04/12/2015

Religiões Abraâmicas



O ser humano sempre criou uma fé para si mesmo, a fim de cultivar o seu senso de maravilhoso e do inefável significado da vida.
Karen Armstrong

As religiões abraâmicas ou os Três Filhos de Ibrahim, são as fés monoteístas com origem no Médio Oriente, que enfatizam e traçam as suas origens a Abrão, ou reconhecem uma tradição espiritual que se identifica com ele. Pertencem a uma das maiores divisões religiosas, juntamente com as religiões indiana (dharmicas) e da Ásia do Leste (taoísmo).
No início do século XXI, foi estimado que 54% da população mundial considerava-se aderente de uma religião abraâmica, 30% pertencendo a outras religiões e 16% não pertencendo a nenhum grupo religioso.
As maiores religiões, por ordem cronológica de fundação, são o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. A fé de Bahá'í também é referida algumas vezes. Existem igualmente outras religiões menos conhecidas, abraâmicas, mas que raramente são mencionadas.

Etimologia

Tem sido sugerido que o termo "religiões abraâmicas", significa simplesmente que partilham uma fonte espiritual comum. Os cristãos referem-se a Abraão como o "pai na fé". Há um termo religioso islâmico, Millat Ibrahim (fé de Ibrahim) que indica que o Islão vê-se a si mesmo como tendo práticas ligadas às Tradições de Abraão. A tradição judaica reivindica descendência direta de Abraão, e os fiéis seguem as suas práticas e ideais, sendo Abraão o primeiro dos "pais espirituais", ou Patriarcas Biblicos: Abraão, Isaac e Jacob.
Todas as grandes religiões abraâmicas, reivindicam descendência direta de Abraão:
  • Abraão está registado na Torah como o antepassado dos israelitas, através do filho Isaac, nascido de Sara, devido a uma promessa feita no Génesis (Gen 17:16). Todas as variantes do Judaísmo, surgidas ao longo do início do século XX (profética, rabínica, reformista e conservadora) foram fundadas por descendentes israelitas.
  • O texto sagrado do cristianismo é a Bíblia Cristã, em que a primeira parte, o Velho Testamento, é derivado da Bíblia Hebraica. O que leva a uma reivindicação semelhante à do Judaísmo, apesar da maioria dos cristãos serem gentios (tradicionalmente, descendentes de Shem - um dos filhos de Noé) considerando-se assim ligados à árvore familiar através da Nova Aliança.
  • A tradição islâmica, por sua vez, afirma que Maomé, como Árabe, é descendente do filho de Abraão, Ismael. O judaísmo também equaciona que os descendentes de Ismael, os ismaelitas (os árabes), sendo os descendentes de Isaac através de Jacob, por mais tarde vir a ser conhecido como Israel, sejam os israelitas.

Origem e História

O Judaísmo considera-se como sendo a religião dos descendentes de Jacob, um dos netos de Abraão. Tem uma visão estritamente unitária de Deus e o Livro Sagrado para quase todas as ramificações é o Texto Massorático, como indicado na Torá oral. Nos séculos XIX e XX o Judaísmo desenvolveu um pequeno número de ramificações, sendo que os mais significativos são os Ortodoxo, os Conservadores e os Reformistas.

O Cristianismo começou como uma facção do Judaísmo na Bacia do Mediterrâneo no século I d. C., evoluindo numa religião diferente - a Igreja Cristã - com crenças e práticas distintas. Jesus é a figura central do Cristianismo, considerada por quase todas as vertentes como sendo divino, uma Pessoa na Trindade. A Bíblia Cristã é geralmente tida como a última autoridade, ao lado das Tradições Sagradas em algumas vertentes, como o Catolicismo Romano ou a Igreja Ortodoxa do Leste. Desde a sua fundação, que o Cristianismo se dividiu em três ramos principais, a Igreja Católica, a Igreja Ortodoxa e Igreja Protestante, dúzias de outras variantes de tamanho significativo, e centenas de outras de dimensões menores.
O Islão surgiu na Arábia no século VII d.C. com uma visão estritamente unitária de Deus. Os muçulmanos (aderentes do Islão) geralmente têm o Qur'an como autoridade máxima, revelado e elucidado através de ensinamentos e práticas de um central, mas não divino, profeta. Pouco depois da fundação do Islão, este dividiu-se em duas vertentes principais (Sunni e Shi'a), cada qual tendo atualmente muitas denominações.

Aspetos Comuns

A característica unificadora das religiões abraâmicas é que todas aceitam que Deus se revelou ao Patriarca Abraão. São todas monoteístas, em que Deus é o Criador transcendente e a fonte da lei moral, e muitas das narrativas sagradas das religiões abraâmicas partilham muitas figuras, histórias e lugares, apesar de serem, muitas vezes, apresentadas com papéis, perspectivas e significados diferentes.
  • Monoteísmo - todas as religiões abraâmicas dizem ser monoteístas, venerando exclusivamente um só Deus, embora conhecido por muitos nomes. Todas estas religiões acreditam que Deus é criador, único, que governa, ama, julga, pune e perdoa. No entanto, apesar de o Cristianismo não professar a crença em três deuses - mas antes em três Pessoas ou hipostases, unidas numa única essência - a doutrina da Trindade, que é um dos fundamentos de fé para a maioria  das denominações Cristãs, entra em conflito com os conceitos judaico e muçulmano de monoteísmo. Uma vez que a concepção da Trindade não é compatível com Tawhid, a doutrina Islâmica do monoteísmo, o Islão considera o Cristianismo como uma variante politeísta ou idólatra. O próprio Jesus (em árabe Isa ou Yasu) é venerado no Cristianismo e Islamismo mas com conceitos diferentes, visto como o Salvador da Humanidade pelos Cristãos (assim como Deus Encarnado pela maioria dos Cristãos) e como um Profeta do Islão pelos Muçulmanos. No entanto, o culto de Jesus, ou a designação de parceiros por Deus (conhecido como shirk no Islão e shituf no Judaísmo) e geralmente visto como uma idolatria herética tanto pelos Islamismo como pelo Judaísmo. A Encarnação de Deus em humano também é vista como uma heresia pelo Judaísmo.
  • Continuidade Teológica - Todas as religiões abraâmicas são defensoras do conceito de um único Deus eterno que criou o universo, que governa a história, que envia profecias e mensageiros angélicos e que revela a vontade divina através das Escrituras Sagradas. Também afirmam que a obediência a este Deus Criador é para ser vivida historicamente, e esse Deus irá fazer uma intervenção unilateral na História do Homem no dia do Julgamento.
  • Escrituras - Todas as religiões abraâmicas acreditam que Deus guia a Humanidade através das revelações dos profetas, e cada religião reconhece que Deus revelou os seus ensinamentos e que os incluiu na sua própria Escritura.
  • Orientação Ética - Como orientação ética todas estas escrituras falam de uma escolha entre o Bem e o Mal, que é associado com a obediência ou desobediência a um Deus único e à Lei Divina.
  • Visão do mundo escatológica - Estas religiões partilham uma visão escatológica da história e do destino, começando com a Criação do Mundo e do conceito que Deus trabalha através da história, e terminando com a Ressurreição dos mortos e o Juízo Final e do Mundo a Vir. 

A Importância de Jerusalém

No Judaísmo

Jerusalém tornou-se a cidade Santa do Judaísmo em 1005 a.C. quando, de acordo com a tradição bíblica, David estabeleceu ali a capital do Reino Unido de Deus, e o seu filho Salomão construiu o Primeiro Templo no Monte Moriá. Uma vez que a iblía Hebraica relata que o sacrifício de Isaac se deu neste local, o monte Moriá tem tido uma importância significativa, mesmo antes de Jerusalém se ter tornado a capital do Reino. Os judeus oram três vezes por dia em direção, incluindo as orações em que pedem a reconstrução do Santo Templo (o Terceiro Templo) no Monte Moriá, perto da época da Páscoa, com o pedido "No próximo ano, construindo em Jerusalém." e recordam a cidade nas benções ao fim de cada refeição. Jerusalém serviu como capital em todos os cinco estados judeus que existiram em Israel, desde 1400 a.C. (o Reino Unido de Israel, o Reino de Judá, Yehud Medinata, Reino Asmoneus e Israel Moderna). Tem sido maioritariamente judaica desde 1852.

No Cristianismo

Esta cidade foi um centro cristão no início. Durante a época do Imperador Vespasiano, os romanos, liderados pelo filho deste, Titus, de forma a acabarem com uma revolta judaica, montaram cerco a Jerusalém, saquearam a cidade e destruíram o Segundo Templo, em 70 d.C. (eventualmente foi construído um templo em honra de Jupiter Capitolinus no seu lugar). Em 135 d.C., durante a época do Imperador Adriano, como resposta a outra revolta judaica contra Roma (a Terceira Revolta Judaica), os romanos expulsaram todos os judeus da área, após 70 anos de revoltas, para evitar uma nova.
Esta foi a altura que a área à volta de Jerusalém, até então chamada Judeia Romana, foi designada de Palestina, ou Syria Palestina. Tem havido, desde então, uma presença continua de cristãos. William R. Kenan, Jr., professor da História do Cristianismo, na Universidade de Virgínia, escreveu que desde meados do século IV até à conquista Islâmica nos meados do século VII, a Província Romana da Palestina, era uma nação cristã com Jerusalém como a sua cidade principal. De acordo com o Novo Testamento, Jerusalém foi a cidade à qual Jesus ainda criança, foi trazido para ser apresentado ao Templo e para a festa da Páscoa. Jesus pregou e curou em Jerusalém e criou desordem no Templo ao expulsar  os cambistas do local; realizou a Última Ceia, numa "sala superior" (tradicionalmente o Cenáculo) na noite anterior em que se diz ter morrido na Cruz; foi preso no Gethsamane. As seis partes para o julgamento - três num tribunal religioso e três num tribunal romano - deram-se todas em Jerusalém. A crucificação de Jesus no Gólgota, o seu sepultamento nas proximidades e as suas ressurreição, ascensão e profecia de retorno, deram-se todas nesta cidade, ou virão a acontecer.

No Islão

Jerusalém, a cidade de David e Cristo, veio a tornar-se sagrada para os muçulmanos depois de Meca e Medina (apesar de não ser mencionada no Qur'an. 
A mesquita Al-Aqsa, que se traduz para a "mesquita mais distante" na Sura Al-Isra no Alcorão, são abordados neste livro como "Terra Santa". A tradição muçulmana registada no ahadith, identifica al-Aqsa com a mesquita em Jerusalém. Os primeiros muçulmanos não oravam em direção a Kaaba (Mesquita al-Haram), mas sim em direção a al-Aqsa, em Jerusalém. Mais tarde a qibla foi mudada para Kaaba de forma a cumprir o desejo de Maomé de se orar em direção a Kaaba. Outra razão para o seu significado é a sua ligação com o Mi'raj, onde, segundo a tradição muçulmana, Maomé ascendeu aos Sete Céus, numa mula alada (Buraq), guiada pelo Arcanjo Gabriel, a partir da Pedra da Fundação do Templo do Monte, no tempos atuais, sob o Domo da Rocha.

O significado de Abraão

Apesar de nem todos os membros do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo não reivindicarem Abraão como seu antepassado, alguns membros destas religiões têm tentado reclamá-lo como exclusivamente seu.

Islão

Para os muçulmanos Abraão é um profeta, um mensageiro de Deus, que está na linha entre Adão e Maomé, a quem Alá deu revelações, aquele que "ergueu as fundações da Casa" (i.e., a Caaba), com o seu primeiro filho Isma'il, um símbolo do qual é cada uma das mesquitas. Ibrahim (Abraão) é o primeiro numa genealogia para Muhammad (Maomé). O Islão considera Abraão como sendo "um dos primeiros muçulmanos" - o primeiro monoteísta, num mundo onde o monoteísmo se havia perdido, e a comunidade desses fiéis a Deus, referido como "o nosso pai Abraão" ou "Abraão o monoteísta". O Islão defende que foi Ishmael e não Isaac a quem Ibrahim foi instruído de sacrificar. Por acréscimo a esta lihagem espiritual, os Sayyid que são os descendentes de Maomé e da sua filha Fátima, os quais estão espalhados por todo o Médio Oriente e subcontinente indiano, traçam a sua linhagem a Isma'il, logo a Abraão. O profeta também é lembrado em alguns detalhes na peregrinação anual Hajj.

Judaísmo

Abraão é essencialmente um antepassado reverenciado ou patriarca (referido como Avraham Avinu "Abraão, nosso pai"), a quem Deus fez várias promessas: principalmente que Abraão teria inumeráveis descendentes, os quais receberiam a Terra de Canaã (a "Terra Prometida"). Segundo a tradição judaica, Abraão, foi o primeiro profeta pós-dilúvio a rejeitar a idolatria através da análise racional, apesar de Shem e Eber continuarem a tradição de Noé.

Cristianismo

Os cristãos vêem Abraão como um importante exemplo de fé. Para os cristãos Abraão é tanto um antepassado espiritual como/ou em vez de, um ancestral directo, dependendo da interpretação do indivíduo do Apóstolo Paulo (Rom.4:9-12) com o pacto abraâmico "reinterpretado de forma a ser definido pela fé de Cristo, em vez de ascendência biológica", ou ambos, pela fé, bem como um antepassado directo; em qualquer caso a ênfase é colocada no facto de a fé ser o único requisito para a aliança abraâmica. Na crença cristã, Abraão é um modelo de fé, e a sua obediência a Deus, oferecendo Isaac, é visto como um prenúncio da oferta de Deus do Seu filho Jesus.

As Religiões

Judaísmo

O texto judaico mais antigo que se conhece é a Tanakh, um relato da relação israelita com deus, desde o principio da sua história até à construção do Segundo Templo (cerca de 535 a.C.). Abraão é aclamado como o primeiro hebreu e o pai do povo judaico. Um dos seus bisnetos foi Judá, de quem a religião ganhou o nome. Os israelitas eram inicialmente um conjunto de tribos que viveram no Reino de Israel e no Reino de Judá.
Depois de terem sido conquistados e capturados, alguns membros do Reino de Judá eventualmente retornaram a Israel. Mais tarde formaram um estado independente, durante a dinastia Asmoneana, nos séculos II e I a.C., antes de passarem a fazer parte do Império Romano. Do século II ao século VI os judeus escreveram o Talmud, um longo trabalho acerca das leis e interpretações bíblicas que - juntamente com a Tanack - é a base do judaísmo.

Cristianismo

O Cristianismo começou no século I como uma facção dentro do Judaísmo, liderada inicialmente por Jesus. Os seguidores de Jesus viam-no como o Messias; após a sua crucifixação e morte, estes passaram a vê-lo como Deus encarnado, que havia ressuscitado e havia de voltar no final dos tempos para julgar os vivos e os mortos e criar um Reino de Deus eterno. Em algumas décadas, o movimento separou-se do Judaísmo.
Após vários períodos em que se alternavam períodos de perseguição com períodos de paz com as autoridades romanas, o Cristianismo tornou-se a Religião oficial do Império Romano em 380, mas separou-se em várias igrejas desde o principio. Foi feita uma tentativa por parte do Império Bizantino de unificar o Cristianismo, mas teve um fracasso oficial com o Cisma Ocidente-Oriente em 1054. No século XVI o aparecimento e crescimento do Protestantismo separou o Cristianismo em mais facções.

Islão

O Islão é baseado nos ensinamentos do Corão. Embora considere que Maomé é o selo dos profetas, o Islão ensina que cada profeta pregou o islão, providenciando uma base histórica para a religião, ao reconhecerem independentemente os profetas judeus e cristãos, e adicionando outros. Os ensinamentos do Corão são apresentados como revelações diretas e palavras de Alá, e as escrituras anteriores são consideradas tendo sido corrompidas com o tempo. O islão (que significa "submissão", no sentido de submissão a Alá) é universal (a adesão está aberta a qualquer pessoa); como o Judaísmo tem um concepção estritamente unitária de Alá, chamada tawhid, ou "estrita" ou "simples" monoteísmo. As disputas iniciais  sobre quem iria liderar os muçulmanos após a morte de Maomé levaram a uma divisão, os Sunitas e os Xiitas - as duas denominações islâmicas principais.

Deus

Todas as religiões abraâmicas são monoteístas. Tanto no Judaísmo como no Islão, Deus é visto como um único ser divino; no entanto, este ponto de vista não é partilhado no Cristianismo, que vê Deus como uma Trinidade indivisível. Enquanto que o Cristianismo defende que a Trinidade é o mesmo que a visão unitária de Deus do Islão e Judaísmo, a distinção é suficiente grande para exigir uma explicação evidente por parte dos cristãos e sobre a parte da fé islâmica, que reafirma a questão com uma advertência no capítulo 112 do Alcorão.

Islão

Há só um Deus no Islão. Alá é o nome árabe para Deus ("ʾilāh" é o termo árabe usado para uma divindade ou deus em geral). A tradição islâmica também descreve os 99 nomes de Deus. Estes 99 nomes descrevem os atributos de Deus, incluindo o Mais Misericordioso, O Justo, O Pacífico e Abençoador e o Guardião. A crença islâmica em Deus é distinta da Cristã em que Deus não tem descendência. Esta crença está resumida no capítulo 112 do Alcorão, intitulado Al-Ikhlas, que diz "Diz, ele é Alá (quem é) um, Alá é o Eterno, o Absoluto. Ele não gera nem Ele gerou. Nem há para Ele nenhum equivalente". (Alcorão 112:1)
O Alcorão também estabelece uma semelhança entre Jesus e Adão - o primeiro ser criado por Deus - em que diz que ambos foram criados sem um pai por Deus que disse a simples palavra "Sê" (em árabe, kun) [Quaran 3:59]. Logo, tanto a Tora quanto os Evangelhos são baseados na revelação divina, mas a maioria dos muçulmanos acredita que ambos os Livros foram corrompidos (tanto acidentalmente, por erros de transmissão, quanto intencionalmente por determinados judeus e cristãos ao longo dos tempos).
Os muçulmanos veneram o Alcorão como sendo a palavra final de Deus, não corrompida, ou O Testamento Final, revelado ao último Profeta, Maomé.
Maomé é considerado como o Selo dos Profetas, isto é, o último de uma longa cadeia, e o Islão como a última fé monoteísta, perfeita em todos os aspetos, como ensonado no Alcorão.

Cristianismo

Os cristãos acreditam que o Deus adorado pelos fiéis Hebreus da era pré-cristã sempre se revelou, tal como o fez por meio de Jesus, mas tal nunca foi óbvio até que a Palavra de Deus (o Logos divino) se fez carne e habitou entre nós (ver João 1). Assim como, apesar do facto de o anjo do Senhor ter falado aos Patriarcas, revelando-lhes Deus, foi sempre através do Espírito de Deus, que lhes concedia o entendimento, de forma a que os homens compreendessem mais tarde que tinham sido visitados pelo Deus em si mesmo. Depois de Jesus ter ressuscitado, de acordo com as escrituras cristãs, este antigo testemunho hebraico em que Deus se revela como Messias veio a ser visto de forma bastante diferente. Foi então que os seguidores de Jesus começaram a falar de Jesus como sendo Deus em pessoa, embora isto já tivesse sido revelado para alguns indivíduos enquanto Jesus era vivo.
Esta crença veio gradualmente a tornar-se na fórmula atual da Trinidade, que é a doutrina que Deus é uma única entidade, mas que é uma "triunidade" em Deus, que tem sido sempre evidente apesar de não compreendido. Esta "triunidade" misteriosa é hipostática, isto é, há três hipostáteses (personae em latim).
As visões não trinitárias têm vindo a construir vários entendimentos teológicos, desde o Binitarianismo até ao Modalismo. Alguns não-trianitaristas entendem que os três não são três, mas um a interpretar três papéis diferentes, em três épocas diferentes ou dispensações - na Idade do Pai como Jeová, na Idade do Filho como Jesus e, finalmente, na Idade do Espírito Santo com um Novo Nome, como a Segunda vinda de Cristo. No entanto, deve ser notado que algumas denominações cristãs rejeitam a trinidade e seguem crenças não-trinitárias, como as Testemunhas de Jeová, a Unidade do Pentecostalismo, alguns Pentecostais e igrejas Baptistas, são alguns exemplos de fés não trinitárias.

Judaísmo

As crenças judaicas são baseadas na Bíblia Hebraica (chamada tanakh em hebreu), que consiste na Torá (tradicionalmente considerado os escritos de Moisés), assim como nos escritos de profetas, salmistas e outras escrituras antigas canonizadas, sendo que todas revelam os mandamentos de Deus. Para além disso, a fé judaica também tem uma base na Lei Oral, registada na Mishnah e Gemara (em que juntas formam o Talmude).
O Ser Supremo é referido na Bíblia Hebraica de diversas formas, tal como Elohim, Adonai ou pelas quatro letras hebraicas "Y-H-V (ou W)-H" (o tetragrama), que o judeu atento não pronúncia como uma palavra. As palavras hebraicas Eloheynu (Nosso Deus) e HaShem (O Nome), assim como as palavras portuguesas O Senhor ou Deus, são usadas igualmente no judaísmo moderno.
A palavra "Elohim" tem o final hebreu para plural "-im", que alguns estudiosos bíblicos têm tido como um suporte para a noção geral que os antigos Hebreus eram politeístas no tempo dos Patriarcas; no entanto, como a palavra em si é usada com verbos singulares, esta hipótese não é aceite pelo pensamento tradicional judaico. Os textos judeus apontam outras palavras em hebreu que usam a mesma terminologia, de acordo com a Gramática Hebraica, em demonstração de respeito, majestade ou deliberação.
Os eruditos da Bíblia Judaica e comentadores históricos também sugerem que Elohim no plural indica Deus em conjunção com a corte celestial, isto é, os anjos. Alguns textos cabalistas explicam o uso de Elohim como uma singularidade pluralística, uma essência que mantém todos os níveis de criação, desde o físico mundano até ao sublime e Sagrado espiritual.

Escrituras Religiosas

Todas estas religiões se baseiam num corpo de inscrições, algumas das quais são consideradas como sendo a Palavra de Deus - logo sagradas e inquestionáveis - e algumas o trabalho de homens religiosos, venerados apenas devido à tradição e por se considerar que o seu trabalho teve inspiração divina, se não mesmo tendo sido ditado diretamente por Deus.

Islão

O livro mais sagrado do Islão é o Alcorão, que comprime 114 Suras (capítulos do Alcorão). No entanto, os muçulmanos também acreditam nos textos religiosos do Judaísmo e Cristianismo nas suas formas originais, embora não nas versões atuais que consideram estarem corrompidas. De acordo com o Alcorão (e a crença da corrente principal muçulmana), os versos do Alcorão foram reveladas por Alá através do Arcanjo Jibrail a Maomé em diversas ocasiões. Estas revelações foram escritas e também memorizadas por centenas de companheiros de Maomé. Estas fontes múltiplas foram transcritas para uma única cópia oficial. Após a morte de Maomé, foram feitas centenas de cópias do Corão e o Califa Otman providenciou para que fossem distribuídas várias destas cópias por diversas cidades do Império Islâmico.
O Alcorão menciona e venera diversos profetas israelitas, incluindo Moisés e Jesus, entre outros. As histórias destes profetas são muito semelhantes às da Bíblia. No entanto, as normas detalhadas da Tanakh e Novo Testamento não são adoptadas na sua totalidade, são substituídas por novos mandamentos aceites como revelações diretas de Alá (através do anjo gabriel) a Maomé e codificadas no Alcorão.
Tal como os judeus com a Torá, os muçulmanos consideram o exto original árabe do Alcorão não corrompido e sagrado até à última palavra, e quaisquer traduções são consideradas interpretações do significado do Livro.
Assim como acontece com a Lei Oral Rabínica para a Bíblia Hebraica, o Alcorão também é complementada com o Hadith, um conjunto de livros, compostos por autores tardios, com os dizeres do Profeta Maomé. O Hadith interpreta e elabora os preceitos do Alcorão.
Os eruditos islâmicos classificaram cada Hadith em cada um dos seguintes níveis de autenticidade ou isnad: genuíno (sahih), justo (hasan) ou fraco (da'if). Pelo século IX, foram aceites seis coleções Hadith principais, como fidedignas pelos muçulmanos sunitas: Sahih al-Bukhari; Muçulmanos Sahih, Sunan ibn Majah; Sunan Abu Dawud; Jami al-Tirmidhi; Sunan an-Nasa'ii. Os muçulmanos Xiitas, no entanto, referem-se a outros hadiths autenticos como alternativa - são conhecidos como Os Quatro Livros.
A Hadith e a vida de Maomé (sira) formam a Sunnah, um suplemento oficial do Alcorão. As opiniões legais dos juristas Islâmicos (Faquih) fornece outra fonte para a prática quotidiana e interpretação da tradição islâmica.
O Alcorão faz várias referências à "religião de Abraão", e ao contrário do Cristianismo e Judaísmo esta referência refere-se apenas ao Islão.

Judaísmo

As Escrituras Sagradas do Judaísmo é a Tanakh, um acrónimo hebreu para a Torá (Lei ou Ensinamentos), Nevi'im (Profetas) e Ketuvim (Escritos). Estes são complementados por, e suplementados, várias tradições  (originalmente orais): Midrash, o Mishnah, o Talmud e várias coleções de escritos rabínicos. A Tanakh (ou Bíblia Hebraica) foi escrita entre 1.400 a.C. e 400 a.C. por profetas judeus, reis e sacerdotes. 
O texto hebreu da Tanakh e da Torá, em particular, é considerado sagrado até à última letra e a transcrição é feita com extremo cuidado. Um erro numa única letra, ornamentação ou símbolo nas mais de 300.000 letras estilizadas que formam a Torá Hebraica, tornam esta imprópria para uso.

Cristianismo

As Escrituras Sagradas da maior parte dos grupos cristãos são o Velho e o Novo Testamento. O Velho Testamento na Bíblia Protestante do Rei James é igual à Bíblia Hebraica, com algumas variações na gramática ou na gíria. A Bíblia continha originalmente 73 livros, no entanto sete livros, designados de Apócrifos ou Deuteracanónico, dependendo da opinião de cada um deles, fora removidos por Martinho Lutero devido à falta de fontes hebraicas.
O Novo Testamento abrange quatro descrições da vida e ensinamentos de Jesus (os quatro Evangelhos, atribuídos tradicionalmente ao Apóstolo Mateus, apóstolo João, um estudante do apóstolo Pedro, Marcos e Lucas, um estudante do apóstolo Paulo). Considera-se geralmente terem tido inspiração divina e, juntos, estes quatro evangelhos formam a Bíblia Cristã. Além disso, a maioria dos cristãos considera fundamentais os ensinamentos do Antigo Testamento, particularmente os Dez Mandamentos. No entanto, há cristãos que acreditam que as leis da velha aliança foram anuladas, enquanto que outros acreditam que só têm de seguir as leis de Noé (ex. idolatria, mentira, adultério, roubo).
A maior parte das fés cristãs baseiam as suas crenças nas conclusões obtidas no Concílio de Nicéia em 325, a partir de um documento conhecido como o Decreto de Nicéia. Este decreto descreve a crença que  Deus (como uma Trinidade) tornou-se humano na Terra, nascido como Jesus segundo os termos do Velho Testamento, foi crucificado pela humanidade, morreu e foi sepultado, tendo então ressuscitado no terceiro dia para entrar e ascender ao Reino dos Céus, sentando-se do lado direito de Deus, com a promessa de retornar, e estabelecer um Mundo Vindouro.
A maioria das fés cristãs reconhece que a maior parte dos evangelhos foram passados através de tradição oral, e que só foram escritos algumas décadas após a morte de Jesus, e que as versões posteriores são cópias desses originais. A versão bíblica considerada como a mais válida, variou consideravelmente:
  • Septuaginta Grega;
  • Vulgata Latina;
  • Versão Inglesa do Rei James
  • Bíblia Sinodal Russa
Os cristãos geralmente consultam a Tanack quando estão a preparar novas traduções, embora alguns defendam que a Septuaginta deveria ser preferida, pois foi a Bíblia das Igrejas do Cristianismo Grego Inicial e também porque acreditam que os tradutores desta usaram uma Bíblia Hebraica diferente àquelas que constituem o texto Massorético atual, pois há algumas versões diferentes dos Manuscritos do Mar Morto, confirmados pela Septuaginta. Da mesma forma que os judeus místicos vêem a Torá como algo com vida e que existia antes de qualquer texto escrito, também os cristãos vêem a Bíblia e Jesus como a Palavra de Deus (logos, em grego), que transcende os documentos escritos.
As escrituras sagradas da Bíblia Cristã são complementadas por um conjunto de dimensões consideráveis de escritos de indivíduos cristãos e concílios de líderes cristãos. 

Fim dos tempos e vida após a morte

Nas religiões abraâmicas maiores, existe a expectativa de que um individuo irá anunciar o fim dos tempos e/ou trazer o Reino de Deus na Terra, isto é, a Profecia Messiânica. O Judaísmo aguarda a vinda do Messias Judeu. O conceito do Messias judeu diferencia-se do conceito cristão em diversos aspectos importantes, apesar de o termo se aplicar a ambos. O Messias Judeu não é visto como um "deus", mas como um homem mortal que devido à sua santidade é merecedor desse termo. A sua aparição não se dará no fim dos tempos, invés anuncia a vinda do mundo que há-de vir.
Os cristãos aguardam a Segunda Vinda de Cristo, embora o Preterismo Completo acredite que tal já aconteceu.
O Islão aguarda tanto a segunda vinda de Jesus (para completar a sua vida e morte) como a vinda de Mahdi (segundo os sunitas na sua primeira encarnação, segundo os xiitas como o retorno de Muhammad al-Mahdi).
A maior parte das religiões abraâmicas concorda que um ser humano inclui o corpo, que morre, e a alma, que é capaz de se manter viva após a morte do corpo e carrega a essência da pessoa, e que Deus irá julgar a vida de cada pessoa após a morte.

Fé Baha'i

A Fé Bahá'í é uma religião monoteísta fundada por Bahá'u'lláh na Pérsia do século XIX que enfatiza a unidade espiritual da humanidade. Trata-se de uma religião independente que possui as suas próprias leis, escrituras sagradas, administração e calendário. Mas não possui dogmas, clero, nem 
sacerdócio. Estima-se que existam cinco a seis milhões de bahá'ís espalhados por mais de 200 países e territórios.
Os ensinamentos bahá'ís atribuem grande importância ao conceito de unidade das religiões. A história religiosa da humanidade é vista como um processo de desenvolvimento gradual, em que surgem diversos Mensageiros Divinos com ensinamentos adequados às necessidades de cada momento e à maturidade de cada povo. Esses mensageiros incluem Krishna, Abraão, Buda, Jesus, Maomé e, mais recentemente, O Báb e Bahá'u'lláh. Segundo os ensinamentos bahá'ís, a humanidade encontra-se num processo de evolução coletiva a caminho de uma civilização mundial, e as suas necessidades atuais centram-se, essencialmente, no estabelecimento gradual da paz, justiça e unidade a uma escala global.




Fonte: wikipédia


Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...