26/07/2019

Desejo


«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhoras, começou a despontar uma aguda inquietação sob a alegria que o hábito breve havia já enfraquecido. Abrigado nas intempéries da vida, na atmosfera propícia da doçura ambiente, calma forçada e livre meditação, começou obscuramente a germinar nele o desejo da morte. Ele estava longe de sequer desconfiar disso: sentiu somente um vago temor perante a ideia de recomeçar a viver, a suportar contrariedades de que se tinha desabituado, e de perder os carinhos, com que o tinham rodeado. Confusamente, sentiu também que seria mau perder-se no prazer ou na ação, agora que travara conhecimento consigo próprio, com aquele estranho fraterno, que ao mesmo tempo que ele via os barcos lavrar o mar, com ele convivera, horas e horas, longínquo e próximo, dentro de si. Como se agora sentisse despertar um novo amor natal ainda desconhecido, como o que desperta num jovem que tivesse sido enganado sobre o local da sua pátria primeira, experimentava a nostalgia da morte, quando, anteriormente, o que sentia era que o levavam para um exílio eterno.»

Os prazeres e os dias, de Marcel Proust, Editorial Estampa

Imagem: Folhas de Outono, de Vince Pietrov

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