15/09/2016

Os epicuristas

Sócrates queria descobrir como é que o homem pode viver uma vida feliz. Os cínicos e estóicos afirmavam que para ser feliz, o homem deveria libertar-se do luxo material. Mas Sócrates também teve um discípulo que se chamava Aristipo. Para Aristipo, a finalidade da vida era obter o máximo prazer sensível. O supremo bem era o prazer e, o grande mal era a dor. Por isso, queria desenvolver uma arte de viver que evitasse todas as formas de dor . (O objetivo que norteava os cínicos e os estóicos era o de suportar todas as formas de dor).
Cerca do ano 300 a.C., Epicuro de Samos (341-270 a.C.) fundou em Atenas uma escola de filosofia. Desenvolveu a ética do prazer de Aristipo e combinou-a com a teoria atomista de Demócrito.
Julga-se que os epicuristas se juntavam num jardim, tendo sido, por isso, também designados de «filósofos do jardim». Diz-se que, por cima do portão do jardim estava escrito: «Estranho, aqui serás feliz. Aqui, o prazer é o bem supremo».
Epicuro esclareceu que o resultado agradável de uma ação tem de ser sempre confrontado com os seus eventuais efeitos secundários.
O filósofo pretendia confrontar um resultado agradável a curto prazo com um prazer maior, mais duradouro ou intenso a longo prazo. Contrariamente aos animais, defendia, o homem tem a possibilidade de planear a sua vida, tem a capacidade de fazer um «cálculo dos prazeres».
Mas Epicuro também sublinhava que «prazer» não era necessariamente o mesmo que «prazer físico» (por exemplo, também a amizade e a contemplação de uma obra de arte podem ser agradáveis). Uma condição para a fruição da vida seriam também os antigos ideais gregos como o autodomínio, a temperança e a serenidade, porque a concupiscência tem de ser refreada. Deste modo, a serenidade era um meio de ajudar a suportar a dor.
Os frequentadores do jardim de Epicuro, eram sobretudo homens atormentados com angústias de natureza religiosa. Neste sentido, a teoria atomista de Demócrito era um remédio útil contra a religião e a superstição. Para se obter uma vida feliz é importante superar o medo da morte, e neste sentido Epicuro recorria à teoria de Demócrito relativamente aos «átomos da alma» (Demócrito não acreditava na vida além da morte porque os «átomos da alma» se dispersavam em todas as direções).
«Porque é que haveríamos de ter medo da morte?», perguntava Epicuro, «Porque enquanto existimos, a morte não está aqui, e logo que ela vem, nós não existimos.»

O próprio Epicuro resumia a sua filosofia libertadora através daquilo a que designou de remédio quádruplo:

Não precisamos temer os deuses. Não precisamos de nos preocupar com a morte. É fácil atingir o bem. O mal suporta-se facilmente.

Na Grécia antiga, comparava-se muitas vezes a atividade do filósofo com a do médico. Segundo Epicuro, o homem deve munir-se de uma «farmácia portátil filosófica» que conteria os quatro ingredientes essenciais acima assinalados.
Contrariamente aos estóicos, os epicuristas interessavam-se pouco por política e pela sociedade. «Vive escondido!» era o conselho de Epicuro. Poder-se-á comparar o seu jardim com algumas comunidades atuais em que procuram um lugar  onde se possam refugiar para fugir à sociedade.
Após a morte de Epicuro, muitos epicuristas orientaram-se apenas no sentido de uma busca constante de prazeres. O seu mote passou a ser »Vive o momento!». O termo «epicurista» é hoje aplicado pejorativamente a uma pessoa que vive apenas para o prazer.




Fontes
O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, Editorial Presença, Lisboa, 30ª edição, Maio 2011


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«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...