02/11/2016

Paulo de Tarso

Poucos dias depois da crucificação de Jesus surgiram rumores de que este havia ressuscitado dos mortos. Desta forma, mostrou que era mais do que um homem, e que era verdadeiramente «Filho de Deus».
Pode-se dizer que a Igreja cristã teve início nessa manhã de Páscoa, com o anúncio da ressurreição de Jesus. Já Paulo esclareceu: «Se Jesus não ressuscitou, então a nossa prédica é vã, vã a nossa fé.»
A partir daquele momento, todos os homens podiam ter esperança na ressurreição da carne. Jesus foi crucificado para a salvação dos homens. Não se trata da imortalidade da alma ou reencarnação, esta era uma concepção grega (logo, indo-europeia). O cristianismo diz que não há nada no homem  - por exemplo, nenhuma «alma» - que fosse imortal por si. A Igreja acredita na ressurreição da carne e na vida eterna, mas é justamente graças a Deus que o homem é salvo da morte e da perdição. Não é mérito deste, nem se deve a nenhuma qualidade natural ou inata.
Os primeiros cristãos começaram então a anunciar a «boa nova» da salvação através da fé em Jesus Cristo. Com a sua mensagem de redenção, o reino de Deus estava iminente. Todo o mundo podia então ser conquistado por Jesus. (A palavra Cristo é uma tradução grega da palavra hebraica «Messias» e significa, portanto, «o Ungido»).
Poucos anos após a morte de Jesus, o fariseu Paulo converteu-se ao cristianismo. Através das suas muitas viagens de missionário por todo o mundo grego-romano, o cristianismo tornou-se uma religião universal. Toma-se conhecimento disto nos Atos dos Apóstolos. A pregação de Paulo e as suas diretivas fornecidas aos cristãos foram também difundidas por meio das epístolas que enviou às primeiras comunidades cristãs.
Também esteve em Atenas. Caminhava na ágora da capital da filosofia, e mostrava-se indignado, «de tal forma via a cidade tão idólatra», segundo se diz. Visitou a sinagoga de Atenas e falou com os filósofos epicuristas e estóicos da cidade. Levaram-no ao Areópago. Aí, disseram: «Também podemos saber que doutrina nova é essa que ensinas? Porque tu trazes algo novo para os nossos ouvidos; por isso, gostaríamos muito de saber o que é.
A doutrina de salvação cristã acabou por ser um choque à filosofia grega, no entanto, Paulo conseguiu fazer-se ouvir pelos atenienses. Enquanto se encontra no Areópago - entre os imponentes templos da Acrópole - faz o seguinte discurso:

« Atenienses, eu vejo que sois em todos os aspetos muito religiosos. Indo a passar, vi os vossos cultos e encontrei um altar sobre o qual estava escrito: "Ao Deus desconhecido." Agora, anuncio-vos aquele ao qual prestais culto sem saber. Deus, que fez o mundo e tudo o que nele há, uma vez que é o senhor do céu e da terra, não habita nos templos feitos pelos homens. Também não é servido pelas mãos dos homens, como se precisasse de alguém, ele que dá a todos a vida e o alento por toda a parte.
E de um só fez todo o género humano, para que habitasse em toda a face da terra, e colocou o limite para o tempo e o lugar da habitação; para que busquem o Senhor como que às apalpadelas. E na verdade,ele não está longe de cada um de nós. Pois nele vivemos, nos movemos e existimos; como também disseram alguns dos vossos poetas: nós somos da sua linhagem. Sendo nós da linhagem de Deus, Não devemos pensar que a divindade é igual às imagens douradas, prateadas e de pedra feitas pela arte dos homens. E na verdade, Deus não teve em conta o tempo da ignorância; mas ordena a todos os homens, por toda a parte, que façam penitência, porque ele estabeleceu um dia em que há-de julgar o mundo com justiça através de um homem  que escolheu e no qual todos têm fé, depois de o ter ressuscitado dos mortos.»

O cristianismo infiltra-se aos poucos no mundo greco-romano, como algo de diferente das filosofias epicuristas, estóicas ou neoplatónicas. No entanto, Paulo encontra nesta cultura um apoio sólido. Diz que a busca de Deus está presente em todos os homens, o que não era algo de novo para os gregos. O que Paulo anuncia de novo é que Deus se revelou aos homens e que foi verdadeiramente ao seu encontro. Não é apenas um «Deus filosófico» ao qual os homens podem aspirar com a razão. Também não se assemelha a nenhuma imagem de «ouro, prata ou pedra» - Já era suficiente o que havia na Acrópole e na ágora. Mas Deus «não habita em templos feitos pelos homens». É um Deus pessoal que intervém na história e morre na cruz pelos homens.
Depois de Paulo ter feito o seu discurso no Areópago, os Actos dos Apóstolos contam que alguns fizeram troça dele por ele ter contado que Cristo tinha ressuscitado dos mortos. Mas laguns ouvintes afirmaram também: «Queremos que nos voltes a falar disso.» Outros juntaram-se, por fim, a ele e tornaram-se cristãos. Entre esses estava uma mulher, Dâmaris. Nesta altura houve muitas mulheres que se converteram ao cristianismo.
Paulo prosseguiu a sua atividade missionária. Poucas décadas depois da morte de Cristo existiam comunidades cristãs em todas as cidades gregas e romanas mais importantes - em Atenas, Roma, Alexandria, Éfeso. No decorrer de três, quatro séculos, todo o mundo greco-romano estava cristianizado.

Mas a importância de Paulo de Tarso para o cristianismo não se limitou à sua importante atividade missionária. Também teve uma grande influência dentro das comunidades cristãs. Havia uma grande necessidade de instrução espiritual.
Nos primeiros anos após a morte de Jesus, levantou-se uma questão: teriam os não-judeus de passar primeiro pelo judaísmo? Por exemplo, teria um grego que observar as leis de Moisés? Paulo não achava isso necessário. O Cristianismo era mais do que uma seita hebraica. Dirigia-se a todos os homens com uma mensagem universal de salvação. A Velha Aliança, entre Deus e Israel, era substituída pela Nova Aliança, que Jesus concluíra entre Deus e todos os homens.
Mas o cristianismo não era a única religião daquele tempo. O Helenismo era caracterizado por uma mistura de religiões. Por isso, a Igreja tinha de delinear claramente a doutrina cristã. Era importante evitar uma cisão entre a Igreja Cristã e a demarcação em relação a outras religiões. Desta forma, surgiu a profissão de fé, que teve como objetivo reunir os mais importantes «dogmas» cristãos.
Um desses dogmas afirma que Jesus foi simultaneamente Deus e um homem. Portanto, ele não foi «filho de Deus» apenas pelos seus atos. Ele próprio era Deus, mas foi também um «verdadeiro» homem que partilhou a vida dos homens e sofreu verdadeiramente na cruz.
Isto pode parecer uma contradição, mas a mensagem da Igreja era de que Deus se havia tornado homem. Jesus não era nenhum «semi-deus» (meio humano e meio divino). A crença em tais semideuses encontrava-se bastante difundida nas religiões grega e helenísticas. A Igreja ensinava que Jesus é «inteiramente Deus, inteiramente homem».





Fontes
O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, Editorial Presença, Lisboa, 30ª edição, Maio 2011
Imagem
Paulo de Tarso de Rembrandt

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«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...