20/05/2016

Vida na Escuridão

«Penso que nunca mais haverá uma descoberta como esta». exultava o oceanógrafo George Somero, do Scripps. «É como descobrir outro planeta, outra forma de vida.» A surpresa não era apenas devida ao aspecto das criaturas, mas principalmente à forma como viviam.
As comunidades ecológicas descobertas até então na Terra, eram mantidas através da luz solar. As plantas verdes captam a luz do Sol, que usam para ativar o seus laboratórios químicos no interior das suas células. Estes laboratórios microscópicos, chamados cloroplastos, fabricam açucares e amido - hidratos de carbono - por fotossíntese (palavra cujas raízes gregas significam literalmente «juntar com o auxílio da luz»). Nenhum ser humano alguma vez concebeu laboratório mais eficiente, ou cujos produtos fossem mais procurados, que um cloroplasto. As plantas vivem dos hidratos de carbono, e o mesmo fazem todos os seus vizinhos. Até os carnívoros obtêm os seus hidratos de carbono das plantas verdes, de uma maneira ou de outra. O lobo come o veado, que por sua vez come a erva.
Mas no fundo do mar não há sol, não existem plantas verdes. Assim, as criaturas agrupam-se à volta dos orifícios, de maneira diferente de qualquer outra comunidade da Terra, e vivem da energia do próprio planeta. Deve a sua vida, em certo sentido, às placas tectónicas. A água, depois de se encontrar com o basalto quente por baixo do fundo do mar, fica rica em gás sulfídrico (o composto de enxofre que emite o cheiro parecido ao dos ovos podres). Enquanto que para os humanos o gás sulfídrico é venenoso, para as bactérias nos orifícios é o suporte da vida. Elas comem o sulfureto e usam-no de maneira semelhante à das plantas em relação ao sol. Com a energia derivada da divisão do composto, cada laboratório químico das bactérias produz grandes quantidades de açucares e amidos. Fazem isto de forma tão eficiente que se multiplicam aos biliões nas águas dos orifícios tornando-as leitosas. De alguns orifícios pródigos, chamados white smokers, as bactérias saem como se fossem o fumo de uma chaminé.
O resto das criaturas nos escuros orifícios dependem das bactérias, tal como os que vivem à Riftia pachyptila, por exemplo, é tão dependente das bactérias, que é difícil de dizer onde termina a bactéria e começa o verme. O corpo do Riftia está cheio com um órgão chamado trofossoma. O trofossoma, por sua vez, está cheio de bactérias, o que constitui a maior parte do peso do verme; em troca, o verme fornece às bactérias o abrigo do seu próprio corpo e o oxigénio do seu sangue. Isto é sem dúvida uma antiga combinação, desde há muito, na evolução. O verme não pode viver sem a bactéria. Não tem olhos, nem boca, nem intestinos, nem ânus. Não poderia comer, mesmo que quisesse.


superfície, dependem das plantas. Os pequenos animais comem as bactérias, e os animais grandes comem os pequenos. Outras criaturas vivem com as bactérias em simbiose, uma sociedade intima entre as espécies. O verme gigante em forma de tubo nomeado de

De todas as extraordinárias e improváveis combinações da vida na Terra, nenhuma é tão estranhamente improvável como a criação da própria vida. A despeito das diversas teorias, ninguém conseguiu ainda explicar como é que os átomos e as moléculas se reuniram para formar uma célula. Os bioquímicos sabem que mesmo o mais simples mecanismo molecular numa célula é intrincado, e tem de sê-lo, já que a célula constrói duplicados de si própria, isto é, reproduz-se. Como é que as inanimadas moléculas se combinam em mecanismos tão complicados? Devem ter acontecido mais coincidências e encontros do destino do que nas novelas de Charles Dickens.
E, no entanto, a vida espalhou-se na Terra logo que o planeta arrefeceu. Os cientistas estão razoavelmente seguros, a partir da evidência da informação radioactiva, de que a Terra se formou há 4,6 milhões de anos. Os sinais geológicos de vida mais antigos têm cerca de 4 milhões de anos de idade. Nos seus primeiros 500 milhões de anos, o planeta era certamente muito quente e violento para permitir a existência de vida. O que deixa para a criação apenas algumas centenas de milhões de anos - dadas as dimensões da tarefa, quase tempo nenhum. Como é que uma maravilha tão intrincada aparece num tão curto intervalo de tempo? Pode a evolução realmente trabalhar tão depressa?

Como repararam Jack Baross e John Corliss, veteranos da experiência aos Galápagos, existiam certamente orifícios tornou-os um ambiente ideal para a vida se desenvolver. Todos os ingredientes químicos estavam presentes, incluindo o carbono, o hidrogénio, a água, o metano e a amónia. Ninguém sabe qual a temperatura ótima para produzir uma série de reações químicas que conduzem à vida; mas os orifícios fornecem uma vasta gama - desde o próprio magma, que está mais quente que 1000 graus centígrados, passando pela água que lhe está ao lado,  à temperatura de cerca de 600 graus, até à água a uma pequena distância dos orifícios, e que está a cerca de 20 graus.
A crusta quente da Terra, semeada de fissuras e de fendas, deveria ter sido como um vasto conjunto de tubos de ensaio interligados, um laboratório quase infinito no qual se deram muitas espécies de reações, em várias sequências, contínua e rapidamente. Em tal laboratório natural, defenderam Barloc e Corliss, as evoluções químicas rápidas são quase inevitáveis. Aqui, a Terra terá dados os seus primeiros passos em direção à vida.
À medida que partes da cordilheira submarina subiram acima do nível do mar, a vida deverá ter sido trazida até à superfície iluminada pelo Sol e às primeiras costas dos continentes do mundo. Mas, no princípio, o lugar mais saudável para a vida, ainda titubeante, começar a crescer deverá ter sido, segundo os cientistas, o fundo do mar à sombra dos oceanos.





Fonte
Planeta Terra, Jonathan Weiner, editora Gradiva

Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...