02/12/2015

Zeus

Zeus (em grego antigo: Ζεύς; transl. Zeús em grego moderno: Δίας, transl. Días), na mitologia grega é o pai dos deuses e dos homens (πατὴρ ἀνδρῶν τε θεῶν τε, patēr andrōn te theōn te), que exercia a autoridade sobre os deuses olímpicos como um pai sobre a sua família. É o deus dos raios, sendo que o seu equivalente romano é Júpiter e etrusco é Tinia, e houve alguns autores que estabeleceram como seu equivalente hindu o deus Indra.
Filho de Cronos e Reia, Zeus é o mais novo dos irmãos. Na maioria das tradições é casado, tendo tido primeiras núpcias com Métis, da qual teve Atena e, posteriormente Hera (embora no oráculo de Dodona a sua esposa seja Dione com quem, segundo a Ilíada, teria tido Afrodite). É conhecido pelas suas aventuras amorosas, que geralmente resultavam em descendentes divinos e heróicos, como Apolo e Ártemis, Hermes, Perséfone, Dionísio, Perseu, Héracles, Helena de Tróia, Minos e as Musas. Já com Hera, foi pai de Ares, Énio, Ilítia, Éris, Hebe e Hefesto.
Os símbolos do deus são o raio, a águia, o touro e o carvalho. Para além da herança indo-européia, a descrição clássica como "ajuntador de nuvens" deriva de certos traços iconográficos das culturas do Antigo Médio Oriente, como o cepto. Zeus era frequentemente representado pelos artistas da antiguidade clássica grega em duas poses diferentes: em pé, apoiado para a frente, empunhando um raio na mão direita, erguida; na segunda pose, encontra-se sentado. Eram várias as estátuas erguidas em sua honra, sendo  que a mais magnífica era a estátua em honra de Zeus em Olímpia, uma das sete maravilhas da antiguidade. Originalmente, os Jogos Olímpicos eram realizados em honra do deus do trovão.


Etimologia

Em grego o nome do deus é Ζεύς, Zeús, AFI: [zdeús] (nominativo : Ζεύς, Zeús; vocativo : Ζεῦ, Zeû; acusativo: Δία, Día; genitivo: Διός, Diós; dativo: Διί, Dií). Na civilização minóica, na sua generalidade a população não lhe prestava culto, havendo apenas pequenos grupos de culto que o viam como um semideus que fora morto. Os primeiros registos do nome do deus encontram-se em grego micénico, nas formas di-we e di-wo, escritas no silabário Linear B.
Zeus, referido poeticamente pelo vocativo Zeu pater ("Ó, pai Zeus") é uma continuação de *Di̯ēus, o deus proto-indo-europeu do céu diurno, também chamado de *Dyeus ph2tēr ("Pai Céu"). Este mesmo deus é conhecido em sânscrito (Dyaus/Dyaus Pita), no latim (Júpiter, de Iuppiter, do vocativo proto-indo-europeu dyeu ph2tēr), que é um derivado da forma básica de *dyeu- ("brilhar", e nos seus diversos derivados - "céu", "deus"). Já na mitologia germânica o paralelo pode ser encontrado em *Tīwaz > antigo alto germânico Ziu, nórdico antigo Týr, enquanto o latim também apresenta as formas deus, dīvus e Dis (uma variação de dīves), do substantivo *deiwos. Para os gregos e romanos, o deus do céu também era o deus supremo. Zeus é a única divindade do panteão olímpico cujo nome tem uma etimologia tão evidentemente indo-europeia.

Zeus na mitologia

Nascimento
Cronos teve diversos filhos com Réia: Héstia, Deméter, Hera, Hades e Poseídon, no entanto engoliu-os todos (com exceção de Poseídon e Hades) assim que nasceram, após ouvir de Gaia e Úrano que ele estava destinado a ser deposto pelo seu filho, da mesma maneira que ele havia deposto o seu próprio pai - um oráculo do qual Réia teve conhecimento e pode evitar.
Quando Zeus estava prestes a nascer, Réia procurou Gaia e concebeu um plano para salvar o filho, de forma a que Cronos fosse punido pelas suas ações contra Urano e seus próprios filhos. Réia deu à luz Zeus na ilha de Creta, e entregou a Cronos uma pedra enrolada em roupas de bebé, que o Titã logo ingeriu.

Infância

Réia teria escondido Zeus numa caverna no Monte Olimpo, em Creta. De acordo com as diversas versões da história, ele teria sido criado:
  • por Gaia;
  • por uma cabra chamada Amaltéia, enquanto um pelotão de Kouretes - "soldados" ou "deuses menores" - dançavam, gritavam e batiam as suas lanças contra os seus escudos para que Cronos não ouvisse o choro do bebé;
  • por uma ninfa chamada Adamantéia - como Cronos era senhor da Terra, dos Céus e do mar, a ninfa terá escondido a criança pendurando-a com uma corda, de forma que, Zeus não estando nem na terra, nem no céu e nem no mar, ficasse invisível para o pai.
  • por uma ninfa chamada Cinosura - como agradecimento, Zeus terá colocado a ninfa entre as estrelas.
  • foi criado por Melissa, que o amamentou com leite de cabra e mel.
  • foi criado por uma família de pastores sob a condição de que as suas ovelhas  fossem salvas dos lobos.

Rei dos deuses
Após chegar à idade adulta, Zeus forçou Cronos a vomitar inicialmente a pedra que lhe havia sido dada em seu lugar - em Pito, sob os vales do Monte Parnaso, como um sinal para os mortais: o Onfalo, "umbigo" - e em seguida os seus irmãos, de acordo com a ordem que haviam sido engolidos. Nalgumas versões, Métis deu a Cronos um emético para o forçar a vomitar os deuses, enquanto noutra o próprio Zeus terá aberto com um corte a barriga de Cronos. De seguida Zeus libertou os próprios irmãos de Cronos, os Gigantes, os Hecatônquiros e os Ciclopes, que estavam aprisionados num calabouço no Tártaro, após matar Campe, o monstro que os vigiava.
Como agradecimento, os Ciclopes ofereceram o trovão e o raio a Zeus, que haviam sido escondidos anteriormente por Gaia. Zeus então, juntamente com os seus irmãos e irmãs, os Gigantes, os Hecatônquiros e os Ciclopes, depuseram Cronos e os outros Titãs, durante a batalha conhecida como Titanomaquia. Os Titãs, após serem derrotados, foram enviados para o Tártaro, enquanto um deles, Atlas, foi condenado a segurar o céu para sempre.
Após a batalha contra os Titãs, Zeus dividiu o mundo com os irmãos mais velhos, Poseídon e Hades: Hades ficou com o céu e o ar, Posídon as águas e Hades com o mundo dos mortos (mundo inferior). A antiga Terra, Gaia, não podia ser dividida, ficando então para os três, de acordo com as habilidades de cada um - o que explica porque Posídon era chamado o "sacudidor da terra" (o deus dos terramotos), e Hades ficava com os humanos que morriam.
Gaia, no entanto, não aprovou a maneira como Zeus havia tratado os Titãs, os seus filhos, após ter assumido o trono como rei  dos deuses, E Zeus viu-se em combate  com outros filhos de Gaia: o monstro Tifão e Equidna. Zeus derrotou Tifão, aprisionando-o sob o Monte Edna, mas poupou a vida de Equidna e dos seus filhos.

Zeus e Hera
Zeus era irmão e consorte de Hera. Teve três filhos com a deusa: Ares, Hebe e Hefesto, embora alguns relatos digam que Hera gerou os filhos sozinha. Outros relatos afirmam que Ilitia e Éris seriam filhas do casal. As conquistas amorosas de Zeus, no entanto, entre ninfas e as progenitoras mortais das dinastias helénicas são célebres. A mitografia olímpica une Zeus a Leto, Deméter, Dione e Maia. Entre as mortais com as quais se terá relacionado, encontram-se Sémele, Io, Europa e Leda.
Diversos mitos fazem menção do sofrimento de Hera por causa do ciúme sentido devido às conquistas amorosas de Zeus, e descrevem-na como uma inimiga das amantes do deus do trovão e dos filhos que nasciam destas uniões. Por algum tempo uma ninfa Eco foi encarregada de distrair Hera falando incessantemente, de forma a afastar a atenção da deusa dos casos amorosos do marido. Mas quando Hera descobriu a estratégia, condenou Eco e repetir permanentemente as palavras das outras pessoas.

Consortes e filhos

Descendentes divinos
  • De Ananque ou Témis: Moiras1 (Átropos, Cloto, Láquesis)
  • De Deméter: Perséfone, Zagreu
  • De Dione ou Tálassa: Afrodite*
  • De Ege: Egipã
  • De Eos: Ersa, Caras
  • De Éris: Limo
  • De Eurínome: Graças2 (Aglaia, Eufrosina, Tália)
  • De Gaia: Órion, Manes
  • De Hera: Ares3, Ilitia, Éris, Hebe3, Hefesto3, Angelo
  • De Leto: Apolo, Ártemis
  • De Maia: Hermes
  • De Métis: Atena4
  • De Mnemosine: Musas originais (Aede, Mélete, Mneme), Musas posteriores (Calíope, Clio, Erato, Euterpe, Melpomene, Polímnia, Terpsícore, Táli)
  • De Némesis: Helena de Tróia5 (possivelmente)
  • De Perséfone: Zagreu, Melínoe
  • De Selene: Ersa, Leão de Nemeia, Pandia
  • De Tália: Palicos
  • De Témis: Astreia, Ninfas de Eridanos, Némesis, Horas (primeira geração - Auxo, Carpo, Talo; segunda geração - Dice, Irene, Talo; terceira geração - Ferusa, Eupória, Ortósia
  • Mãe desconhecida: Aleteia
  • Mãe desconhecida: Até
  • Mãe desconhecida: Cero
  • Mãe desconhecida: Litas
  • Mãe desconhecida: Tique

Descendentes semi-divinos e mortais
  • De Alcmene: Herácles
  • De Antíope: Anfion, Zeto
  • De Anaxiteia: Oleno
  • De Astérope, Oceânide: Ácragas
  • De Calisto: Arcas
  • De Cálice: Étilio (possivelmente)
  • Calirroe (filha de Aqueloo): sem descendentes conhecidos
  • De Carme: Britomártis
  • De Cassiopeia: Atínio
  • De Caldene: Sólimo, Mílias
  • De Dánae: Perseu
  • De Dia: Perito
  • De Égina: Éaco, Damocrácia
  • De Elara: Tício
  • De Electra: Dardano, Iásio, Harmonia
  • De Europa: Minos, Radamanto, Sarpedão, Alagónia, Carno, Dodona
  • De Eurimedusa: Mirmidão
  • De Euriodeia: Arcésio
  • De Ftia (filha de Foroneu): Aqueu (possivelmente)
  • De Himália: Crónio, Esparteu, Cito
  • De Ideia, ninfa: Crés
  • De Iodame: Teba
  • De Io: Épafo, Ceróesa
  • De Isone: Orcomeno
  • De Lamia: Áquilos, Herófila
  • De Laodamia: Sarpedão
  • De Leda: Pólux, Castor, Helena de Tróia5
  • De Mera: Locro
  • De Níobe: Argos, Pelasgo
  • De Ótris: Meliteu
  • De Pandora: Greco, Latino
  • De Pluto: Tantalo
  • De Podarge: Bálio, Xanto
  • De Protogénia: Étlio (possivelmente), Ópus
  • Pirra: Helena
  • Sémele: Dionisio
  • Taígete: Lacedemónia
  • De Tia: Magnes, Macedónio
  • De Torrébia: Cário
  • Ninfa africana: Iarbas
  • Ninfa samotrácia: Saona (possivelmente)
  • Ninfa sítnide: Mégaro
  • Mãe desconhecida: Calabro, Geresto, Ténaro
  • Mãe desconhecida: Corinto
  • Mãe desconhecida: Crínaco


1Os gregos alegavam tanto que as Moiras eram filhas de Zeus e da titã Têmis quanto de seres primordiais como o Caos, Nix ou Ananque.
2As Graças eram consideradas filhas de Zeus e Eurínome, porém também foram citadas como filhas de Dioniso e Afrodite, ou de Hélios e da náiade Egle.
3Alguns relatos contam que Ares, Hebe e Hefesto teriam nascido partenogeneticamente.
4De acordo com uma versão, Atena teria nascido por meio de partenogênese.
5Helena seria filha de Leda ou Nêmesis.
* Em versões mais antigas do mito, Afrodite seria filha de Urano e Tálassa, sendo tia de Zeus.

Títulos e epítetos

Zeus desempenhava um papel dominante, presidindo sobre o panteão olímpico da Grécia Antiga. Foi pai de muitos heróis, e fazia parte de diversos cultos locais. Embora o "ajuntador de nuvens" homérico fosse um deus do céu e do trovão, como os seus equivalentes orientais, de certa maneira era a encarnação das crenças religiosas gregas e o arquétipo da divindade grega.
Para além dos epítetos locais, que apenas designavam que a divindade havia feito algo em determinado lugar, os epítetos ou títulos aplicados a Zeus enfatizavam diferentes aspectos da sua ampla autoridade:
  • Zeus Olímpico - enfatizava a realeza de Zeus e do seu domínio sobre os deuses, assim como a sua presença no Festival Pan-Helénico de Olímpia.
  • Zeus Pan-Helénico ("Zeus de todos os Helenos"), a quem o célebre templo de Éaco em Egina foi dedicado.
  • Zeus Xénio, Filóxeno ou Hóspites: Zeus padroeiro da hospitalidade e dos convidados, pronto para vingar qualquer mal cometido a um estrangeiro.
  • Zeus Órquio: Zeus protetor dos juramentos. 
  • Zeus Agoreu: Zeus que cuidava dos negócios na Ágora e punia os comerciantes desonestos.
  • Zeus Egíoco: Zeus que carregava a ágide, com a qual infudia o terror nos ímpios e inimigos. Outros autores derivaram este epíteto de αἴξ ("cabra") e οχή, interpretando-o como uma alusão à lenda segundo a qual Zeus teria sido amamentado por Amalteia.
  • Zeus Meilíquio (Meilichios, "facilmente acessivel"): Zeus assimilou um daimon ctónico arcaico, Meilíquio.
  • Zeus Taleu (Zeus Tallaios, "Zeus solar"): o Zeus que era cultuado em Creta.
  • Zeus Labraindo (Labrandos): venerado na Cária, onde o local de culto era em Labrandos, e era representado empunhando um machado de ponta dupla (labrys). Estava associado ao deus hurrita do céu e da tempestade, Teshub.
  • Zeus Naio (Naos) e Zeus Buleio (Bouleus): formas de Zeus cultuadas em Dodona, o oráculo mais antigo. Alguns autores acreditam que os nomes dos seus sacerdotes, os selos, teriam dado origem ao nome de helenos, dado ao povo grego desde a Antiguidade.
  • Zeus Cásio: o Zeus do Monte Cásio, na Síria.
  • Zeus Itómio ou Itomeu (Ithomatas): o Zeus do Monte Itome, na Messénia.
  • Zeus Astrápeo (Astrapios, "relampejante")
  • Zeus Brontio, Broncio ou Cronteu ("trovejante")

Cultos

Cultos pan-helénicos
O centro principal de culto de Zeus, para onde todos os gregos se dirigiam quando queriam prestar homenagem ao seu deus principal, era Olímpia. A cada quatro anos realizava-se um festival, cujo ponto máximo eram os Jogos Olímpicos. Havia na cidade um altar a Zeus, feito não de pedra mas sim de cinzas, obtidas a partir dos restos de sacrificios animais realizados nesse local ao longo de séculos.
Fora dos santuários que se encontravam nas principais pólis, não havia uma maneira específica de culto a Zeus partilhada por todo o mundo grego, podiam ser encontrados inúmeros templos gregos da Ásia Menor à Sicília. Certos rituais eram igualmente comuns: o sacrifício de um animal de cor branca sobre um altar elevado, por exemplo.

Zeus Velcano
Com apenas uma exceção, os gregos eram unânimes em reconhecer o local de nascimento de Zeus como sendo a ilha de Creta. A Civilização Minóica contribuiu com diversos aspetos essenciais da antiga religião grega: "através de cem canais a antiga civilização esvaziou-se na nova", observou o historiador americano Will Durant, e o Zeus cretense manteve as suas feições jovens originais. Velcano (Velchanos), versão helenizada do nome minóico do filho local de uma deusa-mãe, "uma divindade pequena e inferior que assumiu os papéis de filho e consorte", foi adotado como um epíteto para Zeus, cujo culto espalhou-se para diversos outros locais.
Em Creta, Zeus era venerado em diversas cavernas (em Cnossos, Ida e Palecastro). Durante o período helenístico foi fundado um pequeno santuário dedicado a Zeus Velcano, nas proximidades da cidade moderna de Aghia Triada, sobre as ruínas de um antigo palácio minóico. Moedas deste período, originárias de Festo, mostram a forma com a qual o deus era cultuado: um jovem sentado entre os galhos de uma árvore com um galo sobre os seus joelhos. Noutras moedas cretenses, Velcano foi representado na forma de uma águia, e era associada a uma deusa que celebrava um casamento místico. Inscrições em Gortina e Lito registaramj um festival  referido como Velcania (Velchania), o que mostra quanto o seu culto ainda era difundido na Creta helenística.
As histórias de Minos e Epiménides sugerem que estas cavernas haviam sido usadas anteriormente para adivinhações incubatórias por réis e sacerdotes. A ambientação dramática da peça Leis, de Platão, passa-se ao longo de uma rota de peregrinação a um destes locais, dando ênfase ao conhecimento arcaico cretense. Na arte da ilha, Zeus era representado como um jovem de cabelos longos, e não como, no resto da Grécia, um adulto maduro; eram-lhe entoados hinos que o descreviam como ho megas kouros, "o grande jovem". Foram desenterradas estatuetas de marfim do "Garoto Divino" nas proximidades do Labirinto de Cnossos, por Arthur Evans. Junto com os curetes (kouretes), um grupo de dançarinos extáticos armados, Zeus presidia sobre os rituais secretos e de treinos rigorosos, atlético-militares da paideia cretense.
O mito da morte do Zeus cretense, encontrado em diversos sítios montanhosos, no entanto mencionado apenas numa fonte comparativamente tardia - Calímaco - juntamente com a afirmação do gramático António Liberal de que um fogo se acendia anualmente na caverna onde o jovem havia nascido e que ele havia compartilhado com um enxame mítico de abelhas, sugere que Velcano teria sido uma divindade anual associada à vegetação. O autor helenístico Evémero teria proposto, aparentemente, uma teoria segundo a qual Zeus teria sido um grande rei de Creta, e que, postumamente, a sua glória o teria transformado aos poucos numa divindade.

Zeus Liceu
O epíteto Zeus Liceu (Zeus Lykaios, "Zeus-lobo")  era atribuído a Zeus apenas quando associado ao festival arcaico das Liceias, nas localidade de Liceia, nas encostas do Monte Liceu, o pico mais alto da Arcádia. Zeus tinha uma associação apenas formal com os rituais e mitos deste rito de passagem que envolviam a  antiga ameaça de canibalismo e a possibilidade de uma transformação em licantropo para os efebos que participavam. Nas proximidades da antiga pilha de cinzas sobre a qual eram efetuados os sacrifícios, encontrava-se um recinto proibido no qual, supostamente, jamais era projetada uma sombra.
De acordo com Platão, reunia-se um determinado clã na montanha para fazer sacrifícios a Zeus Liceu, a cada nove anos, e era acrescentada uma pequena quantidade de entranhas humanas ao animal sacrificado. Supostamente, aquele que consumisse o pedaço de carne humana viria a transforma-se num lobo, e só vltaria à forma humana se não voltasse a consumir carne humana até ao fim do próximo ciclo de nove anos. Existiam jogos associados ao festival das Liceias, que foram interrompidos no século IV a.C com a urbanização da Arcádia (Megalópole), onde o templo principal era dedicado a Zeus Liceu.

Outros cultos
Apesar da etimologia indicar que originalmente Zeus era um deus celestial, diversas cidades gregas prestavam homenagem a uma versão local de Zeus, que vivia sob a terra. Os atenienses e os sicilianos faziam culto a Zeus Melíqui (Zeus Melichios, "bondoso" ou "melífluo"), enquanto outras cidades ofereciam culto a Zeus Ctónio, (Zeus Chthonios, "terreno"), Zeus Catactónio (Zeus Katachthonios, "sob a terra") e Zeus Plúteo (Zeus Plousios, "trazedor de riquezas"). Estas divindades podiam ser representadas nas artes plásticas na forma de serpentesou em forma humana, ou até mesmo como ambas, na mesma imagem. Também recebiam oferendas da carne de animais negros sacrificadas em poços no solo, da mesma forma que era feito para divindades ctónicas, como Perséfone e Deméter, ou como as homenagens dedicadas aos heróis nas suas sepulturas - enquanto os deuses olímpicos costumavam receber ítimas brancas, sacrificadas em altares elevados.
Nalguns casos, as cidades não determinavam com precisão se o daimon a quem estavam a fazer o sacríficio era um heróis ou um Zeus subterrâneo. Desta forma, o santuário de Lebadeia, na Beócia, pertencia tanto ao heróis Trofónio quanto ao Zeus Trofónio (Zeus Trophonius, "aquele que nutre"), de acordo com a versão apresentada por Pausanias ou Estrabão. O herói Anfiarau era cultuado como Zeus Anfiarau (Zeus Amphiaraus), em Oropo, nos arredores de Tebas e os espartanos tinham um santuário dedicado a Zeus Agamemnon.

Cultos não pan-helénicos
Existiam ainda outros locais de culto, para além das regiões pan-helénicas, os quais mantinham as suas próprias ideias idiossincráticas acerca de Zeus e dos homens. Com o epíteto de Zeus Etneu (Zeus Aetnaeus), o deus era venerado no Monte Etna, onde existia uma estátua sua, e era realizado um festival chamado Etnéia, em sua homenagem. Outros exemplos é o Zeus Énio ou Enésio (Zeus Aeneius ou Aenesius) forma sob a qual era venerado na ilha de Cefalónia, onde existia um templo dedicado a Zeus no Monte Eno.

Oráculos
Embora a maior parte dos oráculos fossem dedicados a Apolo, a heróis, ou a diversas deusas, como Témis, alguns oráculos foram, igualmente, dedicados a Zeus:
  • O culto a Zeus em Dodona, no Épiro, onde existem vestígios de atividades religiosas a partir do segundo milénio a.C., o qual estava centrado num carvalho sagrado. Quando a Odisseia foi composta (cerca de 750 a.C.), a adivinhação era feita por sacerdotes descalços conhecidos como selos (selloi), que observavam o movimento e os ruídos feitos pelas folhas e galhos da árvore com o vento. Quando o Heródoto escreveu sobre Dodona, séculos depois, os antigos sacerdotes haviam sido substituídos por sacerdotizas, as peléiades ("pombas"). A consorte de Zeus em Dodona era a deusa Dione, cujo nome é uma forma feminina de "Zeus", e não Hera. O seu estatuto como uma das titãs indica que pode ter sido uma divindade pré-helénica de grande poder, e talvez a ocupante original daquele oráculo.
  • Oráculo de Siwa - Heródoto faz menção de consultas ao oráculo de Zeus Amon, no Oásis de Siwa, situado do Deserto Ocidental, Egito, nos seus relatos das Guerras Persas. Zeus Amon tinha o seu principal culto em Esparta, onde existia um templo dedicado ao deus na época da Guerra do Peloponeso. Após a viagem de Alexandre, o Grande, ao deserto, para consultar o oráculo de Siwa, este passou a fazer parte do imaginário helenístico, principalmente com a figura da sibila líbica.

Zeus e os deuses estrangeiros

Zeus foi identificado com o deus romano Júpiter, e associado no imaginário sincrético clássico com diversas outras divindades, como com o deus egípcio Amon e o etrusco Tinia. Juntamente com Dioniso, Zeus absorveu o papel do principal deus frígio, Sabázio. Ogovernante sírio Antíoco Epifânio IV ergueu uma estátua de Zeus Olímpico no templo judaico em Jerusalém - os judeus helenizados referiam-se a esta estátua como Baal Shamen ("Senhor do Céu"). Zeus também foi comparado à divindade hindu Indra.

Zeus na filosofia

No neoplatonismo, a figura de Zeus é associada ao Demiurgo, ou Mente (nous) Divina, principalmente na obra de Plotino, Enéadas, e na Teologia Platónica, de Proclo.



Fonte: wikipédia

Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...