13/09/2016

O Darwinismo, a Ciência e a Religião


"Aos olhos do público, religião e evolução parecem estar ligadas de forma que é raro encontrar noutros assuntos. Será interessante interrogarmo-nos sobre a origem e o significado dessa relação.
Até ao tempo de Isaac Newton a civilização ocidental possuía uma série de crenças simples, poderosas e largamente aceites que congregavam quase todos os membros  instruídos da sociedade. Eram as seguintes: Deus criara o mundo material de acordo com um plano divino. Os homens eram criaturas de espírito e carne, e só esta era mortal. O mundo fora criado para durar apenas um curto período e terminaria no Juízo Final. Em qualquer caso, o domínio espiritual era o único que realmente importava e constituía a fonte de toda a ordem na Terra. Consequentemente, a resolução definitiva de todas as disputas sobre causas e razões só era possível mediante argumentos teológicos. 
Neste aspecto, a civilização ocidental não se distingue das outras.Todas as civilizações pré-modernas tiveram teologias, nas quais seres ou forças de grande poder dão origem a toda a ordem aparente na Terra. Estas forças ou seres possuíam uma concepção racional, para dar sentido às estações, aos resultados da guerra, etc. Antes da ciência, a aprendizagem era dominada pela religião e os únicos homens instruídos  eram quase invariavelmente sacerdotes. Tal como as ideologias, as religiões apresentam uma imunidade notável à experiência e às provas. Se alguém persistir em apresentar provas ou argumentos que contradigam um artigo de fé, será perseguido como herético, em vez de ouvir louvores pela sua descoberta. A religião preocupa-se fundamentalmente com a autoridade e a fé, não com a dúvida e o saber. Por isso, constitui um dos elementos cruciais que ligam os componentes das civilizações, estabilizando os valores das sociedades.

Significado religioso da Física
Existe um mito popular segundo o qual a ascensão da Física moderna assinalou o fim do domínio da teologia cristã sobre o pensamento europeu. A condenação de Galileu à morte pelo seu trabalho como astrónomo tem sido vista como uma tentativa da Igreja Católica Romana para se proteger da invasão da ciência. Na realidade, Galileu era um cristão devoto que se incompatibilizou com os eruditos aristotélicos que exploravam o poder da Inquisição para destruir a sua abordagem empírica da Física.
O homem que corporizou o verdadeiro relacionamento entre a Física e o Cristianismo do seu tempo foi Isaac Newton. Ele foi o homem que sistematizou a mecânica desenvolvendo os utensílios conceptuais da física teórica e modelando a primeira cosmologia matemática. Toda a Europa estava deslumbrada com as suas proezas. Porém, Newton não era de modo algum inimigo da religião. Era profundamente dedicado a formas teológicas de pensamento e um adversário ardente dos ateus. Considerava que a ordem matemática era uma mera revelação do projecto de Deus, e não a prova de um universo materialista que podia passar sem Ele. Trabalhando nos bastidores da Royal Society, Newton empenhou-se na difusão da astroteologia, uma escola de pensamento que se dedicava a apresentar Deus como um geómetra, responsável pela precisão das relações matemáticas que estavam subjacentes às órbitas planetárias.

Significado religioso do Darwinismo
As ideias de Charles Darwin convenceram muitos de que Deus não tinha criado todos os seres vivos e que, ao invés, a génese da ordem viva seria explicável em termos de uma causação material e cega. O público em geral atribuía grande importância à questão da origem da nossa espécie poder ser explicada em termos materialistas. Estas ideias conduziram a muitas crises de fé e ao aviltamento de Darwin por alguns devotos. Ao contrário de Newton, Darwin tinha contra si a ordem estabelecida da Cristandade ocidental, especialmente depois de optar pelo ateísmo. E o trabalho de Darwinlevou à ulterior deposição do Cristianismo do centro do pensamento científico ocidental.
Talvez o ponto crucial que explica a grande importância do Darwinismo para a «teologia científica» seja o seguinte. A vida é simultaneamente bem organizada e diversa. A noção de que forças físicas simples pudessem tê-la produzido era simplesmente chocante para a mente racional anterior a Darwin. É natural que os pensadores ateus desenvolvessem teorias simples sobre a vida, baseadas em ideias físicas bastante grosseiras, e muitos fizeram-no antes do século XX. Mas aqueles que mais sabiam sobre biologia sentiam-se desconcertados devido à improbabilidade absoluta dessas forças produzirem toda a variedade conhecida de formas de vida, desde as baleias até às aves-do-paraíso, para não falar da diversidade incomensurável de animais invertebrados e de vida vegetal. Em concreto, a adequação primorosa de muitos componentes do corpo à preservação da vida era tida como a demonstração de um projecto omnipotente.
Poucas pessoas expressaram melhor estas ideias do que William Paley, que afirmava que ao descobrirmos um relógio na charneca, os seus mecanismos intricados sugerem que foi projectado por uma inteligência poderosa. Do mesmo modo, todos os maravilhosos dispositivos da vida, como os olhos, ouvidos e pés palmípedes, sugerem uma criação de uma inteligência poderosa, ou seja, Deus. Todo este estilo de pensamento culminou nos Tratados de Bridgewater (1833-36), composto por 12 volumes escritos por oito autores, que se dedicavam às manifestações da providência divina nas obras da criação.
Em vez de uma criação beneficiente, Darwin tornara possível uma génese puramente material para a vida, inclusive a do Homem, a espécie que costumava estar no centro das cosmologias religiosas.
Este foi o momento em que a ciência percebeu que era livre de atravessar as grades religiosas e partir em busca de uma explicação própria para o universo conhecido. Perante esta possibilidade, muitos cientistas, mas não todos, não hesitaram em aproveitá-la.

A retaliação Criacionista
A reação não se fez tardar, tem-se mantido desde então e hoje é mais conhecida por criacionismo. Trata-se de um movimento intelectualmente articulado com alguns advogados brilhantes. Não é um bando de descontentes iletrados, pois travam a sua guerra religiosa com determinação e subtileza. O seu alvo é a biologia evolutiva. Por esta razão, os biólogos evolucionistas costumam combater sozinhos os criacionistas, sem a ajuda de cientistas de outras disciplinas. Contudo, também o trabalho de físicos é posto em xeque pelo criacionismo. Se uma criatura omnipotente pode interferir nos eventos do universo conhecido, não há razão para supor que uma lei científica se mantenha válida. Na realidade, se se concluir que os processos  sob estudo científico estão sujeitos à intervenção divina, isso torna-os inadequados como objectos desse mesmo estudo.
Consideremos um caso concreto. Suponhamos que uma dada teoria de supercondutividade prevê que uma certa liga tem uma determinada resistência elétrica aos 10º K. Se essa resistência for medida num laboratório às 3 horas e 15 minutos de uma tarde de terça-feira e o resultado não for o previsto pela teoria, o criacionismo dirá, simplesmente, que Deus deve ter intervido para modificar a liga de forma a obter-se o resultado observado. A alternativa, que um não-criacionista deverá aceitar, é admitir que a teoria original estava errada.
Esta é a colisão essencial entre ciência e não-ciência. Na segunda há sempre espaço de manobra para evitar a aceitação de qualquer prova que evidencie erros da nossa parte ou das nossas ideias preferidas. É o que fazem os advogados no tribunal, os políticos em campanha e as crianças endiabradas de cinco anos. Enfrentar os erros e ser capaz de os superar e mudar de ideias são atitudes fundamentais em ciência. Se assim não fosse, todos os cientistas veriam a credibilidade do seu trabalho abalada por um criacionismo triunfante, que controlaria as escolas, universidades e entidades financiadoras governamentais. Quando os biólogos evolucionistas defendem o seu território  científico dos criacionistas, estão a defender toda a ciência."

Michael R. Rose, in O Espectro de Darwin

Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...