27/02/2016

A oração



"Que quer dizer a frase: orar a Deus?
Há ou não um infinito fora de nós? É ou não único, imanente, permanente, esse infinito, e que, se lhe faltasse a matéria, limitar-se-ia àquilo; necessariamente inteligente, pois que é infinito, e que, se lhe faltasse a inteligência, acabaria ali? Desperta ou não em nós esse infinito a ideia de essência, ao passo que nós não podemos atribuir a nós mesmos senão a ideia de existência? Por outras palavra, não é Ele o absoluto, cujo relativo somos nós?
Ao mesmo tempo que fora de nós há um infinito, não há outro dentro de nós? Esses dois infinitos (que horroroso plural!) não se sobrepõem um ao outro? Não é o segundo, para assim dizer, subjacente ao primeiro? Não é o seu espelho, o seu reflexo, o seu eco, um abismo concêntrico a outro abismo? Esse segundo infinito não é também inteligente? Não pensa? Não ama? Não tem vontade? Se os dois infinitos são inteligentes, cada um deles tem um princípio volante, há um eu no infinito de cima, do mesmo modo que o há no infinito de baixo. O eu de baixo é a alma; o eu de cima é Deus.
Pôr o infinito em contacto com o infinito de cima, por meio de pensamento, é o que se chama orar.
Não tiremos nada ao espírito humano; é mau suprimir. Devemos mas é reformar e transformar. Certas faculdades do homem dirigem-se para o incógnito, o pensamento, a meditação, a oração. O incógnito é um oceano. Que é a consciência? É a bússola do incógnito. O pensamento, a meditação, a oração são tudo grandes irradiações misteriosas. Respeitemo-las. Para onde vão essas majestosas irradiações da alma? Para a sombra, quer dizer, para a luz.
A grandeza da democracia consiste em não negar nem regenerar nada da humanidade. Ao pé do direito do homem, pelo menos ao lado, há o direito da alma.
A lei é esmagar os fanatismos e venerar o infinito. Não nos limitemos a prostrar-nos debaixo da árvore da criação e a contemplar os seus imensos ramos cheios de astros. Temos um dever: trabalhar para a alma humana, defender o mistério contra o milagre, adorar o incompreensível e rejeitar o absurdo, não admitindo em coisas inexplicáveis senão o necessário, tomando sã a crença, tirando as superstições de cima da religião, catando as lagartas de Deus."

Vitor Hugo, em Os Miseráveis


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