05/07/2016

Platão - a Ponte

Tudo o que se sabe acerca dos filósofos anteriores a Platão, deve-se a referências e citações nos escritos de outros pensadores posteriores, que os conheceram e às suas obras, obras essas que se perderam desde então. Algumas das referências e citações são extensas, mas não deixam de estar incompletas e de serem em segunda mão. Sócrates não deixou nada escrito e, portanto, é apenas através dos escritos de outros que sabemos alguma coisa acerca dele. Contudo, possuímos um sentido muito vivido da sua personalidade.
Neste caso, a nossa maior fonte é Platão, que foi um dos seus discípulos. Platão foi o primeiro filósofo ocidental que escreveu obras que permaneceram intactas. E mais ainda, temos razões para crer que estamos bastante familiarizados com todas as suas obras. Juntamente com o seu mestre Sócrates, há muitas pessoas que o consideram o maior filósofo de todos os tempos.

O Platão de Sócrates e o Sócrates de Platão
Platão tinha cerca de 31 anos quando Sócrates foi executado em 399 a.C. Ele esteve sempre no tribunal durante todo o julgamento. A sequência completa de acontecimentos parece ter sido uma experiência traumática para ele, uma vez que considerava Sócrates como o melhor, o mais sábio e o mais justo de todos os seres humanos. Depois da morte de Sócrates, Platão começou a fazer circular uma série de diálogos filosóficos, nos quais o protagonista é sempre Sócrates, inquirindo os seus interlocutores sobre os conceitos básicos de moral e política, criando armadilhas com as suas perguntas. Platão parece ter tido dois motivos para fazer isto. Um deles era provocador, para reafirmar os ensinamentos de Sócrates, apesar de o terem condenado oficialmente; o outro era reabilitar a reputação do seu mentor, mostrando-o não como um corruptor de jovens mas como um professor muito competente.
É geralmente unânime a opinião entre os eruditos que a principal fonte das ideias nos diálogos de Platão mudou à medida que os anos passavam. Os seus primeiros diálogos tinham um retrato mais ou menos exato do Sócrates histórico, desde que levemos em conta a normal liberdade de expressão artística e jornalística. Os temas debatidos eram temas debatidos pelo verdadeiro Sócrates e as coisas que Platão o ouviu dizer foi colocadas na sua boca. No entanto, quando Platão chegou perto de esgotar o seu material, descobriu que tinha criado um público leitor entusiasta, desejoso de mais. Assim, tendo muito mais para dizer, Platão continuou a escrever e a publicar diálogos, no que é considerada agora uma maneira popular e aceite que realça Sócrates como o protagonista; mas agora ele estava a colocar as suas próprias ideias na boca de Sócrates. Inevitavelmente, isto cria um problema para os eruditos de onde termina o verdadeiro Sócrates e onde começa Platão. Talvez isto nunca possa ser resolvido de maneira satisfatória. Contudo, não existem muitas dúvidas de que os primeiros e os últimos diálogos de Platão apresentam-nos dois filósofos diferentes, sendo o primeiro Sócrates e o último Platão.
O primeiro está apenas preocupado com os problemas da filosofia moral e a política e repudia os problemas filosóficos do mundo natural. Uma das crenças mais fiéis deste primeiro filósofo é a identificação da virtude com o conhecimento; e ele busca o conhecimento inteiramente através da discussão e do argumento.
Nenhuma destas coisas é verdadeira no filósofo posterior. Este, Platão, é um apaixonado pela filosofia em geral, a tudo o que se aplica ao mundo natural sobre como devemos conduzir as nossas vidas. Nenhum aspecto da realidade deixa de despertar o seu interesse. Longe de descurar a matemática ou a física, latão considera-as como as chaves para compreender o mundo natural. Por cima da porta da sua academia, ele inscreveu as palavras: »Que ninguém ignorante em matemática aqui possa entrar.» Muitas das suas doutrinas mais importantes são expostas em longas explicações, que não são discussões nem diálogos, num sentido real, mas apenas uma forma puramente simbólica, em que uma personagem articulada se limita a pronunciar de vez em quando um «Sim, com efeito» ou «É um assunto a considerar». E Platão rejeita a doutrina de que a virtude é puramente uma questão de saber o que está certo.
Onde Platão nunca se dissocia de Sócrates é na sua convicção do conceito de que o único mal real que pode atingir uma pessoa é o mal da alma e, portanto, é melhor sofrer uma injustiça do que cometê-la; e também na sua convicção de pensar por si, não tomar nada como garantido e estar pronto para questionar tudo e todos. Foi esta última crença que o impulsionou ao longo dos anos a expor as suas próprias ideias depois de ter exposto as de Sócrates. Afinal de contas, pensar como Sócrates, da forma como Sócrates ensinou as  outras pessoas a pensar, é pensar por si mesmo independentemente de qualquer autoridade; por isso, para Platão isto significava pensar por si mesmo, independentemente de Sócrates. Ao afastar-se de Sócrates, Platão seguiu-lhe as pisadas.

O primeiro professor
Platão viveu durante meio século após a morte de Sócrates, morrendo aos 81 anos. Durante este tempo, publicou cerca de duas dúzias de diálogos, que variam entre as 20 e as 300 páginas na escrita moderna. Os mais famosos de todos são a República, que se preocupa essencialmente com a natureza da justiça, e quais as tentativas, entre outras coisas, que estabeleceram o esboço do estado ideal, e O Banquete, que é uma investigação acerca da natureza do amor. A maioria dos restantes diálogos tem o nome do principal interlocutor de Sócrates. Por conseguinte, temos Fédon, Laques, Êutifron, Teeteto, etc.
Estes diálogos encontram-se entre as maiores obras literárias do mundo. Talvez os mais comoventes de todos sejam aqueles que têm a ver diretamente com o julgamento e morte de Sócrates: Críton, Apologia de Sócrates e Fédon. A Apologia de Sócrates pretende ser o discurso feito por Sócrates em sua defesa no seu julgamento e á a sua apologia pro vita sua, a sua justificação pela sua vida.
Platão deve ser considerado um artista, bem como um filósofo. Também foi ele que instituiu o protótipo da universidade. «Academia» era simplesmente o nome da sua casa e, uma vez que ele ensinava discipulos adultos, daí ter surgido a palavra para ser empregue em relação a qualquer edifício no qual os jovens mais velhos recebiam umaeducação superior.
Academia de Platão. Pintura de rafael Sanzio (1510). No centro encontram-se Platão que aponta para cima e Aristóteles, indicando para baixo. Referência à diferença nas filosofias, em que Platão defendia a existência de um outro plano  perfeito, sendo esse o real,  enquanto Aristóteles, defendia que havia apenas esta realidade com a qual o homem lidava diariamente.

Existência ideal
A doutrina pela qual Platão é mais conhecido é a sua teoria das Formas ou das Ideias, que significavam o mesmo neste conceito.
Foi feita uma referência ao facto de que quando Sócrates perguntava «O que é a beleza?» ou «O que é a coragem?» ele não estava a tentar descobrir a natureza de alguma entidade abstrata que realmente existisse. Ele considerava estas que entidades não se encontravam num determinado lugar, nem num tempo específico, mas como tendo uma espécie de existência universal que era independente do espaço e do tempo. Os objetos bonitos e individuais que existem no nosso mundo quotidiano e as ações corajosas que as pessoas praticam individualmente são sempre passageiros, mas compartilham da essência intemporal da verdadeira beleza e da verdadeira coragem; e estes são ideais indestrutíveis com uma existência própria.
Platão pegou nesta teoria deduzida sobre a natureza da moral e dos valores e generalizou-a por toda a realidade. Ele considerava que tudo, sem exceção, no mundo era efémero e uma cópia decadente de algo cuja forma ideal (daí os termos Ideal e Forma) tem uma existência permanente e indestrutível fora do espaço e do tempo.
Platão baseou esta conclusão com argumentos de fontes diferentes. Por exemplo, parecia-lhe que, quando mais se aprofundasse os estudos de física, mais claro se tornaria que os relacionamentos matemáticos são construídos em tudo no mundo material. Todo os cosmos parece exemplificar a ordem, a harmonia e a proporção. Platão, seguindo as ideias de Pitágoras, pegou neste conceito para revelar que sob a superfície desordenada do mundo quotidiano existe uma ordem que possui todo o idealismo e perfeição da matemática.

Platão e o cristianismo
Segundo Platão a realidade encontra-se dividida em dois planos:

  • mundo visível - mundo comum quotidiano, que se apresenta aos sentidos, onde nada perdura e nada fica igual. Tudo nasce e morre, tudo é imperfeito, tudo se deteriora.
  • mundo que não é espaço nem tempo e não está acessível aos sentidos humanos. Contínuo e ordenado. Intemporal e imutável.
O mundo visível apenas mostra breves e vagos vislumbres do segundo plano que, no entanto, é o real.
Nos seres humanos, a parte visível é o corpo (nasce e morre, é imperfeito, nunca sendo igual em dois momentos diferentes. O corpo é o mais simples e transitório vislumbre daquilo que o ser humano também é - imaterial, intemporal, e indestrutível: a alma, a Forma permanente.
Esta filosofia platónica influenciou o cristianismo que surgiu e desenvolveu-se no mundo helénico. E muitos dos pensadores, que escreveram o Novo Testamento, estavam preocupados em reconciliar as Revelações da sua religião com as principais doutrinas de Platão.
Durante algum tempo era comum as pessoas referirem-se a Sócrates e Platão como «os cristãos antes de Cristo».
Na verdade as conclusões de Platão não reclamam por nenhuma crença num Deus ou numa revelação religiosa.
O próprio Platão começou efetivamente a acreditar nas Formas Ideais como divinas porque eram perfeitas (e na reencarnação), mas muitos pensadores que influenciou eram totalmente não religiosos.
Platão acreditava que o principal objetivo da vida de uma pessoa inteligente era ir além do visível até à realidade subjacente, isto é, obter uma visão inteletual do mundo das Ideias (misticimo inteletual). Para tal é preciso ver através do efémero (mundo dos sentidos), libertando-se das suas tentações e seduções - o que lhe causa hostilidade em relação às artes (representação da natureza, apelo aos sentidos). Duplamente enganadoras, as formas de arte são um perigo para a alma, pois enriquecem o envolvimento emocional com as fontes de ilusão.

O individuo humano é composto por:

  • paixão
  • intelecto
  • vontade
Platão achava que era fundamental o intelecto ser dominante, controlando as paixões através (extrapola para a  «sociedade ideal») da vontade.

O mais talentoso dos sucessores de Platão foi Arist´teles, que entra muitas vezes em disputa directa com o mestre. 
Platão teve grande influencia sobre Plotino (204 -269 d.C), o qual poderá ser considerado o último dos grandes filósofos gregos. O fim de uma linha de sucessão que começou com Tales no século VI a.C. e foi, na verdade, o último grande filósofo da Antiguidade.




Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...