28/09/2016

Os semitas

Os semitas eram originários da península árabe, com uma cultura e língua completamente diferente das dos indo-europeus, como estes, expandiram-se por diversas regiões do globo. Esta cultura ficou marcada pelo afastamento dos judeus das suas raízes originárias, pelo surgimento do cristianismo e alcance de uma vasta área por se ter tornado a religião oficial romana no século IV e pela conquista de um grande território pelo islamismo.
As três religiões ocidentais - judaísmo, cristianismo e islamismo - têm uma base semítica. O Alcorão, o texto sagrado do islamismo, e o Antigo Testamento encontram-se escritos em línguas semíticas aparentadas. Uma das palavras do Antigo Testamento para «Deus» tem a mesma raiz linguística que o Alá dos muçulmanos (a palavra «Alá» significa simplesmente «Deus»).
O quadro do cristianismo já se mostra mais complicado. Esta religião também tem uma base semítica, mas o Novo Testamento foi escrito em grego, e quando a teologia cristã foi formulada, recebeu a influencia das línguas grega e latina, e consequentemente da filosofia grega.
Sabe-se que os indo-europeus eram politeístas, enquanto que os semitas adoptaram desde muito cedo ao monoteísmo. No judaísmo, no cristianismo e no islamismo a existência de um só Deus é uma ideia fundamental.
Uma outra característica semítica é a concepção linear da história (em contraste à concepção cíclica dos indo-europeus), o que significa que a história era vista linearmente. Deus criou o mundo, e nesse momento começou a história, que terminará no dia do «juízo final», quando Deus julgar os vivos e os mortos.
Uma característica importante das três grandes religiões ocidentais é precisamente o papel da história. Deus intervém na história e esta existe apenas para que Deus realize a sua vontade no mundo. Tal como outrora Deus conduziu Abraão à Terra Prometida, dirige a vida dos homens através da história até ao dia do juízo final, momento em que será erradicado todo o mal do mundo.
Devido à importância da ação divina na história, os semitas ocuparam-se da historiografia desde há muitos milhares de anos. As raízes históricas estão no centro dos seus escritos religiosos.
Atualmente, Jerusalém continua a ser um centro religioso muito importante para judeus, cristãos e muçulmanos, o que demonstra a base histórica comum destas três religiões. Existem em Jerusalém importantes sinagogas (judeus), igrejas (cristãos) e mesquitas (muçulmanos).
Se a visão era importante para os indo-europeus, já para os semitas o sentido que se destaca é a audição. Não é por acaso que o acto de fé judaica começa com as palavras «Ouve, Israel!». No Antigo Testamento lê-se como os homens «ouviam» as palavras do Senhor, e os profetas judeus iniciavam as suas predições com a fórmula «Assim falou Jeová» (Deus). No cristianismo, também se dá importância a «ouvir» a palavra de Deus. As cerimónias religiosas hebraicas, cristãs e muçulmanas são caracterizadas sobretudo pela leitura em voz alta dos textos sagrados.
Se os indo-europeus faziam representações em esculturas e pinturas dos seus deuses, já para os semitas era proibido a representação de Deus ou de tudo o que fosse sagrado. Também no Antigo Testamento se afirma que os homens não podem criar nenhuma imagem de Deus. Esta norma ainda é válida para o islamismo e judaísmo. No islamismo, existe uma aversão geral pela fotografia e arte plástica em geral. Os homens não devem competir com Deus em «criar» algo.
Já a Igreja Cristã é rica em representações de Deus e Jesus, no que se denota a influência greco-romana.
Na Igreja Ortodoxa (Grécia e Rússia) ainda existe a proibição de criar imagens esculpidas, isto é, esculturas e crucifixos com cenas da história bíblica.
Contrariamente às religiões orientais, as três religiões ocidentais defendem uma separação entre Deus e a sua Criação. O fim não é a libertação da reencarnação, mas ser-se libertado do pecado e da culpa. Além disso, a vida religiosa baseia-se mais na oração, no sermão e na leitura da Bíblia do que na concentração e meditação.



Fontes
O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, Editorial Presença, Lisboa, 30ª edição, Maio 2011



27/09/2016

Os indo-europeus


Designa-se por indo-europeus todos os países e culturas onde se falam línguas indo-europeias. Pertencem a este grupo todas as línguas europeias, com exceção das línguas ugro-fínicas (lapão, finlandês, estónio e húngaro) e basco. A maior parte das línguas indianas e iranianas pertencem à família linguística indo-europeia.
Há cerca de quatro mil anos, os primeiros indo-europeus viviam provavelmente na região do mar Negro e do mar Cáspio. Pouco depois, essa tribos indo-europeias começaram a migrar para o sudeste, para os territórios que são atualmente o Irão e para a Índia; para o sudoeste, para os Grécia, Itália e Espanha; para o oeste, através da Europa Central, para Inglaterra e França; para o noroeste, Escandinávia; e para o norte, Europa do Leste e Rússia. Por toda a parte, os indo-europeus foram-se misturando com as culturas autoctónes, ainda que a religião e a língua indo-europeia acabassem por desempenhar um papel dominante.
Tanto os antigos escribas indianos védicos como a filosofia grega e até mesmo a mitologia de Snorri são linguísticamente aparentados. Daí poder falar-se de uma cultura indo-europeia.
A cultura indo-europeia era sobretudo caracterizada pela crença em diversos deuses, isto é, pelo politeísmo. Encontra-se em toda a área indo-europeia nomes de deuses, muitos termos religiosos importantes e expressões semelhantes. Por exemplo, os antigos hindus veneravam o deus Dyaus, em grego este deus chama-se Zeus, e em latim Júpiter (na realidade Iovpater, ou seja, «pai Iov»), e em antigo nórdico Tyr. Os nomes Dyaus, Zeus, Iov e Tyr são diferentes variantes da mesma palavra.
Os Vikings do norte da Europa veneravam deuses  a que chamavam ases. Este termo também é encontrado para «deuses» no conjunto do âmbito indo-europeu. Em antigo hindu (sânscrito), os deuses chamavam-se asura, em antigo persa daeva, em latim deus e em antigo nórdico tivurr.
No norte da Europa havia ainda um grupo próprio da divindade da fertilidade (por exemplo, Njörd, Freyr, Freyja). Estas divindades eram designadas vanes. Esta palavra é aparentada com o nome da deusa latina da fertilidade Vénus. Em sânscrito há o termo aparentado vani, que significa «prazer» ou «desejo».
Determinados mitos apresentam em toda a área indo-europeia um claro parentesco. Quando Snorri fala acerca dos antigos deuses nórdicos, alguns mitos fazem recordar mitos hindus que foram narrados dois ou três mil anos antes. Naturalmente, os mitos de Snorri estão relacionados com a natureza nórdica e as indianas com a natureza indiana. Mas muitos dos mitos apresentam um núcleo que aponta para uma origem comum. Este núcleo é claramente visível nos mitos sobre as poções da imortalidade e sobre a luta dos deuses contra as forças do caos.
Também são visíveis conexões no próprio pensamento das culturas indo-europeias. Uma semelhança reside no facto de conceberem o mundo como um combate eterno entre as forças do bem e as forças do mal, o que levou a que os indo-europeus procurassem predizer o futuro do mundo.
Pode-se afirmar que  não é por acaso que a filosofia grega nasceu justamente no âmbito da cultura indo-europeia. As mitologias indiana, grega e nórdica apresentam claros princípios de um pensamento filosófico ou «especulativo». Os indo-europeus procuravam ter conhecimento da evolução do mundo. Pode-se, inclusivamente, seguir em toda a área indo-europeia um termo preciso para «conhecimento» ou «saber» de cultura para cultura. Em sânscrito, este termo é vidya. Esta palavra é idêntica à grega idea que desempenha um papel importante na filosofia de Platão. Do latim, conhece-se a palavra video, que para os romanos significava simplesmente «ver». No inglês surgem as palavras wise e wisdom (sabedoria). No alemão, weise e Wissen; em norueguês, viten. Assim, a palavra norueguesa «viten» tem as mesmas raízes que a palavra indiana «vidya», a grega «idea» e a latina «video».
Pode-se, assim, concluir que a visão era o sentido mais importante para os indo-europeus. Entre os indianos, gregos, iranianos e germanos, a literatura é caracterizada por grandes visões cósmicas. Também era costume nas culturas indo-europeias produzir pinturas e esculturas dos deuses e dos acontecimentos mitológicos.
Finalmente, os indo-europeus tinham uma concepção cíclica da história. Isto é, para eles, a história decorre circularmente - ou em «em ciclos» - tal como as estações do ano alternam entre Verão e Inverno. Não há, assim, um verdadeiro começo nem um verdadeiro fim da história. Trata-se de civilizações diversas que nascem e perecem na alternância constante entre nascimento e morte.
Ambas as grandes religiões orientais - hinduísmo e budismo - são de origem indo-europeia. O mesmo é válido para a filosofia grega, e são visíveis claros paralelismos entre o hinduísmo e o budismo, por um lado e a filosofia grega, por outro. Ainda hoje o hinduísmo e o budismo estão fortemente influenciados pela reflexão filosófica.
É frequente colocar-se em evidência que no hinduísmo e no budismo o divino está presente em tudo (panteísmo) e que o homem pode alcançar a unidade com Deus através do conhecimento religioso, para o qual é necessário, geralmente, uma grande concentração e meditação. No Oriente, a passividade e o recolhimento são um ideal religioso. Na Grécia, era frequente pensar-se que o homem tinha de viver uma vida de ascese - ou retiro religioso - para libertar a sua alma. Alguns elementos da vida monástica medieval remontam a essas concepções do mundo grego-romano.
Em muitas culturas indo-europeias a crença na metempsicose era também muito importante; assim, no hinduísmo, o objetivo de cada crente é ser libertado um dia da migração das almas. E Platão também acreditava na migração das almas.


20/09/2016

Ofertas ao chefe mochica


Não se conhece bem os povos pré-colombianos da América do Sul porque eles não tinham sistemas de escrita, mas sabe-se, através da arqueologia, que os membros de um desses grupos, o dos Mochicas, ou Moches, eram exímios ceramistas, tecelões, metalúrgicos e muralistas. Além disso, bebiam o sangue dos seus inimigos.
Os Mochicas, que viveram na costa norte do Peru desde a época de Cristo a 759 d.C, ergueram algumas das maiores estruturas de adobe jamais construídas. Contudo, são mais conhecidos pela sua cerâmica, muito diversificada e que representa objetos de uso quotidiano e animais, como jaguares e peixes. Algumas figuras são esqueletos; outras são representadas por desenhos de traços finos. 
A beleza da arte mochica pode ocultar o seu verdadeiro significado. O arqueólogo Cristopher Donan sugere que tal significado é essencialmente religioso e identificou um pequeno número de temas básicos nas peças de cerâmicas achadas até à data. Um deles, a que chamou tema de apresentação, aparece em muitos potes e murais. Este tema sugere que a civilização mochica foi construída sobre sacrifícios de sangue e que a justificação para as guerras era de cariz religioso. Nas representações pictóricas, individuos ricamente vestidos rodeiam um grande ser humano de capacete cónico, de cuja cabeça e ombros emanam raios. Um prisioneiro, nu, amarrado, é sangrado por um ser humano ou por uma figura felina antropomórfica, ou por ambos. Outra figura, semi-humana, semi-ave, apresenta ao chefe uma taça que se supõe conter o sangue da vítima. Também podem estar presentes guerreiros-raposas, aves e felinos e ainda cães e serpentes.
Os Mochicas e outros povos da América do Sul pré-colombiana não faziam distinção entre o mundo religioso e o secular. Para eles, uma taça nunca era apenas uma taça. Não há dúvida de que os recipientes achados nas suas sepulturas têm um significado religioso relacionado com a ingestão de sangue dos seus inimigos.
Ecos de tais crenças ainda se podem encontrar na atualidade nos Andes. Em certas cerimónias religiosas, os homens bebem sangue de animais para ter força. E também é crença geral que os xamãs podem usar certas partes do corpo de uma pessoa para lhe fazer mal.



16/09/2016

Misticismo

Uma experiência mística é uma experiência de unidade com Deus ou com o «mundo espiritual». Embora muitas religiões defendam que existe um abismo entre a Criação e Deus, o misticismo afirma que na realidade não existe, defendendo por sua vez uma «fusão com Deus».
Segundo estes  o «eu» não é o verdadeiro eu da pessoa, o homem pode ter a experiência de uma identificação com um eu maior. Alguns chamam-lhe Deus, outros «mundo espiritual», «natureza absoluta» ou «universo». Na fusão, o místico sente que «se perde a si mesmo», desaparece ou perde-se em Deus, tal como uma gota de água se perde quando se mistura no oceano. Segundo as palavras de um místico indiano: «Quando eu existia, Deus não existia. Agora, Deus existe e eu já não existo».
Numa experiência mística a pessoa perde-se quanto à forma que possui no momento, mas ao mesmo tempo compreende que na realidade é algo infinitamente maior. É todo o universo. É a alma do mundo. É Deus. O verdadeiro eu é, para os místicos, um fogo maravilhoso que arde eternamente.
Mas uma experiência mística deste género nem sempre vem por si mesma. Muitas vezes, o místico tem de percorrer uma via de purificação e de iluminação para poder encontrar Deus. Essa via consiste numa vida simples e na meditação.
Encontram-se em todas as religiões correntes místicas, e o que os diferentes místicos escrevem sobre as suas experiências apresenta uma semelhança notável, apesar das diferenças culturais. O ambiente cultural só se manifesta quando os místicos tentam dar uma interpretação religiosa ou filosófica ao acontecimento.
Na mística ocidental - no judaísmo, cristianismo e islamismo - o místico afirma sentir o encontro com um Deus pessoal. Apesar de Deus estar presente na natureza e na alma humana, está além deste mundo. Na mística oriental - no hinduísmo, budismo e religião chinesa - o místico experimenta uma fusão total com Deus ou com a «alma do mundo».
Antes de Platão, havia fortes correntes místicas, sobretudo na Índia. Swami Vivekananda que contribuiu para a difusão do hinduísmo no Ocidente, afirmou: «Tal como certas religiões do mundo afirmam  que um homem que não acredita num Deus pessoal transcendente é ateu, nós afirmamos que o homem que não acredita em si mesmo é ateu. Não acreditar na grandeza da própria alma é aquilo a que chamamos de ateísmo.
Homens que não pertençam a nenhuma religião também podem relatar experiências místicas. De repente vivem aquilo a que se chama de «consciência cósmica» ou «sentimento oceânico». Sentem-se arrancadas do tempo e vêem o mundo «do ponto de vista da perspectiva da eternidade».



O neoplatonismo

Os cínicos, os estóicos e os epicuristas tinham as suas bases filosóficas assentes na doutrina de Sócrates. Recorrendo, igualmente a filósofos pré-socráticos como Demócrito e Heraclito. No entanto, a corrente filosófica mais notável da Antiguidade tardia inspirou-se sobretudo na teoria das ideias de Platão, sendo por isso designada de «neoplatonismo».
O neoplatónico com maior realce foi Plotino (Licopólis, 205 - Egito, 270)autor de Enéadas, discípulo de Amónio Sacas por onze anos e mestre de Porfírio), que estudou filosofia em Alexandria, tendo-se transferido posteriormente para Roma. É de notar que Plotino vinha de Alexandria, cidade que era já há muitos séculos o grande ponto de encontro da filosofia grega e da mística oriental. Assim, o filósofo levou consigo para Roma uma doutrina de salvação que viria a tornar-se uma séria concorrente do cristianismo que começara a afirmar-se, acabando por exercer uma forte influência nesta jovem religião.
Platão distinguia o mundo inteligível do mundo sensível e, consequentemente, acabava por haver uma clara separação da alma do homem do seu corpo. Assim, o homem tornou-se um ser duplo: segundo Platão o corpo era constituído por terra e pó, tal como todas as coisas que pertencem ao mundo sensível, mas o homem possui igualmente uma alma imortal. Esta concepção do homem já estava muito difundida na Grécia antes de Platão. Plotino para além de conhecer a teoria platónica estava também muito familiarizado com as concepções asiáticas que se assemelhavam a esta corrente filosófica grega.
Plotino via o mundo separado em dois pólos. Num extremo estando a luz divina, que ele designava por Uno. Por vezes, chamava-lhe também Deus. No outro extremo reinava  a escuridão total que a luz do Uno não alcança. Mas para Plotino, essa escuridão não existe de facto. É apenas uma ausência de luz. A única coisa que existe é Deus ou o Uno, mas tal como uma fonte luminosa se perde progressivamente na escuridão, também existe um limite para o alcance dos raios divinos.
Para Plotino, a luz do Uno ilumina a alma, ao passo que a matéria é a escuridão que na realidade não existe. Mas as formas da natureza também possuem um fraco reflexo do Uno.
Pode-se imaginar uma fogueira numa noite escura, o que arde é Deus - e a escuridão exterior é a matéria gelada de que os homens e os homens são feitos. Junto de Deus estão as ideias eternas que são os arquétipos de todas as criaturas. A alma humana é sobretudo uma «centelha de fogo». Mas em toda a natureza brilha um pouco dessa luz divina. É possível observá-la em todos os seres vivos, inclusivamente uma rosa ou um jacinto têm esse reflexo divino. A terra, a água e as pedras são o que se encontra mais afastado de Deus.
Em tudo existe algo do mistério divino, no entanto o homem está mais próximo de Deus na sua alma, só aí é possível a união com o mistério da vida.
As imagens usadas por Plotino lembram a alegoria da caverna de Platão. Quanto mais se se aproxima da  entrada da caverna, mais se aproxima da origem de tudo o que existe. Mas, ao contrário da clara bipartição da realidade de Platão, o pensamento de Plotino denota uma experiência do todo. Tudo é Uno - porque tudo é Deus. Mesmo as sombras na caverna de Platão são um fraco reflexo no Uno.
Plotino experimentou algumas vezes na vida a fusão da sua alma com Deus (experiência mística).



15/09/2016

Os epicuristas

Sócrates queria descobrir como é que o homem pode viver uma vida feliz. Os cínicos e estóicos afirmavam que para ser feliz, o homem deveria libertar-se do luxo material. Mas Sócrates também teve um discípulo que se chamava Aristipo. Para Aristipo, a finalidade da vida era obter o máximo prazer sensível. O supremo bem era o prazer e, o grande mal era a dor. Por isso, queria desenvolver uma arte de viver que evitasse todas as formas de dor . (O objetivo que norteava os cínicos e os estóicos era o de suportar todas as formas de dor).
Cerca do ano 300 a.C., Epicuro de Samos (341-270 a.C.) fundou em Atenas uma escola de filosofia. Desenvolveu a ética do prazer de Aristipo e combinou-a com a teoria atomista de Demócrito.
Julga-se que os epicuristas se juntavam num jardim, tendo sido, por isso, também designados de «filósofos do jardim». Diz-se que, por cima do portão do jardim estava escrito: «Estranho, aqui serás feliz. Aqui, o prazer é o bem supremo».
Epicuro esclareceu que o resultado agradável de uma ação tem de ser sempre confrontado com os seus eventuais efeitos secundários.
O filósofo pretendia confrontar um resultado agradável a curto prazo com um prazer maior, mais duradouro ou intenso a longo prazo. Contrariamente aos animais, defendia, o homem tem a possibilidade de planear a sua vida, tem a capacidade de fazer um «cálculo dos prazeres».
Mas Epicuro também sublinhava que «prazer» não era necessariamente o mesmo que «prazer físico» (por exemplo, também a amizade e a contemplação de uma obra de arte podem ser agradáveis). Uma condição para a fruição da vida seriam também os antigos ideais gregos como o autodomínio, a temperança e a serenidade, porque a concupiscência tem de ser refreada. Deste modo, a serenidade era um meio de ajudar a suportar a dor.
Os frequentadores do jardim de Epicuro, eram sobretudo homens atormentados com angústias de natureza religiosa. Neste sentido, a teoria atomista de Demócrito era um remédio útil contra a religião e a superstição. Para se obter uma vida feliz é importante superar o medo da morte, e neste sentido Epicuro recorria à teoria de Demócrito relativamente aos «átomos da alma» (Demócrito não acreditava na vida além da morte porque os «átomos da alma» se dispersavam em todas as direções).
«Porque é que haveríamos de ter medo da morte?», perguntava Epicuro, «Porque enquanto existimos, a morte não está aqui, e logo que ela vem, nós não existimos.»

O próprio Epicuro resumia a sua filosofia libertadora através daquilo a que designou de remédio quádruplo:

Não precisamos temer os deuses. Não precisamos de nos preocupar com a morte. É fácil atingir o bem. O mal suporta-se facilmente.

Na Grécia antiga, comparava-se muitas vezes a atividade do filósofo com a do médico. Segundo Epicuro, o homem deve munir-se de uma «farmácia portátil filosófica» que conteria os quatro ingredientes essenciais acima assinalados.
Contrariamente aos estóicos, os epicuristas interessavam-se pouco por política e pela sociedade. «Vive escondido!» era o conselho de Epicuro. Poder-se-á comparar o seu jardim com algumas comunidades atuais em que procuram um lugar  onde se possam refugiar para fugir à sociedade.
Após a morte de Epicuro, muitos epicuristas orientaram-se apenas no sentido de uma busca constante de prazeres. O seu mote passou a ser »Vive o momento!». O termo «epicurista» é hoje aplicado pejorativamente a uma pessoa que vive apenas para o prazer.




Fontes
O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, Editorial Presença, Lisboa, 30ª edição, Maio 2011


14/09/2016

Os estóicos

O estoicismo foi fundado por Zenão de Cítio (334 - 262 a.C.) que, oriundo de Chipre, se veio a juntar aos cínicos de Atenas, após um naufrágio, no início do século III a.C. 
O nome estóico vem do termo grego que designa «pórtico» (stoa), por Zenão juntar os seus ouvintes num pórtico. O estoicismo viria, posteriormente a adquirir uma grande influência e importância para a cultura romana.
Os estóicos ensinavam que as emoções destrutivas eram resultantes de erros de julgamento, a relação ativa entre determinismo cósmico e liberdade humana e a crença de que é virtuoso manter uma vontade (prohairesis) que está de acordo com a natureza. Assim, apresentaram uma filosofia como um modo de vida e defendiam que a melhor indicação da filosofia de um indivíduo não era o que uma pessoa diz mas como essa pessoa se comporta. Para se viver uma boa vida, era preciso entender as regras da ordem natural, uma vez que ensinavam que tudo estava enraizado na natureza.
Tal como Heraclito, os estóicos achavam que todos os homens participavam da mesma razão universal - ou do mesmo logos. Para os estóicos, cada homem era um mundo em miniatura, um «microcosmos» que refletia o «macrocosmos».
Esta teoria levou à convicção de um direito universalmente válido, o direito natural. O direito natural baseia-se na razão intemporal do homem e do universo, por isso não se altera no tempo e no espaço. Neste aspeto, os estóicos tomavam o partido de Sócrates contra os sofistas.
O direito natural é válido para todos os homens, inclusivamente para os escravos. As leis dos diversos Estados era para os estóicos cópias imperfeitas de um direito que se baseava na própria natureza.
Assim como os estóicos aboliam a diferença entre o indivíduo e o universo, também contestavam uma oposição entre «espírito» e «matéria». Segundo esta escola, há apenas uma natureza. A esta concepção dá-se a denominação de monismo (ao contrário de, por exemplo, do flagrante dualismo de Platão, a bipolarização da realidade).
Como verdadeiros filhos do seu tempo, os estóicos eram cosmopolitas («cidadãos do mundo»). Estavam portanto mais abertos à cultura contemporânea do que os «filósofos do tonel» (os cínicos). Segundo eles, a comunidade dos homens devia interessar-se por política, e muitos estóicos foram estadistas ativos, como, por exemplo, o imperador romano Marco Aurélio (121-180 d.C.). Contribuíram para que a cultura e filosofia gregas fossem difundidas em Roma sobretudo graças ao orador, filósofo e político Cícero (106-43 a.C.), que criou o conceito de humanismo, ou seja, uma concepção do mundo que tem o individuo como centro. O estóico Séneca (4 a.C. - 65 d.C.) disse alguns anos mais tarde que o homem era sagrado para o homem, afirmação que se tornaria o mote de todo o humanismo.
Os estóicos também sublinharam que todos os processos naturais - por exemplo, a vida e a morte - seguiam as leis constantes da natureza. Por isso, o homem tem de se reconciliar com o seu destino. Segundo estes, nada acontece por acaso. Tudo acontece por necessidade e de pouco serve a lamentação quando o destino bate à porta. Mesmo as situações felizes da vida devem ser aceites com uma grande serenidade. Esta posição é semelhante à dos cínicos, para quem todas as coisas exteriores do mundo eram indiferentes. Ainda hoje se fala de uma «serenidade estóica», quando alguém não se deixa arrebatar pelos sentimentos.

O estoicismo era caracterizado pelos seguintes pontos:
  • Virtude é o único bem e caminho para a felicidade;
  • Indivíduo deve negar os sentimentos externos;
  • O prazer é um inimigo do homem sábio;
  • Universo governado por uma razão universal natural;
  • Valorização da apatia (indiferença);


Fontes
O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, Editorial Presença, Lisboa, 30ª edição, Maio 2011
https://pt.wikipedia.org/wiki/Estoicismo



13/09/2016

O Darwinismo, a Ciência e a Religião


"Aos olhos do público, religião e evolução parecem estar ligadas de forma que é raro encontrar noutros assuntos. Será interessante interrogarmo-nos sobre a origem e o significado dessa relação.
Até ao tempo de Isaac Newton a civilização ocidental possuía uma série de crenças simples, poderosas e largamente aceites que congregavam quase todos os membros  instruídos da sociedade. Eram as seguintes: Deus criara o mundo material de acordo com um plano divino. Os homens eram criaturas de espírito e carne, e só esta era mortal. O mundo fora criado para durar apenas um curto período e terminaria no Juízo Final. Em qualquer caso, o domínio espiritual era o único que realmente importava e constituía a fonte de toda a ordem na Terra. Consequentemente, a resolução definitiva de todas as disputas sobre causas e razões só era possível mediante argumentos teológicos. 
Neste aspecto, a civilização ocidental não se distingue das outras.Todas as civilizações pré-modernas tiveram teologias, nas quais seres ou forças de grande poder dão origem a toda a ordem aparente na Terra. Estas forças ou seres possuíam uma concepção racional, para dar sentido às estações, aos resultados da guerra, etc. Antes da ciência, a aprendizagem era dominada pela religião e os únicos homens instruídos  eram quase invariavelmente sacerdotes. Tal como as ideologias, as religiões apresentam uma imunidade notável à experiência e às provas. Se alguém persistir em apresentar provas ou argumentos que contradigam um artigo de fé, será perseguido como herético, em vez de ouvir louvores pela sua descoberta. A religião preocupa-se fundamentalmente com a autoridade e a fé, não com a dúvida e o saber. Por isso, constitui um dos elementos cruciais que ligam os componentes das civilizações, estabilizando os valores das sociedades.

Significado religioso da Física
Existe um mito popular segundo o qual a ascensão da Física moderna assinalou o fim do domínio da teologia cristã sobre o pensamento europeu. A condenação de Galileu à morte pelo seu trabalho como astrónomo tem sido vista como uma tentativa da Igreja Católica Romana para se proteger da invasão da ciência. Na realidade, Galileu era um cristão devoto que se incompatibilizou com os eruditos aristotélicos que exploravam o poder da Inquisição para destruir a sua abordagem empírica da Física.
O homem que corporizou o verdadeiro relacionamento entre a Física e o Cristianismo do seu tempo foi Isaac Newton. Ele foi o homem que sistematizou a mecânica desenvolvendo os utensílios conceptuais da física teórica e modelando a primeira cosmologia matemática. Toda a Europa estava deslumbrada com as suas proezas. Porém, Newton não era de modo algum inimigo da religião. Era profundamente dedicado a formas teológicas de pensamento e um adversário ardente dos ateus. Considerava que a ordem matemática era uma mera revelação do projecto de Deus, e não a prova de um universo materialista que podia passar sem Ele. Trabalhando nos bastidores da Royal Society, Newton empenhou-se na difusão da astroteologia, uma escola de pensamento que se dedicava a apresentar Deus como um geómetra, responsável pela precisão das relações matemáticas que estavam subjacentes às órbitas planetárias.

Significado religioso do Darwinismo
As ideias de Charles Darwin convenceram muitos de que Deus não tinha criado todos os seres vivos e que, ao invés, a génese da ordem viva seria explicável em termos de uma causação material e cega. O público em geral atribuía grande importância à questão da origem da nossa espécie poder ser explicada em termos materialistas. Estas ideias conduziram a muitas crises de fé e ao aviltamento de Darwin por alguns devotos. Ao contrário de Newton, Darwin tinha contra si a ordem estabelecida da Cristandade ocidental, especialmente depois de optar pelo ateísmo. E o trabalho de Darwinlevou à ulterior deposição do Cristianismo do centro do pensamento científico ocidental.
Talvez o ponto crucial que explica a grande importância do Darwinismo para a «teologia científica» seja o seguinte. A vida é simultaneamente bem organizada e diversa. A noção de que forças físicas simples pudessem tê-la produzido era simplesmente chocante para a mente racional anterior a Darwin. É natural que os pensadores ateus desenvolvessem teorias simples sobre a vida, baseadas em ideias físicas bastante grosseiras, e muitos fizeram-no antes do século XX. Mas aqueles que mais sabiam sobre biologia sentiam-se desconcertados devido à improbabilidade absoluta dessas forças produzirem toda a variedade conhecida de formas de vida, desde as baleias até às aves-do-paraíso, para não falar da diversidade incomensurável de animais invertebrados e de vida vegetal. Em concreto, a adequação primorosa de muitos componentes do corpo à preservação da vida era tida como a demonstração de um projecto omnipotente.
Poucas pessoas expressaram melhor estas ideias do que William Paley, que afirmava que ao descobrirmos um relógio na charneca, os seus mecanismos intricados sugerem que foi projectado por uma inteligência poderosa. Do mesmo modo, todos os maravilhosos dispositivos da vida, como os olhos, ouvidos e pés palmípedes, sugerem uma criação de uma inteligência poderosa, ou seja, Deus. Todo este estilo de pensamento culminou nos Tratados de Bridgewater (1833-36), composto por 12 volumes escritos por oito autores, que se dedicavam às manifestações da providência divina nas obras da criação.
Em vez de uma criação beneficiente, Darwin tornara possível uma génese puramente material para a vida, inclusive a do Homem, a espécie que costumava estar no centro das cosmologias religiosas.
Este foi o momento em que a ciência percebeu que era livre de atravessar as grades religiosas e partir em busca de uma explicação própria para o universo conhecido. Perante esta possibilidade, muitos cientistas, mas não todos, não hesitaram em aproveitá-la.

A retaliação Criacionista
A reação não se fez tardar, tem-se mantido desde então e hoje é mais conhecida por criacionismo. Trata-se de um movimento intelectualmente articulado com alguns advogados brilhantes. Não é um bando de descontentes iletrados, pois travam a sua guerra religiosa com determinação e subtileza. O seu alvo é a biologia evolutiva. Por esta razão, os biólogos evolucionistas costumam combater sozinhos os criacionistas, sem a ajuda de cientistas de outras disciplinas. Contudo, também o trabalho de físicos é posto em xeque pelo criacionismo. Se uma criatura omnipotente pode interferir nos eventos do universo conhecido, não há razão para supor que uma lei científica se mantenha válida. Na realidade, se se concluir que os processos  sob estudo científico estão sujeitos à intervenção divina, isso torna-os inadequados como objectos desse mesmo estudo.
Consideremos um caso concreto. Suponhamos que uma dada teoria de supercondutividade prevê que uma certa liga tem uma determinada resistência elétrica aos 10º K. Se essa resistência for medida num laboratório às 3 horas e 15 minutos de uma tarde de terça-feira e o resultado não for o previsto pela teoria, o criacionismo dirá, simplesmente, que Deus deve ter intervido para modificar a liga de forma a obter-se o resultado observado. A alternativa, que um não-criacionista deverá aceitar, é admitir que a teoria original estava errada.
Esta é a colisão essencial entre ciência e não-ciência. Na segunda há sempre espaço de manobra para evitar a aceitação de qualquer prova que evidencie erros da nossa parte ou das nossas ideias preferidas. É o que fazem os advogados no tribunal, os políticos em campanha e as crianças endiabradas de cinco anos. Enfrentar os erros e ser capaz de os superar e mudar de ideias são atitudes fundamentais em ciência. Se assim não fosse, todos os cientistas veriam a credibilidade do seu trabalho abalada por um criacionismo triunfante, que controlaria as escolas, universidades e entidades financiadoras governamentais. Quando os biólogos evolucionistas defendem o seu território  científico dos criacionistas, estão a defender toda a ciência."

Michael R. Rose, in O Espectro de Darwin

12/09/2016

Sistemas de crenças no mundo (II)


Religião da Roma Antiga
Na Roma antiga, cada divindade era responsável por um aspecto da vida quotidiana e eram-lhe oferecidas preces e súplicas, de acordo com a condição social e a necessidade. A adoração podia ocorrer em casa, no santuário privado ou num lugar sagrado, num templo ou, em dias festivos, num estádio nacional. Deste modo, os deuses eram "profissionais", o que facilitava a incorporação de divindades estrangeiras no panteão.

Religião do Egito Antigo
A história do Egito antigo estende-se ao longo de mais de dois milénios (3000 a.C - 300 a.C.). Na religião egípcia, houve um determinado número de elementos que se mantiveram constantes, mas aos quais frequentemente se atribuíram nomes diferentes, em épocas diversas: uma história da criação, que envolve o céu, a Terra e o ar que circula entre eles; o deus Sol; a luta dualista entre o bom deus Hórus e a deusa Set, por vezes menos virtuosa; a deusa-mãe; e a vida depois da morte. As divindades personificavam frequentemente animais, muitos eram específicos de determinada região ou cidade. O faraó recebeu o estatuto divino desde muito cedo. A religião era controlada pela classe sacerdotal, poderosa e rica.

Religião Maia
Os Maias (300-900) constituíam uma civilização agrícola que habitava a América Central, sendo o milho a sua principal cultura. Assim, a concentração da religião distribuía-se parcialmente por um deus do milho e outras divindades responsáveis pelas boas colheitas e entre deuses inimigos dos humanos e do seu bem como, por exemplo, aqueles que traziam as enchentes. Os rituais (onde se incluíam sacrifícios), tanto os dedicados às divindades benevolentes como às malignas, revestiam-se de complexidade. Os poderosos sacerdotes maias eram astrónomos de grande capacidade e efetuaram intrincados cálculos de calendarização. 

Religião Suméria
Condicentes com a fé de uma civilização antiquíssima (3000 - 2550 a.C.), a maioria das convicções religiosas dos Sumérios dirigia-se para a segurança geral e bem-estar quotidiano - as principais divindades eram as das forças naturais  (dos elementos), da agricultura e da fertilidade doméstica e ainda da vitória na guerra. Construíram grandes templos e torres para abrigar os adoradores e os seus rituais, conquanto as divindades tutelares pudessem variar nas diferentes cidades-estado. Que os adoradores acreditavam que até os seus maiores reis estavam sujeitos à vontade divina, torna-se evidente a partir da figura do lendário Gilgamesh, cujas tentativas para encontrar a imortalidade foram frustradas pelos deuses.

Religião Védica
Os arianos, que invadiram a Índia durante o segundo milénio a.C., levaram consigo os Vedas, os seus textos sagrados - uma vasta compilação, em sânscrito de filosofia e liturgia, na sua maior parte em verso. Uma grande parte refere mitos da criação, caracterizando alguns dos deuses que conservam a sua importância no moderno Hinduísmo e outros que se desvaneceram numa relativa obscuridades - como Indra, Agni e Varuna. As histórias estão muito relacionadas com as dificuldades físicas e militares da invasão ariana, mas os Vedas continuam a ser sagrados para os hindus, constituindo a base histórica das suas convicções.

Religiões Africanas (Nativas)
As religiões existentes em África e que não foram introduzidas por missionários islâmicos ou cristãos são, na generalidade, animistas, isto é, apercebem-se da presença de seres espirituais em certos pontos do terreno e noutras configurações naturais, conquanto algumas tribos reconheçam divindades de ordem mais elevada. Muitos dependem da meditação de um xamã ou pessoa santa, capaz de, em estado de transe, se deslocar ao mundo espiritual em busca de soluções para problemas correntes. Muitas tribos possuem o seu próprio mito da criação que, frequentemente, representa uma enorme serpente primordial.

Religiões Nativas Norte-Americanas
Claramente constantes entre centenas de tradições coincidentes são: a reverência para com um Grande Espírito; os pássaros do trovão - pássaros gigantescos, cujo adejar de asas produz a trovoada e a chuva e que, no entanto, são benévolos; um Mundo Inferior, que é basicamente malévolo, mas a partir do qual nascem as ervas e as plantas; os essenciais espíritos dos animais, das aves e das principais plantas, que podem corresponder  aos tótemes pessoais ou tribais; e os espíritos ancestrais da tribo. O ritual  religioso é principalmente comunal (envolvendo o canto e a dança), mas, para determinadas cerimónias ou adivinhações, pode ser desempenhado por um xamã ou uma feiticeira.

Sikhismo
Fundado na Índia pelo Guru Nanak, no século XV, o Sikhismo centra-se na convicção de um Deus transcendente que impregna o mundo que criou. Através de encarnações sucessivas - durante as quais os conceitos orientadores devem ser o trabalho, a adoração e a caridade - a alma humana pode progredir para a libertação final e volver-se verdadeiramente centrada em Deus (gurmukh), pela graça de Deus, que é considerado o derradeiro Guru (professor). Religião comunal, o Sikhismo requer uma iniciação formal à fé e um ritual diário de adoração e obrigações, embora o sacerdócio não exista como tal.

Sufismo
O Sufismo é um movimento islâmico profundamente asceta, popularizado no século XII. Com uma organização equivalente à das ordens monásticas, cada uma possui a sua própria forma de adoração extática que, geralmente, está dependente da repetição de uma palavra ou frase (como o nome de Alá) ou de uma atividade que possua as mesmas conotações (como o rodopio dos dervixes Mevlevi). Na atualidade, algumas dessas ordens consentiram na participação da congregação.

Tantrismo
Tantra, ou Tantrismo, é a utilização de determinadas práticas esotéricas - formas de meditação, incluindo o yoga - para se atingir um estado de êxtase espiritual e físico. Aplicado a algumas confissões do Hinduísmo e do Budismo, o Tantrismo caracteriza yantras (diagramas místicos) e mantras (repetições místicas ou fórmulas). O Tantra hindu pode envolver a relação sexual como meio de alcançar a iluminação. Normalmente, o Tantrismo budista estipula a presença de um guru (instrutor).

Taoísmo
O princípio mais elevado subjacente ao Taoísmo (ou Daoísmo) é a existência de uma unidade por detrás da multiplicidade visível do mundo, uma ligação entre os assuntos humanos e os acontecimentos da natureza e um equilíbrio e harmonia gerais nos ciclos da vida. As convicções centrais do Taoísmo estão expressas no Tao Te Ching, livro que se pensa ter sido escrito por Lao Tsé, no século V ou VI a.C. Seguindo o Tao, ou Caminho, o devoto pode procurar a satisfação espiritual através da experiência da unidade com o mundo natural. O ideal doísta é wu wei, ou não-agir, um estado de contemplação sem qualquer intenção de resultado.

Vodu
Sendo basicamente uma forma de Xamanismo, o Vodu combina elementos das religiões africanas e cristã com o animismo - nos seus deuses incluem-se divindades da África Ocidental, santos cristãos, os espíritos das forças naturais e os dos ancestrais. O Vodu é predominante no Haiti e nas Índias Ocidentais, conquanto ocorram práticas semelhantes em algumas zonas das modernas América do Norte e do Sul. Em quase todas as cerimónias Vodu - depois de obtida a necessária permissão de Legha, o "deus da porta" - o xamã e um ou mais adoradores entram em transe e são possuídos por um dos deuses, assumindo as características da divindade.

Xamanismo
É uma forma de ritual religioso - praticado principalmente pelos que professam crenças animistas ou totémicas - na qual o xamã, normalmente um homem, entra em estado de transe e viaja até ao mundo espiritual. O seu objetivo poderá ser a súplica por um benefício mundano (como um filho, uma cura, uma boa colheita ou a chuva) para aplacar ou pacificar um espírito classificado como zangado ou maligno, ou descobrir o culpado de um crime ou dano , principalmente no caso de uma morte súbita. A Europa e a Antártictida são os únicos continentes nos quais os xamãs não têm uma prática regular.

Xintoísmo
Xintoísmo - o "caminho dos deuses" (kami) - é a antiga religião indígena do Japão e os seus dogmas regem a sociedade nipónica e todos os seus costumes. Centraliza-se na convicção de que os kami, que são essencialmente espíritos, tanto quanto os deuses, ocupam e controlam todos os aspetos e trabalhos da natureza no mundo. Antes de fazerem a sua súplica ou oferenda ritual os adoradores que se dirigem aos inúmeros santuários espalhados por todo o Japão batem as palmas uma ou duas vezes para atrair a atenção dos kami que estão presentes. Alguns rituais xintoístas podem ser praticados em casa, outros constituem festivais nacionais. A partir do século XIX surgiram várias seitas xintoístas e, atualmente, algumas têm as suas próprias comunidades, vastas e organizadas.

Zoroatrismo
Na Pérsia (atual Irão), no ano 1000 a.C., o filosofo religioso Zoroastro (Zaratustra) criou um novo sistema de fé a partir de elementos religiosos do seu tempo. Uma das mais antigas instâncias do monoteísmo, a nova religião era, por natureza, dualista, colocando o grande deus criador Ahura Mazda contra o diabólico Espírito Hostil Angra Mainyu, que, no final dos tempos, acabaria por ser vencido. O Zoroatrismo conta, ainda hoje, com alguns seguidores. É uma religião comunal, na qual o sacerdote é hereditário, requer preces comunais diárias; outros ritos decorrem em casa, podendo também ser solenizado num templo, o que lhes confere uma emoção mais sagrada e ardente.



Bibliografia
A Linguagem do Espírito, Jane Hope, Editorial Estampa.



11/09/2016

Sistemas de crenças do mundo (I)


Alquimia
A alquimia, originária do Egito e da Grécia da Antiguidade, alia a química e a astrologia não só ao maravilhoso meio físico que transforma os metais-base em ouro, mas também do seu equivalente metafísico que, segundo se crê, revelará os segredos do universo.

Budismo Zen
O Zen é uma tradição monástica do Budismo, que entrou no Japão, oriundo da China, no século XII. Enfatiza a experiência pessoal da iluminação através da meditação e uma vida simples, próxima da natureza. No Japão, existem duas correntes Zen primordiais: o Rinzai Zen, que busca uma iluminação súbita e espontânea (muitas vezes através de uma koan, ou enigma, posto pelo professor); e o Soto Zen, no qual a aquisição da iluminação constitui um processo mais gradual, através do zazen, ou "sessão de meditação".

Budismo
O objetivo do budismo é a iluminação - libertação das amarras físicas e mentais do mundo e do ciclo reencarnatório, através do qual um espírito nasce numa sucessão de corpos diferentes, de modo a, num futuro mais ou menos longínquo, se poder fundir com a entidade infinita que é o Ser Supremo. A primeira pessoa a atingir a iluminação foi Sidhartha Gautama, conhecido por Buda, facto ocorrido na Índia há 2500 anos, tendo sido ele quem estabeleceu os meios pelos quais se poderá atingir a iluminação: as Quatro Verdades Nobres e o Caminho Octogonal. A forma original da religião é conhecido pelo nome de Theravada; a feição mais evoluída e liberal , que recebeu o nome de Mahayana e inclui a noção de bodhisattva, pode atrasar o alcance do estágio final da iluminação, de modo a inspirar outros. No Tibete e no Japão são normais outras formas de Budismo. Este requer uma considerável autodisciplina e ascetismo e, até certo ponto, tem tanto de filosofia ou norma de vida como de religião.

Confucionismo
O Confucionismo é uma filosofia de altruísmo, pela qual se exige às pessoas detentoras de autoridade que lutem pela felicidade e bem estar daqueles que estão sob a sua responsabilidade, sendo o resultado final a aspiração à perfeição "celestial". Deste modo, após a sua instituição por Confúcio (Kong Fu Zi), século VI a.C. e ao longo de alguns milénios, o Confucionismo contribuiu inquestionavelmente para a ordem social e política da China.

Crenças Aborígenes Australianas
O fundamento de todos os povos aborígenes é o conceito do Sonho ou do Momento do Sonho - a ocasião em que os Heróis do Céu, ou espíritos ancestrais, formaram o mundo e tudo o que nele existe. Os pontos em que estes espíritos deixaram as suas marcas, em aspetos inusitados do terreno local, constituem as pistas do Sonho ou "linhas canoras". É nas localizações destas linhas canoras, ou através da ligação espiritual  com elas, que os aborígenes podem participar ritualmente no Momento do Sonho, especialmente em relação ao espírito ou animal que constitui o totem tribal. Presta-se grande reverência a estes lugares sagrados, dos quais o mais conhecido é, provavelmente, Uluru (Ayers Rocks), na região ocidental. O uso que os aborígenes fazem da simbologia religiosa pode ser verificado através dos seus complexos trabalhos de arte e das pinturas corporais.

Crenças Celtas
Nunca existiu uma única crença celta: os grupos celtas (a partir de 3000 a.C.) reverenciavam as suas várias divindades numa base estritamente local e ancestral, com rituais apropriados. Contudo, existiam determinados elementos que eram constantes. Por exemplo, todos os celtas acreditavam na vida após a morte; muitos dos deuses e deusas celtas tinham uma natureza tríplice ou trina e verificava-se uma invulgarmente elevada proporção de divindades femininas. Muitas delas detinham uma ligação intima com as forças da natureza ou com a violência da guerra. Outro  elemento era o fascínio pelo mágico, especialmente em associação com localizações lendárias.

Crenças da Polinésia
Grande parte da mitologia da Polinésia (incluídas as lendas da Nova Zelândia e do Havai) concentra-se num relato da criação  efectuada pelo Céu e pela Terra que, entre produziram os deuses que, por sua vez, criaram a primeira mulher e o primeiro homem. Este poder criador é conhecido por mana, termo igualmente aplicável ao poder social e à influência, que põe em confronto a condição, na sociedade humana - um conceito que ainda tem importância, uma vez que se espera que os de alta estirpe permaneçam ritualmente puros e evitem tudo o que seja tapu (tabu).

Crenças do Período Neolítico 
As culturas neolíticas (8000 a 3000 a.C) assistiram ao advento da agricultura e estabeleceram comunidades. No início desta época, a sociedade seria provavelmente matriarcal e as principais divindades eram, consequentemente, femininas - a deusa mãe, a deusa do Sol e a deusa do fogo - com referência particular à fertilidade sazonal da natureza e da regularidade dos ciclos do corpo humano feminino. Quando se tornou necessária a defesa armada da comunidade estabelecida, observou-se, na maioria das sociedades, a mudança de polaridade do sexo dominante, tanto nos chefes da comunidade como nas divindades.

Crenças Nórdicas
O panteão nórdico dos Vikings (século IX-X) é constituído por figuras de carácter robusto, adequadas às suas histórias, e não por entidades religiosas. Representam deificações das forças naturais, dos lendários fundadores das capacidades e artes humanas e dos supostos inauguradores dos festivais. Porém, os últimos deuses da guerra que habitaram Asgard, conhecida por Aesir, foram precedidos pelos Vanir, mais pacíficos. Estavam presentes elementos de magia, refletidos no desempenho dos seus rituais. Os Vikings acreditavam na vida após a morte, conhecida por Valhalla. Quando morriam, os reis e os guerreiros importantes eram levados pelas Valquírias (deusas da guerra). Conceberam, também, uma visão apocalíptica do cataclismo final do mundo - Ragnarok.

Cristianismo
Os cristãos crêem que a salvação espiritual é possível para todos aqueles que acreditem sinceramente que Jesus Cristo se submeteu à execução formal pela Crucificação para remir os pecados do mundo, que dois dias depois ressuscitou fisicamente dos mortos e que era o Filho de Deus. O facto de também poder ter sido o Messias anunciado pelos profetas do Judaísmo permanece envolto em mistério, seguindo-se , quatro séculos mais tarde, a aceitação formal por parte das autoridades cristãs, da doutrina propagada pelo maior seguidor de Jesus, Paulo.
A doutrina de Paulo desenvolveu o conceito místico da Trindade: a convicção de que um Deus único existe em três "Pessoas", sendo Jesus uma delas e o Espírito Santo, outra. Os ensinamentos de Jesus foram inspiradores tanto em termos espirituais como sociais, mas a prejudicial abundância de interpretações ao longo dos séculos conduziu a uma considerável diversidade de Igrejas Cristãs e denominações. Muitas observam diferentes formas de ritual.

Cultos de Mistério
Este é um título generalizado, atribuído às práticas religiosas esotéricas durante o período grego-romano, que envolviam cerimónias de grande secretismo, às quais só os iniciados eram admitidos. Incluiam os mistérios eleusianos (dedicados a Deméter e a Perséfone), o Mitraísmo (que incluía o sacrifício de um boi a Mitra, originalmente uma divindade persa) e vários ritos consagrados a Dioníso. A maioria incorporava alguma forma de "viagem" mística de ida e volta ao mundo inferior, caracterizado por uma imersão total na água ou por um ritual no interior de uma caverna escura; o regresso tinha conotação com a limpeza ritual ou com o começo de uma nova vida. Alguns proporcionavam ainda a promessa de uma vida abençoada no além. Muitos desses cultos eram específicos de uma localidade ou região.

Gnosticismo
Esta forma de fé esotérica e filosófica desenvolveu-se no mundo grego-romano no século II. Exerceu grande influência sobre a jovem religião cristã e salientou o poder redentor do conhecimento esotérico alcançado através da revelação divina. O mundo material era entendido como essencialmente mau e corrupto. A revelação da origem humana, da sua essência e destino podiam ser alcançadas pela intuição do mistério do ser e não através do estudo intelectual ou das referências das escrituras.

Hinduísmo
Interligado com a história e a sociedade organizada por castas da Índia ao longo de milénios, o Hinduísmo diz que o objectivo da espiritualidade é a fusão final da alma individual na Derradeira Realidade, após muitas reencarnações sucessivas da alma individual. Para esta libertação (moksha) do ciclo de renascimento, a conduta correcta (dharma) e a renúncia às prisões do mundo são os objectivos primordiais. O panteão hindu dispõe de uma verdadeira hoste de divindades. A maioria dos hindus venera uma de três entidades: Vishnu, o criador e protetor da humanidade; Shiva, o destruidor, o dançarino cósmico e símbolo da energia masculina; ou Shakti, a grande deusa e oposto feminino de Shiva. Os rituais e as práticas variam profundamente. A peregrinação é comum e dispõem de muitos festivais.

Islamismo
Os muçulmanos acreditam que o texto do seu livro sagrado, o Corão, é constituído pelas palavras do próprio Deus, como foram reveladas pelo profeta Maomé - o último e maior dos santos profetas, do qual Abraão e Jesus foram antecessores - no decorrer do século VII. Consideradas palavras imutáveis de Deus, é necessário obedecer-lhe submissamente, observando profundamente o ritual e a sua pureza. Uma vida correcta ou a morte pelo martírio conduzem  ao paraíso que muitas vezes, é visto como um jardim.

Jainismo
O Jaínismo nasceu na Índia, no século VI a.C., quase na mesma época que o Budismo. Para os jaínistas, todos os seres vivos possuem um espírito ou alma e podem, com o passar do tempo e através de reencarnações sucessivas e progredir para além do estágio humano e acabarem por se libertar do ciclo de renascimento, atingindo o nirvana. Este tipo de capacidade significa que a vida deve ser considerada sacrossanta e que nos devemos abster de todas as formas de violência. De acordo com isto, alguns ascetas e monges jainistas andam nus, usando apenas uma máscara (com a qual evitam absorver os ácaros do pó) e usam uma vassoura, com a qual varrem o chão diante dos seus passos.

Judaísmo
Religião antiga, datada do segundo milénio antes de Cristo, o Judaísmo foi algo inusitado para a sua época, pelo facto de ser estritamente monoteísta. Desde o começo, os seus adeptos, conhecidos por hebreus ou israelitas, consideravam-se a si próprios o Povo Escolhido de um Deus  único que, por contacto direto e através dos patriarcas e dos profetas, revelou leis de conduta (Principalmente os Dez Mandamentos) através das quais, e em devido tempo, toda a humanidade - dependendo do julgamento de Deus no Dia do Juízo Final - encontra a salvação espiritual. A Bíblia hebraica contribuiu muito para as tradições do Cristianismo e, em menor grau, para as do Islão; documentos e comentários posteriores foram acrescentados ao significativo corpo do ensinamento religioso. Os judeus ortodoxos seguem um calendário anual de festas e jejuns; os rituais podem ser desempenhados em casa e na sinagoga.

Maniqueísmo
Mani, fundador do Maniqueísmo (c. ano 240), postulava que o mundo fora invadido pelo princípio do mal. Dentro de um quadro mitológico esotérico - onde se incluem elementos do Gnosticismo cristão - declarou que a libertação da bondade no mundo não se repercutiria apenas sobre o estado original de separação entre o bem e o mal mas também sobre a salvação para todos, no Reino de Luz resultante. Exigia-se aos adeptos que aceitassem um regime ascético, de profunda autodisciplina.

Religião Asteca
Os antepassados dos astecas são oriundos de várias tribos da América Central e todas estas parecem comungar de uma história de implacáveis desastres naturais. Daí resultou a sua forte crença religiosa de que o sacrifício humano era a única forma de prevenir, no futuro, a ocorrência de desastres semelhantes. Assim, dentro do vasto número de divindades de que dispunham, muitas exigiam o sacrifício humano regular e em grande escala. Os sacerdotes detinham um poder considerável e possuíam um calendário extraordinariamente preciso que, em si mesmo, estava imbuído de significado religioso.

Religião da Babilónia
A Babilónia era uma cidade-estado submetida, ao longo de muitos séculos, ao domínio de vários povos (inclusivamente dos Sumérios, dos Assírios e dos Persas) que importaram as suas ideologias e sistemas religiosos - todos eles sombriamente incorporados a um panteão extraordinariamente variado. O sentimento religioso mais consistente era a reverencia pelas divindades agrícolas, particularmente Tamuz O grande zigurate, ou pirâmide de degraus, na Babilónia, fazia parte de um complexo religioso dedicado a Marduk, a divindade principal, deus do Sol da Primavera.

Religião da Grécia Antiga
A principal função da religião grega consistia na observação do ritual, que era mais reverenciado do que os muitos deuses e deusas do panteão, cujo comportamento e intervenção nos assuntos humanos tinha tinha por motivação o ciúme, a vingança e a luxúria, O panteão grego, já bem estabelecido por volta do ano 570 a.C., compreendia divindades mais elevadas, como Apolo, deus da cura e da música, e Ártemisa, a casta deusa da Lua e da caça, cujas origens não eram gregas. Rituais orientados por sacerdotes e sacerdotisas, onde se incluíam desempenhos dramáticos nos festivais religiosos, induziam o propósito da comunidade, especialmente em momentos difíceis. O vasto campo mitológico abrangia heróis folclóricos remanescentes do período pré-Helénico, como Herácles (Hércules).


08/09/2016

Paranthropus boisei

O Paranthropus boisei foi um hominídeo primitivo, descrito como o mais largo do género dos Paranthropus (australopítecíneos robustos). Viveu na África Oriental durante o Pleistoceno, entre há cerca de 2,3 a 1,2 milhões de anos atrás.

Descoberto inicialmente pela antropologista Mary Leakey a 17 de Julho de 1959, em Olduvai Gorge, na Tanzânia, o bem conservado crânio, denominado de Nutcracker Man, foi datado de há 1,75 milhões de anos atrás e mostrava ter características pertencentes aos australopitecíneos robustos. E tal como outros membros pertencentes ao género Parantrhopus, o P. boisei caracterizava-se por apresentar um crânio especializado com adaptações a uma mastigação dura. Uma crista sagital fortemente pronunciada no meio do topo craniano, suportava os músculos temporais (grandes músculos de mastigação) a partir do topo  e laterais da caixa craniana até à mandíbula inferior, e então para a mandíbula superior, maior, e de volta para esta. A força concentrava-se nos molares e pré-molares. Grandes ossos das maçãs do rosto fizeram com que o P. boisei tivesse um rosto bastante alargado e achatado, criando uma abertura maior para a passagem dos grandes músculos mandibulares e suportar grandes dentes de mordente, quatro vezes maiores do que os do Paranthropus robustus, e um crânio achatado. Também apresentava uma caixa craniana maior do que a do Paranthropus aethiopicus, e o esmalte dentário mais espesso de todos os humanos primitivos conhecidos. A capacidade craniana nesta espécie também sugere o aparecimento de um ligeiro aumento no tamanho cerebral (cerca de 100 centímetros cúbicos num milhão de anos) independente do próprio  aumento do cérebro no género Homo, tendo cerca de 500 a 550 centímetros cúbicos.
As proporções dos membros, o tamanho relativo do membro superior e inferior, eram semelhantes aos dos Australopithecus afarensis que, somado a outras características os habilitam ao bipedismo.

Na realidade os primeiros fósseis pertencentes ao P.boisei foram encontrados em 1955, mas foi só aquando da descoberta do crânio "Zinj" (OH5) de Mary Leakey em 1959 que os cientistas repararam que tinham em mãos uma nova espécie. "Zinj" tornou-se o especimen-tipo para o P. boisei e, pouco depois, sem dúvida, o fóssil de um humano primitivo mais antigo da Olduvai Gorge, no norte da Tânzania.
Os machos pesavam uma média de 49 quilogramas e mediam 137 centímetros e as fêmeas 34 quilogramas e 124 centímetros.


Não se sabe tudo acerca desta espécie, permanecendo ainda muitas dúvidas por responder:
  1. O que, especificamente, comia o Paranthropus boisei? A morfologia e o estudo microscópico revelam coisas diferentes.
  2. Terá o Paranthropus boisei usado ferramentas de pedra? Apesar de se achar que não, os indivíduos do P. boisei têm sido encontrados em camadas estratigráficas com ferramentas, e também com espécies de Homo que frequentemente fabricam ferramentas, existindo então sempre a possibilidade que essas ferramentas pertençam invés a estas espécies.
  3. Qual era a vantagem das grandes mandíbulas e dentes do Paranthropus boisei?
  4. Estes humanos ancestrais floresceram durante um milhão de anos, mais de quatro vezes do que a nossa própria espécie, o Homo sapiens, tem de existência, e então extinguiram-se... Porquê? Os cientistas têm uma hipótese prevalecente: o P. boisei foi incapaz de se adaptar a uma mudança rápida no ambiente. Quando o clima da Terra sofreu fortes flutuações, variando entre o frio e o quente, pode ter havido mudanças nas proporções dos recursos alimentares disponíveis ao P. boisei. Certas plantas podem ter diminuído ou desaparecido. A habilidade de uma espécie de se adaptar à mudança de recursos, como a comida, é fundamental para a sua sobrevivência. Seria o altamente especializado P. boisei incapaz de se adaptar se algumas das suas plantas favoritas desaparecessem devido a mudanças climáticas?

Esta espécie foi apelidada de Nutcracker Man devido aos seus dentes grandes e músculos de mastigação fortes que estavam ligados à larga crista sagital do crânio. Estas características mostram que o Paranthropus boisei provavelmente ingeriam alimentos duros como nozes e raízes. Mas o resultado do estudo microscópio dentário visto no P. boisei é mais semelhante aos comedores de frutos com estrias finas, em vez de covas fundas e largas vistas nos dentes das espécies vivas que comem erva, folhas duras e caules ou outros alimentos duros. O contraste entre a morfologia do crânio e dentes e estudo microscópico poderão demonstrar que o Paranthropus boisei teria,, provavelmente, uma dieta diversificada e alargada. É possível que esta espécie só tenha consumido alimentos mais duros nas alturas em que os seus recursos favoritos eram escassos.
Esta espécie viveu em ambientes dominados por pastagens, mas que também incluíam habitats mais fechados e húmidos associados a rios e lagos.

Pensa-se geralmente que o Paranthropus boisei é descendente do anterior Paranthropus aethiopicus (que habitou precisamente a mesma área geográfica umas centenas de milhar de anos antes) e viveram ao mesmo tempo que outras espécies de hominídeos durante os seus 1,1 milhões de anos de existência. O P. boisei pertence a apenas um dos muitos ramos da evolução humana, o qual, segundo muitos cientistas, inclui todas as espécies de Paranthropus e não levaram ao Homo sapiens.

A descoberta de 1975 do especimen P. boisei KNM-ER 406 e o Homo erectus KNM-ER 3755 na mesma camada estratigráfica foi  a primeira evidência do facto de que viveram em conjunto. Esta descoberta veio a trazer luz a uma controvérsia de longa data e confirmou que mais do que uma espécie de humanos ancestrais coabitaram na mesma área geográfica ao mesmo tempo. Mais descobertas vieram a confirmar que esta foi uma das espécies mais prevalecentes na África Oriental durante o período temporal em que os primeiros Homo também se encontram presentes na região, igualmente. Isto substituiu a visão tradicional de uma única linhagem humana pela noção de uma árvore familiar humana com muitos ramos (tal como a maior parte das outras árvores familiares). Tem-se acrescentado ramos de novas espécies desde então.



Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...