15/07/2016

Os cínicos

Diz-se que certo dia, Sócrates parou diante de uma banca onde se encontravam expostas muitas mercadorias. Por fim exclamou: «Vejam só de quantas coisas os Atenienses precisam para viver!» 
Embora o grande filósofo, ele próprio não fosse um cínico, é nesta base que os cínicos foram buscar as suas crenças.

Os cínicos defendiam que a verdadeira felicidade não dependia das coisas exteriores, como o luxo material, o poder político e uma boa saúde. A verdadeira felicidade significava não se tornar dependente dessas coisas casuais e efémeras. Precisamente por não repousar sobre essas coisas, a felicidade podia ser alcançada por todos. E uma vez alcançada não se podia voltar a perder.

Cínico significa «como um cão» e o mais famoso de todos os cínicos, Diógenes, explicou esta alcunha: «Eu sou um cão, porque bajulo todos aqueles que me dão alguma coisa. Ladro aos que recusam e finco os dentes nos velhacos.» A palavra «cínico» ainda hoje se utiliza, mas no sentido de designar alguém que tem sempre a pior opinião possível das motivações dos outros.
Alexandre, O Grande, construiu um império com base na direção de cidades «gregas» (mundo helénico). Logo após a morte de Alexandre, o seu império dividiu-se em facções antagónicas. E todas as quatro escolas filosóficas que surgiram - os cínicos, os cépticos, os epicuristas e os estóicos - refletiam este facto. Todas apresentavam preocupação com a forma como um homem civilizado devia viver num mundo inseguro, instável e perigoso.
Os primeiros a aparecer foram os cínicos. São o que atualmente se designaria de desertores.
O seu precursor foi Antístenes, um discípulo de Sócrates e contemporâneo de Platão. Até à meia-idade viveu uma vida convencional nesse círculo aristocrático de filósofos. Mas com a morte de Sócrates e a queda de Atenas o mundo de Antístenes abalou-se de tal forma que o filósofo acabou por tomar a decisão de abandonar a velha forma de estar na vida e enveredar por uma forma simples e básica de viver.
Começou a vestir-se como um operário, a viver entre os pobres e proclamou que não queria governo, nem propriedade privada, nem casamento, nem uma religião estabelecida. Antístenes teve um seguidor que se tornou mais famoso do que ele próprio, um homem chamado Diógenes (404-323 a.C). Diógenes escarnecia agressivamente de todas as convenções e chocava deliberadamente as pessoas por não se lavar, quer por andar nu ou por vestir andrajos, quer por viver num túmulo, ou ingerir comida nojenta, assim como por cometer actos flagrantes de indecência pública. Ele vivia como um cão, e por esta razão  as pessoas deram-lha a alcunha de o Cínico, da palavra grega Kynikos, que significa «como um cão».
Conta-se que certo dia, estava Diógenes a tomar banho de sol à frente do seu tonel quando Alexandre, o Grande, o visitou. Este apresentou-se ao cínico e disse-lhe que lhe daria o que ele desejasse. Diógenes pediu a Alexandre que não lhe tapasse o sol. Foi assim que Diógenes demonstrou que era mais feliz e rico do que o grande homem.


O primeiro cosmopolita
Diógenes e os seus seguidores não eram cínicos no sentido atual da palavra. Possuiam uma crença positiva da virtude. Mas a sua convicção básica era que a diferença entre os valores verdadeiros e falsos era a única distinção que importava: todas as outras distinções não prestavam - todas as convenções sociais - eram um perfeito disparate.
Diógenes tinha o mesmo desprezo pela distinção entre Gregos e estrangeiros - por isso, quando lhe perguntavam qual era o seu país, ele respondia: «Eu sou um cidadão do mundo» e ao fazer isso, acabou por inventar a única palavra grega na qual exprimia o seu pensamento, «cosmopolita».





Fontes
História da Filosofia, Bryan Magee, Círculo de Leitores, Março de 1999
O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, Editorial Presença, Lisboa, 30ª edição, Maio 2011


Imagem
Diógenes e Alexandre, o Grande. Pintura de Nicolas-Andre Monsiau (1754-1837)

Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...