04/04/2016

Mistérios da Doutrina Secreta

No seu livro Doutrina Secreta Helena Blavatsky expõe os fundamentos da Doutrina Esotérica das Religiões antigas, remontando a sua origem ao surgimento do homem na Terra, segundo a mesma, quando os deuses dirigiam os homens e em «cuja fonte beberam os Instrutores da Humanidade a essência do conhecimento humano».
Blavatsky tenta esclarecer de que se trata a filosofia esotérica. Segundo a autora, esta filosofia tenta reconciliar todas as religiões ao provar a sua origem comum. A filosofia esotérica prova a existência (e necessidade) de um Princípio Absoluto na Natureza. Não nega a Deidade, embora rejeite os deuses criados pelos homens à sua própria imagem. Blavatsky cita trechos secretos do dan ou janna ou dhyana, a reforma do homem pela meditação, e a metafísica de Gautama; as verdades ocultas, as coisas visíveis e invisíveis, o mistério do Ser fora da esfera terrestre, que Buda reservava apenas para os seus discípulos ou Arhats.

A doutrina de Buda é a dos Iniciados brâmanes, conservada em santuários secretos.
O Livro de Dzyan,  está escrito em folhas de palma, e tratadas por um processo que as impermeabilizou às ações da água e fogo, não se conhecendo a sua antiguidade. A Doutrina Secreta baseia-se neste livro e nas explicações dadas por sábios orientais, a quem a autora designou de Mestres.
Os membros de diversas escolas esotéricas cujo centro se encontra além dos Himalaias, e cujas ramificações encontram-se na China, no Japão, na Índia e Tibete, assim como na América do Sul, formam entre si um conjunto que totaliza as obras sagradas e filosóficas que se escreveram nas diversas línguas e caracteres, desde o começo da arte da escrita, que vão desde os hieróglifos até aos alfabetos de Cadmo e Devanagari. 

Desde a destruição na Biblioteca de Alexandria de todas as obras que pudessem conduzir o profano à descoberta final e compreensão de alguns dos Mistérios da ciência oculta, que estes ensinamentos foram procurados com diligência por membros, em esforços combinados, de Fraternidades ocultas. Uma vez encontradas estas obras, foram destruídas, com exceção de três exemplares de cada uma, que foram ciosamente guardados em locais secretos. Na Índia, os últimos desses manuscritos foram guardados num local secreto durante o reinado do Imperador Akbar, o qual não conseguiu, nem através do suborno, nem através de ameaças, que os brâmanes lhe fornecessem o texto original dos Vedas. Diz-se que os livros sagrados desta espécie, cujos textos não se encontravam suficientemente velados pelo simbolismo e que continham referências diretas aos antigos mistérios, foram copiados em carácter criptológico e depois destruídos até ao último exemplar.
Segundo Helena Blavatsky a Doutrina Secreta foi a religião universalmente difundida no mundo antigo e pré-histórico, como provam os autênticos anais da sua história, os documentos existentes em todos os países e que se conservam nas bibliotecas secretas das Fraternidades ocultas.
Factos que ainda conservam a tradição desta religião:
  1. Milhares de fragmentos antigos, salvos da destruição da Biblioteca de Alexandria;
  2. As obras sânscritas desaparecidas da Índia durante o reinado de Akbar;
  3. A tradição universal na China e no Japão, de que os verdadeiros textos antigos, e comentários que os tornam decifráveis (há milhares de volumes), encontrando-se fora ds mãos profanas;
  4. a desaparição da vasta literatura sagrada da Babilónia;
  5. a tradição na Índia de que os verdadeiros comentários dos vedas, ainda que invisíveis para os profanos, estão à disposição dos Iniciados em locais secretos para os demais.
Todos os fundadores de Religiões foram os transmissores, não Mestres originais, mas autores de novas formas e interpretações da ciência sagrada, chamada Gupta Vidya. cada nação recebeu, por sua vez, algumas das verdades debaixo do véu de um simbolismo próprio, o qual, com o tempo, veio a desenvolver um culto mais ou menos filosófico.


«A Autora (Helena Blavatsky) tem diante de si um manuscrito arcaico, coleção de folhas de palma Livro de Dzyan, um único exemplar existente. O documento hebreu mais antigo referente à Sabedoria Oculta,  - o Siphrah Dzeniouta - é uma compilação do Livro de Dzyan, feito quando este já era considerado relíquia literária. Uma das suas vinhetas representa a Essência Divina emanando de Adão (Anthropos), à maneira de um arco luminoso que passa a formar um círculo e, depois de chegar ao ponto superior da sua circunferência, a Glória Inefável retrocede e volta à Terra, levando no seu vórtice um tipo de humanidade superior. à medida que mais se aproxima do nosso planeta, a emanação torna-se mais densa e escura até que, ao tocar a Terra, é negra como a noite. Deste livro antigo foram copiados e compilados o Kiu-ti e o Siphrah Dzeniouta.
Livro de Dyzan
impermeáveis à ação do tempo por um processo específico desconhecido. A primeira página é de um negro intenso, com um disco branco ao centro. A segunda é igual à primeira, mas dentro do circulo foi acrescentado um ponto. A primeira representa o Cosmos na Eternidade, antes de voltar a despertar a energia, ainda em repouso, na emanação  de mundos em sistemas posteriores. O ponto no disco representa a Aurora da diferenciação. O ponto no Ovo do mundo é o germe donde se desenvolverá o Universo, o Todo, o Cosmos,infinito e periódico; Germe que é latente ou ativo por turnos. O círculo único representa a Unidade Divina, de onde tudo procede e para onde tudo volta. A circunferência representa a Presença abstrata e sempre incognoscível, e o seu plano - a Alma Universal - sendo que as duas são aspectos da unidade. Nesta Alma dormita, durante o repouso, o Pensamento Divino. É a Vida Única, eterna, invisível e omnipresente, inconsciente, e, no entanto, é consciência absoluta, incompreensível e, assim, a única Realidade existente por si mesma. O seu único atributo é o eterno e incessante movimento - o Grande Alento. O que permanece imóvel não pode ser divino. Isto está no
O Siphrah Jetzirah, atribuído pelos cabalistas hebreus a Abraão, o Shu-King (Bíblia primitiva dos chineses), os livros sagrados de Thot Hermes, os Purânas da Índia, o Livro dos Números (caldeu) e mesmo o Pentateuco, todos tiveram origem naquele volume-pai. Diz a tradição que foi escrito em Senzar, a língua secreta sacerdotal, conforme as palavras dos Seres Divinos que o ditaram aos Filhos da Luz, na Ásia Central, no começo da nossa Raça, quando o Senzar era conhecido pelos Iniciados de todas as nações, quando os antepassados dos Toltecas o sabiam tanto como os Atlantes que o herdaram da Terceira raça, os Manuchis, que os receberam dos Devas da Primeira e Segunda Raças.
O Inconsciente chegou ao plano da criação ou da evolução, por meio de uma Sabedoria clarividente superior a toda a consciência (Sabedoria Absoluta) que transcende o Tempo e o Espaço. A mente resolve-se como uma série de estados de consciência, cuja duração, intensidade, complexidade e demais qualidades são variáveis, fundados todos na Sensação que é Maia (Ilusão).
Cinco séculos antes da nossa era, Leucipo, preceptor de Demócrito, sustentava que o Espaço estava eternamente cheio de átomos impelidos pelo movimento incessante que gerava, com o transcorrer do tempo e à medida que os átomos se agregavam, o movimento rotatório, em virtude das colisões mútuas que produziam movimentos laterais. Epicuro e Lucrécio ensinaram o mesmo e acrescentaram a ideia da afinidade (ensino oculto).
Desde a primeira aparição dos arquitetos do globo em que vive, a Deidade não revelada foi reconhecida e considerada sob o seu único aspecto filosófico - o Movimento Universal, a Vibração do Alento Criador na Natureza. O ocultismo sintetiza assim a Existência Única: A Deidade é um fogo misterioso, vivo (o movente), e os eternos testemunhos desta Presença invísivel são a Luz, o Calor e a Humidade, trindade esta que abarca e é a causa de todos os fenómenos da Natureza. O movimento intra-cósmico é eterno e incessante; o movimento cósmico visível, isto é, aquele objeto de percepção, é finito e periódico. Como eterna abstração, é o Sempre Presente; como manifestação, é finito e periódico, sendo os dois o Alfa e o Ómega das reconstruções sucessivas. O Cosmos (Númeno) não tem nada a ver com as relações causais do mundo fenomenal. Só referindo-nos à Alma intra-cósmica, ao Cosmos Ideal no Pensamento Divino Imutável, podemos dizer: "Jamais teve princípio e jamais terá fim". Em cada novo ciclo de criação se pode considerar a sua organização como primeira e última da sua espécie, pois de cada vez evolui num plano mais elevado.
[...]
É de se esperar que ao ler-se esta obra, se modifiquem as ideias erradas que o público em geral tem do Panteísmo. É falso e injusto considerar ateus os ocultistas budistas e advaitas. Se eles todos não são filósofos, são pelo menos lógicos, que baseiam os seus argumentos no estrito raciocínio. Com efeito, se se tomar o Parabrahman dos hindus como um representante das deidades ocultas e inominadas de outras nações, ver-se-à que esse Princípio absoluto é o protótipo do qual se copiaram todos os outros. Parabrahman não é "Deus", porque não é um Deus. "É supremo e não supremo (paravara)", explica o Mandukya Upanishad. É supremo como causa e não-supremo como efeito. Parabrhman é simplesmente, como uma "Realidade Ímpar", o omni-inclusivo Kosmos - ou antes, o Espaço Cósmico infinito - no sentido mais espiritual. Brahman (neutro), a Raiz suprema imutável, pura, livre, indecadente, a "verdadeira Existência Única, Paramárthika, é incogníscivel. Pode-se chamar à chama a Essência do Fogo? Esta essência é a Vida e a Luz do Universo; o fogo e a chama visíveis são a destruição, a morte e o mal".
Portanto, quando os panteístas fazem eco dos Upanishads, que declaram, tanto quanto a Doutrina Secreta, que "Isto" não pode criar, não negam a existência de um Criador, ou antes, de um conjunto coletivo de criadores; o que unicamente fazem é recusar-se, com muita lógica, atribuir a um Princípio Infinito a criação, e especialmente a formação, de coisas finitas.
Parabrahman é, em suma, o agregado coletovo do Kosmos na sua infinidade e eternidade, o "AQUILO" e "ISTO" (o Universo) ao qual não se podem aplicar agregados distributivos. No simbolismo esotérico aos espaço chama-se "o Eterno Pai-Mãe de Sete Peles". Desde a sua superfície indiferenciada até à diferenciada compõem-se de sete capas. "O que é que foi, é e será, haja ou não Universo, existam deuses ou não?" - pergunta o Catecismo esotérico Senzar. E a rsposta é: " O Espaço". - Síntese da Doutrina Secreta de Helena P Blavatsku




Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
Mais análogo serei a deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza é Tudo,
E fora d'Ele há só Ele e Tudo para Ele é pouco.

Cada alma é uma escada para Deus,
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.

Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito,

Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos
Dados à grande sombra que ensopa o exterior em sonho
E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!
Sursum corda! Na noite acordo, o silêncio é grande,
As coisas, de braços cruzados sobre o peito, reparam

Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos
Que as vê como vagos vultos nocturnos na noite negra.
Sursum corda! Acordo na noite e sinto-me diverso.
Todo o Mundo com a sua forma visível do costume
Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso,

Escuto-o, e no meu coração um grande pasmo soluça.

Sursum corda! Ó terra, jardim suspenso, berço
Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!
Mãe verde e florida todos os anos recente,
Todos os anos vernal, estival, outonal, hienal,
Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adónis.

Num rito anterior todas as significações,
Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales!
Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões,
Grande voz acordando em cataratas e mares,
Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,
Em cio de vegetação e florescência rompendo
Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso
À tua própria vontade transtornadora e eterna!
Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,
Vertiginosa mãe dos vendavais e dos ciclones,
Mãe caprichosa que faz vegetar e secar,
Que perturba as próprias estações e confunde
Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!

Sursum corda! Reparo para ti e todo eu sou um hino!
Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica intima
Volteia serpenteando, ficando como um anel
Nevoento, de sensações reminescidas e vagas,
Em torno ao teu vulto interno, túrgido e fervoroso.

Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente
Meu coração a ti aberto!
Como uma espada traspassando meu ser erguido e extático,
Interseciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,
Teu movimento contíguo, contíguo a ti própria sempre.

Sou um monte confuso de forças cheias de infinito
Tentendo em todas as direções para todos os lados do espaço,
A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une
E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim
Não passem de mim, não quebrem meu ser, não partam meu corpo,
Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira
Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,
Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.

Tudo o que há dentro de mim tende a voltara a ser tudo.
Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,
No vasto chão supremo que não está em cima nem em baixo
Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos
Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.

Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,
Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo
De chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,
A minha inteligência limitadora e gelada.

Sou uma grande máquina movida por grandes correias
De que só vejo a parte que pega nos meus tambores,
O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis,
E nunca parece chegar ao tambor donde parte...

Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito
Em marcha sempre vertiginosa em torno de si,
Cruzando-se em todas as direções com outros volantes,
Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço
Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus.

Dentro de mim estão presos e atados ao chão
Todos os movimentos que compõem o universo,
A fúria minuciosa e dos átomos,
A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,
A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam.

A chuva como pedras atiradas de catapultas
De enormes exércitos de anões escondidos no céu.

Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma.
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode.

Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,
Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!

(Álvaro de Campos)


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