16/12/2016

Os mil anos da Idade Média

Na altura em que o Cristianismo foi reconhecido como religião oficial do Império Romano, em 313, já este último se encontrava em decadência, o que se tornou uma das transformações culturais mais importantes da história. No século IV, Roma encontrava-se ameaçada tanto pelas tribos que se aproximavam, vindas do norte, como por conflitos internos. No ano de 330, o imperador Constantino transferiu a capital do Império Romano para Constantinopla, cidade que ele próprio fundara à entrada do Mar Negro. A nova cidade foi considerada a partir de então como a «segunda Roma». No ano de 395, o Império Romano foi dividido - passando então a haver o Império Romano do Ocidente, com Roma no centro, e o Império Romano do Oriente, com capital em Constantinopla. 
No ano de 410 Roma é saqueada por tribos bárbaras, e em 476 todo o Império Romano do Ocidente cai. Conserva-se o Império Romano do Oriente até 1455, ano em que os turcos conquistam Constantinopla (atual Istambul).

As mudanças também chegam ao próprio pensamento filosófico e teológico, com todas as suas repercussões inerentes ao facto, incluindo no modo como lidar com o próprio conhecimento. Em 529 é encerrada a Academia de Platão em Atenas, e nesse mesmo ano é fundada a Ordem Beneditina, a primeira grande ordem monástica. Assim, o ano de 529 tornou-se o ano em que a Igreja Cristã impediu a expansão da filosofia grega. A partir de então, os conventos passaram a deter o monopólio do ensino, da reflexão e da meditação.

Por «Idade Média», entende-se na realidade o tempo que medeia entre duas outras épocas. Esta expressão surgiu no Renascimento, altura em que a Idade Média era tida como uma longa «noite de mil anos» que tinha obscurecido a Europa entre a Antiguidade e o Renascimento. Mas também houve aqueles que viram esta época como o «crescimento milenar». Foi na Idade Média, por exemplo, que se formou o ensino público. Desde muito cedo que surgiram as escolas públicas nos mosteiros. No século XII, nasceram as escolas nas catedrais, e a partir do século XIII foram fundadas as primeiras universidades. Também foi na Idade Média que nasceram as diferentes nações - com cidades e castelos, a música, poesia e folclore popular.
Durante muito tempo as antigas concepções pagãs coexistiram com a doutrina cristã, e muitos destes elementos pré-cristãos vieram a misturar-se com os costumes cristãos. No entanto, o cristianismo torna-se, durante a Idade Média, a religião dominante.
Desta forma, a Idade Média não é o período obscuro e triste que durante muito tempo foi a imagem que a caracterizou. De facto, os primeiros cem anos a seguir ao ano 400 trouxeram uma decadência cultural. A época romana foi notável pelo seu alto grau de civilização, com grandes cidades que dispunham de redes públicas de esgotos, termas públicas e bibliotecas, assim como de uma arquitectura grandiosa. No entanto, toda esta cultura se desmoronou durante os primeiros séculos da Idade Média. O mesmo sucedeu com o comércio e a economia baseados na moeda. Na Idade Média, a economia de subsistência e o pagamento em géneros surgiram de novo. O feudalismo caracterizou a economia. Feudalismo significa que alguns grandes senhores possuíam a terra que os camponeses tinham de cultivar para ganhar o seu sustento. Durante o primeiro século, a densidade populacional também baixou fortemente. Roma fora na Antiguidade uma cidade com mais de um milhão de habitantes. Já no século VII, a população da antiga metrópole estava reduzida a quarenta mil habitantes. Quando os homens precisavam de materiais de construção, havia suficientes ruínas antigas de que se podiam servir.
A época de Roma como potência política terminara por volta de finais do século IV. Mas depressa o bispo de Roma se tornou o chefe de toda a igreja católica romana. Recebeu o nome de papa - ou «pai» - e, por fim, foi considerado o representante de Jesus na terra. Por isso, durante quase toda a Idade Média, Roma foi a capital da Igreja. E não havia muitas pessoas que ousassem discordar com a voz romana. Mas, gradualmente, alguns reis e príncipes das novas nações tornaram-se tão poderosos que tiveram coragem de se opor ao forte poderio da Igreja.



O encerramento da Academia de Platão fez com que os filósofos gregos fossem esquecidos. Ainda assim, havia quem conhecesse os escritos de Aristóteles, e quem conhecesse alguns de Platão. Mas o antigo Império Romano dividiu-se progressivamente em três espaços culturais distintos. Na Europa Ocidental difundiu-se uma cultura cristã de língua latina, com a capital em Roma. Na Europa Oriental, formou-se uma cultura cristã de língua grega, com a capital em Constantinopla. Mais tarde, Constantinopla recebeu o nome grego de Bizâncio. Mas também o Norte de África e o Médio Oriente haviam pertencido ao Império Romano. Estas regiões desenvolveram uma cultura muçulmana de língua árabe. A seguir à morte de Maomé, no ano de 632, o Médio Oriente e o Norte de África foram conquistados para o Islão. Em seguida, também a Península Ibérica foi anexada ao domínio cultural islâmico. O Islão obteve por exemplo os seus lugares sagrados em Meca, Medina, Jerusalém e Bagdad. Do ponto de vista histórico-cultural é importante reparar que os árabes também tomaram a antiga cidade helenística de Alexandria. Herdaram, assim, uma grande parte da ciência grega. Durante a Idade Média, os árabes detiveram o papel cimeiro em ciência como a matemática, a química, a astronomia e a medicina.
Desta forma a antiga cultura grega foi "repartida", isto é, parte foi transmitida  através da cultura católica romana no Ocidente, em parte através da cultura romana no Oriente e em parte através da cultura árabe, no Sul. De uma forma muito simplista pode-se dizer que o neoplatonismo sobreviveu no Ocidente, Platão no Oriente e Aristóteles no Sul, entre os árabes. Mais tarde, no final da Idade Média,  estes três percursos culturais vieram a confluir no norte da Itália. Sendo então que começa o Renascimento.

Os filósofos medievais aceitaram como um dado adquirido que o cristianismo era a verdade. As questões principais eram outras: tinha apenas que se acreditar que a revelação cristã ou poder-se-ia também chegar às verdades cristâs com o auxílio da razão? Como era a relação entre os filósofos gregos e as doutrinas da Bíblia? Existia uma contradição entre a Bíblia e a razão, ou a fé e o saber estavam de acordo? Quase toda a filosofia medieval girava em torno destas questões.
Um dos filósofos mais importantes da Idade Média foi Santo Agostinho que viveu entre 354 e 430. Santo
Agostinho é marcado pela passagem da Antiguidade tardia ao início da Idade Média. Nasceu na vila de Tagaste, no norte de África, mas com dezasseis anos foi estudar para Cartago. Mais tarde, visitou Roma e Milão e passou os últimos anos da sua vida como bispo de Hipona, relativamente próximo de Cartago. Santo Agostinho conheceu muitas correntes filosóficas e religiosas antes de se converter ao cristianismo. Por exemplo, durante algum tempo, Santo Agostinho foi maniqueu. Os maniqueus proclamavam uma teoria de salvação em parte religiosa e em parte filosófica. Dividiam o mundo em bem e mal, luz e trevas, espírito e matéria. Atravé do seu espírito, os homens podiam elevar-se acima do mundo material e deste modo criar a base para a salvação da sua alma. Mas a rigorosa separação entre o bem e o mal preocupava o jovem Santo Agostinho, ocupando-se principalmente com aquilo a que se chama «o problema do mal». Por este problema dever-se-á entender a questão da origem do mal. Durante algum tempo foi influenciado pela filosofia estóica, e os estóicos negavam uma separação clara entre o bem e o mal, mas a corrente filosófica que maior influência teve sobre Santo Agostinho foi o neoplatonismo. Desta forma, o cristianismo de Santo Agostinho é, em grande parte, influenciado pelo pensamento neoplatónico, não vendo nenhuma contradição entre o cristianismo e a filosofia neoplatónica. Os paralelismos entre a filosofia de Platão e a doutrina cristã pareciam-lhe tão evidentes que se questionavam se Platão não poderia ter conhecido pelo menos partes do Antigo Testamento. No entanto, Santo Agostinho também mostrou que há limites para o alcance  da razão em questões religiosas. O cristianismo é também um mistério divino ao qual só é possível chegar através da fé. Mas quando se acredita no cristianismo, Deus «iluminará» a alma do crente e, então, este obterá uma espécie de saber sobrenatural acerca de Deus. Santo Agostinho sentiu que a filosofia não podia ser ilimitada, só encontrando descanso quando se tornou cristão: «Agitado está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti.», escreveu.
Segundo Santo Agostinho, Deus havia criado o mundo a partir do nada, o que é uma ideia bíblica. Por sua vez, os gregos inclinavam-se mais para o mundo ter existido sempre. Mas, segundo Santo Agostinho, antes de Deus ter criado o mundo as «ideias» existiam no pensamento de Deus. Ao atribuir as ideias eternas a Deus, salvou a concepção platónica da ideia eterna, o que mostra como Santo Agostinho e muitos outros padres tentavam conciliar as ideias hebraicas e gregas. Na sua concepção do mal também recorre ao neoplatonismo. Tal como Plotino, achava que o mal consistia na «ausência» de Deus. O mal não teria uma existência própria, sendo algo que não é, porque a Criação de Deus era somente boa. O mal surge da desobediencia dos homens, segundo Santo Agostinho. O Santo ainda acrescentou que entre Deus e o mundo existe um abismo insuperável, rejeitando, neste caso, Plotino, que achava que tudo era uno. Para Santo Agostinho o homem é um ser espiritual. Possui um corpo material - que pertence ao mundo físico e é corrompido pelos agentes naturais -, mas também é possuidor de uma alma que pode conhecer Deus. Segundo o Santo, toda a geração humana havia sido condenada após o pecado original. No entanto, apesar disso, Deus havia decidido que alguns homens deviam ser poupados à condenação eterna, sendo do conhecimento Dele quem seria salvo e quem não o seria, o que, de certo modo leva à antiga crença do destino. Aqui, a teologia de Santo Agostinho afasta-se do humanismo de Atenas. Para Sócrates todos os homens tinham as mesmas possibilidades por partilharem a mesma razão, o que é diferente desta visão que separa os homens em dois grupos, os salvos e os não salvos. Mas, neste ponto, Santo Agostinho negava que os homens tivessem o direito de criticar Deus.
A expressão «cidade de Deus» ou «reino de Deus» vem da Bíblia e da mensagem de Jesus. Santo Agostinho acreditava que a história trata do modo como o combate entre a «cidade de Deus» e a «cidade terrena» é conduzido. Estas duas cidades não são Estados políticos distintos um do outro. Lutam pelo poder em cada cada homem. A cidade de Deus está presente na Igreja e a cidade terrena nos Estados políticos - por exemplo, no Império Romano, que começou a desagregar-se precisamente na época de Santo Agostinho. Esta concepção tornou-se cada vez mais evidente à medida que a Igreja e o Estado lutavam pelo poder durante toda a Idade Média. A cidade de Deus de Santo Agostinho era inclusivamente comparada à Igreja como instituição. Só mais tarde, durante a Reforma, no século XVI, é que se levantou um protesto contra a ideia de que o homem tinha de percorrer o caminho da Igreja para obter a graça divina.
Também é de nota o facto de Santo Agostinho ter sido o primeiro a incluir a noção de história na sua filosofia. A novidade não se encontra no conceito de um combate entre o bem e o mal, e sim, na inclusão deste conceito na história. Para Santo Agostinho, Deus precisa de toda a história para erigir a sua «cidade de Deus». A história é necessária para instruir os homens e destruir o mal.

Após a época de Santo Agostinho os mosteiros passam a deter o monopólio do ensino, sendo estabelecidas as primeiras escolas nas catedrais, e mais tarde são fundadas as primeiras universidades. Também se deve mencionar a construção das primeiras catedrais, naquilo que é designado de baixa Idade Média. As grandes catedrais não foram construídas apenas para colherem grandes multidões. Foram erigidas em honra de Deus e tinham por si só uma função religiosa.
De nota, também, de na baixa Idade Média a influência dos árabes ser dominante na Península Ibérica. Os árabes conservaram viva durante toda a Idade Média uma tradição aristotélica e, a partir aproximadamente de 1200, eruditos árabes foram para o norte de Itália a convite dos príncipes locais. Desta forma, muitos dos seus escritos foram divulgados e por fim traduzidos do grego e do árabe para o latim. E isso, por seu lado, criou um novo interesse no que diz respeito às ciências da natureza.  além disso, foi de novo equacionada a relação entre a revelação cristã e a filosofia grega. Nas questões das ciências naturais, todos os caminhos passavam por Aristóteles. Mas quando é que se devia escutar o «filósofo» - e quando é que se devia ater exclusivamente à Bíblia.

Um grande filósofo e teólogo da baixa Idade Média foi S. Tomás de Aquino, que viveu entre 1225 e 1274. Era natura da pequena vila de Aquino entre Roma e Nápoles, mas ensinou em Paris.
Tal como Santo Agostinho havia «cristianizado» Platão, S. Tomás de Aquino «cristianizou» Aristóteles, ao querer conciliar a filosofia de Aristóteles com o cristianismo.
S. Tomás de Aquino não acreditava numa contradição inevitável entre o que a filosofia ou a razão, por um lado, e a revelação ou a fé, por outro, dizem. Para além das «verdades de fé», obtidas através da fé e da revelação divina, S. Tomás de Aquino achava que havia também uma série de «verdades teológicas naturais», ou seja, verdades que podem ser alcançadas tanto através da revelação cristã como através da razão humana inata ou «natural». Uma verdade dessas é, por exemplo, dizer-se que Deus existe. S. Tomás acreditava, portanto, que dois caminhos levavam a Deus. Um dos caminhos passava pela fé e pela revelação, enquanto que o outro passava pela razão e pelos sentidos, embora afirmasse que o primeiro dos caminhos era o mais seguro, porque se pode entrar facilmente em erro se se confiar apenas na razão. Desta forma, por exemplo, Aristóteles havia percorrido apenas parte do caminho, o que não significava que estivesse errado. Quando o filósofo apresentava algo reconhecido como verdadeiro por intermédio da razão, não entrava em contradição com a doutrina cristã. É possível obter uma parte da verdade com a ajuda da razão e da observação - e Aristóteles fala acerca dessas verdades quando, por exemplo, descreve o reino vegetal e o reino animal. Uma segunda parte da verdade foi revelada aos homens por Deus através da Bíblia. Mas as duas partes da verdade coincidem em muitos pontos importantes.
Apesar de atualmente a maior parte das pessoas admitir, pelo menos em parte, que não pode provar que Deus não existe, S. Tomás de Aquino acreditava poder provar a existência de Deus através da filosofia de Aristóteles. Segundo este, os homens podem reconhecer que tudo tem de ter uma »primeira causa». Para S. Tomás, Deus revelou-se aos homens por meio da Bíblia e por meio da razão. Logo, havia uma «teologia» revelada e uma teologia «natural». O mesmo passava-se no domínio da moral. É possível ler na Bíblia como é possível viver segundo a vontade de Deus, mas Deus também dotou os homens de uma consciência que os habilita a distinguir o justo do injusto numa base «natural». Dessa forma, também existiam duas vias para a vida moral.
S. Tomás de Aquino adoptou a filosofia de Aristóteles em todos os domínios que não colidiam com a teologia da Igreja. O que é válido para a sua lógica, a sua filosofia do conhecimento e ainda a sua filosofia da natureza. Aristóteles também acreditava que a escala ascendente da vida remetia para um Deus que representava uma espécie de vértice máximo da existência. Este esquema era facilmente adaptável à teologia cristã. S. Tomás acreditava num grau de existência crescente, desde as plantas e os animais até aos homens, dos homens até aos anjos, e dos anjos até Deus. O homem, tal como os animais, possuía um corpo com órgãos dos sentidos, mas era igualmente detentor de uma razão que pensa. Já os anjos não têm corpo nem órgãos dos sentidos, mas em vez disso teriam uma inteligência directa e imediata, uma vez que não teriam corpo, não morreriam como os homens, mas também não seria eternos como Deus. Finalmente, no topo, encontrar-se-ia Deus.



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