01/04/2016

Os testemunhos do clima - Pequena Idade do Gelo

Os investigadores do clima desejariam ter arquivado os registos seculares do tempo. Mas apenas se guardam registos sistemáticos  pormenorizados desde há algumas décadas e apenas para algumas partes do globo. Trata-se de um período temporal demasiado curto para se discernir nestes registos alguma tendência. Para investigar a tendência do clima na Terra e fazer as previsões do clima no futuro, os cientistas tentam extrapolar os dados antigos através de um autêntico trabalho de detetives. Todos os restos de dados antigos sobre o clima do passado são reunidos pelos cientistas. estas estranhas pistas são testemunhos do clima na Antiguidade. São usados, em primeiro lugar, não para a previsão, mas para a história do clima.
Um exemplo da construção da história do clima é a forma como os arqueólogos modernos interpretam o cemitério nórdico perto do cabo Farewell. outro tipo de pistas são os lagos sedimentados de Bryson, próximo da Muralha dos Mortos.
A história do clima pode também ser uma ocupação mais animadora. Os críticos de arte acreditam, por exemplo, que no século XVII os mestres holandeses Rembradt van Rijn, Frans Hals e Jan Vermeer teriam utilizado uma certa liberdade artítica para pintar as famosas paisagens holandesas de Inverno, canais gelados cheios de patinadores. Mas Huug van den Dool, do Instituto de Meteorologia Real da Holanda, em De Bilt, estudou os antigos registos dos canais. Estes foram construídos no início do século XVII para ligar as maiores cidades da Holanda; desde 1633 que se guardam registos de viagens em lanchas. Parece que nessa altura, durante muitos Invernos, os canais estiveram congelados e intransitáveis de facto, às vezes por períodos que iam até aos três meses. Houve dezassete Invernos extremamente frios no século XVII. Os grandes pintores não mentiram.

O frio que se verificou nesse século é confirmado por outro tipo de testemunhos. Nos últimos 500 anos os produtores de vinho franceses têm escrito livros pormenorizados descrevendo a qualidade das suas colheitas. A estação de desenvolvimento da vinha estende-se desde o início da Primavera até ao começo do Outono. Se estiver calor e houver sol, as uvas amadurecerão depressa, mas se estiver frio e enevoado a colheita será tardia e pobre. Estas realidades são de extrema importancia tanto na climatologia quanto na gastronomia. O famoso historiador francês do clima, emmanuel Leroy Ladurie, passou anos a visitar as caves dos produtores vinícolas para obter dados para os seus velhos livros de registos. Ladurie verificou que os anos de 1617 a 1650 foram invulgarmente frios, tal como aconteceu na Holanda.
A partir destes e de outros factores é possível concluir que uma longa e irregular vaga de frio assolou durante algumas décadas grande parte do território europeu no século XVII. Este período ficou conhecido como Pequena Idade do Gelo, a qual também causou transtornos na América do Norte, onde se encontrou um registo de Invernos muito frios nos anéis de árvores antigas e também nos livros históricos (por exemplo, durante a guerra da revolução, em que se faziam rolar os canhões de ferro fundido pelos gelos da long Island Sound). Pode também ter sido o longo e lento estabelecimento da Pequena Idade do Gelo que impossibilitou a vida aos colonos nórdicos. Não são conhecidas as razões para esta vaga de frio, mas sabe-se que coincidiu com um período especial da vida do Sol, durante a qual os astrónomos detetaram uma escassez anormal de manchas solares. Dado que o aquecimento da atmosfera provém, em última análise, dos raios solares, alguns cientistas admitiram a existência de uma relação entre o século do gelo e o facto de o Sol praticamente não apresentar manchas. De acordo com algumas estimativas, há uma probabilidade de 10 a 30 por cento de que venha a ocorrer uma outra Pequena Idade do Gelo no próximo século.

Mas antes da espécie humana, apenas havia o testemunho da própria terra e de algumas impressões da vida primitiva no planeta. Até ao momento, os climatologistas têm encontrado alguns testemunhos importantes do género.
Na ilha norte da Nova Zelândia encontram-se bastantes cavernas de pedra calcária. Os geólogos, ao explorarem estas cavernas encontraram registos notáveis na pedra calcária. As estalactites, pendentes rochosos suspensos do tecto das cavernas, e as estalagmites, pequenas colunas que crescem a partir do chão, foram erigidas gota a gota pela água da chuva.Durante um longo tempo a água infiltra-se através dos tectos de pedra calcária da caverna pingando das estalactites, evaporando-se depois. Cada gota deixa um pequeníssimo resíduo de pedra calcária na extremidade inferior das estalactites, e na extremidade superior das estalagmites que estão por debaixo delas. Essas colunas de pedra crescem formando padrões tão bem proporcionados como os anéis de uma árvore ou os aluviões de um lago.
A água da chuva provém originalmente do mar; certas particularidades da composição da água dos mares são levemente alteradas ao longo do tempo. Por exemplo, a razão entre as quantidades de isótopos O18 e O19 varia de maneira tal que os especialistas conseguem inferir daí algo sobre o clima na altura da formaçao das estalagmites e das estalactites. Essa razão entre os isótopos é conservada na pedra calcária das cavernas, e a ordem da sua variação é preservada nas camadas ordenadas das colunas que ornamentam a caverna. Fazendo uma secção transversal de uma estalagmite e procedendo à análise dos isótopos nas camadas de pedra, é possível determinar aproximadamente a história do clima fora da caverna.
As estalagmites da Nova Zelândia sugeriram ao geólogo Chris Hendy que as temperaturas nesta zona do hemisfério sul teriam sido muito baixas no século XVII. A força dos dados é extraordinária, uma vez que a Europa e a Nova Zelândia encontram-se praticamente em lados opostos da Terra e os tipos de testemunho que levaram à mesma conclusão são muito diferentes. A descoberta de Hendy aumentou a curiosidade sobre a causa da Pequena Idade do gelo, dado que sugere que, se a vaga de frio não foi universal, foi bastante generalizada. 
Hendy procedeu à secção transversal de uma das mais antigas estalactites que descobriu numa caverna do litoral oeste da ilha norte. «Quando cortámos», disse ele, «verificámos que ela possuía um registo dos últimos 100.000 anos, 25.000 dos quais comprimidos nos últimos três centímetros. A estalactite estava ainda a crescer; as gots de água ainda estavam a cair dela; portanto, o registo estende-se diretamente até aos dias de hoje. este facto deu-nos uma excelente possibilidade de averiguar as grandes variações climáticas em toda a Nova Zelândia - e, na realidade, mesmo em todo o mundo.»
Estas longas histórias da natureza, sucessões de registos da história do clima, relatam acontecimentos que fazem a Pequena Idade do Gelo parecer um período ameno.


Imagens:
1) Paisagem de Inverno de Rembradt
2) Paisagem de Inverno com patinadores de Gelo, Hendrick Avercamp, c. 1608
3) Caverna de formação cárstica da Nova Zelândia (Maori Leap Cave, Kaikoura).


Fonte
Planeta Terra, Jonathan Weiner, editora Gradiva




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