17/07/2016

Os primeiros a contemplar a noite

Foi mesmo antes de se aperceber que se encontrava num planeta que a espécie humana começou a interrogar-se acerca dos outros planetas. Acocorados à entrada de uma caverna, à luz mortiça de uma fogueira, o homem estendeu a mão em direção às estrelas e ponderou sobre o que poderiam ser aquelas luzes no céu, a que distância se encontrariam e que relação teriam com o resto do mundo - com os montes, os rios, os campos, as manadas de caribus e com a sua própria tribo. Algumas estrelas pareciam ser mais fixas do que as outras; não reluziam como lanternas ao vento. Procurou, então, estas estranhas estrelas, noite após noite, e observou como de mês para mês, de estação para estação, percorriam o céu lentamente, ora brilhando numa constelação ora noutra. Os Gregos deram a estas luzes os nomes usados atualmente - planetas, isto é, vagabundos. Os vagabundos foram não só estudados por filósofos gregos, mas também por todos aqueles que se encontravam interessados em contemplar a noite.
Os arqueólogos encontraram nas selvas do Iucatão templos e pirâmides em ruínas construídos pelos antigos maias. Há três mil anos, ou seja, seiscentos anos antes de Aristóteles, os alinhamentos de pedra gravadas com o nascer e o pôr do Sol, a Lua e planetas, permitiram aos sacerdotes maias representar as estações em mudança. É este o primeiro observatório conhecido no hemisfério ocidental, o qual, tendo sido construído a uma escala tão ambiciosa, deve ter representado para os Maias o mesmo que o atual programa espacial.
Povos sem escrita ou conhecimento de trabalhar a pedra deixaram por toda a Europa pré-histórica observatórios constituídos por círculos de pedra rudemente trabalhada, sendo o de Stonehenge, na planície de Salisbury, em Inglaterra, o mais famoso de todos.
Em Meca, perto do Mar Vermelho, encontra-se uma construção cúbica e sem janelas, denominada Caaba. Existem pedras sagradas incrustadas nas suas paredes e a Pedra Negra, considerada a mais sagrada, poderá tratar-se de um meteorito, um pedaço de ferro de 30 cm de diâmetro que caiu do espaço aterrando na Arábia Ocidental. A Caaba tem sido, desde a morte de Maomet, o principal ponto sagrado no qual está focalizada a atenção de todo o islão. Não obstante, alguns eruditos crêem que antes de adotada pelos discípulos de Maomet, a Caaba tenha servido para um fim idêntico ao dos círculos de pedra. As paredes e esquinas da Caaba, assim como a própria Pedra Negra, encontram-se em alinhamento com o movimento dos céus e com os ventos árabes, o shamal, vento do Norte, e o yamin, vento do Sul. A Caaba poderá igualmente ter sido um observatório.
Não obstante o engenho dos antigos, existiam limites quanto ao que, a olho nu, se poderia aprender scudi. galileu voltou então o telescópio para as estrelas.
acerca dos céus. Poderá dizer-se que a astronomia moderna data de 1609, ano em que Galileu Galilei, professor de Matemática em Pádua, ouviu dizer que certo oculista holandês se encontrava ocupado a construir tubos mágicos através dos quais os objetos distantes poderiam ser vistos com tanta nitidez como se estivessem próximos. Galilei passou uma noite a rever todo o seu conhecimento de óptica, deduzindo assim o truque do seu colega flamengo. Ao cabo de alguns dias havia construído o seu próprio telescópio. Tratava-se de um tubo construído a partir de uma chapa metálica envolta em cetineta carmesim, que possuía uma lente em cada extremidade, sendo uma côncava e outra convexa. Em Veneza, no cimo da Torre de São Marcos, Galileu mostrou a sua invenção aos senadores dessa cidade, os quais se apressaram a dobrar o seu salário para a quantia de 1000
Existem aproximadamente 3600 estrelas visíveis a olho nu, o que levara as pessoas a pensar não existirem mais. Foi através do seu simples telescópio que Galileu examinou conhecidas constelações, tal como Oríon, a Ursa Maior, a Ursa Menor e as Plêiades, e observou muitas luzes jamais vistas. A Via Láctea, essa estrada de luz extensa e poeirenta que atravessa o Zodíaco, fê-lo decidir-se a inspecionar milhares e milhares de estrelas  indistintas.
Ao olhar para a luz brilhante de Júpiter, Galileu descobriu nas suas proximidades diversas luzes baças. Ao estudar estas luzes, Galileu deduziu que Júpiter possuía luas que giravam ao seu redor, uma ou duas das quais se ocultam, em certas noites, por detrás do planeta.
Ao voltar o seu telescópio em direção à Lua, Galileu descobriu que a sua superfície, ao contrário da opinião partilhada até então pela maioria dos filósofos quanto à natureza dos corpos celestes, «não era lisa e esférica, mas antes cheia de irregularidades, covas e protuberâncias, à semelhança da superfície da terra, que apresenta por toda a parte altas montanhas e vales profundos».
A partir destas descobertas surgiram a Galileu ideias surpreendentes acerca do planeta Terra. A maior parte dos seus contemporâneos interpretava ainda aquilo que os rodeava de acordo com as tradições dos filósofos gregos. Segundo Aristóteles, as estrelas seriam peças de decoração, jóias que se encontravam colocadas no céu apenas para puro prazer humano. Sendo assim, pensou Galileu, porque existiriam tantas estrelas demasiado pequenas para serem vistas a olho nu? Aparentemente, a humanidade não era, então, a razão de ser do universo. As estrelas tinham a sua própria razão de ser.
Aristóteles afirmara ser o céu de uma perfeição cristalina, o reino do absoluto.No entanto, Galileu demonstrou estar a face da Lua coberta de cicatrizes e manchas. Podia ver com os seus próprios olhos que os corpos celestes não eram mais perfeitos que a Terra.
Aristóteles afirmara que todos os corpos celestes, incluindo o Sol, a Lua, as estrelas e os planetas, giravam em torno da Terra. Como poderia então Júpiter possuir luas próprias que rodopiavam em seu redor? Se Júpiter fosse o centro de algum movimento celestial, então a Terra não era o centro único e absoluto do cosmos. 
Estava prestes a dar-se uma revolução. Copérnico demonstrara que poderia haver uma explicação para os movimentos aparentemente erráticos dos planetas vagabundos, se considerássemos que estes descreviam uma órbita não em redor da Terra, mas sim em torno do Sol. Johann Kepler deduzira a forma exata das suas órbitas, afirmara que nao só se moviam em torno do Sol, como possuíam não uma órbita circular (anteriormente suposta pelos Gregos já que o círculo constituía a sua ideia de perfeição) mas uma óbita elíptica. Todos os que, com abertura de espirito, ouviram tal assunto, sentiram-se entusiasmados, desorientados e levemente receosos. Os filósofos naturais encontravam-se à beira da nova visão do espaço. Haviam descoberto o facto, que ainda hoje por vezes esquecemos, de que a Terra e o céu constituem um único reino. Tudo o que existe na Terra e no céu é parte integrante de um vasto reino, distante e turbulento, a que chamamos universo.



Fonte
Planeta Terra, Jonathan Weiner, editora Gradiva

Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...