04/08/2016

Bolas de Fogo e Pedras-Trovões


 Colidem diariamente com a terra pedaços dispersos de matéria proveniente do espaço. A maior parte destes pedaços de matéria nunca chega a atingir o solo, pois incendeia-se durante a sua descida através da atmosfera. Na sua passagem, eles deixam atrás de si um rasto brilhante e incandescente, os meteoros. Frequentemente, um único e grande meteorito despedaça-se, devido à violência da sua queda através da atmosfera, e os seus fragmentos ardem no ar, caindo para a Terra sob a forma de poeiras.
Esta chuva de poeira abate-se constantemente sobre as nossas cabeças. Centenas de toneladas caem diariamente na atmosfera terrestre. «Estas partículas encontram-se no ar que respiramos, nos alimentos que ingerimos e na água que bebemos», afirma o astrólogo Donald Brownlee. Chamam-se micrometeoritos e são tão pequenos que, de acordo com as estimativas de Brownlee, o homem comum é, sem que o saiba, «atingido» semanalmente por alguns.
Devido à raridade com que estes meteoritos caem junto a habitações humanas, até ao advento da idade moderna, as pessoas não estavam bem certas de que tal coisa alguma vez pudesse ter acontecido. Existiam relatos antigos que diziam repeito a bolas de fogo que, ao cruzar a noite como relâmpagos, se despedaçavam nos campos dos lavradores, acabando por ficar em brasa. 
Nos seus escritos do século I d.C., o naturalista romano Plínio, o Antigo, deu a estas pedras cedentes o nome de «pedras-trovões», pois, segundo afirmava, ao caírem do céu elas ribombavam. No entanto, Plínio escreveu igualmente que as pérolas são o fruto de conchas fecundadas pelo orvalho, que em certas épocas do ano o falcão se transforma em cuco e que os seres humanos têm mantido relações amorosas com os golfinhos e baleias. No século XVII, no alvorecer da ciência moderna, astrónomos franceses do Século das Luzes reviram os escritos de Plínio e todas as histórias que diziam respeito a «pedras-trovões», acabando por concluir que provavelmente tal coisa não existiria.
Em L'Aigle, a 112 km de Paris, deu-se uma chuva meteórica espetacular. Um astrónomo de Parins, enviado para investigar o fenómeno, encontrou os cidadãos  a vender essas pedras na rua. Depois disto, nunca mais ninguém duvidou de que as pedras pudessem cair no céu.
No virar do século XX, os cidadãos de Vanavara avistaram uma bola de fogo nas estepes da Sibéria. O povo de Vanavara afirou que a passagem da bola de fogo provocara um estampido e uma explosão tal que, na sua aldeia, os vidros quebraram-se e os jarros caído dos armários. Foi enviada então uma expedição científica soviética com o objetivo de investigar a floresta rochosa de Tunguska. Os membros da expedição descobriram que numa área de várias centenas de quilómetros quadrados todas as árvores tinham sido derrubadas e queimadas. Num local a 65 quilómetros de Vanavara, os troncos chamuscados das árvores irradiavam tal como o epicentro de uma explosão.
Durante décadas, o acontecimento de Tunguska esteve envolto em mistério e obscuridade. Atualmente pensasse que um meteorito tenha explodido em pleno ar acima deste ponto solitário na floresta da Sibéria
O despenhamento no Arizona poderia igualmente ter sido testemunhado por seres humanos, pois na Idade da Pedra os caçadores da Ásia já haviam descoberto o caminho via continente para o estreito de Bering e deslocavam-se para o sul através do sudoeste americano. Mesmo a uma distância de dezenas de quilómetros, os caçadores poderiam ter ficado atónitos perante a imagem de uma bola de fogo a atravessar o deserto, descrevendo um arco, por entre o rimbombar de trovões. Teriam avistado uma chama a muitos quilómetros de distância e uma nuvem em forma de cogumelo gigante a elevar-se no ar.
Muito tempo depois deste possível avistamento, Armstrong, Aldrin e Collins regressaram à Terra sãos e salvos, trazendo consigo 20 quilogramas de pedra lunar. Os três astronautas mantiveram-se de quarentena durante várias semanas. Durante esse período de tempo e para se verificar se a Apollo trouxera consigo alguma praga desconhecida, colocaram-se ratos brancos, batatas, algas, peixes e codornizes em contacto com os astronautas e com pedaços de rocha lunar. O restante tesouro lunar foi selado em cofres de alumínio e em câmaras de vácuo.
Durante esta quarentena, Terry N. Slezak, técnico de fotografia da NASA, numa sexta-feira à noite em que se encontrava a trabalhar até tarde, no Laboratório de Receção Lunar, desembrulhou um rolo fotográfico de 70 milímetros com as suas próprias mãos.
Subitamente, reparou num pó preto e fino que se agarrava aos dedos. Aparentemente, Armstrong deixara cair a carga da película fotográfica sobre o pó lunar, sem nunca se ter dado ao trablaho de a limpar. «Ao olhar para ela pensou: Meu Deus! É isso», afirmou Slezak mais tarde. «O pó era muito negro. À vista e ao tacto parecia ser muito solto, mas não era tão fino como o pó-de-talco.» Slezak e os outros cinco que se encontravam nessa sala despiram-se imediatamente e, selando todas as suas roupas em sacos de plástico, correram para o duche.
A quarentena terminou sem mais incidentes e as rochas cinzento-acobreadas e cor de cacau foram enviadas para análise em laboratórios especiais como o abrigo lunar em Pasadena, na Califórnia. A estas rochas lunares, juntaram-se outras vindas das posteriores missões à Lua.
Através das observações efetuadas pelos astronautas e da datação cuidadosa das pedras lunares que trouxeram consigo, existe atualmente uma ideia aproximada do que teriam sido os primeiros milhares de milhões de anos da Lua. Parece ter sido um período de bombardeamento furioso e quase inatingível, uma tempestade jamais vista, e teria durado milhões de anos. O pó negro no qual os astronautas haviam deixado as suas pegadas era regolito, ou seja, pedra pulverizada. Em alguns locais chega a atingir a profundidade de dezoito metros. Este regolito fora formado  a partir do impacto de sucessivos meteoritos; a lua assemelhar-se-ia a um almofariz sob a ação de um milhão de pilões.
Alguns fragmentos lunares dispersos conseguiram escapar ao bombardeamento, sendo estas rochas mais antigas do que a formação de Isua na Terra. Algumas podem ter qualquer coisa como 4,6 milhões e anos, datando aparentemente dos primeiros anos da Lua. No entanto, estas relíquias são muito raras. A maior parte do basalto de que os oceanos negros da Lua são compostos, possuem entre 3,1 a 3,8 milhares de milhões de anos, sendo quase tão antigos como o rochedo de Isua na Gronelândia.
É esta a leitura de muitos peritos lunares: a Lua formou-se provavelmente há 4,5 milhões de anos, por altura da formação da Terra. A sua superfície foi aquecida por fortes impactos, arrefecendo em seguida. 
Há cerca de quatro milhares de milhões de anos teve lugar o segundo e último grande bombardeamento. Enormes crateras de impacto, centenas de vezes maiores do que a Cratera do Meteoro do Arizona, destruíram a maior parte das rochas existentes à face da Lu, tornando o primeiro capítulo do sistema solar tão difícil de se ler na Lua tal como o é na Terra.
Durante centenas de milhões de anos, a lava brotou através do chão da cratera, inundando grandes extensões da superfície. Este mar de lava endureceu, dando origem a oceanos lunares.
Uma vez solidificada a lava, a Lua atingira o cume do seu desenvolvimento. Passaram-se três milhares de milhões de anos e a Lua, à exceção de uma ou outra cratera de impacto, mantém-se praticamente inalterada. Até à data, os meteoritos continuam, à semelhança do que acontece na Terra, a cair na Lua; no entanto, fazem-no a um ritmo dez milhares de vezes inferior ao inicial.




Fonte
Planeta Terra, Jonathan Weiner, editora Gradiva

Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...