01/06/2016

A velhice


Muito se ouve reclamar da velhice, da chegada da velhice, no entanto sempre achei que todas as idades têm os seus aspectos positivos, se a juventude está plena de vigor físico, também é recheada de erros e mal-entendidos. Só à medida que vamos envelhecendo, e o nosso corpo vai perdendo algum do seu vigor, é que o nosso espírito vai fortalecendo a sua força e sabedoria.
Mas é necessário trabalhar, pois o espírito, a mente e o corpo todos possuem algo em comum para serem saudáveis - têm de ser trabalhados, e com insistência. E aqui também sublinho o coração, o poder de perdoar, de amar, é algo que deve ser exercitado todos os dias.
Se trabalharmos a todo instante por tal, todas as idades são belas, há é pouco reconhecimento de tal.

Mas não se pense que a arte do queixume é atual, já é tão antiga, julgo eu, quanto o homem.

Vejamos alguns trechos da obra de Cícero, "Catão-o-Velho ou da Velhice", político, orador e homem de letras romano, nascido em 106 e falecido a 43 a.C.

«Foi realmente para mim tanta a alegria na composição desta obra que, além de ter dissipado todas as moléstias da velhice, tornou esta mesma suave e espirituosa. Logo, jamais a filosofia poderá ser justamente louvada com dignidade: é que para quem a pratica toda a idade da vida pode ser superada.»

«Para aqueles que não possuem, eles próprios qualquer recurso para viver bem e com felicidade, para esses toda a idade é penosa. Para aqueles que reclamam para si todos os bens, para esses nenhuma coisa, que a necessidade natural possa trazer, pode ser vista como um mal.»

«De muitos conheci uma velhice que desconheceu as lamentações; esses não só se desvincularam sem dificuldade dos prazeres como também nunca foram desprezados pelos seus.»

«Cipião e Lélio, as artes e a prática da virtude são as armas mais próprias à velhice, as quais devem ser cultivadas em todas as idades

«Depois de uma vida simples e serena, gerida com equilíbrio, vem aquela velhice plácida e calma, como a de Platão que, conforme nos foi ensinado, morreu ainda escrevendo aos oitenta anos, como a de Isócrates, o qual afirma ter escrito o seu discurso intitulado Panatenaico aos noventa, vivendo mais cinco anos; seu mestre, Górgias de Leontinos, chegou aos cento e sete e nem uma só vez abandonou a leitura e o estudo...»

«...distingo quatro causas às quais possa a velhice parecer infeliz: uma, porque aparta da administração dos negócios; outra, porque debilita o corpo; a terceira, porque impede o desfrutar de quase todos os prazeres; a quarta, porque está próximo da morte.»

«Não se realizam grandes feitos recorrendo à força, à agilidade ou destreza físicas, antes, pelo conselho, pela autoridade, pelo prestígio, dos quais a velhice não só se não encontra privada como ainda os engrandece.»

«Exercito a memória, à boa maneira dos Pitagóricos, relembrando, todas as noites, o que disse, ouvi e fiz nesse mesmo dia. São estes os exercícios do intelecto, tais as linhas do meu pensamento.»

«...aquele que vive sempre nestes estudos e ocupações, não se apercebe como a velhice imperceptivelmente se avizinha. Assim envelhecemos naturalmente, sem darmos por isso, sem acabarmos abruptamente, extinguindo-nos lentamente.»

«Dizia ele [Quinto Máximo] que para o homem nada de mais funesto existia para além dos prazeres corporais; inspiram estes paixões ardentes que buscam irreflectida e desregradamente ser satisfeitas. Daqui advêm as traições à pátria, as conspirações contra o estado, os acordos secretos com o inimigo, enfim, não há crime ou desígnio criminoso que seja capaz de resistir aos deleites do prazer e da paixão. O rapto, o adultério, assim como toda a espécie de tal ignomínia, não são provocados por nenhuns outros engodos que não sejam aqueles originados pelo prazer; e como a natureza - ou talvez algum deus - outorgou ao homem nada mais excelente do que o seu intelecto, não tem, por conseguinte, esta dádiva divina inimigo mais hediondo do que o prazer.
12.41 Nem tão pouco, quando a paixão é dominante pode ter lugar a moderação, nem mesmo a virtude poderá sobreviver no reino da luxúria.»

«Para quê tudo isto? Para poderdes compreender o seguinte: se a razão e a sabedoria não nos permitem afastar o prazer, é necessário, então, que estejamos imensamente agradecidos à velhice por eliminar aquela ânsia de fazer o que não deveria ser feito.»

«Como é uma felicidade para o espírito, ao libertar-se, por assim dizer, do serviço militar do prazer, da ambição, das rivalidades, das inimizades, de toda a cupidez, ficar a sós consigo e assim viver, consigo mesmo! Se encontrar algum alimento no estudo e na ciência, então nada de mais feliz do que uma velhice ociosa.»

«Os senadores, isto é, os velhos, viviam nos campos [...] terá sido miserável a velhice destes, que se dedicaram a cultivar os campos? Pelo que me toca, duvido existir algo de mais feliz, não só pela sua utilidade, já que para o ser humano é salutar a vida rural, mas ainda devido ao prazer de que falei, e ainda pela abundância de todos os produtos destinados ao sustento do homem e ao culto dos deuses.»

«Nada de mais benéfico, ou de mais belo, do que um campo cultivado.»

«Tende, porém, bem presente que eu discuto aquela velhice que começa por radicar nos tempos da juventude. Daqui se segue que, tal como afirmei um dia com a aprovação de todos, miserável é aquela velhice que se defende apenas com palavras. Os cabelos brancos não ganham prestígio de repente, nem tão pouco as rugas; mas, uma vida honesta e sabiamente gerida colhe sempre do prestígio os melhores frutos.»

«Que mais insensato do que tomar o certo pelo incerto, e o falso pelo verdadeiro? O velho não tem necessariamente que esperar coisa alguma. Encontra-se, contudo, em melhor situação do que o jovem em virtude de ter já alcançado aquilo porque esperou. Um quer viver durante longo tempo, o outro já viveu durante muito tempo.»

«Enquanto estamos a morrer podemos ainda sentir algo durante pouco tempo, e isto acontece aos velhos especialmente. Depois da morte, ou não existe sensação ou, se existe, ela é agradável. Devemos meditar sobre o desprezo pela morte desde os tempos da adolescência. Sem tal reflexão ninguém pode estar de espírito tranquilo.»

«Enfim, existem os interesses que são próprios da velhice, logo, assim como os das idades precedentes se desvaneceram, também os da velhice se apagam e, quando isso acontece, a saciedade de viver cede o lugar ao tempo propício à morte.»



Fontes: Da Velhice, Marco Túlio Cícero, tradução do latim de Carlos Humberto Gomes, editora Biblioteca Editores Independentes

Imagem: O Velho e o Mar de Aleksandr Petrov, óleo sobre placas de vidro


Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...