18/06/2016

Sócrates - O Inquiridor

Sócrates foi o primeiro grande filósofo grego a ser ateniense por nascimento e viveu durante o que se chamou a era dourada da cidade. Sócrates nasceu por volta de 470 a.C. e morreu em 399 a.C., deixando para trás a mulher e três filhos. E terá sido, muito provavelmente, a personagem mais enigmática de toda a história da filosofia. Não escreveu uma única linha, no entanto, pertence ao número dos que exerceram maior influencia no pensamento europeu. Achava que os campos  e as árvores não lhe podiam ensinar nada. Por vezes, ficava longas horas absorto em reflexões profundas. Ainda no seu tempo, era considerado o precursor das mais diversas orientações filosóficas. E por ser tão enigmático e ambíguo, variadíssimas orientações o podiam reivindicar.
A vida de Sócrates é conhecida sobretudo através de Platão, que era seu discípulo, também ele um dos maiores filósofos da história. Platão escreveu muitos diálogos - ou conversas filosóficas - nas quais faz participar Sócrates.
Enquanto jovem estudou as filosofias que estavam então na moda dos filósofos que são atualmente designados de «pré-socráticos», que tentavam nas suas diferentes maneiras, compreender o mundo que os rodeava. Houve duas coisas que impressionaram o filósofo acima de tudo, e que Sócrates achava desvantajoso para os filósofos:

  • a primeira era estarem em desigualdade entre si. Eles eram um turbilhão de teorias contraditórias, e não parecia haver uma maneira satisfatória de decidir a melhor entre elas. Apresentavam ideias entusiasmantes acerca do mundo, mas sem grande preocupação aparente com um método crítico; assim, era impossível dizer qual delas era verdadeira, se é que alguma delas o era;
  • a segunda objeção era dizer que, em todo o caso, não fazia grande diferença prática, mesmo que se conseguisse descobrir qual delas era a verdadeira. Que efeito teve no quotidiano das pessoas a que distância se encontrava o Sol da Terra ou se ele era do tamanho do Peloponeso ou maior do que o próprio mundo?  O comportamento do homem não poderia, de forma alguma, ser afectado por esse conhecimento. O que era preciso saber era como conduzir a vida e a si mesmo. Havia perguntas mais urgentes, como: «Oque é bom?» «O que é justo?» «O que é certo?»
Sócrates não achava que sabia as respostas a estas perguntas. Mas viuque também mais ninguém as sabia. Quando o oráculo de Delfos o considerou o mais sábio dos homens, Sócrates achou que isso só poderia querer dizer que apenas ele sabia que nada sabia. Na altura não havia um conhecimento com bases seguras sobre o mundo natural e também não se sabia muito bem sobre o mundo dos assuntos do homem.
Dessa forma, o filósofo deambulou por Atenas enunciando as questões básicas de moralidade e política a todos os que o escutassem. O interesse das discussões que levantava era tal - e Sócrates também era obviamente uma personagem carismática - que as pessoas juntavam-se à sua volta onde quer que ele fosse, principalmente os jovens ávidos de saber. O seu procedimento era sempre o mesmo. Pegava num conceito que era fundamental para a vida e perguntava: «O que é a amizade?», ou: «O que é a coragem?», ou «O que é a devoção religiosa?»
Sócrates desafiava uma pessoa que achava que sabia a resposta e depois sujeitava esta resposta a um inquérito fazendo a essa pessoa uma série de perguntas minuciosas sobre a questão colocada. Sob a interrogação acontecia sempre que a pergunta original era incompleta. Isto mostrava que, apesar de o interlocutor - e, mais inda os espetadores - ter pensado que sabia o que era, na verdade não o sabia.

Esta interrogação socrática tornou-se famosa e teve consequências. Expôs a ignorância das pessoas que pensavam que sabiam; despertou nos espetadores um interesse numa questão filosófica fundamental e lançou-os numa discussão sobre o assunto. Apesar de o próprio Sócrates raramente dar respostas finais, estimulava e excitava o interesse nos problemas que levantava e fazia com que as pessoas apreciassem ainda mais as dificuldades envolvidas em tentar resolvê-las.

Diz-se que a mãe de Sócrates era parteira, e Sócrates comparava a sua atividade à arte da obstetrícia. Não é a parteira que dá à luz a criança, ela apenas está presente e ajuda a mãe. Sócrates compreendeu também que a sua tarefa era ajudar os homens a «parir» o saber correcto, porque o verdadeiro saber tem de vir de dentro e não pode ser enxertado. Só o conhecimento que vem de dentro é a verdadeira «inteligência».

O que está para além das palavras?
Quando Sócrates fazia uma pergunta, por exemplo «O que é a justiça?» não estava a pedir uma mera definição verbal. O filósofo ateniense acreditava que o facto de ser aplicada a palavra «justo» a todos os tipos de pessoas, decisões, leis e disposições diferentes tinha algo em comum, uma propriedade comum denominada «justiça» que todos partilhavam; e era o carácter desta propriedade comum que tentava tornar público. Este seu ponto de vista viria a ser desenvolvido na obra do seu discípulo Platão, numa crença de ideias abstractas como as formas perfeitas e permanentes de todas as entidades e características a serem descobertas neste mundo imperfeito e inconstante das nossas vidas quotidianas.

A própria natureza do que Sócrates fez tornou-o uma influência subversiva e de ruptura. Ele ensinava as pessoas a questionarem tudo e expunha a ignorância de indivíduos que se encontravam no poder e detinha autoridade. Tornou-se uma figura bastante controversa, muito amado, mas também muito odiado. Num dos  festivais públicos da cidade, Sócrates foi caricaturado no teatro perante toda a população de Atenas pelo dramaturgo cómico Aristófanes, numa peça chamada As Nuvens (423 a. C.). No final, as autoridades prenderam-no, acusando-o de corrupção de jovens e de não acreditar nos deuses da cidade. Foi julgado e condenado à morte com veneno. O relato pormenorizado do seu julgamento e da sua morte é uma das tragédias mais inspiradoras da história do pensamento humano.
O que tornou Sócrates, em alguns apetos, o filósofo mais famoso de todos foi o facto de ter sido ele quem começou a pôr implacavelmente em dúvida os conceitos básicos que tinham sido os característica da filosofia até então. O ateniense costumava dizer que não tinha ensinamentos positivos para oferecer, nem perguntas para fazer. Mas isto era falso. A partir de determinadas linhas de interrogação, às quais recorria continuamente, torna-se claro que existem certas crenças apreciadas por ele e que são a base para muitas das suas afirmações.
Uma delas é que não há nenhum mal real e a longo prazo que possa atingir um homem que preserve a sua integridade. As incertezas deste mundo são tantas que pode acontecer a qualquer pessoa ser despojada de todos os seus bens e ser atirada para a prisão injustamente ou ficar incapacitada por um acidente ou uma doença; mas isto são acontecimentos casuais numa existência fugaz que, de qualquer forma, vai acabar depressa. Desde que a alma permaneça intocada, os infortunios serão comparativamente banais. A verdadeira catástrofe real consiste na corrupção da alma. É por essa razão que é muito menos prejudicial a uma pessoa sofrer uma injustiça do que cometê-la. Deve ser lamentado aquele que comete a injustiça e não a vitíma.
Esta crença de Sócrates tornou-o num herós para os estóicos, que centenas de anos mais tarde transformaram-no numa espécie de santo patrono secular. Uma outra crença básica de Sócrates é que ninguém faz, de facto, nada deliberadamente mal. O que ele pretendia demonstrar é que, se uma pessoa faz uma coisa sabendo perfeitamente que ela é errada, então não está a fazê-la. Por outro lado, se a fizer realmente, isso prova que lá no fundo a pessoa não entende que isso é errado. Este ponto de vista tem como consequência que a virtude se torna parte do conhecimento. Essa convicção por parte de Sócrates forneceu grande parte da energia que estava que estava por detrás da sua busca incansável de perguntas como, «O que é a justiça?»
Acreditava que, se conseguisse saber a resposta às perguntas, seria obrigado a comportar-se de forma justa. Em casos destes, a busca do conhecimento e uma aspiração à virtude são uma e única coisa.

Ser verdadeiro consigo mesmo
Existem dúvidas se houve outro filósofo a ter tanta influência quanto Sócrates. Foi o primeiro a ensinar a prioridade da integridade pessoal em termos do dever de uma pessoa para consigo mesma e não para com os deuses, nem para com a lei, nem para com as autoridades. Este conceito teve uma influência incalculável ao longo dos tempos. Ele não só estava disposto a morrer às mãos da lei em vez de deixar de dizer aquilo que acreditava ser certo, como também escolheu efetivamente fazê-lo, quando podia ter escapado  se quisesse. É uma prioridade que foi reafirmada por alguns dos maiores pensadores desde então - pensadores que não estavam necessariamente sob a sua influência. Jesus disse: « Que ganhará um homem ao conquistar o mundo inteiro à custa da sua verdadeira natureza?» E Shakespeare afirmou: «Isto acima de tudo: ser verdadeiro convosco.»
Além disso, Sócrates fez mais do que qualquer outra pessoa para estabelecer o princípio de que tudo deve ser aberto a interrogação - não pode haver respostas breves e áridas, porque as respostas, tal como tudo o resto, estão elas próprias abertas a serem questionadas. Continuando a partir daqui, Sócrates estabeleceu no centro da filosofia um método denominado «dialéctica», o método da busca da verdade através de um processo de perguntas e respostas. Permaneceu assim desde então e é usado principalmente como método de ensino. 
Sócrates pedia um relacionamento harmonioso e pessoal entre professor e discípulo, em que o professor compreende verdadeiramente as dificuldades do discípulo e o incita, passo a passo, na direção certa - a isto é chamado «método socrático».


Séculos mais tarde, o filósofo romano Cícero disse que Sócrates trouxera a filosofia do céu para a terra, a introduzira nas cidades e nas casas e que tinha forçado os homens a refletirem sobre a vida e os costumes, o bem e o mal.






Fontes
História da Filosofia, Bryan Magee, Círculo de Leitores, Março de 1999
O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder, Editorial Presença, Lisboa, 30ª edição, Maio 2011

Imagens
Estátua de Sócrates na Academia de Atenas
A morte de Sócrates, pintura de Jacques-Louis David, 1787


Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...