dizia ele que as ditaduras modernas precisavam da festa, da música, da saudação romana, dos cânticos, das palavras de ordem, dos estandartes, enfim, da «ginástica indispensável aos sentimentos e às ideias condutoras». Porque era necessário ligar o ditador à «multidão», para colmatar a supressão do parlamento e das liberdades. Porque havia que não deixar apagar «a fogueira das ideias em marcha». Porque os povos gostam de ter a sensação de que participam num grande desígnio, «gostam de ser levados». Eram, pois, necessárias as «festas do ideal», a aparência de comunicação entre governantes e governados, ou seja, por outras palavras, a encenação do poder. A propaganda populista surgia assim não só como forma de maximizar a inculcação ideológica e a mobilização popular, mas como processo de controlo social e político da multidão em torno do «chefe», do movimento e, depois, do regime. É ao serviço desses propósitos que adquirem importância central o cartaz, o cinema e a rádio, a triologia instrumental do populismo dos anos 1930.
Mas a outra face da encenação do poder ensaiado pelo discurso populista é a intimidação e a indução do medo. [...]



de "O Espectro dos Populismos", Tinta da China Edições

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