20/03/2016

Batalha de Waterloo por Vitor Hugo

Enquanto que o historiador conta, o romancista denuncia. Este escritor mostra aquilo que apenas o pintor pode mostrar na tela, mas que está interdito ao outro, o lado humano, o desespero, a grandiosidade e a miséria. Esta passagem d'Os Miseráveis de Vitor Hugo é isso mesmo, mais do que números, de factos concretos onde a emoção não é permitida, há toda uma tela do que é uma batalha, da sua fealdade e da bravura que enche o coração dos homens (de alguns) nas situações mais aterrantes. 
A Batalha de Waterloo foi o final de um ciclo, o nascimento de outro, de um novo século, do século XIX... Se por um lado os novos ideais que se vinham a semear puderam florescer a partir dessa época, não foi certamente o final da atrocidade no campo de batalha, quase que se diria que foi o início das grandes atrocidades, dos grandes números.
Também não morreu o Imperialismo com a queda deste grande Imperador que foi Napoleão, não. Simplesmente ele foi o nascimento de uma nova ideia, que não ficou enterrada no Monte de S. João... a partir do sangue derramado naquela terra, nasceu uma nova ideia, um novo imperialismo, ensinado pelo Imperador. Uma década de Napoleão foi o quanto bastou para fazer tremer o mundo e transformá-lo. Francês, filho de italianos (natural de Córsega, que passou a ser francesa em 1768, tendo Napoleão nascido em 1769) foi, com certeza, o último dos Césares, que nele incarnaram o espírito dos grandes Augustos.

A Batalha de Waterloo, 1815 por Sir William Allan


«II

Hougomont

Foi um fúnebre lugar aquele de Hougomont; foi o primeiro obstáculo, a primeira resistência, que encontrou em Waterloo esse grande lenhador da Europa chamado Napoleão; foi o primeiro nó em que bateu, sem o abrir, o seu machado.
Aquilo era um castelo, hoje é apenas uma herdade. Aquela mansão de Hougomont, para o antiquário Hougomons, foi construída por Hugo, senhor de Somerel, o mesmo que dotou a Abadia de Villers com a sexta capela.
O viajante abriu a porta, empurrou uma caleça que pejava o alpendre e entrou no pátio.

A primeira coisa em que ali deu com os olhos foi uma porta do século XVI, semelhante a uma arcada no meio das ruínas que a rodeavam. O aspecto monumental é muitas vezes disto que nasce. Junto da arcada havia aberta na parede outra porta com fechos do tempo de Henrique IV, pela qual se avistavam as árvores de um pomar e a cujo lado se via uma estrumeira, pás e alviões, alguns carros, um poço com a sua pia de pedra e o seu molinete de ferro, um potro aos saltos, um peru espanejando garboso a cauda, uma capela coroada por um campanariozinho, uma pereira florida, formando latada com a parede da capela; nisto consistia o pátio, cuja conquista foi um dos sonhos de Napoleão. Este pedaço de teria, se pudesse ter-se assenhoreado dele, ter-lhe-ia talvez dado o mundo. Hoje vagueiam por ali as galinhas, cavando no chão com o bico; ouve-se um grunhido; é um grande cão arreganhando os dentes, que está ali a substituir os Ingleses, que se tornaram admiráveis naquele sítio, pois foi ali que as sete companhias dos guardas de Cooke fizeram frente ao escarniçamento de um exército, durante sete horas.
Hougomont, visto no mapa em plano geométrico, compreendidos os edifícios e a cerca, apresenta uma espécie de rectângulo irregular que tivesse um ângulo entalhado. É nesse ângulo que fica a porta meridional, defendida por essa parede assestada contra si à queima-roupa. Hougomont tem duas portas: uma meridional, a do castelo, e outra setentrional, a da herdade. Napoleão mandou o seu irmão Jerónimo contra Hougomont; bateram-se naquele sítio as divisões de Guilleminot, Foy e Bachelu; foi empregado ali quase todo o corpo de Reille, mas sem resultado; as balas de Kellermann achataram-se naquele heróico lanço de parede.
Não foi bastante a brigada de Bauduin para forçar Hougomont pelo lado norte; pelo lado sul, a brigada de Soye, sem poder assenhorear-se dele, mal lhe abriu mossa.
O pátio pelo lado sul é terminado pelos edifícios da herdade. Pendurada da parede vê-se um pedaço da porta setentrional, quebrada pelos franceses. São quatro tábuas pregadas sobre duas travessas, em que se distinguem os estragos do ataque.
Esta porta, arrombada pelos franceses e consertada depois do modo que dissemos, fica situada no fundo do pátio, é aberta numa parede, construída de pedra por baixo e por cima de tijolos, e é a que fecha a herdade pelo lado norte. É uma porta de carro simples, como as que há em todas as herdades - dois largos batentes feitos de tábuas rústicas, abrindo-se sobre prados extensos. Renhida foi a disputa daquela entrada; por largo espaço de tempo se viram escritas nas couceiras marcas de mãos ensaguentadas. Ali foi morto Bauduin.
Existe ainda naquele pátio a tempestade do combate; ainda ali é visível o seu horror: está ali petrificada a desordem da luta; está tudo vivo e morto, como se fosse ainda ontem. Agonizam as paredes, caem as pedras, gritam as brechas; são chagas os buracos, e as árvores curvam-se trémulas, como que fazendo esforço para fugir.
Em 1815 este pátio era cercado por mais edifícios do que é hoje. Essas construções, depois deitadas a terra, formavam redentes, ângulos e esquinas, que hoje já não existem.
Aí se entrincheiraram os ingleses e penetraram os franceses, os quais não puderam, contudo, sustentar-se naquela posição. Ao lado da capela, sobressai em ruínas um lanço do castelo, único fragmento que resta da mansão de Hougomont. O castelo serviu de reduto, a capela de fortim. Naquele dia cada qual procurava exterminar o seu contrário. Os franceses, espingardeados por todos os lados, por detrás das muralhas, por cima dos celeiros, do fundo das adegas, por todas as janelas e postigos, por todas as fendas das pedras, trouxeram faxina e lançaram o fogo às paredes e aos homens; à metralha replicaram com o incêndio.
No lanço arruinado entrevêem-se ainda por entre as grades de ferro, que guarnecem as janelas, os quartos demolidos de um edifício construído com tijolo, nos quais se tinham emboscado os guardas ingleses; a espiral da escada, rachada desde o chão até ao telhado, parece o interior de uma concha esmagada. Os ingleses, cercados na escada, que tem dois lanços, refugiaram-se nos degraus superiores, cortando os inferiores, para obstar à subida dos inimigos. Os degraus são hoje um montão de pedras, por cujas fendas crescem espontâneas as ortigas em abundância. Pegados às paredes apenas se conservam uns dez, sobre o primeiro dos quais se vê gravada a imagem de um tridente. Estes degraus inacessíveis estão sólidos nos seus alvéolos; o resto parece uma queixada sem dentes. Duas árvores existem ali, uma morta, outra ferida no pé; esta última reverdece em Abril, e desde 1815 que cresce por entre a escada.
O interior da capela, que participou também do horror da luta, oferece um espetáculo estranho. Lá está ainda, encostado a um fundo de pedra bruta, o grosseiro altar de madeira, onde se imolava o cordeiro de Deus, mas onde se não tornou a dizer missa desde aquele dia de carnificina. Quatro paredes caiadas, uma porta defronte do altar, duas janelas pequenas em arco, um grande crucifixo de madeira por cima da porta, por cima do crucifixo um postigo quadrado, tapado com um molhe de feno, e no chão, a um canto, uma vidraça velha toda quebrada - eis o que é a antiga capela. Ao pé do altar está colocada uma imagem de Satn'Ana, de madeira, do século XV; a cabeça do menino Jesus levou-lha uma bala de biscainho. Os franceses, por um momento senhores da capela, mas logo desalojados, deitaram-lhe o fogo. As chamas encheram-na, convertendo-a numa fornalha, e queimando a porta e o soalho, ao que escapou o Cristo de madeira. O fogo consumiu-lhe os pés, dos quais apenas se vêem os cotos enegrecidos; depois parou, o que foi um milagre, no dizer da gente da terra. O Menino Jesus decapitado não foi tão feliz como o Cristo.
As paredes estão cobertas de inscrições. Por baixo dos pés do Cristo lê-se este nome: Henquenez. depois estes outros: Conde de Rio Maior; Marques Y Marquesa de Almagro (Habana). Aquela parede, caída em 1849, e sobre a qual se lêem nomes franceses com pontos de exclamação, como indicando cólera, era o lugar onde mutuamente se insultavam as nações.
À porta da capela foi encontrado um cadáver que ainda tinha agarrado na mão um machado. Era o segundo-tenente Legros.
Ao sair da capela, vê-se um poço à esquerda. Os que vêem dois poços naquele pátio, mas aquele aquele sem balde nem roldana, perguntam: "Este poço porque não tem balde nem roldana?" "Então  porque não se tira água dele?" "Porque está cheio de esqueletos."
O último que tirou água desse poço chamava-se Guilherme Van Kylson; era um aldeão morador em Hougomont, onde exercia a profissão de jardineiro. No dia 18 de Junho de 1815, a família dele fugiu e foi esconder-se nos bosques.

A floresta que se estende em volta da Abadia de Villers abrigou por espaço de muitos dias e muitas noites estas infelizes povoações dispersas. Ainda hoje se vêem vestígios reconhecíveis, como troncos de árvores queimados, que denotam o local destes pobres bivaques errantes no meio das sarças.
Guilherme Van Kylson ficou em Hougomont "para guardar o castelo"; os ingleses foram dar com ele numa adega, onde se agachara, e, arrancando-o do seu esconderijo, obrigaram-no, à força de espadeiradas, a servi-los. Os combatentes tinham sede, Guilherme levou-lhes de beber. Era desse poço que ele tirava a água. Muitos beberam ali o derradeiro trago. Esse poço onde beberam tantos mortos tinha também de morrer.
Após o combate, tratou-se com azáfama de dar sepultura aos cadávares. A morte tem uma maneira própria de perseguir o vencedor, fazendo acompanhar a glória pela peste. O tifo é um anexo ao triunfo. Do poço, pois, que era fundo, fizeram um sepulcro de deitaram nele trezentos mortos, talvez com demasiado afã. Parece que na noite seguinte ao dia em que se sepultaram aqueles trezentos cadávares se ouviram sair vozes fracas como quem chamava.
O poço fica isolado no meio do pátio, rodeado em três lados por três paredes de pedra e tijolo, dobradas como as folhas de um biombo, e fingindo um torreão quadrado. O quarto lado está em aberto, e é por ali que se tira a água.A parede do fundo tem como que um óculo informe, talvez feito por uma bala de obus. Do tecto do torreão apenas restam as traves e os gatos de ferro que, sustentando a parede, desenham uma cruz. Inclina-se a gente e perde-se a vista num profundo cilindro de tijolo, cheio de trevas. Em roda das paredes que cercam o poço crescem moitas de ortigas que lhes escondem as extremidades inferiores.
Não tem este poço a larga pia azul que serve de aparador a todos os poços da Bélgica; a pia azul é nele substituída por um travessão, em que apoiam cinco ou seis traços de madeira cheios de nós e encurvados, parecendo grandes ossadas. Nem balde, nem cadeia, nem roldana se vê ali já, mas ainda lá se conserva a velha que servia de desaguadouro. Ali se junta a água da chuva, e vem de tempos a tempos alguma ave da floresta, que, depois de beber, levanta voo e foge.
Há ainda, porém, uma casa habitada no meio destas ruínas: é a casa da herdade, cuja porta dá para o pátio. Junto à chapa da gótica fechadura, vê-se um puxador de ferro de esguelha. Na ocasião em que o lugar-tenente hanoveriano Wilda deitava a mão a este puxador, para se refugiar na herdade, cortou-lhe a mão um golpe de machado um sapador francês.
A família que ocupava a casa tem por avô o antigo jardineiro Van Kylsom, que morreu há muito. Na ocasião em que ali estivemos, disse-nos uma mulher de cabelos ruços: "Tinha eu três anos, quando aqui se deu a batalha. Minha irmã, que era mais velha, chorava de medo. Levaram-nos para os bosques e eu fui nos braços de minha mãe. Enquanto os outros se deitavam no chão e se punham a escutar com o ouvido colado à terra, eu imitava o estrondo das peças, fazendo bum, bum!"
O pomar, para o qual, como já dissemos, dá uma porta situada à esquerda, é terrível.
Compõe-se de três pares, ou quase, para melhor dizer, de três actos. A primeira é um jardim, a segunda é o pomar, a terceira é um bosque. Estas três partes têm um recinto em comum, do lado da entrada dos edifícios do castelo e da herdade; à esquerda uma sebe, à direita uma parede, ao fundo outra parede, aquela de tijolo, esta de pedra. Primeiro entra-se no jardim, que fica situado num plano inferior, e está plantado de groselheiras e atulhado de vegetações selvagens; fecha-o um eirado monumental de pedra de cantaria, com balaústres grossos em baixo e estreitos em cima. Era um jardim senhorial no primitivo estilo francês, que precedeu Le Nôtre, porém hoje em ruínas e coberto de silvas. As pilastras são coroadas por globos, que parecem balas de pedra. Contam-se ainda quarenta e três balaústres, assentes nas suas respectivas bases; os outros jazem deitados por cima da erva, e quase todos têm arranhaduras, feitas pelas balas de mosquetaria. Vê-se ali um balaústre partido, colocado em cima da sua base, como uma perna quebrada.
Foi neste jardim, que fica mais baixo que o pomar, que seis soldados de caçadores do 1º Regimento de Infantaria Ligeira, tendo ali penetrado, e não podendo sair, apanhados e encurralados como urso na sua cova, travaram combate com duas companhias hanoverianas, uma das quais fazia fogo com clavinas. Os hanoverianos, colocados em volta dos balaústres, atiravam de cima. Porém, os caçadores, apesar de serem seis contra duzentos, levram um quarto de hora a morrer, respondendo intrépidos de baixo, apenas abrigados pela rama das groselheiras.
Sobem-se alguns degarus e passa-se do jardim para o pomar propriamente dito. Ali cairam, naquelas poucas horas toesas quadradas, mil e quinhentos homens em menos de uma hora. A parede parece prestes a recomeçar o combate. Ali existem ainda as trinta e oito seteiras abertas pelos ingleses a alturas irregulares. Em frente da décima sexta jazem dois túmulos ingleses de granito. Não há seteiras senão na parte meridional, e era daí que partia o ataque principal. Como a parede fica exteriormente oculta por uma grande sebe, os franceses, julgando que só tinham de a transpor, chegaram-se, romperam-na e encontraram o obstáculo da parede, os guardas ingleses por trás em emboscada, as trinta seteiras a fazer fogo, uma tormenta de balas de metralha, que deu cabo da brigada de Soye. Foi como Waterloo principiou.
Todavia, o pomar foi tomado, e como não havia escadas, os franceses treparam, agarrando-se com as unhas. Ali arcaram peito a peito os inimigos uns com os outros debaixo daquelas árvores, onde ficou fulminado um batalhão de Nassau, composto por setecentos homens. Toda aquela erva foi tingida com o sangue dos combatentes. Por fora, a parede contra a qual foram encurraladas as duas baterias de Kellermann está toda esburacada da metralha.
Aquele pomar é sensível ao mês de Maio, como qualquer outro; como qualquer outro, tem os seus botões de ouro, e as suas margaridas dos prados e erva crescida, onde vão pastar os cavalos empregados no serviço da lavoura; os intervalos que vão de árvore a árvore são atravessados por cordas de cabelo, em que a gente da herdade enxuga a roupa, e que fazem abaixar a cabeça a quem passa; a cada passo, metem-se os pés nos buracos feitos pelas toupeiras naquele terreno inculto. Nota-se, derrubando sobre a erva, um tronco arrancado, mas ainda verde; foi onde se encostou o major Blackman para expirar. Sob uma grande árvore próxima caiu o general alemão Duplat, oriundo de uma família francesa refugiada quando a revogação do edicto de Nantes. Ao pé debruça-se uma macieira velhe, enferma, lagada com uma ligadura de palha e de barro. As macieiras caem de velhas quase todas. Não existe ali uma só que não tenha sinal de bala de peça ou de biscainho. Naquele pomar, no fundo do qual há um bosque cheio de violetas, abundam os esqueletos de árvores mortas, sobre cujos ramos esvoaçam os corvos continuamente.
Bauduin morto, Foy ferido, o incêndio, a carnificina, a mortandade, um rio de sangue inglês, francês e alemão, furiosamente misturados, um poço atulhado de cadáveres, o regimento de Nassau e o de Brunswick destruídos, Duplat morto, os guardas ingleses mutilados, vinte batalhões franceses, além do corpo de Reille, dizimados, três mil homens mortos naquela mansão solitária de Hougomont, a golpes de espada, acutilados, degolados, espingardeados, queimados; e tudo para um aldeão dizer hoje a um viajante:
- Senhor, dê-me três francos, que, se quiser, eu conto-lhe como foi esta embrulhada de Waterloo!



III

O dia 18 de Julho de 1815

Retrocedamos, que esse é um dos direitos do narrador, e imaginemo-nos no ano de 1815, algum tempo antes da época em que principia a ação contada na primeira parte deste livro.
Se na noite de 17 para 18 de junho de 1815 não tivesse chovido, o futuro da Europa teria sido diferente. Algumas gotas a mais ou a menos deitaram Napoleão a perder. Para Waterloo ser o complemento de Austerlitz, bastou à providência alguma chuva; uma nuvem, que passou pelo céu em sentido contrário ao que era de esperar naquela estação, foi o suficiente para o desabamento do mundo.
A batalha de Waterloo não pôde principiar senão às onze horas e meia, o que deu tempo para Blucher chegar. E porque motivo? Porque o chão estava molhado. Foi preciso esperar que enxugassem um pouco as lamas para a artilharia poder manobrar.
Napoleão ressentia-se da sua profissão de oficial de artilharia; em todos os seus planos de batalha entra o projétil. Fazer convergir a artilharia sobre um ponto dado, tal era a sua chave de vitória, tratando a estratégia do general inimigo como uma cidadela e batendo-a como tal em brecha. Ele atava e desatava as batalhas, mandando assestar o canhão contra o ponto onde falecia a metralha. O seu génio tinha alguma coisa de tiro. Arrombar os quadrados, pulverizar os regimentos, romper as linhas, esmagar e dispersar as massas, para ele tudo consistia nisto - ferir, ferir sem cessar -, e essa tarefa confiava-a às balas. Método temível, que, junto do génio de que era dotado, tornou invencível pelo espaço de quinze anos esse sombrio atleta do pugilato da guerra.
No dia 18 de Junho de 1815, contava Napoleão ainda mais com a artilharia, por isso tinha por ele o número: Wellington tinha só cento e cinquenta e nove bocas de fogo e Napoleão duzentas e quarenta.
Ora supondo que a terra estava enxuta, e que, portanto, a artilharia podia girar à vontade, a ação principiava às seis horas, e a batalha estava concluída e ganha às duas horas, três antes da peripécia prussiana.
Que parte da culpa na perda desta batalha toca a Napoleão?O naufrágio é imputável ao piloto?
Seria caso que Napoleão, de envolta com a sua evidente  debilidade física, experimentasse também uma diminuição interior? Dar-se-ia o caso que vinte anos de guerra tivesse desgastado a lâmina como desgastaram a bainha, desgastado a alma como haviam desgastado o corpo? Dar-se-ia o caso que o cansaço do veterano se fizesse sentir no capitão? Numa palavra, que esse génio, como historiadores dignos de consideração o têm julgado, se fosse eclipsando? Que ele se lançasse nos braços do frenesim para disfarçar a si mesmo o enfraquecimento que o ia acometendo? Que principiasse a oscilar ao sopro do acaso? Que - defeito grave num general - já não tivesse consciência do perigo? Dar-se-à o caso de que nesta espécie de homens grandes, materialmente falando, que se podem chamar os gigantes da ação, haja uma idade em que a miopia acomete o génio? A velhice não alcança os génios do ideal; para os Dantes e Miguéis Angelos envelhecer é crescer; para os Aníbeis e Bonapartes será minguar? Dar-se-ia o caso que Napoleão tivesse perdido o sentido direto da vitória? Tal seria o seu estado, que já não reconhecesse o escolho, adivinhasse o laço, discernisse a borda do abismo, ameaçadoramente fendida? Falecer-lhe-ia já o faro das catástrofes? Ele, que sabia outrora todos os caminhos do triunfo e que de cima do seu carro coruscante os indicava com gesto soberano, teria agora perdido essa qualidade sinistramente pasmosa de conduzir para os precipícios, como que ligadas atrás de si, uma multidão de legiões? Dar-se-ia o caso que aos quarenta e seis anos fosse vitíma de uma extrema loucura? Que esse cocheiro titênico do destino já não fosse senão um picador atrevido?
Não o supomos.
O seu plano de batalha, segundo a geral opinião, era uma obra-prima. Ir direito ao centro da linha aliada, abrir passagem por entre o inimigo, dividi-lo em dois, impelir a metade britânica para Hal e a outra metade para Tongres, fazer dois troços de Wellington e Blucher, apossar-se do monte de São João, tomar Bruxelas, atirar o alemão ao Reno e o inglês ao mar, tudo isto, para Napoleão, lhe oferecia aquela batalha, como logo veremos.
Cumpre, porém, declarar que não é nosso intento contar aqui a história de Waterloo; é verdade que uma das cenas, que dá origem ao drama que narramos, se prende com esta batalha, porém o nosso assunto não é a sua história, que, aliás, se acha feita, e magistralmente feita, sob um determinado ponto de vista por Napoleão e sob outro por Charras. Pelo que nos respeita, deixamo-los ambos, e que lá se avenham; nós somos apenas uma testemunha à distância, um viajante que passa pela planície, um investigador curvado sobre essa terra amassada com carne humana, talvez tomando simples aparências por realidades; porém, como não há-de ser assim, se não temos nem a prática militar, nem a competência estratégica, que autorizam um sistema? Damo-nos, pois, por desobrigados de resistir, em nome da ciência, a um conjunto de factos, a que não duvidamos dar o nome de miragem; segundo a nossa opinião, foi uma série de acasos que dominou os dois capitães de Waterloo, e, quando se trata de destino, desse misterioso véu, julgamo-lo, como o povo, esse juiz desmalicioso.


IV

A

Quem quiser fazer uma ideia clara da batalha de Waterloo não tem mais do que imaginar um  A maiúsculo deitado no chão. A perna esquerda do A é a estrada de Nivelles, a direita  a de Genappe e a corda do A o carreiro Ohain a Braine-l'Alleud. O cimo do A é o monte de S. João, onde está Wellington; a extremidade inferior do lado esquerdo, Hougomont, onde está Reille com Jerónimo Bonaparte; a outra extremidade inferior é a Bela Aliança, onde está Napoleão. Um pouco abaixo da corda do A encontra e corta a perna direita fica a Sebe Santa. No meio dessa corda é o ponto onde se disse a palavra final da batalha e onde se colocou o leão, símbolo involuntário do supremo heroísmo da guarda imperial.
O triângulo compreendido entre o cimo, as duas pernas e a corda do A é  planalto do monte de S. João, em cuja disputa consistiu toda a batalha.
As alas dos dois exércitos estendem-se à direita e à esquerda das duas estradas de Genappe e de Nivelles, fazendo Erlon frente a Picton e Reille a Hill.
Por trás da extremidade superior do A, isto é, por trás do planalto do monte de S. João, fica a floresta de Soignes.
Quanto à planície em si, represente-se uma vastidão de terreno ondulante, cujas eminências se vão imediatamente sucedendo umas às outras, dominando esta aquela e aquela a seguinte. As ondulações vão subindo para o monte de S. João, até terminarem na floresta.
Dois exércitos inimigos num campo de batalha são dois lutadores. É uma luta a braço; cada qual procura deitar a terra o seu contrário, agarrando-se àquilo que encontra; uma sarça é um ponto de apoio; um recanto de uma parede um encosto; escorrega um regimento por falta de uma casinhola a que se encostar; um pequeno vau na planície, uma pouca de terra movida, um carreiro transversal em ensejo oportuno, um bosque, um barranco, podem embaraçar o calcanhar desse colosso chamado exército, impedindo-o de recuar. O que sair do campo fica vencido. Daí a necessidade que tem o chefe responsável de examinar a mais pequena moita de árvores, de aprofundar o menor relevo.
Os dois generais tinham estudado com toda a atenção o planalto do monte de S. João, chamado hoje planície de Waterloo. Wellington examinara-a no ano precedente, com previdente sagacidade, como local onde tinha de dar-se uma grande batalha. Nesse dia 18 de Junho estava no melhor lado, para o duelo em que se ia empenhar com Napoleão. O exército inglês ficava por cima e o francês por baixo.
Esboçar aqui o aspecto de Napoleão a cavalo, de óculo em punho, na eminência de Rosomme, na madrugada de 18 de Junho de 1815, seria uma coisa quase supérflua. Todos o viram, antes de nós o mostrarmos. Esse perfil sereno, coberto com o pequeno chapéu da escola de Brienne, esse uniforme verde, com o sobrepeito branco a esconder o crachá, o sobretudo a esconder as dragonas, a volta do cordão vermelho no colete, os calções de pele, o cavalo branco com o seu jaez de veludo cor de púrpura, tendo nos cantos NN coroados e águias; botas à escudeira sobre meias de seda, as esporas de prata, a espada de Marengo, toda essa figura do último César, aclamado por uns, encarada com o olhar severo por outros, têm-na todos presentes à imaginação.
Esta figura permaneceu por muito tempo na luz, livre de certa escuridade de lenda que se forma em volta da maior parte dos heróis, velando sempre por mais ou menos tempo a verdade; hoje, porém, faz-se o dia e a história.
O fulgor desta é impiedoso; tem sido estranho e divino: que, apesar de ser luz, e exatamente porque o é, espalha sombra muitas vezes onde só se viam raios; do mesmo homem fez dois fantasmas diferentes; um ataca o outro, as trevas do déspota lutam com o resplendor do capitão, mas ela faz justiça a ambos. Daí uma medida mais exata para  a definitiva apreciação dos povos. Babilónia, violada, diminui Alexandre; Roma, manietada, diminui César; a morte de Jerusalém, diminui Tito. A tirania segue o tirano. Desgraçado o homem que deixa após si uma sombra escura com a sua forma.


V

O quid obscurum das batalhas

De todos é conhecida a primeira fase desta batalha; o seu começo foi caliginoso, incerto, vacilante, ameaçador para os dois exércitos, porém mais para os ingleses do que para os franceses.
Como toda a noite tinha chovido, a terra estava impregnada de água, que se conservava encharcada nas cavidades da planície como em tinas; em alguns sitios as carretas em que ia montada a artilharia estavam metidas em água até ao eixo e gotejando lama líquida; de modo que, se os trigos e os centeios derribados e calçados por aquela barafunda de carretas não tivessem formado como um estrado de palha, sobre o qual se moviam as rodas, seria impossível qualquer movimento, principalmente pelos vales que ficam do lado de Papellotte.
O combate principiou tarde, porque Napoleão, como já dissemos, costumava segurar a artilharia na mão, como uma pistola, fazendo pontaria ora para este, ora àquele ponto da batalha, e por isso quis esperar até que as carretas que conduziam as peças pudessem rodar e galopar livremente; mas para isso era preciso que aparecesse o sol e secasse a terra, e o sol não apareceu. Já não era a entrevista de Austerlitz. Quando se disparou o primeiro tiro de peça, o general inglês Calville olhou o relógio e viu que eram onze horas e trinta e cinco minutos.
Travada a ação com fúria, com talvez mais do que o imperador quisera, sobre Hougomont, pela ala esquerda francesa, Napoleão atacou o centro, precipitando a brigada de Quiot sobre Haie-Saint, e Noy moveu a ala direita contra a ala esquerda inglesa, que se apoiava em Papellotte.
O ataque de Hougomont tinha algo de simulado; o plano era atrair ali Welligton, fazendo-o inclinar para a esquerda. Este plano teria sortido efeito, se as quatro companhias de guardas inglesas e os bravos belgas da divisão de Perponcher não tivessem guardado a sua posição a pé firme e se Wellington, em vez de se lhes reunir em massa, se nãi tivera limitado a mandar-lhe um reforço de outras quatro companhias de guardas e um batalhão de Brunswick.
O ataque, porém, da ala direita francesa não encobria segundo fim; desfazer a ala esquerda inglesa, cortar a estrada de Bruxelas, fechar a passagem aos prussianos que pudessem sobrevir, forçar o monte de S. João, apertar Welligton contra Hougomont, daí contra Braine-l'Alleud e daí contra Hal, nada mais claro. Afora alguns incidentes, este plano foi bem sucedido.
Há, porém, uma circunstância a notar; na infantaria inglesa, e mormente na brigada de Kempt, havia grande número de recrutas, que, todavia, em presença dos nossos temíveis infantes, foram valentes, não lhes obstando a inexperiência a mostrarem-se intrépidos no perigo e fazendo excelente serviço, principalmente como atiradores; o soldado atirador, mais entregue de certo modo a si mesmo, torna-se, para assim dizer, general de si próprio. Aqueles recrutas mostraram ainda alguma coisa de invenção e de fúria francesa, porém o entusiasmo desta infantaria noviça desagradou a Wellington.
Após a tomada de Haie-Sainte, a batalha começou a vacilar. Aquele dia tem um intervalo escuro, desde  o meio dia até às quatro horas; o meio da batalha é quase indistinto e participa do sombrio da refrega. À luz crepuscular do combate viam-se mil vultos flutuando em nuvens de fumo, como uma miragem vertiginosa, o trem de guerra de então, desconhecido hoje, as barretinas felpudas, os boldriés e as pastas dos hussardos, as correias cruzadas, as cartucheiras, os dólmanes, as botas vermelhas de mil dobras, os pesados shakos engrinaldados de torçal, a infantaria quase negra de Brunswick misturada com a infantaria escarlate de Inglaterra, os soldados ingleses com dragonas feitas de grande borrainas brancas circulares, a cavalaria hanoveriana com os seus capacetes de couro oblongos, de barbicachos de cobre e penachos de cabelo vermelho, os escoceses de joelhos nus, as grandes polainas brancas dos nossos granadeiros; quadros e não linhas estratégicas; o que é necessário a Salvador Rosa e não a Gribeauval.
Uma batalha tem sempre certa semelhança com uma tempestade.
Quid obscurum, quid divinum. Cada historiador traça como lhe apraz os alinhamentos desta confusão. Qualquer que seja a combinação dos generais, o choque das massas armadas tem refluxos que se não podem de antemão calcular; na ação, os dois planos dos dois chefes entram um no outro e deformam-se um pelo outro. A linha de batalha flutua e serpenteia como um fio, corre o sangue em torrentes ilogicamente, ondeiam as frentes dos exércitos, os regimentos formam cabos ou golfos, conforme entram ou saem, agitam-se continuamente estes escolhos uns por diante dos outros; onde está a infantaria, onde está a artilharia, aí acorre a cavalaria, parecem nuvens de fumo os batalhões.
Havia ali não sei quê; procurai, desapareceu; deslocam-se as abertas; avançam e recuam aqueles vulgos negros em meandros sombrios; um como o vento do sepulcro leva, agita, alarga e dispersa aquelas multidões trágicas. Que é uma peleja? Uma oscilação. A imobilidade de um plano matemático exprime um minuto e não um dia. Para pintar batalhas é necessário um pintor que saiba formar caos com o pincel; é melhor Rembrandt que Vandermeulen. Vandermeulen, exato ao meio dia, às três horas mente. Engana a geometria; só o furacão é verdadeiro, e é isto que dá a Folard direito para contradizer Políbio. Acrescentemos que há sempre uma ocasião em que a batalha degenera em combate, particularizando-se, partindo-se em mil factos, que formam cada um per si uma circunstância, e que, para nos servirmos da expressão do próprio Napoleão, "mais pertencem à biografia dos regimentos do que à história do exército". Neste caso, o historiador tem obrigação evidente de ser resumido, porque não pode apanhar senão os contornos principais da luta, e não é dado a nenhum, por mais consciencioso que seja, fixar absolutamente a forma desta nuvem terrível, chamada uma batalha.
O que é verdadeiro a respeito dos grandes choques armados é particularmente aplicável a Waterloo.
Todavia, de tarde, a batalha, em certa ocasião, fixou-se.


VI

Quatro horas da tarde

Às quatro horas, a situação do exército inglês era grave. O príncipe de Orange, que comandava o centro, gritava aos holando-belgas, no desvairamento da intrepidez: "Nassau! Brunswick! Nada de recuar!" Hill, que comandava a ala direita, vinha encostar-se a Wellington, mas á enfraquecido. Finalmente, Picton, que comandava a ala esquerda, tinha morrido. Na mesma ocasião em que os ingleses roubaram aos franceses a bandeira do 105 de linha, os franceses mataram-lhe o general Picton com uma bala na cabeça. Wellington nessa batalha tinha dois pontos de apoio - Hougomont e Haie-Sainte; Hougomont resistia ainda, mas estava em chamas; Haie-Sainte estava tomada. Do batalhão alemão que a defendia apenas sobreviviam quarenta e dois homens; os oficiais haviam sido mortos ou feitos todos prisioneiros, menos cinco; o número dos combatentes, vítimas do furor da peleja naquela granja, montava as três mil. Ali morreu às mãos de um pequeno tambor francês um sargento dos guardas ingleses, o primeiro jogador de boxe de Inglaterra, reputado invulnerável pelos seus companheiros. Baring retirou, Alten foi morto à espada. Perderam-se muitas bandeiras, uma das quais pertencia à divisão de Alten e outra ao batalhão de Lunebourg, comandado por um princípe da família de Deux-Ponts. Os escoceses bêbados já não existiam; os gordos dragões de Ponsonby tinham sido mortos a golpes de acha; essa valente cavalaria foi derrotada pelos lanceiros de Bro e pelos couraceiros de Travers; de mil e duzentos cavalos restavam seiscentos; de três lugares-tenentes-coronéis dois jaziam por terra, Hamilton ferido, Mater morto. Ponsonby caíra, atravessado por sete lançadas, Gordon fora morto, Marsh morto, e duas divisões, a quinta e a sexta, destruídas.
Tomada Haie-Sainte e aberta brecha em Hougomont, restava um único nó, o centro, que resistia ainda, animado pelo reforço de Wellington, que chamara Hill, que estava em Merbe-Braine, e Chassé, que estava em Braine-lÁlleud.
O centro do exército inglês, um pouco côncavo, densíssimo e compacto, estava situado em posição forte. Ocupava o planalto do monte de S.João, tendo por trás a aldeia e pela frente a encosta, então bastante áspera, e defendido por essa casa forte de pedra, nesse tempo propriedade senhorial de Nivelles, que marca a interseção das estradas, massa do século XVI, tão robusta, que as balas recuavam em ricochete, sem abrir mossa. Em volta do planalto os ingleses haviam cortado as sebes aqui e além, fazendo canhoeiras entre os espinheiros para colocar as bocas das peças entre os ramos e abrindo seteiras entre as sarças. A artilharia deles estava emboscada por trás dos tojos. Este trabalho púnico, incontestavelmente autorizado pela guerra, que admite o laço, estava tão bem feito que Haxo, expedido pelo imperador às nove horas da manhã a reconhecer as baterias inimigas, não dera fé de nada e veio dizer a Napoleão que não havia outro obstáculo além das duas trincheiras que obstruíam as estradas de Nivelles e de Genappe. Como era o tempo em que as searas estavam crescidas, facilmente se pode esconder na espessura do trigo que cobria a orla do planalto um batalhão da brigada de Kempt, o 95, armado de clavinas.
Assim resguardado e seguro, o centro do exército anglo-holandês podia dizer-se em boa posição.
O único perigo dele era a floresta de Soignes, então contígua ao campo de batalha e cortada pelas lagoas de Groenendeel e de Boitsfort. Por ali não podia recuar um exército sem se desfazer; os regimentos desunir-se-iam logo e a artilharia ter-se-ia perdido nos pântanos. A retirada, segundo a opinião de muitos homens da profissão, contestada por outros, seria uma verdadeira debandada.
Wellington juntou ao centro uma brigada de Chassé, tirada à ala direita, e uma brigada de Wincke, tirada à ala esquerda, e ainda a divisão de Clinton. Aos seus ingleses, aos regimentos de Halkett, à brigada de Mitchell, aos guardas de Maitland, deu por drelhões e contrafortes a infantaria de Brunswick, o contingente de Nassau, os hanoverianos de Kielmansegge e os alemães de Ompteda, ao todo vinte e seis batalhões. "A ala direita", como diz Charras, foi rebatida para trás do centro." Disfarçada por sacos de terra, havia uma enorme bateria no sitio onde hoje está o chamado "Museu de Waterloo". Além disso, Wellington tinha numa volta de terreno o regimento dos dragões - guardas de Somerset.
A bateria, que se estivesse acabada seria quase um reduto, estava disposta por detrás da parede de um jardim, muito baixa, revestida à pressa com uma camisa de sacos de areia e com um largo talude de terra; esta obra, porém, não estava terminada, porque não tinha havido tempo de a estacar.
Wellington, que andava a cavalo, receoso, mas impassível, todo o dia permaneceu na mesma atitude, um pouco adiante do moinho do monte de S. João, que ainda existia, debaixo de um olmo, que depois um inglês, vândalo entusiasta, comprou por duzentos francos, e, serrado, o levou. Wellington foi friamente heróico nesse dia. Choviam-lhe as balas em redor, caiu-lhe morto ao lado o ajudante-de-campo Gordon, e nada o abalou. Disse-lhe lorde Hill, mostrando-lhe uma bomba que rebentara:
- Milorde, quais são as suas instruções e que ordens nos deixa, se se deixar matar?
- Que façam como eu! - respondeu Wellington.
A Clnton disse laconicamente:
- Aqui resiste-se enquanto houver um homem.
Era visível que o dia corria mal. Wellington gritava aos seus antigos companheiros de Talavera, de Victoria e de salamanca:
- Boys! Quem é que se lembra aqui de retirar? Recordai-vos da Inglaterra de outrora!
Às quatro horas, abalou por trás a linha inglesa. De súbito não se tornou a ver na crista do planalto senão a artilharia e os caçadores; o resto desapareceu; os regimentos, rechaçados pelas bombas e pelas balas francesas, deitaram pelo fundo que ainda hoje corta o carreiro, que dá serventia para a herdade do monte de S. João, e, por um movimento retrógrado que se fez, a vanguarda do exército inglês escondeu-se e Wellington principiou a recuar.
- Já batem em retirada! - gritou Napoleão.



VII

Napoleão de bom humor

Posto que doente e incomodado por um padecimento local, proveniente de andar de cavalo, nunca o imperador estivera de tão bom humor como naquele dia. Aquele homem impenetrável, sorria desde pela manhã. Essa alma profunda, com máscara de mármore, no dia 18 de junho de 1815 resplandecia com as suas trevas. O homem que estivera sombrio em Austerliz, em Waterloo estava alegre. Os maiores prdestinados têm destes contra-sensos. As nossas alegrias são sombra; o supremo sorriso só a Deus pertence.
Ridet Caesar, Pompeius flebit, diziam os legionários da legião Fulmanatrix. Desta feita Pompeu não tinha de chorar, mas o certo é que César ria.
À uma hora da noite, quando, em companhia de Bertrand, exposto à chuva e ao vento, foi a cavalo explorar as colinas que cercam Rossomme, satisfeito ao ver a longa linha de fogueias inglesas, que iluminavam todo o horizonte desde Frieshemont até Braine-l'Alleud, parecera-lhe exato o destino, comparecendo no dia aprazado no campo de Waterloo, para onde o intimidara; e, fazendo parar o cavalo, pôs-se a contemplar os relâmpagos, a escutar o trovão, permanecendo por algum tempo imóvel na mesma postura e lançando ao vento da noite esta frase misteriosa: "Estamos de acordo." Porém, Napoleão enganava-se; o destino não estava de acordo com ele.
Cada instante daquela noite fora para ele um momento de prazer, e esses instantes reunidos não o haviam deixado dormir um só minuto.
Às duas horas e meia, depois de ter percorrido a linha das guardas principais, julgou por um momento, ao ouvir o rumor dos passos de uma colina em marcha, que Wellington se retirava, e disse para Bertrand:
- É a retaguarda do exército inglês que marcha em retirada. Vou fazer prisioneiros os seis mil ingleses que há pouco chegaram a Ostende.
A sua conversação era expansiva, animada como quando ele, após o desembarque do 1º de Março, mostrava ao grande marechal o aldeão entusiasta do golfo Juan e exclamava:
- Então, Bertrand? Já aqui temos reforço!
A chuva redobrava, o eco dos trovões perdia-se no cavado dos vales, e ele dizia, no meio daquele fragor, mofando de Wellington:
- Este inglesinho precisa de levar uma lição!
Às três horas da madrugada, porém, perdeu a primeira ilusão; anunciaram-lhe os oficiais que ele mandou em reconhecimento que o inimigo não fazia movimento nenhum. Não se mexia nada; nem uma só fogueira do acampamento estava apagada. O exército inglês dormia. Era profundo o silêncio na terra; só no céu havia ruído. Às quatro horas, os batedores trouxeram-lhe um aldeão, que servira de guia a uma brigada de cavalaria inglesa, talvez a brigada de Vivian, que ia tomar posição na aldeia de Ohain, na extrema esquerda. Às cinco, contaram-lhe dois desertores, que acabavam de deixar o seu regimento, que o exército inglês esperava pela batalha.
- Melhor! - exclamava Napoleão. - Antes quero destruí-los do que rechaçá-los.
Pela manhã, na encosta que forma a volta do caminho de placenoit, apeou-se no meio da lama, mandou buscar a uma herdade uma mesa de cozinha e uma cadeira de aldeão, assentou-se, com um feixe de palha por tapete, e, desenrolando em cima da mesa o mapa do campo de batalha, disse para Soult:
- Que bonito tabuleiro de Xadrez!
Em virtude da chuva que caíra na noite, não tinham podido chegar pela manhã os comboios de víveres, embaraçados pelo mau estado dos caminhos; os soldados não tinham dormido, estavam molhados e em jejum, mas nada disso foi motivo que para Napoleão não gritasse alegremente a Ney:
- Temos a nosso favor noventa probabilidades contra cem.
Às oito horas trouxeram-lhe o pequeno almoço, para o qual convidou muitos generais. Durante ele, contou-se que Wellington assistira na antevéspera a um baile que se dera em Bruxelas, em casa da duquesa de Somerset, e Soult, soldado rude, com figura de arcebispo, dissera:
- Hoje é que é o baile.
O imperador gracejava com Ney por ter dito:
- Wellington não há-de ser tão simples que espere por Vossa Majestade.
Era este o seu costume.
"Napoleão gostava de gracejar", diz Fleury de Chaboulon.
"O fundo do seu carácter era um humor prazenteiro", diz Gourgaud.
"Napoleão abundava em gracejos, mais extravagantes, porém, do que espirituosos", diz Benjamin Constant.
Vale a pena insistir nestas jovialidades de gigante. Aos seus granadeiros chamava-lhes "meus grulhas", beliscava-lhes as orelhas e puxava-lhes pelo bigode. "O imperador estava-nos sempre com chascos", é a frase de um deles. Na viagem misteriosa da ilha de Elba para França, em 27 de Fevereiro, tendo o brigue francês Zéfiro encontrado no mar alto o brigue Inconstante, que conduzia Napoleão, e perguntando-lhe notícias dele, o imperador, que naquela ocasião ainda trazia no chapéu o laço branco e cor de amaranto, semeado de abelhas, adotado por ele na ilha de Elba, lançou mão do porta-voz a rir e respondeu ele mesmo:
- O imperador tem saúde.
Quem ri deste modo é porque está familiarizado com os acontecimentos. Napoleão teve muitos acessos de riso naquele almoço de Waterloo, após o qual se concentrou em profunda meditação, e daí a um quarto de hora sentaram-se dois generais em cima do feixe de palha, com uma pena na mão e uma folha sobre o joelho, e o imperador ditou-lhes a ordem de batalha. Às nove horas, na ocasião em que, semelhante a um mar de capacetes, espadas e baionetas, movendo-se no horizonte, o exército francês se pôs em movimento, formado em cinco colunas, com as divisões em duas linhas, a artilharia entre as brigadas e na frente a música, tocando hinos marciais, com os quais se casava o rufar dos tambores e o clangor das trmbetas, poderosa, vasta, alegre, o imperador exclamara duas vezes transportado:
- Magnifico! Magnifico!
Das nove horas até às dez e meia, parece incrível, todo o exército tomou posição, formando-se em seis linhas, que, para nos servirmos da expressão do imperador, descreviam "a figura de um V". Instantes depois da vanguarda se formar em ordem de batalha, no meio desse silêncio profundo do principiar de uma tempestade, que precede os combates, o imperador ao ver desfilar as três baterias de doze, destacadas por ordem sua do corpo de Erlon, de Reille e de Lobau, e destinadas a principiar a ação, batendo o monte de S.João no ponto de se cruzam as estradas de Nivelles e de genappe, disse para Haxo, batendo-lhe no ombro:
- Que belas vinte e quatro raparigas, general!
Certo resultado, ao passar em frente dele a companhia de sapadores do 1º corpo, por ele designada para se entrincheirar no monte de S. João, apenas tomada a aldeia, animou-a com um sorriso. Aquela sua serenidade apenas fora perturbada por uma frase de orgulhosa compaixão: ao ver agruparem-se à sua esquerda, no sítio onde agora há um túmulo, esses admiráveis escoceses pardos, montados nos seus soberbos cavalos, disse:
- É uma pena!
Depois montou a cavalo e transportou-se para a dianteira de Rossomme, escolhendo para observatório um estreito cômoro de relva à direita da estrada de Genappe a Bruxelas, o qual foi a sua segunda estância, enquanto durou a batalha. A terceira estância, isto é, a que ocupou às sete da tarde, e que fica entre a Bela Aliança e Haie-Sainte, é temível; é um cabeço bastante elevado, que ainda existe, por trás do qual se achava agrupada a guarda num declive da planície. Em volta choviam as balas no chão da estrada, até onde estava Napoleão, a quem, como em Brienne, zuniam por cima da cabeça as balas de biscainhos. Quase no lugar onde o cavalo dele tinha os pés, foram encontradas balas enferrujadas, Lâminas de espadas velhas e projéteis informes, comidos de ferrugem: scabra rubigiene. Há poucos anos, desenterrou-se ali um obus de calibre 60, ainda carregado, com a culatra partida pelo ouvido. Foi naquela estância que o imperador disse ao seu guia Lacoste, aldeão hostil, que se agarrava assustado ao selim do cavalo de um hussardo, voltando-se ao rebentar de cada granada e procurando esconder-se por trás de Napoleão:
- Isso é uma vergonha, imbecil. Ainda arranjas com que te matem pelas costas,
Quem estas linhas escreve achou no declive friável daquele cabeço, ao cavar no chão, os restos de um bocal de uma bomba, desagregados pela ferrugem de quarenta e seis anos, e pedaços de ferro que se lhe quebravam nos dedos como pau de sabugueiro.
Já não existem as ondulações das planícies, diversamente inclinadas, onde teve lugar o recontro de Napoleão com Welington, mas ninguém ignora o que elas eram em 18 de Junho de 1815. Quiseram erigir-lhe um monumento daquele campo fúnebre e tiraram-lhe o seu relevo real, de modo que a história perturba-se e já não sabe onde está. Desfiguraram-no para o glorificar. Wellington, ao ver dois anos depois o campo de Waterloo, exclamou:
- Trocaram-me o meu campo de batalha.
Onde agora está a grande pirâmide de terra coroada pelo leão, havia um alto que abaixava em declive praticável para a estrada de Nivelles, mas que pelo lado da estrada de Genappe era quase um escarpado. A elevação da escarpa ainda hoje se pode medir pela altura dos cabeços das duas grandes sepulturas que bordam a estrada de Genappe a Bruxelas; à esquerda o túmulo inglês; à direita o túmulo alemão. Túmulos franceses não os há ali; para a França é toda a planície um sepulcro. Em virtude das mil e mil carradas de terra, empregadas no cabeço, que tem centoe cinquenta pés de altura, por meia milha de circunferencia, a subida para o planalto do monte de S.João é hoje meia ladeira; no tempo em que se deu a batalha, era cortada a pique e inacessivel, principalmente na parte de Haie-Sainte. Era tão inclinado o declive que a artilharia inglesa não podia fazer fogo para a herdade situada no fundo do vale, que era o centro do combate. No dia 18 de Junho de 1815 as chuvas tinham também escavado naquele canto, a lama dificultava a subida, para a qual era necessário ir de gatas, correndo-se, ainda assim, o risco de ficar atolado nela. Ao longo do alto da planura estendia-se um fosso, que um observador colocado a distância não seria capaz de dizer o que era.
Para que era aquele fosso? Digamo-lo. Braine-l'Alleud é uma aldeia da Bélgica; Ohain outra. Essas duas aldeias, ocultas ambas nas curvas do terreno, comunicam-se por um caminho de quase légua e meia de extensão, que atravessa uma planície de nível ondulante, e que em muitos sitios entra e se perde, como um rego, por entre as colinas, do que resulta que em alguns pontos é um verdadeiro barranco. Em 1815, do mesmo modo que agora, essa estrada cortava o alto do planalto do monte de S. João, entre as duas estradas de Genappe e Nivelles, com a diferença, porém, de que então ia por baixo do planalto, e hoje fica ao mesmo nível. das duas escarpas formaram o plinto para o monumento.  Essa estrada na maior parte da sua extensão é uma vala, cavada em sitios a doze pés de profundidade, e com os lados tão escarpados que em algumas partes desabavam, principalmente de Inverno, com as correntes formadas pelas chuvas, o que por vezes dera lugar a lamentosos desastres. A entrada de Baine-l'Alleud era tão estreita, que uma ocasião ficou ali esmagado debaixo de um carro um homem, como prova uma cruz de pedra erguida ao pé do cemitério, que indica o nome do morto, Senhor Bernard Debraye, negociante em Bruxelas, e a data do desastre, Fevereiro de 1637.
Era tão profunda no alto de monte de S.João, que em 1783 ficou ali sepultado debaixo de uma ribanceira, que desabou, um aldeão chamado Matheus Nicaise, como o provava outra cruz de pedra, cujo cimo desapareceu nas roteaduras, mas cujo pedestal ainda hoje se vê derrubado na encosta do monte, à esquerda da estrada, entre aie-Sainte e a herdade do monte de S.João.
Num dia de batalha, era invisível, isto é, terrível, aquela quelha, que só ao pé se via, bordando o alto do monte de S.João, como um fosso no cimo da escarpa, como uma rodeira aberta na terra.



VIII

Em que o imperador faz uma pergunta ao seu guia Lacoste

Napoleão, pois, estava alegre na manhã do dia em que se deu a batalha de Waterloo, e tinha razão para o estar. O plano de batalha concebido por ele era, com efeito, admirável, como já provámos.
Travada a peleja, nem as suas variadissimas peripécias, nem a resistência de Hougomont, nem a tenacidade de Haie-Sainte, nem a morte de Bauduin, nem Foy posto fora de combate, nem a inesperada muralha, de encontro à qual foi destruída a brigada de Soye, nem o fatal atabalhoamento de Guilleminot, que não tinha balas, nem cartuchos, nem as baterias atoladas, nem as quinze peças sem escolta, destruídas por Uxbridge, em uma quelha; nem o pouco efeito das bombas que caíram nas linhas inglesas e que se enterravam no chão amolecido pela água da chuva, sem outro efeito mais do que levantar vulcões de lama, de modo que a metralhadora tornava-se em salpicos; nem a inutilidade da demonstração de Pirá contra Braine-l'Alleud, nem a cavalaria, que se compunha de quinze esquadrões, reduzida quase toda a nada, nem a ala direita do exército inglês, mal atacada, nem a ala esquerda, mal combatida; nem o estranho equívoco de Ney, agrupando, em vez de destacar, as quatro divisões do primeiro corpo - espessuras de vinte e sete fileiras e vanguardas de duzentos homens, entregues daquele modo à metralha; nem a destruição das balas naquelas massas, as colunas de ataque desunidas, a bateria do flanco descoberta subitamente; nem Bourgeois, Donzelot, Durutte em perigo e Quiot repelido, nem o tenente Vieux, esse hércules saído da escola politécnica, ferido na ocasião em que arrombava, a golpes de machado, a porta de Haie-Sainte, debaixo do fogo que lhe faziam de cima da trincheira inglesa, que tapava a volta da estrada de Genappe a Bruxelas; nem a divisão de Marcognet, apanhada entre a infantaria e a cavalaria, espingardeada à queima-roupa, no meio das searas de trigo, por Best e Pack, e acutiladas por  Ponsonby; nem a sua bateria de sete peças encravadas; nem a resistência do princípe de Saxe-Weimar contra o conde de Erlon, Frischemont e Smohain, para guardar a bandeira que havia tomado ao regimento 105; nem a bandeira do regimento 45, também tomada, nem o hussardo negro prussiano, feito prisioneito pelos batedores da coluna volante de trezentos caçadores, que batiam a estrada de Wavre ate Plancenoit; nem as assustadoras notícias dadas pelo prisioneiro, nem a demora de Grouchy, nem os mil e quinhentos homens prostrados por terra em menos tempo ainda, em volta de haie-Sainte; nenhum destes incidentes tempestuosos, passando por diante de Napoleão, como nuvens de fumo da batalha, lhe perturbaram o olhar ou fizeram nublar aquela face imperial do homem seguro de si. Napoleão estava acostumado a olhar a guera de frente, sem fazer a soma pungente das cirunstâncias, algarismo por algarismo; importavam-lhe pouco os algarismos, contando que eles dessem esta soma: vitórias; nem se assustava porque as coisas não corressem bem ao princípio, pois julgava-se senhor e possuidor do fim delas; sabia esperar, supondo que ninguém lhe podia pedir contas do que fazia, e tratando o destino como de igual para igual. Parecia que dizia à sorte:
- Não és capaz.
Napoleão, meio sombra, meio luz, sentia-se protegido no bem e tolerado no mal. Dava-se, ou julgava ele que se dava com ele, uma conivência, ou, quase diríamos, uma cumplicidade dos acontecimentos, equivalente à invulnerabilidade antiga.
Parece, todavia, que quem tinha no seu passado Beresina, Leipsick e Fontainebleau podia desconfiar de Waterloo. Na amplidão do céu torna-se visível qualquer misterioso franzir de sobrancelhas.
Napoleão estremeceu, quando Wellington retrogradou. Ao ver subitamente desguarnecido o alto do monte de S.João e desaparecer a vanguarda do exército inglês, que se escondia, embora para se reunir de novo, ergueu-se nos estribos e pelos olhos passou-lhe o relampejar da vitória.
Wellington, encurralado na floresta de Soignes, era a Inglaterra efiniivamente derrubada pela França; era a vingança de recy, Poitiers, Malplaquet e Ramillies. Era o homem de Marengo passando um traço negro por cima de Azincourt.
O imperador, a quem a sua guarda, colocada por trás dele com as armas em descando, observava com uma espécie de religião, ao lembrar-se então da terrível peripécia, deitou o óculo pela última vez para todos os pontos da batalha, e pôs-se a meditar, a examinar as confluências dos montes, a notar os declives, a escrutar as moitas de árvores, a amplidão das searas, os meandros dos carreiros; parecia contar cada espinheiro das sarças. Contemplou com certa fixidez as trincheiras inglesas das duas estradas, formadas de granes juncadas de árvores, a saber: a da estrada de Genappe acima de Haie-Sainte, guarnecida de duas peças, as únicas do exército que podiam fazer fogo para o fundo do campo de batalha, e a da estrada de Nivelles, onde viam brilhar as baionetas holandesas de Chassé. Notando então ao pé esta trincheira a Capela de S. Nicolau, caiada de branco, a qual fica na volta do atalho que vai para Braine-l'Aleud, curvou-se e falou a meia voz ao guia Lacoste, que fez um sinal de cabeça negativo, decerto pérfido.
Depois endireitou-se e tornou a embrenhar-se nas suas cogitações.
Wellington tinha recuado. Restava, pois, acabar aquele retrocesso por uma derrota completa.
De súbito Napoleão voltou-se e expediu ara Paris um correio a toda a brida, encarregado de anunciar que estava ganha a vitória.
Napoleão, que era um desses génios de que sai o trovão, acabava de encontrar o seu raio, dando ordem aos couraceiros de Milhaud para tomar o alto do monte de S.João.


IX

O inesperado

Eram três mil e quinhentos gigantes montados em cavalos colossos, que, formados em linha, ocupavam um quaro de légua de terreno; eram vinte e seis esquadrões, protegidos, pela retaguarda, pela divisão de Lefebvre-Desnouettes; cento e seis gendarmes escolhidos, mil cento e oitenta e sete caçadores e oitocentos e oitenta lanceiros. Traziam capacetes sem penhacho e couraças de ferro batido, com pistolas de arção nos coldres e o comprido sabre-espada.
Às nove horas da manhã, admirou-os todo o exército, quando no meio do clangor das trobetas e das harmonias das músicas que cantavam: Velemos pela salvação do império. Vieram em coluna cerrada, e com uma das baterias ao lado e a outra ao centro, formar-se em duas filas, entre as estradas de Genappe e a de Frischemont, e tomar o seu lugar para a batalha nessa valente segunda linha, tão sabiamente composta por Napoleão, a qual, para assim dizer, tinha duas alas de ferro, porque na extremidadeesquerda ficavam-lhe os couraceiros de Kellermann e na extremidade direita os couraceiros de Milhaud.
Recebida a ordem do imperador, que lhe foi levada pelo ajudante-de-campo Bernard, Ney desembainhou a espada e pôs-se à frente dos enormes esquadrões que levantaram campo.
Toda aquela cavalaria, de sabres em punho, estandartes e trombetas ao vento, formada em duas colunas, desceu com movimento uniforme, parecendo um só homem, e com a exatidão de um ariete abrindo uma brecha, a colina de Bela Aliança, entranhou-se no terrível vale, onde já tantos homens haviam caído, e desapareceu por entre o fumo, saindo em seguida daquela sombra para reaparecer do outro lado, ainda cerrada e compacta, subindo a galope, por entre um chuveiro de granads, que lhe rebentavam por cima, a medonha rampa de lama, que conduzia ao aoto do monte de S. João. Eles subiam, graves, ameaçadores, imperturbáveis; nos intervalos da mosquetaria e da artilharia, ouvia-se aquele mover de pé colossal. Eram duas divisões, formando duas colunas, à direita a divisão de Wathier, à esquerda a divisão de Delord. Quem via de longe, pareciam-lhe duas imensas cobras de aço, estendendo-se para o alto do monte de S. João. Aqueles homens atravessaram o campo da batalha como um prodígio.
esde a tomada do grane reduto de Moscovo pela grossa cavalaria, não se tornara a ver coisa semelhante; faltava ali Murat, mas estava Ney. Parecia que aquela massa se tinha convertido num mosntro com uma só alma. Por entre uma nuvem de fumo, rasgada aqui e além, viam-se os esquadrões estendendo-se, ondulando, como os anéis de um pólipo. Era uma confusão de capacetes, gritos e sabres, de saltos impetuosos dos cavalos, jogando de garupa, ao estrondo do canhão e ao tanger das trombetas, um tumulto disciplinado, mas terrível, e por cima de tudo isto as couraças, como as escamas sobre a hidra.
Parece um conto de outros tempos isto que narramos. Só nas antigas epopeias órficas, em que se descrevem os homens-cavalos, os antigos hipantropos, titãs com rosto humano e peitos de cavalo, que escalaram o Olimpo, horríveis, invulneráveis, sublimes; deuses e animais; só nas antigas epopeias órficas, diziamos, é que aparecem coisas semelhantes a esta visão.
Estranha coincidência numérica! Aqueles vinte e seis esquadrões iam ser recebidos por vinte e seis batalhões. Por trás do alto da planura, esperava-os muda, imóvel - protegida pela bateria oculta -,
a infantaria inglesa, formada em treze esquadras, a dois batalhões cada um, e em duas linhas, sete na primeira, seis na segunda, de coronhas fincadas ao ombro, fazendo pontaria para o que vinha. Os soldados ingleses, porém, não viam os couraceiros, nem os couraceiros viam os soldados ingleses. Estes ouviam subir aquela maré de homens; ouviam cada vez mais distinto o ruído de três mil cavalos a trote largo, o bater alternado e simétrico das ferraduras nas pedras da estrada, o atrito das couraças, o tinir dos sabres e com um hálito feroz. Após uma pausa terrível, em que tudo era silêncio, apareceu subitamente em cima da esplanada uma comprida fileira de braços erguidos brandindo sabres, uma multidão de capacetes, trompetas e estandartes, três mil cabeças de homens de bigode ruço gritando: "Viva o imperador!" Parecia que tremia a terra, ao desembocar na planície toda aquela cavalaria.
De súbito - trágico sucesso! - do meio da vanguarda da coluna dos couraceiros levantou-se um clamor terrível. Ao chegarem ao alto da encosta, tinham dado de chofre com um fosso, uma vala que se estendia entre eles e os ingleses. Era a barroca de Ohain.
Foi medonho aquele momento, quando repentina, inesperadamente, lhes surgiu aquele barranco, que se abria a prumo a uma profundidade de duas toesas debaixo dos pés dos cavalos; estes empinavam-se, atiravam-se para trás, levantavam as patas no ar e caiam de costas, pisando e ferindo os cavaleiros, que não tinham meio de recuar, porque a primeira fila impelia a segunda, a segunda a terceira. A coluna tornou-se um projétil; a força adquirida para esmagar os ingleses esmagou os franceses. Cavalos e cavaleiros, tudo caiu de roldão naquele barranco inexorável, que para se transpor era necessário que estivesse entulhado, esmagando-se uns aos outros, fazendo uma só carne, naquele sorvedouro. Cheia a cova, o resto passou, caminhando por cima dos que tinham caído. Ali ficou quase um terço da brigada de Dubois, e este desastre foi o princípio da perda da batalha.
Diz uma tradição local, evidentemente exagerada, que dois mil cavalos e mil e quinhentos homens ficaram sepultados na barroca de Ohain. Esta cifra, porém, a que se faz subir o número dos mortos, compreende, provavelmente, todos os outros cadáveres que no dia do combate foram lançados àquele barranco.
Escrutara Napoleão o terreno, antes de ordenar a carga dos couraceiros de Milhaud, porém não pôde ver a barroca, que não formava sequer uma ruga na superfície do terreno. Avisado, porém, e como que despertado pela capelinha branca que marca a volta da estrada de Nivelles, fez talvez, receoso da eventualidade de qualquer obstáculo, alguma pergunta ao guia Lacoste. O guia respondeu que não. Quase diriamos, pois, que desse aceno de cabeça de um aldeão é que brotou a catástrofe de Napoleão.
Outras fatalidades, porém, tinham de surgir. Era possível que Napoleão ganhasse esta batalha? Respondemos que não. Porquê? Por causa de Wellington? Por causa de Blucher? Não. Por causa de Deus.
A lei do século XIX não concedia a Bonaparte a vitória de Waterloo. Preparava-se outra série de factos, em que Napoleão já não tinha lugar. Havia muito que a má vontade dos acontecimentos se tinham declarado.
Era chegado o tempo de cair aquele homem vasto, cujo peso sucessivo nos destinos humanos perturbava o equílibrio.. Era um só indivíduo preponderado pela sua parte mais do que o grupo universal. Seriam mortais para a civilização, se durassem, estas pletoras da vitalidade humana concentrada numa só cabeça, o mundo junto no cérebro de um só homem. Chegara o momento em que a incorruptível equidade suprema reconsiderava. Naturalmente tinham feito ouvir as suas queixas os princípios e elementos, de que dependem as gravitações regulares, tanto na ordem moral como na ordem material. O sangue ainda fumegante, o atulhamento dos cemitérios, as lágrimas das mães, são arrazoados temíveis. Quando a terra sofre com a demasia do peso que a sobrecarrega, há gemidos misteriosos na sombra, que são ouvidos pelo abismo.
Napoleão foi denunciado no infinito, e a sua queda estava decidida. Incomodava Deus.
Waterloo não é uma batalha; é a mudança de aspeto do Universo.


X

A planura do monte de S. João

Ao mesmo tempo que os couraceiros deram com o barranco, depararam diante de si a bateria oculta, que os fulminava à queima-roupa com as suas sessenta peças e à qual o intrépido general Delord fez a saudação militar. Ao fogo da bateria juntava-se o dos quarados.
A artilharia volante ingesa entrara toda a galope para dentro dos quadrados, sem que os couraceiros tivessem um momento de espera. O desastre da barroca dizimara-os, mas não lhes fizera perder o ânimo. Eram desses homens que crescem no coração, diminuindo o número.
Só a coluna de Wathier é que tinha sofrido acidente; a de Delord chegara inteira, por Ney a ter feito ladear à esquerda, como se pressentisse a emboscada.
Os couraceiros arrojaram-se contra os quadrados ingleses, galopando à rédea solta, de sabre traçado nos dentes e pistola nas mãos. Tal foi o ataque.
Ocasiões há nas batalhas em que a alma endurece o homem, a ponto de o mudar de soldado em estátua e de massa de carne em massa de granito. Os batalhões ingleses, assaltados desvairadamente, não se moveram.
Deu-se então uma coisa horrorosa.
As faces dos quadrados ingleses foram todas atacadas ao mesmo tempo e envolvidas num corropio frenético. Aquela fria infantaria ficou impassível. A primeira fileira recebia-os de joelhos em terra nas pontas das baionetas, a segunda espingardeava-os, e por trás desta os artilheiros carregavam as peças, abria-se a frente do quadrado para deixar passar uma erupção de metralha e tornava a fechar-se. Os couraceiros respondiam esmagando. Os seus grandes cavalos empinavam-se, saltavam as fileiras, pulavam por cima das baionetas e caiam como gigantes no meio daquelas quatro paredes vivas. As balas faziam abertas nos couraceiros, os couraceiros abriam brechas nos quadrados. Desapareciam filas de homens esmigalhados pelos pés dos cavalos, enterravam-se as baionetas no ventre daqueles centauros. Era uma deformidade de feridas, que talvez nunca se visse em parte nenhuma. Os quadrados dizimados por aquela cavalaria enfurecida estreitavam-se sem demora e continuavam a fazer explosão no meio dos assaltantes, com inesgotável metralha. Era monstruoso o aspeto daquele combate. Os quadrados não eram batalhões, eram cratera; os couraceiros uma tempestade, não uma cavalaria. Era cada quadrado um vulcão atacado por uma nuvem; a lava a combater com o raio.
O quadrado extremo da direita, formado por 75 highlanders, que era o mais exposto, por estar em movimento, ficou quase aniquilado aos primeiros choques. Enquanto em derredor tudo era exterminío, o tocador de gaita de foles, sentado num tambor, com o seu pibrok debaixo do braço, tocava as modas das montanhas, descaído em profunda abstração com o olhar melancólico, cheio de reflexo das florestas e dos lagos. Os escoceses morriam a pensar em Ben Lothian, como morriam os gregos no meio das recordações de Argos. Porém, o sabre de um  couraceiro fez cessar o canto, cortando o pibrok e o braço que o sustentava, e matando o cantor.
Os couraceiros, relativamente pouco numerosos, porque haviam minguado com o desastre do barranco, tinham contra si quase todo o exército inglês, porém multiplicavam-se, porque cada homem valia dez. Todavia, alguns batalhões hanoverianos sucumbiram. Wellington, que o viu, lembrou-se da sua cavalaria, e se Napoleão se lembrasse também naquela ocasião da sua infantaria, teria ganho a batalha. este esquecimento foi uma falta fatal para ele.
De súbito, os couraceiros, que eram os que assaltavam, sentiram-se assaltados; tinham pela retaguarda a cavalaria inglesa. Na frente os quadrados, na retaguarda Soerset, isto é, os mil e quatrocentos dragões-guardas, com a cavalaria ligeira alemã, comandada por Dornberg, à direita, e à esquerda Trip, com os carabineiros belgas. Os couraceiros, pois, atacados de lado, pela frente, por diante e por trás, pela infantaria e pela cavalaria, tiveram de fazer frente por todos os lados. Que lhs importava aquele turbilhão? A sua bravura tornou-se inexprimivel.
Fora isto, tinham ainda pela retaguarda a bateria troando sempre. Só assim é que aqueles homens podiam ser feridos nas costas. Entre a coleção do Museu Waterloo acha-se uma couraça, com um buraco na omoplata esquerda, feito por uma bala de biscainho.
Para franceses assim, só ingleses como aqueles.
Aquilo não foi uma refrega, foi uma sombra, uma fúria, um arrebatamento vertiginoso de almas e corações, um furacão de espadas-relâmpagos. Dentro de um instante, os mil e quatrocentos dragões-guarda ficaram reduzidos a oitocentos e o seu tenente Fuller caiu morto. Acudiu Ney com os lanceiros e os caçadores de Lefebvre-Desnouettes, e a planura do monte de S.João foi tomada e tornada a tomar; os couraceiros, deixando a cavalaria para se voltarem contra a infantaria, os quadrados resistindo sempre; era uma barafunda formidável, melhor diremos assim, junta num só grupo, sem que uns se desenvencilhassem dos outros. Nesta refrega, que durou duas horas, durante as quais se deram doze assaltos, mataram quatro cavalos a Ney e metade dos couraceiros ficou na planura.
Esta luta, porém, abalou profundamente o exército inglês. Para nós é fora de dúvida que, se o desastre da barroca não lhes tivesse enfraquecido o primeiro ímpeto, os couraceiros teriam destruído o centro e assim decidido a vitória. Wellington, quase vencido, admirava como herói aquela cavalaria extraordinária que petrificava Clinton, Clinton que vira Talavera e Badajoz, e dizia a meia voz: "Sublime".
Sete quadrados aniquilaram os couraceiros de treze que eram; tomaram ou encravaram sessenta peças de artilharia, e arrebataram aos regimentos ingleses seis bandeiras, que três couraceiros e três caçadores foram levar ao imperador, o qual se achava em frente da herdade da Boa Aliança.
A situação de Wellington piorara. Aquela estranha batalha era um como que encarniçado duelo entre dois feridos, que, ao passo que iam combatendo e resistindo, iam cada qual, pela sua parte, perdendo o sangue que lhes restava. Qual será o que há-de cair primeiro?
Na planície continuava a luta.
Até onde chegaram os couraceiros, é coisa que ninguém poderá dizer. O que é certo, é que no dia seguinte ao da batalha foi encontrado morto um couraceiro com o seu cavalo no monte de S.João, junto ao madeiramento da balança onde são pesadas as carruagens, mesmo no sítio em que se cruzam as quatro estradas de Nivelles, Genappe, La Hulpe e Bruxelas. O cavaleiro tinha atravessado as linhas inglesas. Ainda no monte de S.João vive um homem dos que levantaram aquele cadáver. Chama-se Dehaze e tinha então dexoito anos.
Estava próxima a crise. Wellington sentia-se enfraquecer.
Os couraceiros não tinham tirado resultado do seu esforço, porque o centro conservava-se firme. Sendo a planície de todos, não era de ninguém, mas, em suma, a maior parte pertencia aos ingleses. Wellington apossara-se da aldeia e da planície dominante; Ney estava senhor do alto e da encosta. Parecia cada qual arraigado àquele solo fúnebre.
O enfrequecimento dos ingleses tornava-se, porém, irremediável. Era horrível a hemorragia daquele exército. Kempt, na ala esquerda, reclamava esforço. "Não o há!", respondia Wellington. "Que se deixe matar!" E quase ao mesmo tempo, singular paralelo que pinta a prostração dos dois exércitos, Ney pedia infantaria a Napoleão e Napoleão exclamava: "Infantaria? Onde a tenho para lha mandar? Quer que me desfaça nela?"
O exército inglês, todavia, era o que estava mais enfermo. Os ímpetos furiosos daqueles grandes esquadrões de couraças de ferro e peitos de aço haviam esmagado a infantaria. O lugar de um regimento era denotado apenas por alguns homens em volta de uma bandeira; batalhões havia que eram comandados por um capitão ou tenente; a divisão de Alten, já tão maltratada em Haie-Sainte, estava quase destruída; os intrépidos belga da brigada de Van Kluze juncavam os campos de centeio, ao longo da estrada de Nivelles; dos granadeiros holandeses, que em 1811, na Espanha, combatiam contra Wellington, ao nosso lado, e que em 1815 combatiam contra Napoleão, ao lado dos ingleses, quase nada restava. A isto devemos acresecntar a perda dos oficiais, que era considerável. Lorde Uxbridge, que no dia seguinte mandou enterrar a perna, tinha o joelho quebrado. Se nesta luta dos couraceiros, da parte dos franceses estavam fora de combate Delord, L'Heritier, Colbert, Dnop, Travera e Blancard, da parte dos ingleses, Alten e Barne tinham sido feridos, Delancey, Van Meeren e Ompteda mortos, o estado-maior de Welligton dizimado, de modo que a Inglaterra era a de pior partido naquele sanguinolento equilibrio. O segundo regimento dos guardas a pé perdera cinco tenentes-coronéis, quatro capitães e três alferes; o primeiro batalhão dos 30 de infantaria perdera vinte e quatro oficiais feridos, dezoito mortos e cento e cinquenta soldados mortos. Os hussardos hanoverianos de Cumberland, isto é, um regimento inteiro, comandado pelo coronel Hacke, que mais tarde tinha de ser julgado e condenado, retiraram à vista do combate e refugiaram-se na floresta de Soignes, semeando a derrota até Bruxelas. As carretas, os carros de puxar as peças, as bagagens, os carros cheios de feridos, ao ver ganhar terreno aos franceses, que se aproximavam da floresta, fugiam diante deles, e os holandeses, acutilados pela cavalaria francesa, davam gritos de terror!
Segundo diziam testemunhas que ainda existem, desde Vert-Coucou até Groenendael, numa extensão de perto de duas léguas na direção de Bruxelas, os fugitivos eram tantos que atulhavam a estrada. Tal foi o pânico, que nem o principe de Condé em Malines, nem Luís XVIII em Gand lhe escaparam. À exceção da ténue reserva formada por trás da ambulância estabelecida na herdade do monte de S. João, e das brigadas de Vivian e Vandeleur, que flanqueavam a ala esquerda, Wellington já não tinha cavalaria. Grande número de baterias jaziam desmontadas. É isto para Siborne; Pringle, porém estava reduzido a trinta e quatro mil homens. O duque de ferro estava sereno, mas tinha os lábios descorados. O comissário austríaco Vincent e o comissário espanhol Alava, que assistiram à batalha, fazendo parte do estado-maior inglês, julgavam o duque perdido. Às cinco horas estava o duque perdido. Às cinco horas puxou Wellington pelo relógio e ouviram-lhe esta sombria frase: "Ou Blucher ou a noite!"
Foi então que para a parte de Frischemont se viu uma linha longínqua de baionetas a brilhar no alto de uma colina.
É aqui a peripécia deste drama gigante.


XI

Guia mau para Napoleão, bom para Bulow

Todos conhecem o pungente equívoco de Napoleão, esperando Grouchy e sobrevindo-lhe Blucher; a morte em lugar da vida.
Tem destas voltas o destino. Em vez do tronco do mundo, que esperava, avistou ao longe no horizonte as rochas de Santa Helena.
Se o pastorinho que servia de guia a Bulow, tenente de Blucher, o tivera aconselhado a que antes desembocasse na floresta, acima de Frischemont, do que abaixo de Plancenoit, talvez fosse diferente a forma do século XIX, porque Napoleão teria ganho a batalha de Watreloo. Por qualquer outro caminho que não fosse o que vinha sair abaixo de Plancenoit, o exército prussiano viria a esbarrar-se num barranco impossivel de transpor para a artilharia, e Bulow não chegaria.
Mais uma hora de demora, pois, e Blucher, segundo declara o general prussiano Muffling, já não encontraria Wellington em pé: "A batalha estava perdida."
Era, portanto, tempo, como se vê, de chegar Bulow, que, todavia, se tinha demorado bastante, pois tinha partido pela madrugada de Dion-le-Mont, onde pernoitara. Os caminhos, porém, estavam intransitáveis, o que foi causa para que os soldados se atolassem na lama, que os cobria, e que as carretas em que vinha montada a artilharia se enterrassem também até ao eixo. Além disto, foi mister passar o Dyle na estreita ponte de Wavre, o que se tornara ainda mais difícil, porque os franceses haviam incendiado a rua a que ela conduzia, e como os caixões e carros de artilharia não podiam passar por entre duas fileiras de casas em chamas, tiveram de esperar que se apagasse o fogo. Ao meio-dia ainda a vanguarda de Bulow não tinha podido chegar à Capela de S.Lambert.
Ora, se a ação tivesse principiado duas horas mais cedo, teria acabado às quatro, e quando Blucher viesse encontraria a batalha ganha por Napoleão. Estes casos, porém, posto que imensos, escapam-nos envoltos nos sonhos do infinito.
Fora o imperador, com a sua luneta, o primeiro que logo ao meio dia avistara no extremo horizonte o que quer que fosse que lhe prendera a atenção e disse:
- Vejo lá ao longe uma nuvem que me parece tropa.
Depois perguntou ao duque de Dalmácia:
- Soult, que é que se vê para o lado da Capela de S. Lambert?
O marechal apontou o óculo naquela direção e respondeu:
- Quatro ou cinco mil homens, Sire. É decerto Grouchy.
O que era, porém, permanecia imóvel na neblina. Após isto, todos os óculos do estado-maior estudaram a "nuvem" que o imperador apontara, e uns disseram : "São colunas que fizeram alto", outros, e foi a maior parte, disseram: "Aquilo são árvores." A verdade era que a nuvem não se movia. Napoleão destacou, portanto, a divisão de cavalaria ligeira de Domon para reconhecer aquele ponto escuro.
Efetivamente, Bulow tinha feito alto. Como a sua vanguarda era pequena e fraca, teve de esperar o corpo do exército, porque tinha ordem de se concentrar antes de entrar em linha; às cinco horas, porém, vendo Blucher o perigo em que estava Wellington, ordenou a Bulow que atacasse, proferindo esta notável frase: "É preciso dar ar ao exército inglês."
Daí a pouco, formavam-se as divisões de Losthin, de Hiller, Hacke e Ryssel, em frente do corpo de Lobau, a cavalaria do príncipe Guilherme da Prússia desembocava do bosque de Paris, Plancenoit ardia em chamas e as balas prussianas principiavam a chover até às fileiras da guarda de reserva colocada por trás de Napoleão.


XII

A guarda

O resto sabe-se; irupção de um erceiro exército; deslocação da batalha, oitenta e seis bocas de fogo troando de repente, chegada súbita de Pirch 1º com Bulow, a cavalaria de Zieten comandada por Blucher em pessoa, os franceses rechaçados, Marcognet varrido da planura de Ohain, Durutte desalojado de Papellotte, retirada de Donzelot e Quot, Lobau apanhado de lado, nova batalha travada com is nossos desmantelados regimentos ao cair da noite, a linha inglesa gigantesca feita no exército francês, a metralha inglesa e a metralha prussiana auxiliando-se mutuamente, o exterminío, a destruição pela frente e pelo lado, e a guarda a entrar em linha no meio deste destroço formidável.
Ao saber que ia morrer, gritou: "Viva o imperador!" Não se encontra na história coisa mais patética do que esta agonia, desatando-se em aclamações.
O céu, que todo o dia estivera encoberto, ficou limpo de súbito, exatamente naquela ocasião (eram oito horas da tarde), afastando-se as nuvens do horizonte para darem passagem à sinistra vermelhidão do sol-poente, por entre os olmos da estrada de Nivelles. Em Austerlitz viram-no os combatentes nascer.
Naquele desenlace, cada batalhão era comandado por um general. Ali se acharam Friant, Michel, Roguet, Harllet, Mallet, Poret de Morvan. Quando as barretinas dos granadeiros da guarda, com a sua larga chapa da águia, apareceram no meio da neblina da refrega, simétricos, alinhados, tranquilos, o inimigo sentiu-se dominado de respeito pela França, julgando ver entrar no campo de batalha vinte vitórias de asas abertas, e os que eram vencedores recuaram, julgando-se vencidos; Wellington, porém, gritou-lhes: "A pé, guardas, e pontaria certa!" O regimento vermelho dos guardas ingleses, deitado por trás das sebes, levantou-se, a bandeira tricolar, que tremulava em volta das nossas águias, foi crivada por uma nuvem de metralha, e os combatentes arrojaram-se uns contra os outros, principiando então a suprema carnificina. A guarda imperial sentiu nas sombras o exército a fugir, sentiu o vasto abalo da derrota, ouviu o "salve-se quem puder!" que substituíra o "viva o imperador!" mas bem que todos fugissem, ela continuou a avançar, cada vez mais dizimada pela morte, a cada passo que dava. Não houve ali irresolutos nem timidos. Naquele regimento, tão herói era o soldado como o general. Nem um só homem fugiu ao suícidio.
Ney, no meio daquela tormenta, oferecia-se aos golpes de todos, desvairado e grande em toda a sua altura de homem que aceita voluntariamente a morte. Ali lhe mataram o quinto cavalo. Dizia ele, a escorrer, em suor, com a chama nos olhos, a escuma nos lábios, e a farda desabotoada, uma das dragonas meia cortada por uma cutilada de um guarda a cavalo, a sua chapa com a grande águia amolgada por uma bala, banhada em sangue, cheio de lama, magnifico, com uma espada quebrada na mão:
- Vinde ver como um marechal de França morre no campo da batalha!
Porém, foi debalde; ele não morreu.Ney andava desvairado e indignado, fazendo esta pergunta a Drouet de Erlon:
- Então tu não achas quem te mate?
E gritando no meio daquela artilharia, a esmagar um punhado de homens:
- Oh! Quisera que todas essas balas inglesas me entrassem na barriga; mas para mim não há nada!
Estava reservado para as balas francesas, infeliz!


XIII

A catástrofe

Lúgubre foi a derrota na retaguarda daqueles intrépidos soldados.
O exército retrocedeu rapidamente de todos os lados ao mesmo tempo, de Hougomont, de Haie-Sainte, de Papellotte, de Plancenoit, e ao grito: "Salve-se quem puder!" Um exército em debandada é um degelo. Tudo se curva, se abre, estala, flutua, rola, cai, choca, apressa e precipita. Desagregação inaudita. Ney pede um cavalo emprestado monta e vai colocar-se no meio da estrada de Bruxelas para fazer parar ingleses e franceses, sem chapéu, nem gravata, nem espada, tentando reter o exército, chamando-o, insultando-o, agarrando-o a tudo no meio daquela derrota, transbordando, os soldados, porém, fogem-lhe gritando: "Viva o marechal Ney!" Dois regimentos de Durette vão e vêm como uma bola, entre os sabres dos ulanos e a mosquetaria das brigadas de Kempt, de Best, de Pack e de Rylandt; a pior das refregas é a derrota; matam-se mutuamente os amigos para fugir; dispersam-se e quebram-se uns contra os outros os esquadrões e os batalhões; é a espuma enorme de uma batalha rugindo e refervendo. Lobau numa extremidade, reile na outra foram arrebatados pela vaga. Debalde Napoleão faz muralhas com o que lhe resta da guarda; debalde empenha num último esforço os esquadrões das suas ordens. Quiot retira diante Vivian, Kellermann diante Vandeleur, Lobau diante Bulow, Morand diante de Pirch, Doon e Subervic diante do princípe Guilherme da Prússia. Guyot, que comandou na carga os esquadrões do imperador, cai aos pés dos dragões ingleses. Napoleão corre a galope por entre os fugitivos, fala-lhes, insta-os, ameaça, suplica. Porém, todas as bocas que pela manhã gritavam "viva o imperador!" ficam abertas; mal o conhecem. A cavalaria prussiana, vinda de fresco, precipita-se, voa, acutila, corta, despedaça, mata, extermina. As peças fogem; os cavalos que as puxam, atropelam-se; os soldados do trem desatrelam as caixas e deitam mão dos cavalos para fugir; as carretas quebram-se e ficam voltadas para o ar, embaraçando a estrada e dando ocasião a maior carnificina. Esmagam-se uns aos outros, rechaçam-se, caminham por cima dos mortos e por cima dos vivos. Os braços sentem-se cansados. Enche as estradas uma multidão vertiginosa, que se espessa nos carreiros, nas pontes, nas planícies, nas colinas, nos vales, nos bosques, atulhados pela evasão de quarenta mil homens. Gritos de desespero, sacos e espingardas atirados para o meio das searas, passagens abertas a golpes de espadas, nem camaradas, nem oficiais, nem generais; um horror inexprimível! Zieten acutilando a França à sua vontade. Os leões tornados cabritos - é o que foi aquela debandada.
Em Genappe houve a tentativa de voltar-se, fazer frente, travar a roda. Lobau reuniu trezentos homens, que se entrincheiraram à entrada da aldeia, porém à primeira descarga da metralha prussiana deitou tudo a fugir e Lobau ficou prisioneiro. Ainda hoje se vê o sinal daquela descarga de metralha na empena arruinada de uma casinhola, que fica à direita da estrada, alguns passos para ca de Genappe. Os prussianos arremessaram-se para o lado de Genappe, furiosos decerto por serem tão pouco vencedores. Foi monstruosa aquela avançada no encalço dos inimigos. Blucher ordena o exterminio, porque Roguet dera o lúgubre exemplo de ameaçar com a morte todo o granadeiro francês que lhe trouxesse um prisioneiro prussiano. Blucher excedeu Roguet. Duhesme, general da guarda nova, encurralado numa estalagem de Genappe, entregou a espada a um hussardo da morte, que pegou na espada e matou o prisioneiro. A vitória acabou pelo assassínio dos vencidos. Punamos nós. Punamos nós, que somos a história: o velho Blucher desonrou-se. Aquela ferocidade pôs o cúmulo ao desbarato. A derrota atravessou desesperada Genappe, Quatre-Bras, gosselies, Frasnes, Thuin, Charleroi, parando só na fronteira. Ai! E quem é que assim fugia? O grande exército! Acaso não teria um motivo aquela vertigem, aquele terror, a queda em ruínas daquela bravura, a mais elevada que em tempo algum tenha feito o espanto da história? Teve. Projeta-se sobre Waterloo a sombra de uma recta enorme. Foi o dia do destino. A força que domina o homem foi a que deu aquele dia. Daí a ruga do pavor desenhada nas testas; daí a entrega das espadas por todas essas grandes almas. Ficaram derribados na luta os que haviam vencido a Europa, sem ter que dizer, nem que fazer mais nada, porque conheciam na sombra uma presença terrível. Hoc erat in fatis. Aquele dia mudou a perspetiva do género humano. Waterloo foi o gonzo do século XIX. Era necess+aria a desaparição do grande homem para a chegada do grande século, e dela se encarregou alguém a quem não se replica. O pânico dos heróis explica-se. A batalha de Waterloo foi mais do que uma nuvem, foi um meteoro. Foi a passagem de Deus.
Ao cair a noite, Bernard e Bertrand, num campo de imediações de Genappe, fizeram parar, agarrando-o por uma aba do casacão, um homem desvairado, pensativo, sinistro, que, arrastado até àquele sitio pela torrente da derrota, acabava de se apear do seu cavalo, e que, depois de enfiar o braço pela rédea, voltava só para Waterloo, com olhar espantado. Era Napoleão, sonâmbulo imenso daquele sonho desfeito, tentando ainda romper para a frente.


XIV

O último quadrado


No meio da torrente da derrota, porém, conservavam-se imóveis até à noite alguns quadrados, como rochedos no meio de água que se despenha. Sobrevinda a noite e a morte também, arrostaram-se como essa dupla sombra e deixaram-se envolver por ela, inabaláveis no seu posto. Ali cada regimento morria isolado dos outros porque já não havia laços que os prendessem ao exército, por todas as partes desbaratado. Para travarem esta derradeira ação, uns tinham tomado posição nas eminências de Rossomme, outros na esplanada do monte de S. João, onde abandonados, vencidos, terríveis, agonzavam formidavelmente aqueles quadrados escuros. É que com eles morriam Ulm, Wagram, Iena, Friedland.
Ao amanhecer, por volta das nove horas, restava um, no fundo da esplanaa do monte de S.João, comandado por um oficial obscuro chamado Cambronne, lutando ainda debaixo dos fogos convergentes da artilharia inimiga vitoriosa, debaixo de uma densidade terrível, naquele vale funesto, junto a essa encosta por onde treparam os couraceiros, e agora inundada pelas massas inglesas. A cada descarga o quadrado diminuía, mas respondia estreitando de contínuo as suas quatro paredes, mas replicando à metralha com descargas de espingardaria, cujo troar sombrio e decrescente ao longe os fugitivos açodados paravam por um momento a escutar no meio das trevas.
Quando, porém, aquela legião não era mais do que um punhado, quando a bandeira flutuava rasgada em tiras, quando as espingardas se lhes tornaram inúteis por não terem balas, quando o montão de cadáveres se tornou maior que o grupo vivo, houve entre os vencedores um como que terror sagrado em volta daqueles moribundos sublimes e a artilharia inglesa calou-se para tomar fôlego. Foi uma espécie de pausa. Aqueles combatentes tinham em roda de si como que um formigueiro de espectros, uma multidão de sombras de homens a cavalo, vistos de lado; o perfil escuro das peças, o céu branco divisando-se por entre as rodas e as carretas; a colossal cabeça da Morte, que os heróis entrevêem sempre nas nuvens de fumo de uma batalha, avançava com os olhos fixos neles. Ouviram carregar as peças por entre a sombra crepuscular, viram em volta das cabeças um círculo luminoso produzido pelo clarão das mechas acesas, que brilhavam como os olhos de um tigre na escuridão, e aproximaram-se das peças todos os morrões das baterias inglesas, e então um general ingl~es, segundo uns Colville, segundo outros Maitland, gritou comovido, segurando o último minuto sobre a cabeça daqueles homens:
- Bravos franceses, rendei-vos!
Cambronne respondeu:
- Merda!


XV

Cambronne

Ao leitor francês que quer ser respeitado não pode ser repetida a frase mais bela que talvez tenham pronunciado lábios franceses. É proibir o sublime ao historiador; nós, poré, infringimos a proibição, apesar de todos os riscos e perigos que possamos correr.
Entre aqueles gigantes, houve um titã, que foi Cambronne.
Dizer aquela palavra e morrer logo! Há mais sublime coisa! pois é morrer, desejá-lo; e não teve culpa esse homem, se sobreviveu às balas.
Quem ganhou a batalha de Waterloo não foi Napoleão em derrota, não foi Wellington às quatro horas cedendo, às cinco desesperado, nem Blucher, que não se bateu; quem ganhou a batalha de Waterloo foi Cambronne.
Fulminar com semelhante palavra o trovão que vos mata é vencer.
Responder assim à catástrofe dizer aquilo ao destino, dar aquela base ao leão futuro, atirar aquela réplica ao vento da noite, à traiçoeira parede de Hougomont, à barroca de Grouchy, à chegada de Blucher; ser a ironia no sepulcro, fazer de modo em pé depois de se ter caído; afogar em duas sílabas a coalizão europeia, oferecer aos reis as latrinas já conhecidas dos césares, fazer da última das palavras a primeira, envolvendo nela o coruscar da França, fechar insolentemente Waterloo com o Entrudo, completar Leónidas com rebelais, resumir aquela vitória numa frase suprema, que se não pode pronunciar, perder o terreno e conservar a história, depois de a carnificina ter por si os que gostam de rir, é imenso!
É insultar o raio. É uma coisa que atinge a sublimidade esquiliana.
O dito de Cambronne faz o efeito de uma fratura de um peito pelo desdém; é a cheia da agonia fazendo explosão. Quem venceu? Foi Wellington? Não. Se não fosse Blucher, estava perdido. Foi Blucher? Não. Se Wellington não principiasse, Blucher não poderia acabar. Cambronne, esse homem que passa à última hora, esse soldado ignorado, essa fração infinitamente pequena da guerra, conhece que há ali uma mentira numa catástrofe, excessivamente pungente, e na ocasião em que ela estala de raiva, oferecem-lhe essa irrisão, a vida! Como não saltar! Ali estão todos os reis da Europa, os generais felizes, os júpiteres tonantes, que têm cem mil soldados, e, por trás dos cem mil, um milhão, as suas peças com as bocas abertas, as mechas acesas, esmagando com os pés a guarda imperial e o grande exército; eles acabam de derrotar Napoleão e só resta Cambronne; não há mais ninguém que proteste senão esse verme. E ele há-de protestar. Procura então uma palavra com quem procura uma espada, acode-lhe a escuma aos lábios, e essa escuma é a palavra. Aquela vitória prodigiosa e desesperado, que sofre as consequências da sua enormidade, mas que testemunha o nada dela; ele faz mais do que escarrar-lhe; acabrunhado pelo número, pela força e pela matéria, acha na alma uma expressão, o excremento. repetimos, dizer aquilo, fazer aquilo, achar aquilo, é ser o vencedor.
Naquele momento fatal penetrou aquele homem desconhecido o espiríto das grandes eras. Cambronne acha a frase de Waterloo, como Rouget de l'Isle achou A Marselhesa por inspiração de cima. Destaca-se em eflúvio do furacão divino para vir passar através destes homens; e eles estremecem, e um canta o canto supremo, outro solta o grito terrível. Cambronne não atira só à Europa, em nome do Império, aquela frase do desdém titânico, que pouco era; atira-o ao passado em nome da Revolução, Os que a ouvem reconhecem em Cambronne a antiga alma dos gigantes. parece Danton a falar ou Kleber a rugir.
À frase de Cambronne respondeu a voz inglesa: "Fogo!" As baterias flamejaram, tremeu a colina, de todas aquelas bocas de bronze saiu um derradeiro vómito terrível de metralha, voou aos ares uma nuvem de fumo, vagamente branqueada pelo clarão da Lua nascente, e quando o fumo se dissipou, já não havia nada. Estava aniquilado aquele resto formidável; a guarda tinha morrido. Jaziam por terra as quatro paredes daquele reduto vivo, distinguindo-se apenas, aqui e ali, um estremecer de cadáveres; e foi assim que as legiões francesas, maiores que as legiões romanas, expiraram no monte de S. João, na terra húmida de chuva e de sangue, nas escuras searas de centeio no sítio por onde agora, às quatro horas da madrugada, passa assobiando e chicoteando alegremente o seu cavalo o condutor José, que faz o serviço da mala-posta de Nivelles.»



Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...