27/09/2016

Os indo-europeus


Designa-se por indo-europeus todos os países e culturas onde se falam línguas indo-europeias. Pertencem a este grupo todas as línguas europeias, com exceção das línguas ugro-fínicas (lapão, finlandês, estónio e húngaro) e basco. A maior parte das línguas indianas e iranianas pertencem à família linguística indo-europeia.
Há cerca de quatro mil anos, os primeiros indo-europeus viviam provavelmente na região do mar Negro e do mar Cáspio. Pouco depois, essa tribos indo-europeias começaram a migrar para o sudeste, para os territórios que são atualmente o Irão e para a Índia; para o sudoeste, para os Grécia, Itália e Espanha; para o oeste, através da Europa Central, para Inglaterra e França; para o noroeste, Escandinávia; e para o norte, Europa do Leste e Rússia. Por toda a parte, os indo-europeus foram-se misturando com as culturas autoctónes, ainda que a religião e a língua indo-europeia acabassem por desempenhar um papel dominante.
Tanto os antigos escribas indianos védicos como a filosofia grega e até mesmo a mitologia de Snorri são linguísticamente aparentados. Daí poder falar-se de uma cultura indo-europeia.
A cultura indo-europeia era sobretudo caracterizada pela crença em diversos deuses, isto é, pelo politeísmo. Encontra-se em toda a área indo-europeia nomes de deuses, muitos termos religiosos importantes e expressões semelhantes. Por exemplo, os antigos hindus veneravam o deus Dyaus, em grego este deus chama-se Zeus, e em latim Júpiter (na realidade Iovpater, ou seja, «pai Iov»), e em antigo nórdico Tyr. Os nomes Dyaus, Zeus, Iov e Tyr são diferentes variantes da mesma palavra.
Os Vikings do norte da Europa veneravam deuses  a que chamavam ases. Este termo também é encontrado para «deuses» no conjunto do âmbito indo-europeu. Em antigo hindu (sânscrito), os deuses chamavam-se asura, em antigo persa daeva, em latim deus e em antigo nórdico tivurr.
No norte da Europa havia ainda um grupo próprio da divindade da fertilidade (por exemplo, Njörd, Freyr, Freyja). Estas divindades eram designadas vanes. Esta palavra é aparentada com o nome da deusa latina da fertilidade Vénus. Em sânscrito há o termo aparentado vani, que significa «prazer» ou «desejo».
Determinados mitos apresentam em toda a área indo-europeia um claro parentesco. Quando Snorri fala acerca dos antigos deuses nórdicos, alguns mitos fazem recordar mitos hindus que foram narrados dois ou três mil anos antes. Naturalmente, os mitos de Snorri estão relacionados com a natureza nórdica e as indianas com a natureza indiana. Mas muitos dos mitos apresentam um núcleo que aponta para uma origem comum. Este núcleo é claramente visível nos mitos sobre as poções da imortalidade e sobre a luta dos deuses contra as forças do caos.
Também são visíveis conexões no próprio pensamento das culturas indo-europeias. Uma semelhança reside no facto de conceberem o mundo como um combate eterno entre as forças do bem e as forças do mal, o que levou a que os indo-europeus procurassem predizer o futuro do mundo.
Pode-se afirmar que  não é por acaso que a filosofia grega nasceu justamente no âmbito da cultura indo-europeia. As mitologias indiana, grega e nórdica apresentam claros princípios de um pensamento filosófico ou «especulativo». Os indo-europeus procuravam ter conhecimento da evolução do mundo. Pode-se, inclusivamente, seguir em toda a área indo-europeia um termo preciso para «conhecimento» ou «saber» de cultura para cultura. Em sânscrito, este termo é vidya. Esta palavra é idêntica à grega idea que desempenha um papel importante na filosofia de Platão. Do latim, conhece-se a palavra video, que para os romanos significava simplesmente «ver». No inglês surgem as palavras wise e wisdom (sabedoria). No alemão, weise e Wissen; em norueguês, viten. Assim, a palavra norueguesa «viten» tem as mesmas raízes que a palavra indiana «vidya», a grega «idea» e a latina «video».
Pode-se, assim, concluir que a visão era o sentido mais importante para os indo-europeus. Entre os indianos, gregos, iranianos e germanos, a literatura é caracterizada por grandes visões cósmicas. Também era costume nas culturas indo-europeias produzir pinturas e esculturas dos deuses e dos acontecimentos mitológicos.
Finalmente, os indo-europeus tinham uma concepção cíclica da história. Isto é, para eles, a história decorre circularmente - ou em «em ciclos» - tal como as estações do ano alternam entre Verão e Inverno. Não há, assim, um verdadeiro começo nem um verdadeiro fim da história. Trata-se de civilizações diversas que nascem e perecem na alternância constante entre nascimento e morte.
Ambas as grandes religiões orientais - hinduísmo e budismo - são de origem indo-europeia. O mesmo é válido para a filosofia grega, e são visíveis claros paralelismos entre o hinduísmo e o budismo, por um lado e a filosofia grega, por outro. Ainda hoje o hinduísmo e o budismo estão fortemente influenciados pela reflexão filosófica.
É frequente colocar-se em evidência que no hinduísmo e no budismo o divino está presente em tudo (panteísmo) e que o homem pode alcançar a unidade com Deus através do conhecimento religioso, para o qual é necessário, geralmente, uma grande concentração e meditação. No Oriente, a passividade e o recolhimento são um ideal religioso. Na Grécia, era frequente pensar-se que o homem tinha de viver uma vida de ascese - ou retiro religioso - para libertar a sua alma. Alguns elementos da vida monástica medieval remontam a essas concepções do mundo grego-romano.
Em muitas culturas indo-europeias a crença na metempsicose era também muito importante; assim, no hinduísmo, o objetivo de cada crente é ser libertado um dia da migração das almas. E Platão também acreditava na migração das almas.


Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...