28/09/2016

Os semitas

Os semitas eram originários da península árabe, com uma cultura e língua completamente diferente das dos indo-europeus, como estes, expandiram-se por diversas regiões do globo. Esta cultura ficou marcada pelo afastamento dos judeus das suas raízes originárias, pelo surgimento do cristianismo e alcance de uma vasta área por se ter tornado a religião oficial romana no século IV e pela conquista de um grande território pelo islamismo.
As três religiões ocidentais - judaísmo, cristianismo e islamismo - têm uma base semítica. O Alcorão, o texto sagrado do islamismo, e o Antigo Testamento encontram-se escritos em línguas semíticas aparentadas. Uma das palavras do Antigo Testamento para «Deus» tem a mesma raiz linguística que o Alá dos muçulmanos (a palavra «Alá» significa simplesmente «Deus»).
O quadro do cristianismo já se mostra mais complicado. Esta religião também tem uma base semítica, mas o Novo Testamento foi escrito em grego, e quando a teologia cristã foi formulada, recebeu a influencia das línguas grega e latina, e consequentemente da filosofia grega.
Sabe-se que os indo-europeus eram politeístas, enquanto que os semitas adoptaram desde muito cedo ao monoteísmo. No judaísmo, no cristianismo e no islamismo a existência de um só Deus é uma ideia fundamental.
Uma outra característica semítica é a concepção linear da história (em contraste à concepção cíclica dos indo-europeus), o que significa que a história era vista linearmente. Deus criou o mundo, e nesse momento começou a história, que terminará no dia do «juízo final», quando Deus julgar os vivos e os mortos.
Uma característica importante das três grandes religiões ocidentais é precisamente o papel da história. Deus intervém na história e esta existe apenas para que Deus realize a sua vontade no mundo. Tal como outrora Deus conduziu Abraão à Terra Prometida, dirige a vida dos homens através da história até ao dia do juízo final, momento em que será erradicado todo o mal do mundo.
Devido à importância da ação divina na história, os semitas ocuparam-se da historiografia desde há muitos milhares de anos. As raízes históricas estão no centro dos seus escritos religiosos.
Atualmente, Jerusalém continua a ser um centro religioso muito importante para judeus, cristãos e muçulmanos, o que demonstra a base histórica comum destas três religiões. Existem em Jerusalém importantes sinagogas (judeus), igrejas (cristãos) e mesquitas (muçulmanos).
Se a visão era importante para os indo-europeus, já para os semitas o sentido que se destaca é a audição. Não é por acaso que o acto de fé judaica começa com as palavras «Ouve, Israel!». No Antigo Testamento lê-se como os homens «ouviam» as palavras do Senhor, e os profetas judeus iniciavam as suas predições com a fórmula «Assim falou Jeová» (Deus). No cristianismo, também se dá importância a «ouvir» a palavra de Deus. As cerimónias religiosas hebraicas, cristãs e muçulmanas são caracterizadas sobretudo pela leitura em voz alta dos textos sagrados.
Se os indo-europeus faziam representações em esculturas e pinturas dos seus deuses, já para os semitas era proibido a representação de Deus ou de tudo o que fosse sagrado. Também no Antigo Testamento se afirma que os homens não podem criar nenhuma imagem de Deus. Esta norma ainda é válida para o islamismo e judaísmo. No islamismo, existe uma aversão geral pela fotografia e arte plástica em geral. Os homens não devem competir com Deus em «criar» algo.
Já a Igreja Cristã é rica em representações de Deus e Jesus, no que se denota a influência greco-romana.
Na Igreja Ortodoxa (Grécia e Rússia) ainda existe a proibição de criar imagens esculpidas, isto é, esculturas e crucifixos com cenas da história bíblica.
Contrariamente às religiões orientais, as três religiões ocidentais defendem uma separação entre Deus e a sua Criação. O fim não é a libertação da reencarnação, mas ser-se libertado do pecado e da culpa. Além disso, a vida religiosa baseia-se mais na oração, no sermão e na leitura da Bíblia do que na concentração e meditação.



Fontes
O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, Editorial Presença, Lisboa, 30ª edição, Maio 2011



Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...