18/06/2016

Deslumbramento


«Os interesses de William Blake eram religiosos e místicos, mas eu [Richard Dawkins] gostaria de ter escrito, palavra por palavra, a famosa quadra que se segue, e, se o tivesse feito, a inspiração e o significado teriam sido muito diferentes:

Para ver um mundo num grão de areia
E um paraíso numa flor selvagem
Segure o infinito na palma da sua mão
E a eternidade numa hora.

Auguries of Innocence (c. 1803)

A estrofe pode ser lida como se fosse sobre ciência, toda sobre estar no pequeno foco de luz em movimento, sobre domar o espaço e o tempo, sobre o muito grande construído a partir da granulosidade quântica do muito pequeno, uma flor solitária como uma miniatura de toda a evolução. Os impulsos de temor, reverência e deslumbramento que levaram Blake ao misticismo (e, como veremos, figuras menos conhecidas à superstição paranormal) são precisamente os mesmos que levaram alguns de nós para a ciência. A nossa interpretação é diferente, mas o que nos entusiasma é o mesmo. O místico fica satisfeito por se aquecer no deslumbramento e se deliciar com um mistério que não era suposto nós compreendermos. O cientista sente o mesmo deslumbramento, mas é inquieto, insatisfeito: reconhece o mistério como profundo e depois acrescente "Mas estamos a trabalhar nele".


Decompondo o Arco-Íris, Richard Dawkins, edições Gradiva, 1ª edição Junho de 2000


Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...