31/07/2016

Libertado por um anjo

 Inimigo visceral dos cristãos, o rei Herodes Agripa mandou prender o apóstolo Pedro, pretendendo executá-lo a seguir à Páscoa. O apóstolo estava fortemente guardado e, na noite anterior ao dia em que devia ser trazido à presença do povo, dormia acorrentado entre dois soldados, enquanto outros dois guardavam a porta. De súbito, uma luz invadiu a cela. Apareceu um anjo que acordou Pedro, cujos grilhões se soltaram. «Ergue-te depressa», disse o anjo, «... e segue-me.» Convencido de que estava a sonhar, Pedro seguiu o anjo, passando em silêncio pelos guardas, até ao portão de ferro que conduzia à cidade. O portão abriu-se sozinho, e os dois percorreram várias ruas até que o anjo desapareceu. Acordando como de um estado de transe, Pedro ficou muito admirado ao ver que estava livre.
Dirigiu-se imediatamente a casa de Maria, mãe de Marcos, onde estavam reunidas várias pessoas para rezar por ele.Uma criada ouviu-o bater à porta e reconheceu a sua voz, mas quando o anunciou aos outros, eles disseram que ela estava louca. Como ela insistia, eles concluíram: «É o seu anjo.» Mas Pedro continuava a bater, e quando finalmente o deixaram entrar, ficaram estupefactos ao escutar a narrativa de tudo o que acontecera. Pedro fugiu então da cidade para escapar à ira de Herodes.O rei, furioso, exigiu uma explicação daquilo que sucedera  ao seu prisioneiro - e como ninguém lhe soubesse responder, condenou à morte os infelizes soldados que naquela noite tinham estado de guarda ao apóstolo.







Fonte:Viagem ao Desconhecido, Selecções do Reader's Digest
Imagem: Libertação de St. Pedro, Bartolome Esteban Murillo, 1667


26/07/2016

Paranthropus robustus

O Paranthropus robustus é um exemplo de um australopitecíneo robusto. Esta espécie era possuidora de pré-molares e molares bastante largos e esmalte bastante espesso, com foco na mastigação na parte anterior da mandíbula. Grandes arcos zigomáticos (ossos da face) permitiam a passagem de largos músculos de mastigação até à mandíbula  e deu as características de um rosto largo ao P. robustus. Uma crista sagital grande providenciava uma área ampla para ancorar estes músculos de mastigação para o crânio. Estas adaptações providenciaram ao P. robustus uma forte capacidade de trituração de alimentos fibrosos. O termo "robustus" refere-se apenas ao tamanho dos dentes e do rosto, e não ao tamanho do corpo.

Quando o cientista Robert Broom comprou um fragmento de mandíbula e de um molar em 1938, estes não se pareciam em nada com os fósseis dos Australopithecus africanus que ele havia encontrado durante a sua carreira. Soube logo que estava no rasto de algo novo. Após explorar Krondraai, na África do Sul, o local de onde os curiosos fósseis vieram, Broom recolheu muitos outros fósseis e dentes, convencendo-o que tinha entre mãos uma nova espécie, a qual denominou de Paranthropus robustus (em que Paranthropus significa "ao lado do Homem"). Foram encontrados fósseis do P. robustus nas regiões de Drimolen, Kromdrai, Swartkrans, gondolin e cavernas de Cooper, sendo todos os locais pertencentes à África do Sul.

Os machos tinham uma altura média de 1,20 metros e um peso médio de 54 quilogramas, já as fêmeas apresentavam uma altura média de 1 metro e um peso médio de 40 quilogramas. O tamanho cerebral médio desta espécie era de 410 a 530 centímetros cúbicos.



Ainda existem muitas questões por responder relativamente a esta espécie, entre as quais:

  • A partir de que espécie evoluiu o P. robustus? Terá o P. robustus evoluído a partir do P. aethipicus, ou eram espécies regionais distintas das linhagens de Australopithecus (o que significaria que o Paranthropus robustus teria evoluído de uma outra espécie, na atual África do Sul, talvez o Australopithecus africanus)?
  • Têm-se encontrado várias ferramentas de pedra para escavar os montes de térmita, as quais se pensam terem pertencido ao P. robustus, em diversos locais da África do Sul. Seria este comportamento, de fabricação destas ferramentas, partilhado por todas as populações desta espécie, ou tratava-se apenas de um comportamento regional?
As espécies robustas, como o Paranthtopus robustus tinham dentes largos, assim como uma crista sagital, onde se ligavam fortes músculos de mastigação. Estas características permitiam aos indivíduos esmagar e triturar alimentos duros como nozes, sementes, raízes e tubérculos na parte anterior da mandíbula. No entanto, o P. robustus não se sustentava apenas de alimentos duros. Este humano ancestral pode ter tido uma dieta variada, indo deste tipo de alimentos a outros mais moles como frutas e possivelmente folhas jovens, insetos e carne. 
Apesar de os cientistas não terem encontrado nenhuma ferramenta de pedra associada aos fósseis do Paranthropus robustus, os estudos experimentais microscópicos dos fragmentos dos ossos mostram que estes humanos primitivos terão usado, provavelmente, ferramentas de osso para escavar os montes de térmitas. Após o uso repetido, as pontas destas ferramentas tornaram-se redondas e polidas. As térmitas são ricas em proteínas e terão sido uma fonte alimentar nutritiva para o Paranthropus robustus.

Desde a década de 1940 até à de 1960, que tem havido imensos debates acerca se esta espécie representaria is machos do Australopithecus africanus. Eventualmente, os cientistas vieram a reconhecer que as formas "robustas" eram suficientemente distintas das outras para serem consideradas uma espécie, originalmente chamadas de Australopithecus robustus. Mais tarde, as três espécie de "robustus" (aethiopicus, robustus e boisei) foram reconhecidas como sendo diferentes o suficiente dos Australopithecus - e suficientemente parecidas entre si - para serem consideradas um género à parte, o Paranthropus.



18/07/2016

O amanhã


O mundo está estranho... desordenado, incerto, inseguro...
Todas as certezas que se tinham, o caminho para o qual se percorria parece estar a tombar. Luta-se pela continuação do sonho de um mundo melhor, democrático, pacifista, ordenado e igualitário, mas parece que tudo enlouqueceu. Ideais nefastos que se julgava estarem a perder força estão a tomar território e as pessoas encontram-se desorientadas. Seja pelo mundo grande lá fora que não oferece certezas, seja pelo seu próprio mundo, que nos empregos, já não se pode pensar para além de um mês; ou em certos valores que se tomavam por certos, familiares e de amizade.

É um tempo incerto, um tempo em que a roupa que vestimos durante tantas décadas se começa a romper, desgastada, que usámos sem que déssemos conta que ela se encontrava já tão frágil.

Que vai trazer o amanhã? Já ninguém sabe. E por mais aventureiro que seja um coração, este necessita sempre de um canto onde possa repousar.

17/07/2016

Os primeiros a contemplar a noite

Foi mesmo antes de se aperceber que se encontrava num planeta que a espécie humana começou a interrogar-se acerca dos outros planetas. Acocorados à entrada de uma caverna, à luz mortiça de uma fogueira, o homem estendeu a mão em direção às estrelas e ponderou sobre o que poderiam ser aquelas luzes no céu, a que distância se encontrariam e que relação teriam com o resto do mundo - com os montes, os rios, os campos, as manadas de caribus e com a sua própria tribo. Algumas estrelas pareciam ser mais fixas do que as outras; não reluziam como lanternas ao vento. Procurou, então, estas estranhas estrelas, noite após noite, e observou como de mês para mês, de estação para estação, percorriam o céu lentamente, ora brilhando numa constelação ora noutra. Os Gregos deram a estas luzes os nomes usados atualmente - planetas, isto é, vagabundos. Os vagabundos foram não só estudados por filósofos gregos, mas também por todos aqueles que se encontravam interessados em contemplar a noite.
Os arqueólogos encontraram nas selvas do Iucatão templos e pirâmides em ruínas construídos pelos antigos maias. Há três mil anos, ou seja, seiscentos anos antes de Aristóteles, os alinhamentos de pedra gravadas com o nascer e o pôr do Sol, a Lua e planetas, permitiram aos sacerdotes maias representar as estações em mudança. É este o primeiro observatório conhecido no hemisfério ocidental, o qual, tendo sido construído a uma escala tão ambiciosa, deve ter representado para os Maias o mesmo que o atual programa espacial.
Povos sem escrita ou conhecimento de trabalhar a pedra deixaram por toda a Europa pré-histórica observatórios constituídos por círculos de pedra rudemente trabalhada, sendo o de Stonehenge, na planície de Salisbury, em Inglaterra, o mais famoso de todos.
Em Meca, perto do Mar Vermelho, encontra-se uma construção cúbica e sem janelas, denominada Caaba. Existem pedras sagradas incrustadas nas suas paredes e a Pedra Negra, considerada a mais sagrada, poderá tratar-se de um meteorito, um pedaço de ferro de 30 cm de diâmetro que caiu do espaço aterrando na Arábia Ocidental. A Caaba tem sido, desde a morte de Maomet, o principal ponto sagrado no qual está focalizada a atenção de todo o islão. Não obstante, alguns eruditos crêem que antes de adotada pelos discípulos de Maomet, a Caaba tenha servido para um fim idêntico ao dos círculos de pedra. As paredes e esquinas da Caaba, assim como a própria Pedra Negra, encontram-se em alinhamento com o movimento dos céus e com os ventos árabes, o shamal, vento do Norte, e o yamin, vento do Sul. A Caaba poderá igualmente ter sido um observatório.
Não obstante o engenho dos antigos, existiam limites quanto ao que, a olho nu, se poderia aprender scudi. galileu voltou então o telescópio para as estrelas.
acerca dos céus. Poderá dizer-se que a astronomia moderna data de 1609, ano em que Galileu Galilei, professor de Matemática em Pádua, ouviu dizer que certo oculista holandês se encontrava ocupado a construir tubos mágicos através dos quais os objetos distantes poderiam ser vistos com tanta nitidez como se estivessem próximos. Galilei passou uma noite a rever todo o seu conhecimento de óptica, deduzindo assim o truque do seu colega flamengo. Ao cabo de alguns dias havia construído o seu próprio telescópio. Tratava-se de um tubo construído a partir de uma chapa metálica envolta em cetineta carmesim, que possuía uma lente em cada extremidade, sendo uma côncava e outra convexa. Em Veneza, no cimo da Torre de São Marcos, Galileu mostrou a sua invenção aos senadores dessa cidade, os quais se apressaram a dobrar o seu salário para a quantia de 1000
Existem aproximadamente 3600 estrelas visíveis a olho nu, o que levara as pessoas a pensar não existirem mais. Foi através do seu simples telescópio que Galileu examinou conhecidas constelações, tal como Oríon, a Ursa Maior, a Ursa Menor e as Plêiades, e observou muitas luzes jamais vistas. A Via Láctea, essa estrada de luz extensa e poeirenta que atravessa o Zodíaco, fê-lo decidir-se a inspecionar milhares e milhares de estrelas  indistintas.
Ao olhar para a luz brilhante de Júpiter, Galileu descobriu nas suas proximidades diversas luzes baças. Ao estudar estas luzes, Galileu deduziu que Júpiter possuía luas que giravam ao seu redor, uma ou duas das quais se ocultam, em certas noites, por detrás do planeta.
Ao voltar o seu telescópio em direção à Lua, Galileu descobriu que a sua superfície, ao contrário da opinião partilhada até então pela maioria dos filósofos quanto à natureza dos corpos celestes, «não era lisa e esférica, mas antes cheia de irregularidades, covas e protuberâncias, à semelhança da superfície da terra, que apresenta por toda a parte altas montanhas e vales profundos».
A partir destas descobertas surgiram a Galileu ideias surpreendentes acerca do planeta Terra. A maior parte dos seus contemporâneos interpretava ainda aquilo que os rodeava de acordo com as tradições dos filósofos gregos. Segundo Aristóteles, as estrelas seriam peças de decoração, jóias que se encontravam colocadas no céu apenas para puro prazer humano. Sendo assim, pensou Galileu, porque existiriam tantas estrelas demasiado pequenas para serem vistas a olho nu? Aparentemente, a humanidade não era, então, a razão de ser do universo. As estrelas tinham a sua própria razão de ser.
Aristóteles afirmara ser o céu de uma perfeição cristalina, o reino do absoluto.No entanto, Galileu demonstrou estar a face da Lua coberta de cicatrizes e manchas. Podia ver com os seus próprios olhos que os corpos celestes não eram mais perfeitos que a Terra.
Aristóteles afirmara que todos os corpos celestes, incluindo o Sol, a Lua, as estrelas e os planetas, giravam em torno da Terra. Como poderia então Júpiter possuir luas próprias que rodopiavam em seu redor? Se Júpiter fosse o centro de algum movimento celestial, então a Terra não era o centro único e absoluto do cosmos. 
Estava prestes a dar-se uma revolução. Copérnico demonstrara que poderia haver uma explicação para os movimentos aparentemente erráticos dos planetas vagabundos, se considerássemos que estes descreviam uma órbita não em redor da Terra, mas sim em torno do Sol. Johann Kepler deduzira a forma exata das suas órbitas, afirmara que nao só se moviam em torno do Sol, como possuíam não uma órbita circular (anteriormente suposta pelos Gregos já que o círculo constituía a sua ideia de perfeição) mas uma óbita elíptica. Todos os que, com abertura de espirito, ouviram tal assunto, sentiram-se entusiasmados, desorientados e levemente receosos. Os filósofos naturais encontravam-se à beira da nova visão do espaço. Haviam descoberto o facto, que ainda hoje por vezes esquecemos, de que a Terra e o céu constituem um único reino. Tudo o que existe na Terra e no céu é parte integrante de um vasto reino, distante e turbulento, a que chamamos universo.



Fonte
Planeta Terra, Jonathan Weiner, editora Gradiva

15/07/2016

Os cínicos

Diz-se que certo dia, Sócrates parou diante de uma banca onde se encontravam expostas muitas mercadorias. Por fim exclamou: «Vejam só de quantas coisas os Atenienses precisam para viver!» 
Embora o grande filósofo, ele próprio não fosse um cínico, é nesta base que os cínicos foram buscar as suas crenças.

Os cínicos defendiam que a verdadeira felicidade não dependia das coisas exteriores, como o luxo material, o poder político e uma boa saúde. A verdadeira felicidade significava não se tornar dependente dessas coisas casuais e efémeras. Precisamente por não repousar sobre essas coisas, a felicidade podia ser alcançada por todos. E uma vez alcançada não se podia voltar a perder.

Cínico significa «como um cão» e o mais famoso de todos os cínicos, Diógenes, explicou esta alcunha: «Eu sou um cão, porque bajulo todos aqueles que me dão alguma coisa. Ladro aos que recusam e finco os dentes nos velhacos.» A palavra «cínico» ainda hoje se utiliza, mas no sentido de designar alguém que tem sempre a pior opinião possível das motivações dos outros.
Alexandre, O Grande, construiu um império com base na direção de cidades «gregas» (mundo helénico). Logo após a morte de Alexandre, o seu império dividiu-se em facções antagónicas. E todas as quatro escolas filosóficas que surgiram - os cínicos, os cépticos, os epicuristas e os estóicos - refletiam este facto. Todas apresentavam preocupação com a forma como um homem civilizado devia viver num mundo inseguro, instável e perigoso.
Os primeiros a aparecer foram os cínicos. São o que atualmente se designaria de desertores.
O seu precursor foi Antístenes, um discípulo de Sócrates e contemporâneo de Platão. Até à meia-idade viveu uma vida convencional nesse círculo aristocrático de filósofos. Mas com a morte de Sócrates e a queda de Atenas o mundo de Antístenes abalou-se de tal forma que o filósofo acabou por tomar a decisão de abandonar a velha forma de estar na vida e enveredar por uma forma simples e básica de viver.
Começou a vestir-se como um operário, a viver entre os pobres e proclamou que não queria governo, nem propriedade privada, nem casamento, nem uma religião estabelecida. Antístenes teve um seguidor que se tornou mais famoso do que ele próprio, um homem chamado Diógenes (404-323 a.C). Diógenes escarnecia agressivamente de todas as convenções e chocava deliberadamente as pessoas por não se lavar, quer por andar nu ou por vestir andrajos, quer por viver num túmulo, ou ingerir comida nojenta, assim como por cometer actos flagrantes de indecência pública. Ele vivia como um cão, e por esta razão  as pessoas deram-lha a alcunha de o Cínico, da palavra grega Kynikos, que significa «como um cão».
Conta-se que certo dia, estava Diógenes a tomar banho de sol à frente do seu tonel quando Alexandre, o Grande, o visitou. Este apresentou-se ao cínico e disse-lhe que lhe daria o que ele desejasse. Diógenes pediu a Alexandre que não lhe tapasse o sol. Foi assim que Diógenes demonstrou que era mais feliz e rico do que o grande homem.


O primeiro cosmopolita
Diógenes e os seus seguidores não eram cínicos no sentido atual da palavra. Possuiam uma crença positiva da virtude. Mas a sua convicção básica era que a diferença entre os valores verdadeiros e falsos era a única distinção que importava: todas as outras distinções não prestavam - todas as convenções sociais - eram um perfeito disparate.
Diógenes tinha o mesmo desprezo pela distinção entre Gregos e estrangeiros - por isso, quando lhe perguntavam qual era o seu país, ele respondia: «Eu sou um cidadão do mundo» e ao fazer isso, acabou por inventar a única palavra grega na qual exprimia o seu pensamento, «cosmopolita».





Fontes
História da Filosofia, Bryan Magee, Círculo de Leitores, Março de 1999
O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, Editorial Presença, Lisboa, 30ª edição, Maio 2011


Imagem
Diógenes e Alexandre, o Grande. Pintura de Nicolas-Andre Monsiau (1754-1837)

09/07/2016

Aristóteles - Um só mundo


Aristóteles nasceu em Estagira, em 384 a.C. e morreu a 322 a.C, vítima de uma neoplasia gástrica em Cálcis.
O pai era médico na corte do rei da Macedónia e foi através desta ligação que passou a tutor de Alexandre, o Grande, e morreu quando Aristóteles era apenas uma criança. Aos 17 anos o tutor enviou-o para Atenas, a fim de ser educado na Academia de Platão, tendo ficado aí cerca de vinte anos.
Após a morte da esposa Pitíade I, julga-se que 327 a.C., a qual lhe deu como filha Pitíade II, Aristóteles junta-se sentimentalmente a uma jovem de Estagira, Herpílis, sendo que deste relacionamento nasceu  o filho Nicómaco (existem muitas dúvidas em relação às datas de morte da esposa, e quanto a se Nicómaco seria ou não filho natural de Aristóteles).
Por volta de 335 a.C. fundou a sua própria escola, à qual chamou de Liceu, dedicado a Apolo, após ter conseguido retornar a Atenas, depois de uma saída forçada quinze anos antes. Mais tarde, e por motivos igualmente políticos, Aristóteles viria a ser uma vitima indireta da morte de Alexandre, o Grande em 323 a.C., tendo de deixar Atenas, quando na altura já, muito provavelmente estaria doente, no mesmo ano da morte do seu antigo púpilo.
Aristóteles foi discípulo de Platão, mas rejeitava a ideia de deste de dois mundos. Para este filósofo havia um só mundo, onde se podia filosofar, que é o mundo onde os seres humanos vivem e sofrem. Um mundo de fascínio e admiração. Na verdade, Aristóteles acreditava que era este sentido de admiração que fazia com que os seres humanos fossem capazes de filosofar quer como indivíduos, quer como raça - este é um mundo que querem conhecer e compreender.
Aristóteles não acreditava que houvesse terra firme fora deste mundo.
Seja o que for que se encontre fora dele, todas as possibilidades de experiência não podem ser nada para o individuo. Não há nenhuma maneira válida de se referir ou falar sobre ele, logo não pode entrar no discurso de uma forma confiante: se o ser humano deambular para além do terreno coberto pela experiência, irá vaguear por entre uma conversa vazia.
O desejo de Aristóteles de saber sobre o mundo da experiência era apaixonante e ao longo da sua vida dedicou-se a uma investigação incrivelmente variada.
Elaborou pela primeira vez muitos dos campos básicos da interrogação: lógica, física, ciência política, economia, psicologia, metafísica, meteorologia, retórica e ética.
Também inventou os termos técnicos nestes campos, os quais têm sido utilizados desde então, por exemplo: energia, dinâmica, indução, demonstração, substância, atributo, essência, propriedade , acidente, categorias, tópico, proposição e universal.
Para além de tudo isto, sistematizou a lógica, avaliando quais as formas de inferência que são válidas e as que são inválidas.

A Natureza do ser
Aristóteles perguntou: «A pergunta que foi formulada há muito tempo e está a ser feita agora e é sempre uma questão difícil: O que é ser?»
Primeira conclusão importante: as coisas não são apenas a matéria em que consistem materialmente. Para algo ser algo, tudo tem de estar agrupado de uma determinada maneira, com uma estrutura muito específica e pormenorizada, e é em virtude dessa estrutura que surge esse algo.
Estes argumentos de Aristóteles, contra o tipo de materialismo cru que afirma que apenas existe a matéria, são devastadores e nunca foram devidamente respondidos. No entanto, até poderem responder às objeções de Aristóteles, a sua posição podia parecer pedir um pouco mais de consideração. Então, o filósofo estabeleceu que uma coisa é o que é devido à sua forma. Mas isso traz outro problema: O que é exatamente a forma neste sentido? Se não é material, o que é? Aristóteles já havia rejeitado a teoria de Platão, logo não poderia ser uma espécie de entidade sobrenatural - tinha de fazer parte deste mundo!

As quatro causas
Segundo Aristóteles, a forma é o que faz com que uma coisa seja o que é. Isso leva-o a examinar a noção de «causa» neste contexto; e ele acaba por partir o conceito de «forma» em quatro espécies diferentes e complementares de «causa». Uma vez que o que ele chama «as quatro causas» constitui as razões por que uma coisa é o que é, pode ser útil chamar-lhe os quatro porquês. A forma é a explicação das coisas.
As quatro causas são:

  • causa material
  • causa eficiente
  • causa formal
  • causa final
Em relação à segunda, terceira e quarta causas, duas ou mais podem ser as mesmas num caso individual. Isto acontece essencialmente no campo das ciências.
Para Aristóteles, a forma de um objeto, apesar de não ser algo material, é inerente neste objeto deste mundo e não pode existir mais isoladamente, assim como a constituição de um homem não pode existir separadamente do seu corpo.
O verdadeiro objetivo de todas as coisas é o que elas fazem e para que servem. A mudança ocorre quando o material continuo que faz parte de uma coisa adquire uma forma que não tinha anteriormente.

Salvar as aparências
Em todas as tentativas para compreender o mundo, segundo Aristóteles, nunca se deve perder de vista o facto de que é este mundo que estamos a tentar compreender. Nunca se deve aceitar explicações a seu respeito que neguem a validade dessas mesmas experiências que se estão a tentar explicar. Devemos fazer dele uma questão de método em todas as investigações, para se conseguir dominar essas mesmas experiências que são apresentadas. Também se devem examiná-las a cada passo, porque só compreendendo-as é que se pode obter, por assim dizer, a causa final das interrogações. Para aliviar um pouco essa vigilância, para se abraçar algo que não se conhece, estar-se-á a incorrer num erro enorme.
Aristóteles parte da proposição que o que cada ser humano quer é uma vida feliz no sentido mais completo da expressão. O que proporciona isso é o mais completo desenvolvimento e exercício das capacidades do individuo, que seja compatível com o viver em sociedade. O comodismo e a arrogância desenfreados irão sempre conduzir a um conflito perpétuo com as outras pessoas e é mau para o carácter.
«Termo médio» - uma virtude é o ponto intermédio entre dois extremos, sendo cada um deles um vício.
Um aspeto marcante da filosofia moral de Aristóteles, é o facto de ter tão pouca moralização. O seu objetivo é essencialmente prático.

Segundo Aristóteles, o verdadeiro objetivo do governo é proporcionar aos seus cidadãos uma vida preenchida e feliz. Um indivíduo só consegue tal sendo membro de uma sociedade  - a felicidade e a realização pessoal não se encontram no isolamento individual.

Aristóteles afirma que a experiência emocional que se vive quando se assiste a uma tragédia é a catarse, a qual ele definiu como sendo uma purgação ou uma purificação através da piedade e do terror.

A escala da natureza
Quando Aristóteles quer «pôr ordem» na existência, ele aponta primeiro para o facto de que tudo o que há na natureza pode ser dividido em dois grupos principais:
  • coisas inanimadas - como pedras, gotas de água e torrões de terra. Nelas não está inerente nenhuma potencialidade de mudança. Essas coisas inanimadas só se podem alterar por ação do exterior.
  • coisas animadas - nestas é inerente a possibilidade de se alterarem.  Dentro deste grupo principal, existem dois secundários, o do reino vegetal (ou das plantas) e o de todos os outros seres vivos. Este último, por sua vez, sofre mais uma divisão - o dos animais e o dos homens.


O leitor
Segundo a tradição, apesar da discordância entre Platão e Aristóteles quanto à visão do mundo, o mestre tinha em grande apreço as qualidades deste seu colaborador talentoso. Mas não só na visão filosófica os dois grandes filósofos discordavam.
Nas antigas Vidas neoplatónicas, atribuem-se ao Mestre ateniense duas alcunhas que este costumaria atribuir ao discípulo. A primeira, compreensivelmente, seria «a inteligência», ou »a inteligência da aula» ou «da disputa». 
Já a segunda alcunha tem uma ressonância cultural, em que Platão chamaria Aristóteles «o leitor», dizendo muitas vezes «Vamos a casa do leitor». 
O  interesse desta designação, se verdadeira, é mais do que um apontamento de uma idiossincrasia de Aristóteles, mas devido a uma profunda alteração nos hábitos de leitura que o filósofo introduziu na cultura grega.
Com efeito, até Aristóteles, os livros não eram lidos, mas sim escutados. Os gregos contemporâneos do Estagira não liam eles próprios os textos, reclinavam-se passivamente enquanto absorviam a leitura que um servo fazia para eles. Aristóteles introduziu a novidade de acumular a dupla função de recitador e de ouvinte, fazendo assim evoluir a noção arcaica de «leitor» como aquele que lê alto para outrem e fundando a partir dela a noção moderna de «leitor» como alguém que lê baixo, ou em pensamento, para si mesmo.
Esta nova maneira de se ler, fará com que surjam imensas mudanças a atividade científica. Deve-se a esta inovação as institucionalização de rotinas de pesquisa, a atenção à recolha de dados, o pendor para o colecionismo histórico do erudito, a criação da transmissão escolar e da prosa científica, o interesse sistemático pela tradição das disciplinas. É o próprio Aristóteles que no seu primeiro livro dos Tópicos, recomenda a prática de sublinhar a anotar os manuscritos à margem, de os transcrever e de elaborar fichas de trabalho.

Breve cronologia da vida de Aristóteles  (os anos considerados são a. C.)
  • 425 - Nascimento do pai de Aristóteles, Nicómaco de Estagira
  • 385 - Nicómaco médico de Amintas.
  • 384 - Nascimento de Aristóteles.
  • c. 374-372 - Morte dos pais de Aristóteles. Aristoteles parte para junto de Arimnesta e Próxeno (sua irmã e seu cunhado), em Atarneu.
  • 367 - Chegada de Aristóteles a Atenas. Passagem pela escola de Isócrates (?). Ingresso na Academia.
  • 365 - 361 - Início da atividade como professor na Academia (362 ?)
  • 357 - Redação do diálogo Grilo (?).
  • 350 - 349 - Primeiros esboços dos Tópicos e da Retórica (?)
  • Abandono da Academia, juntamente com Xenócrates (na Primavera, pouco antes da morte de Platão). Partida para Aterneu. Estabelecimento em Asso.
  • 345 - Passagem para Mitilene, na ilha de Lesbos.
  • 343 - Partida para Péla, a convite de Filipe o Grande. Início das funções como preceptor de Alexandre.
  • 343 - 341 - Revisão do texto da Iliada (?). Redação das Dificuldades Homéricas e do diálogo Sobre os poetas (?). Redação de Sobre a realeza (?).
  • 341 -  Redação dos Dikaiomata e início da recolha das Constituições gregas (?). Abandono das funções docentes e breve estadia em Péla.
  • 340 - Regresso a Estagira (?). Compilação da História dos Jogos Píticos em parceria com Calístenes (?).
  • 339 - Casamento com Pitíade (?).
  • 335 - Regresso a Atenas e início do ensino no Liceu.
  • 334 - Nascimento da filha, Pitíade II (?).
  • 330 - Redação de Sobre as cheias do Nilo (?).
  • 327 - Morte da mulher, Pitíade I, de parto (?).
  • 326 - União com Herpílis (?)
  • 324 - Redação de Alexandre ou Sobre a colonização (?). Nascimento de Nicómaco (?)
  • 323 - Acusação do hierofanta Eurímedon contra Aristóteles. Partida para Cálcis (na mudança do ano 323/322, não depois da Primavera de 322).
  • 322 - Morte de Aristóteles (ligeiramente antes de Demóstenes).







Fontes
História da Filosofia, Bryan Magee, Círculo de Leitores, Março de 1999
Vida de Aristóteles, António Pedro Mesquita, Edições Sílabo, 1ª edição, 2006
O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, Editorial Presença, Lisboa, 30ª edição, Maio 2011

08/07/2016

Sosípatra, filósofa e clarividente

Enquanto conduzia ao longo de uma estrada acidentada, Filometor, um jovem estudante aristocrata, virou o seu carro e foi atirado para debaixo do veículo. Filometor escapou milagrosamente, tendo sofrido apenas algumas escoriações insignificantes. Quando os criados o transportaram para casa, em Pérgamo, descobriram que já todos os habitantes da cidade sabiam o que acontecera. Sosípatra, a famosa filosofa e clarividente, «vira» o acidente durante uma das suas palestras, interrompendo-a subitamente para descrever a cena... precisamente à hora em que esta se desenrolava.
Sosípatra nasceu por volta de 340 d. C. no seio de uma família rica de Éfeso, na Turquia Ocidental. Quando ela tinha cinco anos, dois estrangeiros misteriosos vieram trabalhar numa das propriedades da família. Os dois homens produziram uma colheita tão abundante de uvas que se suspeitou da intervenção divina.
Os homens recusaram recompensas, pedindo em vez disso que Sosípatra lhes fosse confiada durante cinco anos. O pai da criança concordou, e os estrangeiros começaram-lhe a ensinar a sabedoria dos filósofos, a iniciá-la em rituais misticos e a usar os seus poderes psíquicos. No dia em que o pai de Sosípatra foi buscá-la, ela descreveu-lhe os pormenores exatos da sua viagem até à propriedade.
Os professores de Sosípatra admitiram ser muto versados na cultura dos Babilónios, conhecedores de astrologia, magia e sabedoria religiosa, e, recusando de novo qualquer pagamento, desapareceram sem deixar rasto.
Quando, mais tarde, Sosípatra se casou com o filósofo Eustácio, profetizou de antemão que lhe daria três filhos e que ele morreria cinco anos depois do casamento. Depois da morte do marido, tal como ela predissera, Sosípatra mudou-se para Pérgamo, onde  viria a tornar-se famosa como professora de filosofia. As suas visões clarividentes prosseguiram até ao fim da sua vida. Segundo o seu biógrafo, Eunápio, Sosípatra convencia toda a gente de que «nada acontecia sem que ela estivesse presente para ver».





Fonte:Viagem ao Desconhecido, Selecções do Reader's Digest


Uma tábua de Ouija

Na corte de Constantinopla assistiu-se ao desenrolar de uma história de magia e conspiração, política e paganismo. Corria o ano de 371 d.C., no reinado do imperador cristão Valente, e Patrício e Hilário eram acusados de ter recorrido à adivinhação para descobrir quem ocuparia em seguida o trono imperial.
Patrício e Hilário tinham utilizado um dispositivo semelhante à moderna Tábua de Ouija. Haviam colocado um prato metálico, gravado com as 24 letras do alfabeto grego, sobre um tripé de madeira. Um vidente trajado de linho, envolto em fumo de incenso e dirigindo preces a um deus pagão (provavelmente, Apolo, deus da profecia), segurara um anel suspenso de um fio fino acima do prato. à medida que o espirito o fazia mover, o anel começara a agitar-se e a apontar letras, formando palavras.
Quando o vidente fez a pergunta crucial acerca do sucessor do imperador, o anel começara a indicar as primeiras letras de um nome: T - E - O -. Nesse momento, um dos participantes adivinhou que o homem nomeado seria Teodoro, e, assim, a sessão foi dada por terminada.
Embora os participantes tivessem jurado guardar segredo, em breve foram revelados pormenores da sessão, e Patrício e Hilário, acusados de traição. O mesmo aconteceu a Teodoro, embora este nem tivesse sequer sabido da realização da sessão. Estes três homens, e muitos outros também implicados, foram executados pelos seus alegados crimes.
Ironicamente, verificar-se-ia que o anel sabia mais do que o homem que falara na sessão de adivinhação. Passados sete anos, quando Valente morreu, o seu sucessor foi ... Teodósio.



Fonte:Viagem ao Desconhecido, Selecções do Reader's Digest
Imagem: Google


05/07/2016

Platão - a Ponte

Tudo o que se sabe acerca dos filósofos anteriores a Platão, deve-se a referências e citações nos escritos de outros pensadores posteriores, que os conheceram e às suas obras, obras essas que se perderam desde então. Algumas das referências e citações são extensas, mas não deixam de estar incompletas e de serem em segunda mão. Sócrates não deixou nada escrito e, portanto, é apenas através dos escritos de outros que sabemos alguma coisa acerca dele. Contudo, possuímos um sentido muito vivido da sua personalidade.
Neste caso, a nossa maior fonte é Platão, que foi um dos seus discípulos. Platão foi o primeiro filósofo ocidental que escreveu obras que permaneceram intactas. E mais ainda, temos razões para crer que estamos bastante familiarizados com todas as suas obras. Juntamente com o seu mestre Sócrates, há muitas pessoas que o consideram o maior filósofo de todos os tempos.

O Platão de Sócrates e o Sócrates de Platão
Platão tinha cerca de 31 anos quando Sócrates foi executado em 399 a.C. Ele esteve sempre no tribunal durante todo o julgamento. A sequência completa de acontecimentos parece ter sido uma experiência traumática para ele, uma vez que considerava Sócrates como o melhor, o mais sábio e o mais justo de todos os seres humanos. Depois da morte de Sócrates, Platão começou a fazer circular uma série de diálogos filosóficos, nos quais o protagonista é sempre Sócrates, inquirindo os seus interlocutores sobre os conceitos básicos de moral e política, criando armadilhas com as suas perguntas. Platão parece ter tido dois motivos para fazer isto. Um deles era provocador, para reafirmar os ensinamentos de Sócrates, apesar de o terem condenado oficialmente; o outro era reabilitar a reputação do seu mentor, mostrando-o não como um corruptor de jovens mas como um professor muito competente.
É geralmente unânime a opinião entre os eruditos que a principal fonte das ideias nos diálogos de Platão mudou à medida que os anos passavam. Os seus primeiros diálogos tinham um retrato mais ou menos exato do Sócrates histórico, desde que levemos em conta a normal liberdade de expressão artística e jornalística. Os temas debatidos eram temas debatidos pelo verdadeiro Sócrates e as coisas que Platão o ouviu dizer foi colocadas na sua boca. No entanto, quando Platão chegou perto de esgotar o seu material, descobriu que tinha criado um público leitor entusiasta, desejoso de mais. Assim, tendo muito mais para dizer, Platão continuou a escrever e a publicar diálogos, no que é considerada agora uma maneira popular e aceite que realça Sócrates como o protagonista; mas agora ele estava a colocar as suas próprias ideias na boca de Sócrates. Inevitavelmente, isto cria um problema para os eruditos de onde termina o verdadeiro Sócrates e onde começa Platão. Talvez isto nunca possa ser resolvido de maneira satisfatória. Contudo, não existem muitas dúvidas de que os primeiros e os últimos diálogos de Platão apresentam-nos dois filósofos diferentes, sendo o primeiro Sócrates e o último Platão.
O primeiro está apenas preocupado com os problemas da filosofia moral e a política e repudia os problemas filosóficos do mundo natural. Uma das crenças mais fiéis deste primeiro filósofo é a identificação da virtude com o conhecimento; e ele busca o conhecimento inteiramente através da discussão e do argumento.
Nenhuma destas coisas é verdadeira no filósofo posterior. Este, Platão, é um apaixonado pela filosofia em geral, a tudo o que se aplica ao mundo natural sobre como devemos conduzir as nossas vidas. Nenhum aspecto da realidade deixa de despertar o seu interesse. Longe de descurar a matemática ou a física, latão considera-as como as chaves para compreender o mundo natural. Por cima da porta da sua academia, ele inscreveu as palavras: »Que ninguém ignorante em matemática aqui possa entrar.» Muitas das suas doutrinas mais importantes são expostas em longas explicações, que não são discussões nem diálogos, num sentido real, mas apenas uma forma puramente simbólica, em que uma personagem articulada se limita a pronunciar de vez em quando um «Sim, com efeito» ou «É um assunto a considerar». E Platão rejeita a doutrina de que a virtude é puramente uma questão de saber o que está certo.
Onde Platão nunca se dissocia de Sócrates é na sua convicção do conceito de que o único mal real que pode atingir uma pessoa é o mal da alma e, portanto, é melhor sofrer uma injustiça do que cometê-la; e também na sua convicção de pensar por si, não tomar nada como garantido e estar pronto para questionar tudo e todos. Foi esta última crença que o impulsionou ao longo dos anos a expor as suas próprias ideias depois de ter exposto as de Sócrates. Afinal de contas, pensar como Sócrates, da forma como Sócrates ensinou as  outras pessoas a pensar, é pensar por si mesmo independentemente de qualquer autoridade; por isso, para Platão isto significava pensar por si mesmo, independentemente de Sócrates. Ao afastar-se de Sócrates, Platão seguiu-lhe as pisadas.

O primeiro professor
Platão viveu durante meio século após a morte de Sócrates, morrendo aos 81 anos. Durante este tempo, publicou cerca de duas dúzias de diálogos, que variam entre as 20 e as 300 páginas na escrita moderna. Os mais famosos de todos são a República, que se preocupa essencialmente com a natureza da justiça, e quais as tentativas, entre outras coisas, que estabeleceram o esboço do estado ideal, e O Banquete, que é uma investigação acerca da natureza do amor. A maioria dos restantes diálogos tem o nome do principal interlocutor de Sócrates. Por conseguinte, temos Fédon, Laques, Êutifron, Teeteto, etc.
Estes diálogos encontram-se entre as maiores obras literárias do mundo. Talvez os mais comoventes de todos sejam aqueles que têm a ver diretamente com o julgamento e morte de Sócrates: Críton, Apologia de Sócrates e Fédon. A Apologia de Sócrates pretende ser o discurso feito por Sócrates em sua defesa no seu julgamento e á a sua apologia pro vita sua, a sua justificação pela sua vida.
Platão deve ser considerado um artista, bem como um filósofo. Também foi ele que instituiu o protótipo da universidade. «Academia» era simplesmente o nome da sua casa e, uma vez que ele ensinava discipulos adultos, daí ter surgido a palavra para ser empregue em relação a qualquer edifício no qual os jovens mais velhos recebiam umaeducação superior.
Academia de Platão. Pintura de rafael Sanzio (1510). No centro encontram-se Platão que aponta para cima e Aristóteles, indicando para baixo. Referência à diferença nas filosofias, em que Platão defendia a existência de um outro plano  perfeito, sendo esse o real,  enquanto Aristóteles, defendia que havia apenas esta realidade com a qual o homem lidava diariamente.

Existência ideal
A doutrina pela qual Platão é mais conhecido é a sua teoria das Formas ou das Ideias, que significavam o mesmo neste conceito.
Foi feita uma referência ao facto de que quando Sócrates perguntava «O que é a beleza?» ou «O que é a coragem?» ele não estava a tentar descobrir a natureza de alguma entidade abstrata que realmente existisse. Ele considerava estas que entidades não se encontravam num determinado lugar, nem num tempo específico, mas como tendo uma espécie de existência universal que era independente do espaço e do tempo. Os objetos bonitos e individuais que existem no nosso mundo quotidiano e as ações corajosas que as pessoas praticam individualmente são sempre passageiros, mas compartilham da essência intemporal da verdadeira beleza e da verdadeira coragem; e estes são ideais indestrutíveis com uma existência própria.
Platão pegou nesta teoria deduzida sobre a natureza da moral e dos valores e generalizou-a por toda a realidade. Ele considerava que tudo, sem exceção, no mundo era efémero e uma cópia decadente de algo cuja forma ideal (daí os termos Ideal e Forma) tem uma existência permanente e indestrutível fora do espaço e do tempo.
Platão baseou esta conclusão com argumentos de fontes diferentes. Por exemplo, parecia-lhe que, quando mais se aprofundasse os estudos de física, mais claro se tornaria que os relacionamentos matemáticos são construídos em tudo no mundo material. Todo os cosmos parece exemplificar a ordem, a harmonia e a proporção. Platão, seguindo as ideias de Pitágoras, pegou neste conceito para revelar que sob a superfície desordenada do mundo quotidiano existe uma ordem que possui todo o idealismo e perfeição da matemática.

Platão e o cristianismo
Segundo Platão a realidade encontra-se dividida em dois planos:

  • mundo visível - mundo comum quotidiano, que se apresenta aos sentidos, onde nada perdura e nada fica igual. Tudo nasce e morre, tudo é imperfeito, tudo se deteriora.
  • mundo que não é espaço nem tempo e não está acessível aos sentidos humanos. Contínuo e ordenado. Intemporal e imutável.
O mundo visível apenas mostra breves e vagos vislumbres do segundo plano que, no entanto, é o real.
Nos seres humanos, a parte visível é o corpo (nasce e morre, é imperfeito, nunca sendo igual em dois momentos diferentes. O corpo é o mais simples e transitório vislumbre daquilo que o ser humano também é - imaterial, intemporal, e indestrutível: a alma, a Forma permanente.
Esta filosofia platónica influenciou o cristianismo que surgiu e desenvolveu-se no mundo helénico. E muitos dos pensadores, que escreveram o Novo Testamento, estavam preocupados em reconciliar as Revelações da sua religião com as principais doutrinas de Platão.
Durante algum tempo era comum as pessoas referirem-se a Sócrates e Platão como «os cristãos antes de Cristo».
Na verdade as conclusões de Platão não reclamam por nenhuma crença num Deus ou numa revelação religiosa.
O próprio Platão começou efetivamente a acreditar nas Formas Ideais como divinas porque eram perfeitas (e na reencarnação), mas muitos pensadores que influenciou eram totalmente não religiosos.
Platão acreditava que o principal objetivo da vida de uma pessoa inteligente era ir além do visível até à realidade subjacente, isto é, obter uma visão inteletual do mundo das Ideias (misticimo inteletual). Para tal é preciso ver através do efémero (mundo dos sentidos), libertando-se das suas tentações e seduções - o que lhe causa hostilidade em relação às artes (representação da natureza, apelo aos sentidos). Duplamente enganadoras, as formas de arte são um perigo para a alma, pois enriquecem o envolvimento emocional com as fontes de ilusão.

O individuo humano é composto por:

  • paixão
  • intelecto
  • vontade
Platão achava que era fundamental o intelecto ser dominante, controlando as paixões através (extrapola para a  «sociedade ideal») da vontade.

O mais talentoso dos sucessores de Platão foi Arist´teles, que entra muitas vezes em disputa directa com o mestre. 
Platão teve grande influencia sobre Plotino (204 -269 d.C), o qual poderá ser considerado o último dos grandes filósofos gregos. O fim de uma linha de sucessão que começou com Tales no século VI a.C. e foi, na verdade, o último grande filósofo da Antiguidade.




04/07/2016

Quarks - partículas elementares

Um quark é uma partícula elementar e um constituinte fundamental da matéria. Os quarks combinam-se entre si para formarem as partículas compostas, designadas de hadrões, sendo, de entre estes, os mais estáveis os protões e os neutrões, os componentes do núcleo atómico. Devido a um fenómeno conhecido como confinamento, os quarks nunca são observados diretamente, ou encontrados, isoladamente; só podem ser encontrados com hadrões, como bariões (dos quais são exemplos os protões e os neutrões) e os mesões. Por esta razão, bastante do que é conhecido acerca dos quarks tem sido obtido a partir dos próprios hadrões.
Os quarks são possuidores de várias propriedades intrínsecas, incluindo a carga elétrica, a massa, a carga de cor e o spin. Os quarks são as únicas partículas elementares no Modelo Padrão da física de partículas a experimentar todas as quatro interações fundamentais, também conhecidas como «forças fundamentais» (eletromagnetismo, gravitação, interação forte e interação fraca), assim como as únicas partículas conhecidas cujas cargas elétricas não são integrais múltiplas de carga elementar.
Existem seis tipos de quarks conhecidos como sabores: up, down, strange, charm, top e bottom. Os quarks up e down são os que têm a menor massa de todos os quarks. Os quarks mais pesados mudam rapidamente para quarks up ou down através de um processo de decaimento de partículas: a transformação de um estado de maior massa para um estado de menor massa. Devido a este facto, os quarks up e down são geralmente os mais estáveis, assim como os mais comuns, no universo, enquanto que os strange, charm, bottom e top só podem ser produzidos com colisões a elevadas energias (tal como aquelas que envolvem os raios cósmicos e os aceleradores de partículas). Para cada sabor de quark existe uma antipartícula correspondente, conhecida como antiquark, que apenas difere do quark na medida em que algumas das suas propriedades têm magnitudes iguais, mas sinais opostos.
O modelo quark foi proposto de forma independente pelos físicos Murray Gell-Mann e George Zweing, em 1964. Os quarks foram introduzidos como fazendo parte de um esquema de ordenação de hadrões, e haviam poucas evidências para a sua existência física até que se fizeram experiências a fundo de espalhamento inelástico, no Centro do Acelerador Linear de Stanford, em 1964. As experiências no Acelerador forneceram indícios para a existência dos seis sabores. O quark top foio último a ser descoberto, no Fermilab, em 1995.


O Modelo Padrão é o quadro teórico que descreve todas as partículas elementares que se conhecem atualmente. Este modelo contém seis sabores de quarks (q), nomeadamente o up, o down (d), o strange (s), o charm (c), o bottom (b) e o top (t). As antipartículas dos quarks são chamadas de antiquarks e são indicadas por uma barra sobre o símbolo para o quark correspondente, tal como ū para um antiquark up. Tal como geralmente acontece na antimatéria, os antiquarks têm a mesma massa, a mesma média de tempo de vida e spin como os seus respectivos quarks, mas a carga elétrica e outras cargas têm o sinal oposto.
Os quarks são partículas de spin -1/2, o que faz com que seja fermiões, de acordo com o teorema da estatística do spin. Estão sujeitos ao Princípio  de Exclusão de Pauli, que afirma que dois fermiões idênticos não podem ocupar o mesmo estado quântico simultaneamente. Isto contrasta com a situação dos bosões (partículas com spin inteiro), em que qualquer número dos quais pode encontrar-se no mesmo estado. Diferentemente dos leptões, os quarks têm carga colorida, o que faz com que participem na interação forte. A atração resultante entre os diferentes quarks provocam a formação de partículas compostas conhecidas por hadrões.
Os quarks que determinam os números quânticos dos hadrões são chamados de quarks de valência; para além destes, qualquer hadrão pode conter um número indefinido de quarks virtuais, antiquarks e gluões que não influenciam o seu número quântico. Existem duas famílias de hadrões: os bariões, com três quarks de valência e os mesões, com um quark de valência e um antiquark. Os bariões mais comuns são o protão e o neutrão, os blocos de construção do núcleo atómico. Conhece-se um grande número de hadrões, em qua a maior parte diferencia-se pelo conteúdo do quark e as propriedades constituintes  destes quarks confirmam este conhecimento. Tem-se conjecturado a existência de "hadrões exóticos", como os tetraquarks e os pentaquarks, mas  ainda não se provou a sua existência. No entanto, a 13 de julho de 2015, a colaboração LHCb no CERN anunciou resultados que são consistentes com estados de pentaquarks.
Os fermiões elementares estão agrupados em três gerações, cada uma contendo dois leptões e dois quarks. Todas as buscas por uma quarta geração de quarks e outros fermiões têm falhado, e existem fortes evidências indiretas de que não existem mais do que três gerações. As partículas nas gerações elevadas têm geralmente uma valor de massa maior e menor estabilidade, fazendo com que decaiam em gerações mais baixas através de interações fracas. Só os quarks de primeira geração (up e down) ocorrem de forma natural na natureza. Os quarks pesados só conseguem ser criados em colisões de alta-energia (como aquelas que envolvem raios cósmicos), e decaem rapidamente; no entanto, pensa-se que tenham estado presentes nas primeiras frações do segundo após o Big Bang, quando o universo estava numa fase extremamente quente e densa (a época quark). Os estudos dos quarks mais pesados são feitos em condições artificiais, como os aceleradores de partículas.
Tendo carga elétrica, massa, carga de cor e sabor, os quarks são as únicas partículas elementares conhecidas que participam em todas as quatro interações fundamentais da física contemporânea: eletromagnetismo, gravitação, interação forte e interação fraca. A gravitação é demasiado fraca para ser relevante às interações de partículas individuais com exceção em casos de elevada energia (energia Planck) e a escalas de distância (distância Planck). No entanto, uma vez que não existe nenhuma Teoria da Gravidade Quântica bem sucedida, a gravidade não é descrita pelo Modelo Padrão. 



Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...