11/05/2016

A coluna de água


Se as profundidades estivessem verdadeiramente estagnadas, como durante muito tempo se acreditou, encher-se-iam de morte e decadência; é que os remanescentes de tudo o que vive no mar caem para o fundo como se de uma lenta e perpétua chuva. Sem correntes fundas para agitar as coisas, gases nocivos atingiriam o fundo e matariam todas as criaturas que aí habitassem. Lentamente, o próprio calor da Terra aqueceria esta repelente água preta até que ficasse mais quente que a água à superfície. Então, como o oceanógrafo Tjeerd van Andel escreveu, "o instável oceano inverter-se-ia eventualmente, lançando toda essa porcaria para a superfície, com efeitos catastróficos na fauna e na flora das águas superficiais e talvez com algum envenenamento da atmosfera". Desta forma, é preferível que os mares profundos não se encontrem tão sossegados quanto se pensava anteriormente. As profundidades, estão, de facto, em intensa e majestosa agitação. A água está sempre a descer a partir da superfície para a profundidade, elevando-se novamente, de forma lenta, para a superfície.
Esta circulação é um exemplo da convecção. Os cientistas acreditam que é a mesma espécie de processo que acontece numa panela de sopa colocada no fogão e também o que agita o próprio manto da Terra. Mas nos mares,diferentemente do que acontece na panela ou no manto da Terra, a força impulsionadora não está nas profundidades, mas no cimo. A água gelada à superficie dos mares polares é mais densa e mais pesada  que a água das profundidades. À medida que desce, desloca a água mais funda, que é forçada a vir ao de cima, para a superfície (a viagem da superfície para o fundo e deste para a superfície chega a levar mais de um milhar de anos).
Junto dos pólos a água é densa, não só por ser fria mas também porque transporta uma invulgarmente pesada carga de sal dissolvido. Com efeito, ela fixa o sal que os icebergues deixaram para trás - uma vez que a água, ao gelar, expele a sua parte de sal, sendo que a água, ao gelar, expele a sua parte de sal, sendo a água à volta do gelo obrigada a absorvê-lo (todos os icebergues são constituídos por água doce pura. O ar de Weddel , na Antáctida, é a maior fábrica de água fria e salgada. Outrora "afundamentos"de água de superfície aconteceram perto da Gronelândia: o mar da Noruega e o mar do Labrador.
Quando esta água densa atinge o fundo, avança lentamente até ao equador, numa viagem que dura séculos. A sua presença nos trópicos parece ter sido inicialmente notada por um capitão de um navio de escravos. Em 1751, o capitão Henry Ellis, do Earl of Halifax, viajando da Inglaterra para a África Ocidental, descobriu que um balde de água içado da profundidade de uma milha tinha uma temperatura muito refrescante no calor tropical. O capitão usava a água para arrefecer o vinho e o banho.
Os cientistas do século XVIII pensavam que a água fria junto ao equador só poderia ter vindo dos pólos; e acreditavam que a água polar devia ter-se espalhado até cobrir todo o fundo do oceano na sua longa e lenta caminhada em direção ao equador.
No entanto, em meados dos anos 50, Henry Stommel, de Woods Hole, trabalhou no desenvolvimento de modelos matemáticos mais sofisticados da circulação do mar, concluindo que o avanço da água fria do fundo em direcção ao equador não podia ser tão lento e regular como os cientistas tinham suposto. Segundo Stommel, as correntes do fundo - como as correntes à superfície - devem ser canalizadas contra as margens ocidentais dos continentes devido à rotação da Terra.  Assim, no Atlântico, Stommel imaginou uma espécie de negativo ou antítese da corrente do Golfo - uma contracorrente de água gelada movendo-se para sul através da escuridão, no fundo do planalto continental.
No ano de 1955, um oceanógrafo britânico, John Swallow, imaginou um simples ma engenhoso dispositivo que tornou possível verificar a hipótese de Stmmel. Swallow preparou algumas secções de 3,05 m (10 pés) de tubos de alumínio com o lastro suficiente para se afundarem, sem, no entanto, atingirem o fundo. Instalou transmissores acústicos nos tubos que emitiam um agudo ping de tantos em tantos segundos. Desta maneira, os tubos de alumínio podiam ser facilmente seguidos por um navio à superfície.
Em 1957, Swallow navegou para as Bermudas no navio de pesquisa britânico Discovery II. Stommel foi ao seu encontro no Atlantis, de Woods Hole. Juntos, os cientistas lançaram ao mar vários flutuadores Swallow. Alguns destes tubos estavam lastrados para flutuar a profundidades relativamente baixas e outros para flutuar a mais de 2700 metros. 
Os fluadores que se encontravam junto à superfície, foram arrastados para norte na corrente do Golfo. Já os flutuadores das profundidades derivaram para sul, emitindo os seus ping à medida que iam sendo arrastados. Stommel tinha razão.
De facto existe não só uma corrente abissal na fronteira ocidental, mas um giro completo; este roda no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, por baixo do giro quente de superfície, que roda no sentido dos ponteiros do relógio. Os modelos matemáticos de Stommel predisseram a existência de um giro abissal em cada bacia oceânica e também outras correntes horizontais a vários níveis do mar. Quanto mais elaborados eram estes modelos, mais intricados pareciam os oceanos do mundo. O mar está acamado como as páginas de um livro. Cada uma das camadas do mar difere apenas ligeiramente das suas vizinhas no que respeita à temperatura e à salinidade. No entanto, há muito pouca mistura nos extremos. A água pode "viajar" dentro da sua camada, sem se diluir, ao longo de milhares de quilómetros.





Fonte:
O Planeta Terra de Jonathan Weiner, Editora Gradiva

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«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...