09/07/2016

Aristóteles - Um só mundo


Aristóteles nasceu em Estagira, em 384 a.C. e morreu a 322 a.C, vítima de uma neoplasia gástrica em Cálcis.
O pai era médico na corte do rei da Macedónia e foi através desta ligação que passou a tutor de Alexandre, o Grande, e morreu quando Aristóteles era apenas uma criança. Aos 17 anos o tutor enviou-o para Atenas, a fim de ser educado na Academia de Platão, tendo ficado aí cerca de vinte anos.
Após a morte da esposa Pitíade I, julga-se que 327 a.C., a qual lhe deu como filha Pitíade II, Aristóteles junta-se sentimentalmente a uma jovem de Estagira, Herpílis, sendo que deste relacionamento nasceu  o filho Nicómaco (existem muitas dúvidas em relação às datas de morte da esposa, e quanto a se Nicómaco seria ou não filho natural de Aristóteles).
Por volta de 335 a.C. fundou a sua própria escola, à qual chamou de Liceu, dedicado a Apolo, após ter conseguido retornar a Atenas, depois de uma saída forçada quinze anos antes. Mais tarde, e por motivos igualmente políticos, Aristóteles viria a ser uma vitima indireta da morte de Alexandre, o Grande em 323 a.C., tendo de deixar Atenas, quando na altura já, muito provavelmente estaria doente, no mesmo ano da morte do seu antigo púpilo.
Aristóteles foi discípulo de Platão, mas rejeitava a ideia de deste de dois mundos. Para este filósofo havia um só mundo, onde se podia filosofar, que é o mundo onde os seres humanos vivem e sofrem. Um mundo de fascínio e admiração. Na verdade, Aristóteles acreditava que era este sentido de admiração que fazia com que os seres humanos fossem capazes de filosofar quer como indivíduos, quer como raça - este é um mundo que querem conhecer e compreender.
Aristóteles não acreditava que houvesse terra firme fora deste mundo.
Seja o que for que se encontre fora dele, todas as possibilidades de experiência não podem ser nada para o individuo. Não há nenhuma maneira válida de se referir ou falar sobre ele, logo não pode entrar no discurso de uma forma confiante: se o ser humano deambular para além do terreno coberto pela experiência, irá vaguear por entre uma conversa vazia.
O desejo de Aristóteles de saber sobre o mundo da experiência era apaixonante e ao longo da sua vida dedicou-se a uma investigação incrivelmente variada.
Elaborou pela primeira vez muitos dos campos básicos da interrogação: lógica, física, ciência política, economia, psicologia, metafísica, meteorologia, retórica e ética.
Também inventou os termos técnicos nestes campos, os quais têm sido utilizados desde então, por exemplo: energia, dinâmica, indução, demonstração, substância, atributo, essência, propriedade , acidente, categorias, tópico, proposição e universal.
Para além de tudo isto, sistematizou a lógica, avaliando quais as formas de inferência que são válidas e as que são inválidas.

A Natureza do ser
Aristóteles perguntou: «A pergunta que foi formulada há muito tempo e está a ser feita agora e é sempre uma questão difícil: O que é ser?»
Primeira conclusão importante: as coisas não são apenas a matéria em que consistem materialmente. Para algo ser algo, tudo tem de estar agrupado de uma determinada maneira, com uma estrutura muito específica e pormenorizada, e é em virtude dessa estrutura que surge esse algo.
Estes argumentos de Aristóteles, contra o tipo de materialismo cru que afirma que apenas existe a matéria, são devastadores e nunca foram devidamente respondidos. No entanto, até poderem responder às objeções de Aristóteles, a sua posição podia parecer pedir um pouco mais de consideração. Então, o filósofo estabeleceu que uma coisa é o que é devido à sua forma. Mas isso traz outro problema: O que é exatamente a forma neste sentido? Se não é material, o que é? Aristóteles já havia rejeitado a teoria de Platão, logo não poderia ser uma espécie de entidade sobrenatural - tinha de fazer parte deste mundo!

As quatro causas
Segundo Aristóteles, a forma é o que faz com que uma coisa seja o que é. Isso leva-o a examinar a noção de «causa» neste contexto; e ele acaba por partir o conceito de «forma» em quatro espécies diferentes e complementares de «causa». Uma vez que o que ele chama «as quatro causas» constitui as razões por que uma coisa é o que é, pode ser útil chamar-lhe os quatro porquês. A forma é a explicação das coisas.
As quatro causas são:

  • causa material
  • causa eficiente
  • causa formal
  • causa final
Em relação à segunda, terceira e quarta causas, duas ou mais podem ser as mesmas num caso individual. Isto acontece essencialmente no campo das ciências.
Para Aristóteles, a forma de um objeto, apesar de não ser algo material, é inerente neste objeto deste mundo e não pode existir mais isoladamente, assim como a constituição de um homem não pode existir separadamente do seu corpo.
O verdadeiro objetivo de todas as coisas é o que elas fazem e para que servem. A mudança ocorre quando o material continuo que faz parte de uma coisa adquire uma forma que não tinha anteriormente.

Salvar as aparências
Em todas as tentativas para compreender o mundo, segundo Aristóteles, nunca se deve perder de vista o facto de que é este mundo que estamos a tentar compreender. Nunca se deve aceitar explicações a seu respeito que neguem a validade dessas mesmas experiências que se estão a tentar explicar. Devemos fazer dele uma questão de método em todas as investigações, para se conseguir dominar essas mesmas experiências que são apresentadas. Também se devem examiná-las a cada passo, porque só compreendendo-as é que se pode obter, por assim dizer, a causa final das interrogações. Para aliviar um pouco essa vigilância, para se abraçar algo que não se conhece, estar-se-á a incorrer num erro enorme.
Aristóteles parte da proposição que o que cada ser humano quer é uma vida feliz no sentido mais completo da expressão. O que proporciona isso é o mais completo desenvolvimento e exercício das capacidades do individuo, que seja compatível com o viver em sociedade. O comodismo e a arrogância desenfreados irão sempre conduzir a um conflito perpétuo com as outras pessoas e é mau para o carácter.
«Termo médio» - uma virtude é o ponto intermédio entre dois extremos, sendo cada um deles um vício.
Um aspeto marcante da filosofia moral de Aristóteles, é o facto de ter tão pouca moralização. O seu objetivo é essencialmente prático.

Segundo Aristóteles, o verdadeiro objetivo do governo é proporcionar aos seus cidadãos uma vida preenchida e feliz. Um indivíduo só consegue tal sendo membro de uma sociedade  - a felicidade e a realização pessoal não se encontram no isolamento individual.

Aristóteles afirma que a experiência emocional que se vive quando se assiste a uma tragédia é a catarse, a qual ele definiu como sendo uma purgação ou uma purificação através da piedade e do terror.

A escala da natureza
Quando Aristóteles quer «pôr ordem» na existência, ele aponta primeiro para o facto de que tudo o que há na natureza pode ser dividido em dois grupos principais:
  • coisas inanimadas - como pedras, gotas de água e torrões de terra. Nelas não está inerente nenhuma potencialidade de mudança. Essas coisas inanimadas só se podem alterar por ação do exterior.
  • coisas animadas - nestas é inerente a possibilidade de se alterarem.  Dentro deste grupo principal, existem dois secundários, o do reino vegetal (ou das plantas) e o de todos os outros seres vivos. Este último, por sua vez, sofre mais uma divisão - o dos animais e o dos homens.


O leitor
Segundo a tradição, apesar da discordância entre Platão e Aristóteles quanto à visão do mundo, o mestre tinha em grande apreço as qualidades deste seu colaborador talentoso. Mas não só na visão filosófica os dois grandes filósofos discordavam.
Nas antigas Vidas neoplatónicas, atribuem-se ao Mestre ateniense duas alcunhas que este costumaria atribuir ao discípulo. A primeira, compreensivelmente, seria «a inteligência», ou »a inteligência da aula» ou «da disputa». 
Já a segunda alcunha tem uma ressonância cultural, em que Platão chamaria Aristóteles «o leitor», dizendo muitas vezes «Vamos a casa do leitor». 
O  interesse desta designação, se verdadeira, é mais do que um apontamento de uma idiossincrasia de Aristóteles, mas devido a uma profunda alteração nos hábitos de leitura que o filósofo introduziu na cultura grega.
Com efeito, até Aristóteles, os livros não eram lidos, mas sim escutados. Os gregos contemporâneos do Estagira não liam eles próprios os textos, reclinavam-se passivamente enquanto absorviam a leitura que um servo fazia para eles. Aristóteles introduziu a novidade de acumular a dupla função de recitador e de ouvinte, fazendo assim evoluir a noção arcaica de «leitor» como aquele que lê alto para outrem e fundando a partir dela a noção moderna de «leitor» como alguém que lê baixo, ou em pensamento, para si mesmo.
Esta nova maneira de se ler, fará com que surjam imensas mudanças a atividade científica. Deve-se a esta inovação as institucionalização de rotinas de pesquisa, a atenção à recolha de dados, o pendor para o colecionismo histórico do erudito, a criação da transmissão escolar e da prosa científica, o interesse sistemático pela tradição das disciplinas. É o próprio Aristóteles que no seu primeiro livro dos Tópicos, recomenda a prática de sublinhar a anotar os manuscritos à margem, de os transcrever e de elaborar fichas de trabalho.

Breve cronologia da vida de Aristóteles  (os anos considerados são a. C.)
  • 425 - Nascimento do pai de Aristóteles, Nicómaco de Estagira
  • 385 - Nicómaco médico de Amintas.
  • 384 - Nascimento de Aristóteles.
  • c. 374-372 - Morte dos pais de Aristóteles. Aristoteles parte para junto de Arimnesta e Próxeno (sua irmã e seu cunhado), em Atarneu.
  • 367 - Chegada de Aristóteles a Atenas. Passagem pela escola de Isócrates (?). Ingresso na Academia.
  • 365 - 361 - Início da atividade como professor na Academia (362 ?)
  • 357 - Redação do diálogo Grilo (?).
  • 350 - 349 - Primeiros esboços dos Tópicos e da Retórica (?)
  • Abandono da Academia, juntamente com Xenócrates (na Primavera, pouco antes da morte de Platão). Partida para Aterneu. Estabelecimento em Asso.
  • 345 - Passagem para Mitilene, na ilha de Lesbos.
  • 343 - Partida para Péla, a convite de Filipe o Grande. Início das funções como preceptor de Alexandre.
  • 343 - 341 - Revisão do texto da Iliada (?). Redação das Dificuldades Homéricas e do diálogo Sobre os poetas (?). Redação de Sobre a realeza (?).
  • 341 -  Redação dos Dikaiomata e início da recolha das Constituições gregas (?). Abandono das funções docentes e breve estadia em Péla.
  • 340 - Regresso a Estagira (?). Compilação da História dos Jogos Píticos em parceria com Calístenes (?).
  • 339 - Casamento com Pitíade (?).
  • 335 - Regresso a Atenas e início do ensino no Liceu.
  • 334 - Nascimento da filha, Pitíade II (?).
  • 330 - Redação de Sobre as cheias do Nilo (?).
  • 327 - Morte da mulher, Pitíade I, de parto (?).
  • 326 - União com Herpílis (?)
  • 324 - Redação de Alexandre ou Sobre a colonização (?). Nascimento de Nicómaco (?)
  • 323 - Acusação do hierofanta Eurímedon contra Aristóteles. Partida para Cálcis (na mudança do ano 323/322, não depois da Primavera de 322).
  • 322 - Morte de Aristóteles (ligeiramente antes de Demóstenes).







Fontes
História da Filosofia, Bryan Magee, Círculo de Leitores, Março de 1999
Vida de Aristóteles, António Pedro Mesquita, Edições Sílabo, 1ª edição, 2006
O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, Editorial Presença, Lisboa, 30ª edição, Maio 2011

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