29/03/2016

Um Supercontinente Fragmenta-se

O herói da revolução moderna foi  o cientista e visionário alemão Alfred Wegener, cuja visão só foi largamente aceite após a sua morte.
Wegener pertenceu a uma casta de exploradores-cientistas que misturaram investigação e aventura, não tendo deixado nada a meio.
Era fascinado pela meteorologia e estudou o clima da alta atmosfera a partir de uma cabina de um balão. Em 1906, ele e o seu irmão Kurt fizeram um voo de balão que durou cinquenta e duas horas, um recorde mundial. Passou vários Invernos extenuantes na Gronelândia fazendo observações meteorológicas («Nós sentimo-nos como tropas de choque da humanidade na batalha contra os poderes mortíferos da natureza» - escreveu Wegener) e em 1913 atravessou a sua capa de gelo com apenas um companheiro, usando trenós puxados por póneis. Para além da meteorologia, ensinou astronomia e geofísica, e ainda se embrenhou nos estudos da biologia, paleontologia entre outras coisas. No entanto, estava obcecado com uma única grande ideia, que desenvolvera quando jovem, enquanto recuperava de uma ferida no pescoço que sofrera na Primeira Guerra Mundial.
Como Wegener conta, a ideia ocorreu-lhe pela primeira vez quando reparou que as costas da América do Sul e de África, se se pudessem juntar, ajustar-se-iam tão bem como duas peças de um puzzle. Para explicar esta coincidência, propôs que os dois continentes pudessem ter sido apenas um, separando-se depois. Mais tarde, viu-os como parte de um único supercontinente, a Pangeia (pan significando «tudo» e gaia «Terra»).  A Pangeia começara a fragmentar-se na idade dos dinossauros, há uns 220 milhões de anos, «como pedaços de um campo de gelo quebrado». Os pedaços, dizia o cientista, ainda estão a afastar-se.
Wegener não foi o primeiro a especular nessa direção. Existiram outros, algumas figuras ilustres, outras obscuras, a terem pensamento semelhante antes dele. Trezentos anos antes, o cortesão e filósofo Sir Francis Bacon interrogara-se acerca desta coincidência entre as costas, e mencionou-a no seu Novum Organum. Em 1666, um monge francês, François Placet, cujo nome não é lembrado por mais nada, sugeriu que os continentes tinham sido fragmentados pelo Dilúvio (o título: A Fragmentação dos Maiores e dos Menos Importantes Mundos: ou, Mostra-se Que antes do dilúvio a América não Estava Separada das Outras Partes do Mundo). Na viragem deste século, um americano, Frank Taylor, sugeriu que a atração da Lua podia ter lançado os continentes à deriva pela superfície do planeta. Um outro americano, H. Baker, pensava que os continentes podiam ter sido postos em movimento pelo planeta Vénus. Baker argumentava que Vénus se tinha aproximado o suficiente para retirar  um pedaço do leito do Pacífico, que se tornou na Lua (uma ideia primeiramente defendida por George Darwin, astrónomo real da Grã-Bretanha e neto de Charles Darwin).

Mas Wegener foi o primeiro a investigar exaustivamente a ideia de deriva e a levar outros a tomá-la a sério. Glossopteris, são comuns em certas partes da África e do Brasil, e estes lugares alinham-se tão nitidamente como as suas costas. Na realidade, o Glossopteris encontra-se em zonas da Terra tão afastadas como a Índia, a Austrália e mesmo a Antárctida, que as provas fornecidas pelo feto podiam elas próprias ter sugerido a ideia da Pangeia.


Para tal, juntou provas nos mais variados campos (atualmente os admiradores de Wegener chamam-lhe um homem da Renascença; na altura, muitos colegas pensavam que se devia remeter à meteorologia e chamavam-no de excêntrico). O investigador chamou a atenção para uma cadeia de montanhas que se estende de leste para oeste na África do Sul e para outra que se ajusta a essa cadeia do outro lado do Atlântico, na Argentina. Um planalto do Brasil corresponde nitidamente a um outro na Costa do Marfim, em África. Fósseis de um feto primitivo, o
Quanto aos continentes do Norte, os Apalaches da costa do leste da América podiam ser seguidos até à Nova Escócia e daí através do oceano até à Escócia e à Escandinávia. Tomados em conjunto, todos estes factos eram, achava Wegener, extremamente convincentes: «É como se quiséssemos reajustar os pedaços rasgados de um jornal juntando as extremidades e verificássemos depois se as linhas impressas condiziam. Se isto acontecer, não temos alternativa senão concluir que os pedaços estavam de facto juntos dessa maneira no início».
No entanto, a ideia era demasiado radical para a época. O livro de Wegener, A Origem dos Continentes e dos Oceanos, publicada originalmente em 1915, trouxe-lhe mais má fama do que reconhecimento. Os continentes, afinal, não são como massas de gelo flutuando nos mares; eles estão enraizados no leito de rochas das bacias oceânicas. Wegener foi ridicularizado, por não conseguir explicar que tipo de força permitiria aos «continentes de granito sulcar os oceanos de rocha». «Qualquer que possa ter sido a atitude original de Wegener», disse um crítico, «neste livro ele não está à procura da verdade; ele está a defender uma causa... Ele sugeriu muito, e não provou nada.» Um outro critico foi mais ao cerne da questão: «Se quiséssemos acreditar nas hipóteses de Wegener», disse ele, «temos de esquecer tudo o que tem sido aprendido nos últimos setenta anos e começar de novo.»
Wegener perdeu a vida nos gelos da Gronelândia, em 1930, quando tinha cinquenta anos, durante uma missão para estabelecer um observatório no meio dos gelos. Na altura da sua morte, a maioria dos geólogos considerava que a sua ideia de deriva dos continentes fora completamente posta de parte. Com o passar dos anos, dissidentes na Europa e na Austrália apoiaram as ideias de Wegener. Contudo, nos Estados Unidos qualquer tentativa para fazer reviver as estranhas noções do meteorologista alemão tinham-se tornado um suicídio científico.
As provas de que Wegener precisava foram descobertas anos mais tarde, por acaso, e noutra fronteira - no fundo do mar.
Nessa altura (década de 1940) ainda que poucos acreditassem nos continentes vagueantes, não havia dúvida de que o mundo podia andar à deriva. A Segunda Guerra Mundial provou-o completamente, à medida que as nações se voltavam umas contras as outras e os submarinos do Eixo perseguiam frotas aliadas ao longo do Atlântico. Essas perseguições marítimas durante a Segunda Guerra Mundial deram, na verdade, uma contribuição rara para as ciências. Os navios procuravam os submarinos usando o novo sonar e liam na escuridão abaixo deles enviando sons de alta frequência e analisando os ecos. Com um outro dispositivo, o Fathometer, que funciona baseado nos mesmos princípios, a Marinhya traçou cartas do fundo do oceano à volta de Iwo Jima antes do famoso assalto anfíbio.
Harry Hess, um geólogo da Universidade de Princeton, que estava a bordo do USS Cape Johnson em Iwo Jima ficou fascinado por estes vislumbres do fundo do mar. Este era ainda um território não incluído nos mapas. A maior parte das pessoas acreditava que o fundo do mar era somente uma vasta planície vazia e sem vida, ponteada aleatoriamente por planaltos e montanhas submersas. Hess percebeu que o mar esconde zonas mais vivas. E com as novas sondas de eco podia-se finalmente fazer mapas destes territórios - três quartos da superfície terrestre.
Em 1947, quando a guerra acabou, Hess voltou para Princeton. Mas um grupo de cientistas do Observatório Geológico Lamont, em Palisades, Nova Iorque, fez-se ao mar, usando os novos instrumentos para explorar o leito do oceano, e dragando rochas à medida que se deslocavam. Era liderado por Maurice Ewing, da Universidade da Colúmbia, um amigo de Hess que partilhava com ele o fascínio do fundo do mar. Ao princípio o seu objetivo era razoavelmente simples: fazer um mapa de uma cadeia de montanhas submarinas conhecida como a Dorsal do Atlântico Médio. Eles sondaram-na com ecos, usando sonares e o Fathometer, e com dados de sismos submarinos que, notaram, ocorrem com curiosa frequência ao longo da cadeia.
À medida que os seus mapas submarinos se tornaram cada vez mais detalhados , descobriram que a Dorsal do Atlântico Médio é uma estrutura peculiar de um tipo nunca antes encontrado. É uma cadeia montanhosa com alturas entre mil e oitocentos e três mil metros, com um estreito  e cavado vale no centro. A Dorsal do Atlântico Médio faz parte de um sistema de dorsais com um comprimento de 73.000 quilómetros. O longo vale no centro da Dorsal do Atlântico Médio percorre-a em toda a sua extensão. Ninguém sabia o que a dorsal estava ali a fazer, mas ela era incontestavelmente a mais longa cadeia de montanhas, com o mais longo vale, no nosso planeta.
Durante muito tempo os geólogos haviam explicado a existência das grandes montanhas e dos vales pela formação ocorrida quando a Terra encolheu. Esta teoria servia para explicar os Himalaias, as montanhas Rochosas, os Andes, os Alpes, todos eles grandes extensões de território que foram fortemente comprimidas. No entanto, a Dorsal do Atlântico Médio, a maior de todas as cadeias de montanhas não se ajustava à teoria, o terreno à sua volta tem marcas de ter sido esticado, não comprimido. Se as montanhas em Terra sugerem uma Terra a encolher, estas montanhas submarinas sugerem uma Terra em expansão. Certamente que o planeta não pode estar a encolher e a expandir-se.
Há medida que dragavam rochas do fundo, os membros da expedição notaram outra coisa igualmente inquietante. A maior parte dos investigadores partira do princípio de que o fundo do mar estava calmo, sem movimento. Alguns esperavam que se pudesse encontrar, debaixo das camadas mais frescas e moles de lodo e argila, as rochas mais antigas da Terra, a crusta original que se formou quando a Terra, uma bola em fusão, arrefeceu. O fundo dos oceanos, pensavam eles, deve ter milhares de milhões de anos. No entanto, só encontraram rocha jovem, com não mais que cerca de 150 milhões de anos. Esta foi uma descoberta importante e enigmática, que eles fizeram apenas por terem sido os primeiros a estar ali. Como recorda Chuck Drake, de Darmouth, que se juntou a algumas dessa primeiras expedições, era uma altura magnifica  para se ser geólogo «porque não era preciso ser-se muito inteligente. Tudo o que se tinha de fazer era estar interessado em ir para o mar, e se se media qualquer coisa, o que se media era novo.»
Harry Hess, agora de novo em Princeton, começou a pensar em qual seria o significado de tudo isto. O resultado das suas meditações foi um trabalho de especulação a que ele chamou modestamente «um ensaio em geopoesia.» Seria possível, perguntou Hess, que o longo vale fosse uma fenda na crusta da Terra, da qual estava continuamente a surgir rocha quente vinda das suas profundezas? A ideia parecia plausível porque explicava a ocorrência de sismos submarinos em toda a extensão das dorsas, à volta do mundo.
Seria possível, continuou Hess, que esta rocha ascendente abrisse o seu caminho à força através da fenda à medida que o leito marinho se afastava para ambos os lados?
Se assim fosse, pensou ele, todo o fundo do Atlântico podia estar a deslocar-se metade para leste e metade para oeste. Hess viu o resultado como uma espécie de tapete rolante. A rocha dorsal ascendente está para sempre a criar nova dorsal e nova crusta oceânica que se afasta então da dorsal. Desloca-se no fundo do mar a centímetros por ano, o que é um movimento rápido em padrões geológicos. Quando atinge um obstáculo - a extremidade de um continente  ou a barreira de um arco de ilhas - é forçada a mover-se para debaixo do obstáculo e mergulhar profundamente abaixo da crusta, para aí ser fundida de novo. Este ciclo foi alcunhado de expansão do fundo do mar pelo geólogo Robert Dietz, e o nome vingou. Uma coisa semelhante fora proposta no início do século XX, pelo geólogo escocês Arthur Holmes; mas agora, com os novos mapas do fundo do mar, a ideia impunha-se mais. A expansão do fundo do mar podia ser precisamente, diziam Hess e Dietz, a pista que Wegener não conseguira vislumbrar antes de morrer - poderia provar que os continentes são na realidade conduzidos pela superfície da Terra. Pois se o mar se expande, poderão os continentes manter-se parados?




Imagens:
1) Alfred Wegener, na expedição de 1930
2) Mapa de Wegenar com as evidências fósseis
3) Dorsal Atlântico Média, com a placa à esquerda a deslocar-se para oeste e a que se encontra à direita para este.
4) Dorsal Atlântico Média, Islândia, Placa Norte-americana à esquerda, placa Euroasiática à direita

Fonte:
O Planeta Terra de Jonathan Weiner, Editora Gradiva



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