03/12/2015

Siegfried contra o dragão

«Estávamos no tempo das trevas . Gigantes, anões e   deuses disputavam a posse do anel. O anel do poder absoluto. O gigante Fafnir matara o seu irmão gémeo para se apoderar do anel. Desde então, vivia escondido numa caverna, devorado pela angústia de ficar sem ele. A cupidez enrugara-lhe a pele, a avareza fazia-lhe flamejar os olhos e crispar as falanges... Pouco a pouco, transformava-se num dragão. O maior, o mais irascível de todos os dragões.

A nossa história começa muito tempo depois desta transformação, num dia em que o anão Mime, ferreiro dos Nibelungos, passeava na floresta. De súbito, ouviu uma mulher a arfar. Estendida sobre umas plantas, parecia contorcer-se de dores. O anão enfiou-se por entre as silvas para lhe ir prestar auxílio, mas não chegou a tempo: ela soltara já o seu último suspiro. Entre as suas coxas, sobre um tapete de folhas, estava um recém nascido. Mime avistou junto do bebé fragmentos de uma espada embrulhados num pano. Delicadamente, afastou as dobras do pano e viu o brilho do ferro. Rapidamente, pegou no bebé, no gládio e fugiu para as profundezas da floresta...

Os anos passaram. Eis agora Mime na sua caverna, martelando ferro na sua forja. Na bigorna, os fragmentos de um gládio. Ele martela e torna a martelar. Gotas de suor escorrem-lhe pela testa, os músculos retesam-se e vai praguejando: "Quantas vezes já fiz isto? Quantas vezes já tentei forjar de novo a espada? Bem posso usar todo o meu ardor, toda a minha ciência, que o rapaz consegue sempre parti-la! É uma maldição!"
"Então, Mime, a minha espada está pronta?"
"Quase, Siegfried... Aqui está, toma."
O jovem pega no gládio, dizendo: "Espero que desta feita esteja resistente!" Mas quando golpeia a bigorna com a lâmina, a espada desfaz-se em pedaços. Mime atira-se para o chão, lacrimejante, de rosto encostado à bigorna. Siegfried percorre a gruta como um lobo na sua toca, vociferando: "Como é que tu queres que eu vá combater o dragão com isto?"
"Não sou capaz, Siegfried... Não percebo porquê... Deve ser a magia." De repente, o anão lembra-se de que algum tempo antes recebera a visita de um velho envolto numa capa e com o rosto escondido por um grande chapéu. "Sou o Viajante", dissera ele a Mime, e apresentara-lhe três enigmas. "Qual a raça preferida de Odin, deus dos deuses?"
"A dos gémeos Siegmund e Sieglinde, que disfarçado de lobo, ele concebeu com uma mortal. O irmão e a irmã apaixonaram-se e dos seus amores incestuosos nasceu um filho: Siegfried", respondeu Mime.
"O anão astuto de quem Siegfried é aprendiz gostaria de usar o seu gládio contra Fafnir, o dragão. Que espada deverá brandir o jovem para que o seu braço triunfe?", prosseguira o Vianjante.
"A espada de Notung, que Odin forjou e confiou a Siegmund. A espada que depois Odin quebrou com a sua lança sagrada para castigar Siegmund do seu amor ilícito", replicou Mime.
"E quem reparará Notung?"
Mime não soubera o que responder, mas as palavras que o Viajante lhe dissera ao ouvido voltavam-lhe agora à memória: "Aquele que nunca conheceu o medo."
Mime levanta-se de um salto e diz a Siegfried: "És tu que tens de reparar a espada."
Siegfried aproxima-se da forja e, dando ao fole, consegue atear um fogo vivo. O ferro funde no molde. Siegfried golpeia a bigorna. Mime observa-o e já não duvida: Siegfried conseguirá matar o dragão. Mas se ele não conhece o medo, como poderá depois Mime vencê-lo para se apoderar do anel roubado ao dragão? É preciso que ele saiba o que é o medo. O medo será a causa do seu fim.
Siegfried reforjou a espada e brande-a no ar. Depois, abate-a na bigorna de Mime. A bigorna racha-se de alto a baixo. É altura de partir à procura do dragão...
Na floresta, Mime guia Siegfried. Agora, o herói quer experimentar o que é o medo, pois o anão disse-lhe que só descobrirá o segredo do seu nascimento nessa condição.
"Faz-me medo", pede Siegfried. "Descreve-me o dragão, ouvi dizer que é terrível..."
"Pois é, a sua goela é um abismo, a sua baba, fétida e venenosa. A cauda destrói tudo aquilo em que toca..."
Mime continua a falar, mas Siegfried já não o ouve, pois apercebeu-se de um pássaro a cantar nas árvores.
Que som puro e maravilhoso! Diz então a Mime para ir andando que o alcançará mais adiante. Senta-se debaixo de um carvalho, com uma cana e faz uma flauta e põe-se a tocar, tentando imitar o chilrear dos pássaros. Pensa na mãe e sente o coração apertado. Quem era ela? De onde veio ele? Ignora-o. Mime nunca aceitou dizer-lho. Ah, parece que o som da sua flauta atraiu um animal...
É o dragão!
O dragão escancara a sua goela gigantesca e fustiga a terra com a cauda pesada e imensa...
Siegfried observa-o, mas não se amedronta. Avança entre as patas do animal e enterra-lhe o gládio no ventre até lhe trespassar o coração.
O monstro está morto, e o sangue escorre pelas mãos de Siegfried. Este sangue queima como fogo e, para aliviar a dor, Siegfried leva os dedos à boca. Uma ave pousa sobre uma tília e canta: "Tem cautela, Siegfried, aquele que guiou os teus passos planeia a tua morte! Fica com o anel de Fafnir, é a ti que ele pertence. E vai até à sua caverna." Sem pensar duas vezes, Siegfried faz o que lhe diz a ave, sem mesmo se dar conta de que agora compreende o canto da natureza.
Na caverna, encontra Mime, e lê-o como um livro aberto e vê os seus pensamentos pérfidos, pois tal é o poder do dragão. Então, sem hesitar, mata-o também, sai da gruta, senta-se junto da tília e diz à ave: "Sinto-me tão sozinho agora. Não existirá em qualquer parte uma pessoa que possa amar-me?"
A ave canta com mais força: "Sim, existe no cume da montanha, rodeada por um círculo de chamas, uma virgem adormecida. Brunilde é o seu nome, a Valquíria. Vai acordá-la, ela espera-te."
Então, ele põe-se a caminho. Atravessa o círculo de chamas e, quando o seu olhar pousa sobre Brunilde, percebe, pela primeira vez na vida, o que é o amor. Mas, pela primeira vez na vida, percebe também o que é o medo.»


Fabulosos Mitos e Lendas de Todo o Mundo, Selecções Reader's Digest, 2010


Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...