27/04/2016

Consultas ao oráculo

Quando, em 546 a.C, o rei Cresso, da Lídia, consultou o Oráculo de Apolo, em Delfos, obteve a seguinte resposta: "Se fizeres guerra contra os Persas, destruirás um grande reino." Encorajado pela sua interpretação destas palavras, atacou o Império Persa, mas as suas forças foram desbaratadas. O "grande reino" destruído, afinal, fora o seu. O deus falara a verdade, mas os homens não tinham conseguido interpretar corretamente a sua resposta.
Para os antigos gregos, os deuses eram omniconscientes, e da descoberta e execução da sua vontade decorriam benefícios religiosos e práticos. Não se empreendia uma ação política importante sem uma consulta dos deuses através dos oráculos. As pessoas vulgares procuravam também obter conselhos para questões pessoais.
Dos oráculos d mundo antigo, o de Delfos foi o mais célebre, e Apolo, o principal deus da profecia. Delfos tornou-se sagrado a partir de cerca de 1400 a.C., provavelmente como sede de um oráculo de uma deusa terrena, representada por um pitão. As serpentes foram símbolos délficos até cerca de 800 a.C., quando passou a prevalecer a crença de que Apolo matara a serpente que guardava o santuário e renovara o oráculo.

De início o oráculo só podia ser consultado um dia por ano e, mais tarde, um dia por mês. Eram tantas as consultas que, no auge da sua fama, duas sacerdotisas revezavam-se, ficando uma terceira de reserva. As consultas acerca de negócios custavam dez vezes mais do que responder a perguntas do foro privado. Apesar disso, a procura era tão grande que se recorria a um segundo oráculo, que deitava sortes no caso de perguntas que apenas precisassem de respostas simples.

A consulta do oráculo
São vagos os pormenores relativos a elfos. De início, as sacerdotisas, ou pitonisas, eram jovens virgens, mas depois de um cliente ébrio ter raptado uma delas, optou-se por mulheres com mais de cinquenta anos. Sentada numa cadeira, a pitonisa ouvia a pergunta e proferia uma resposta, que os sacerdotes transcreviam em hexâmeros. Ninguém sabe se ela entrava em transe por beber de uma nascente sagrada, mascar folhas de louro ou respirar "vapores" libertados de uma fenda situada sob o assento. Pluarco (c. 46-120 d.C), que serviu como sacerdote em Delfos durante 30 anos, afirma que Apolo fazia aparecer visões na mente da pitonisa.
Fossem quais fossem os métodos usados pela pitonisa, algumas histórias parecem mais que mera coincidência. Parmenisco de Metaponto consultou o Oráculo de Trofónio. Não se sabe que pergunta terá feito, mas quando partiu, já não conseguia rir. Mais tarde, o Oráculo de Delfos disse-lhe que "a mãe" lhe devolveria o riso em casa, pelo que ele regressou a Metaponto. Ainda sem conseguir rir, Parmenisco pensou que fora enganado, tendo de seguida voltado a Delfos. Aí, no Templo de Leto, mãe de Apolo, onde esperava encontrar uma grande estátua, viu que a deusa era representada por um feio bloco de madeira e riu-se. Foi em casa de Apolo, e não da sua, que recuperou o riso.
Alguns cépticos procuraram testar o rigor dos Oráculos. Dessa forma, Creso fez a mesma pergunta a sete oráculos: "Que está a fazer neste momento o rei da Lídia?" Só o de Delfos respondeu corretamente: "Está a cozer um cordeiro e uma tartaruga numa panela de bronze." No século V a.C., Macróbio relata que o imperador Trajano enviou um conjunto selado de tabuinhas em branco para testar o Oráculo de Júpiter Heliopolitano, em Baalbek, no atual Líbano. O conjunto foi devolvido com o selo intacto, acompanhado da resposta do deus, uma folha de papiro em branco.

Outros deuses, outros costumes
Vários oráculos serviam outros deuses e adoptavam processos distintos dos de Delfos. Em Baiae, no sul de Itália, o consulente entrava num complexo de templos subterrâneos para consultar os espíritos dos mortos. Nos templos gregos de Asclépio e Anfiarau, os suplicantes dormiam no local para terem sonhos proféticos. Os consulentes do Oráculo de Zeus, em Dodona, na Grécia, escreviam perguntas em finas tiras de chumbo, dobrando-as depois ao meio e colocando-as num recipiente. À medida que ia retirando as perguntas sem as ver, a sacerdotisa respondia "sim" ou "não". As tiras de chumbo que chegaram até à atualidade contêm perguntas sobre a saúde, negócios e assuntos da vida privada.
Com o passar dos séculos, a importância dos oráculos diminuiu, e muitos filósofos negaram o seu valor. A astrologia introduziu outra forma de predizer o futuro, e novos cultos misteriosos, como os da deusa egípcia Ísis, desviaram a atenção dos deuses proféticos. Quando o cristianismo substituiu as religiões pagãs, os oráculos já se encontravam praticamente reduzidos ao silêncio.



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