26/11/2016

Vontade de poder


«A vontade de poder, denunciada ou glorificada pelos pensadores modernos de Hobbes a Nietzsche, longe de ser uma característica do forte, é, como a cobiça e a inveja, um dos vícios do fraco, talvez o mais perigoso vício.»


Hannah Arendt, in A Condição Humana



10/11/2016

Homo cepranensis

O Homo cepranensis (Homem de Ceprano) é o nome proposto para uma espécie para uma espécie do género Homo, conhecida através de uma única calota craniana descoberta em 1994. O fóssil foi desenterrado acidentalmente num projeto de construção de uma autoestrada. Apesar de danificada por uma retroescavadora, foi reconhecida, documentada e descrita pelo arqueólogo Italo Bidditu, que por acaso se encontrava perto do local quando a caveira quase completa do hominídeo apareceu, alcunhado de Argila pelo seu descobridor  e Homem Ceprano, em consequência da cidade próxima de Ceprano na província de Frosine, a 89 km a sudeste de Roma, na Itália.
A morfologia geral robusta encontrada no fóssil mostra características peculiares, especialmente no osso frontal, e até à data não se encontrou equivalente, seja na Europa ou fora desta. O seu estatuto taxonómico. Tem sido um assunto controverso uma vez que se mostra diferente de outras espécies de hominídeos como o H. ergaster, o H. erectus e o H. heidelbergensis. Os resultados das análises morfométricas e cladisticas e as comparações com outros fósseis, levaram à conclusão que este fóssil é uma espécie hominídea distinta.
O holótipo do Homo cepranensis tem uma combinação única de características:
  • O sulco supraorbital incompleto;
  • O tubéculo frontal é fracamente desenvolvido e deslocado medialmente;
  • A região supraorbital apresenta-se medialmente concava;
  • Uma posição intermediária do meato auditivo externo em relação à apófise zigomática temporal;
  • Por um lado mostra traços derivados: visíveis no toro ocipital transverso e na concavidade médio lateral do tubéculo auricular
  • Por outro lado, ainda mantém traços primitivos, como são os casos das características da crista petrotimpânica orientada para baixo, o opistocrânio coincidente com o ínion, a apófise retro-mastoide e no torus angularis parietalis.
Inicialmente estimou-se que o fóssil tivesse entre 700.000 a 900.000 anos, usando como base as correlações regionais e uma série de datas absolutas. Após esclarecimento de sua relação geoestratégica, bioestratigráfica e arqueológica com o local próximo  bastante conhecido Acheulean de Fontana Ranuccio, datado de 487.000 +/-6.000 anos, Muttoni sugeriu qye Ceprano teria, mais provavelmente, cerca de 450.000 anos, pertencendo ao Pleistocenio Médio. Levando em consideração as circunstâncias da recuperação do fóssil, A. Ascenzi declarou em 2001: «... Dada a ausência nos sedimentos que contêm o crânio de quaisquer remanescentes leuciosos da atividade vulcânica mais recente conhecida na região - que se referem à faixa entre 100 e 700 ka e a presença acima do próprio crânio de uma clara discordância estratigráfica que marca o limite mais baixo dos piroclastos leuciosos arenosos, uma idade entre 800 e 900 ka é actualmente a nossa melhor estimativa cronológica.»

As características cranianas dos ossos parecem ser intermédias entre as que se encontram no Homo erectus e as da espécie mais tardia, Homo heidelbergensis, que dominou a Europa muito antes do Homo neanderthalensis, como foi demonstrado após a reconstrução dos fragmentos pelo geólogo Aldo Segre e pela paleantóloga Eugénia Naldini, estimou-se que a capacidade craniana deste hominídeo seria de cerca de 1200 milímetros cúbicos, o que o tornava possuidor de um cérebro maior do que os Homo ergaster e Homo erectus.
Estima-se que pesasse cerca de 70 quilogramas e medisse 1,70 metros de altura.

Um estudo de 2011 sugeriu que este fóssil pertencesse a um ancestral do Homo neanderthalensis.
 


Fontes:
https://en.wikipedia.org/wiki/Homo_cepranensis
http://www.avph.com.br/homocepranensis.htm

02/11/2016

Paulo de Tarso

Poucos dias depois da crucificação de Jesus surgiram rumores de que este havia ressuscitado dos mortos. Desta forma, mostrou que era mais do que um homem, e que era verdadeiramente «Filho de Deus».
Pode-se dizer que a Igreja cristã teve início nessa manhã de Páscoa, com o anúncio da ressurreição de Jesus. Já Paulo esclareceu: «Se Jesus não ressuscitou, então a nossa prédica é vã, vã a nossa fé.»
A partir daquele momento, todos os homens podiam ter esperança na ressurreição da carne. Jesus foi crucificado para a salvação dos homens. Não se trata da imortalidade da alma ou reencarnação, esta era uma concepção grega (logo, indo-europeia). O cristianismo diz que não há nada no homem  - por exemplo, nenhuma «alma» - que fosse imortal por si. A Igreja acredita na ressurreição da carne e na vida eterna, mas é justamente graças a Deus que o homem é salvo da morte e da perdição. Não é mérito deste, nem se deve a nenhuma qualidade natural ou inata.
Os primeiros cristãos começaram então a anunciar a «boa nova» da salvação através da fé em Jesus Cristo. Com a sua mensagem de redenção, o reino de Deus estava iminente. Todo o mundo podia então ser conquistado por Jesus. (A palavra Cristo é uma tradução grega da palavra hebraica «Messias» e significa, portanto, «o Ungido»).
Poucos anos após a morte de Jesus, o fariseu Paulo converteu-se ao cristianismo. Através das suas muitas viagens de missionário por todo o mundo grego-romano, o cristianismo tornou-se uma religião universal. Toma-se conhecimento disto nos Atos dos Apóstolos. A pregação de Paulo e as suas diretivas fornecidas aos cristãos foram também difundidas por meio das epístolas que enviou às primeiras comunidades cristãs.
Também esteve em Atenas. Caminhava na ágora da capital da filosofia, e mostrava-se indignado, «de tal forma via a cidade tão idólatra», segundo se diz. Visitou a sinagoga de Atenas e falou com os filósofos epicuristas e estóicos da cidade. Levaram-no ao Areópago. Aí, disseram: «Também podemos saber que doutrina nova é essa que ensinas? Porque tu trazes algo novo para os nossos ouvidos; por isso, gostaríamos muito de saber o que é.
A doutrina de salvação cristã acabou por ser um choque à filosofia grega, no entanto, Paulo conseguiu fazer-se ouvir pelos atenienses. Enquanto se encontra no Areópago - entre os imponentes templos da Acrópole - faz o seguinte discurso:

« Atenienses, eu vejo que sois em todos os aspetos muito religiosos. Indo a passar, vi os vossos cultos e encontrei um altar sobre o qual estava escrito: "Ao Deus desconhecido." Agora, anuncio-vos aquele ao qual prestais culto sem saber. Deus, que fez o mundo e tudo o que nele há, uma vez que é o senhor do céu e da terra, não habita nos templos feitos pelos homens. Também não é servido pelas mãos dos homens, como se precisasse de alguém, ele que dá a todos a vida e o alento por toda a parte.
E de um só fez todo o género humano, para que habitasse em toda a face da terra, e colocou o limite para o tempo e o lugar da habitação; para que busquem o Senhor como que às apalpadelas. E na verdade,ele não está longe de cada um de nós. Pois nele vivemos, nos movemos e existimos; como também disseram alguns dos vossos poetas: nós somos da sua linhagem. Sendo nós da linhagem de Deus, Não devemos pensar que a divindade é igual às imagens douradas, prateadas e de pedra feitas pela arte dos homens. E na verdade, Deus não teve em conta o tempo da ignorância; mas ordena a todos os homens, por toda a parte, que façam penitência, porque ele estabeleceu um dia em que há-de julgar o mundo com justiça através de um homem  que escolheu e no qual todos têm fé, depois de o ter ressuscitado dos mortos.»

O cristianismo infiltra-se aos poucos no mundo greco-romano, como algo de diferente das filosofias epicuristas, estóicas ou neoplatónicas. No entanto, Paulo encontra nesta cultura um apoio sólido. Diz que a busca de Deus está presente em todos os homens, o que não era algo de novo para os gregos. O que Paulo anuncia de novo é que Deus se revelou aos homens e que foi verdadeiramente ao seu encontro. Não é apenas um «Deus filosófico» ao qual os homens podem aspirar com a razão. Também não se assemelha a nenhuma imagem de «ouro, prata ou pedra» - Já era suficiente o que havia na Acrópole e na ágora. Mas Deus «não habita em templos feitos pelos homens». É um Deus pessoal que intervém na história e morre na cruz pelos homens.
Depois de Paulo ter feito o seu discurso no Areópago, os Actos dos Apóstolos contam que alguns fizeram troça dele por ele ter contado que Cristo tinha ressuscitado dos mortos. Mas laguns ouvintes afirmaram também: «Queremos que nos voltes a falar disso.» Outros juntaram-se, por fim, a ele e tornaram-se cristãos. Entre esses estava uma mulher, Dâmaris. Nesta altura houve muitas mulheres que se converteram ao cristianismo.
Paulo prosseguiu a sua atividade missionária. Poucas décadas depois da morte de Cristo existiam comunidades cristãs em todas as cidades gregas e romanas mais importantes - em Atenas, Roma, Alexandria, Éfeso. No decorrer de três, quatro séculos, todo o mundo greco-romano estava cristianizado.

Mas a importância de Paulo de Tarso para o cristianismo não se limitou à sua importante atividade missionária. Também teve uma grande influência dentro das comunidades cristãs. Havia uma grande necessidade de instrução espiritual.
Nos primeiros anos após a morte de Jesus, levantou-se uma questão: teriam os não-judeus de passar primeiro pelo judaísmo? Por exemplo, teria um grego que observar as leis de Moisés? Paulo não achava isso necessário. O Cristianismo era mais do que uma seita hebraica. Dirigia-se a todos os homens com uma mensagem universal de salvação. A Velha Aliança, entre Deus e Israel, era substituída pela Nova Aliança, que Jesus concluíra entre Deus e todos os homens.
Mas o cristianismo não era a única religião daquele tempo. O Helenismo era caracterizado por uma mistura de religiões. Por isso, a Igreja tinha de delinear claramente a doutrina cristã. Era importante evitar uma cisão entre a Igreja Cristã e a demarcação em relação a outras religiões. Desta forma, surgiu a profissão de fé, que teve como objetivo reunir os mais importantes «dogmas» cristãos.
Um desses dogmas afirma que Jesus foi simultaneamente Deus e um homem. Portanto, ele não foi «filho de Deus» apenas pelos seus atos. Ele próprio era Deus, mas foi também um «verdadeiro» homem que partilhou a vida dos homens e sofreu verdadeiramente na cruz.
Isto pode parecer uma contradição, mas a mensagem da Igreja era de que Deus se havia tornado homem. Jesus não era nenhum «semi-deus» (meio humano e meio divino). A crença em tais semideuses encontrava-se bastante difundida nas religiões grega e helenísticas. A Igreja ensinava que Jesus é «inteiramente Deus, inteiramente homem».





Fontes
O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, Editorial Presença, Lisboa, 30ª edição, Maio 2011
Imagem
Paulo de Tarso de Rembrandt

Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...