03/12/2015

Prometeu, o titã que roubou o fogo


«"O fogo! O fogo!" A agitação toma conta do Olimpo. Ali, onde ainda ontem um tapete de brasas vermelhas ardia alegremente, ergue-se agora uma débil chama solitária que pode apagar-se ao primeiro sopro do vento! Não faltava mais nada: o fim do fogo primordial! Que se terá passado?
Nos últimos tempos, o Universo mudou bastante. O grande e poderoso Zeus considerou que era chegado o tempo de povoá-lo com seres vivos - animais e homens - e confiou essa missão particularmente delicada a dois fiéis titãs, Prometeu ("o que pensa antes") e Epimeteu ("o que pensa depois"). Foi de fato não contar com a insensatez deste último... Entusiasmado, Epimeteu multiplica as suas criações numa orgia de formas, de cores, de ramagens e de plumagens... Uma maravilha de diversidade e fantasia! Mas tanto é o entusiasmo que Epimeteu dedica à tarefa que rapidamente esgota todas as qualidades disponíveis: a força, a vivacidade, a rapidez, o faro ou a astúcia, e tantas outras que fazem que cada animal esteja tão bem adaptado às suas condições de vida. De tal forma que não sobra nada para os homens! Quando quer reparar os danos, Prometeu vê-se numa situação embaraçosa... Irá ele deixar o ser humano fraco, nu e desarmado, à mercê de todos os riscos, sujeito a todos os perigos? Não! Porque é então que lhe surge a mais audaciosa das ideias...

Descendente dos deuses primordiais, Prometeu está em casa no Olimpo, vai e vem como lhe apetece. Mas porque razão, nestes últimos tempos, passa tanto tempo junto de Atena e de Hefesto? A primeira, filha de Zeus, reina, entre outras coisas, sobre o saber e todas as técnicas: afinal, não foi ela que já lhe ensinou a arquitectura, a astronomia, as matemáticas, a navegação, a medicina e tantas outras artes de grande utilidade? O segundo, o ferreiro divino, é o senhor do fogo e da metalurgia... Prometeu conhece os limites dos homens, mas também as suas capacidades... E um dia, mesmo nas barbas do severo Hefesto, consegue apoderar-se de brasas retiradas do coração do fogo sagrado! Com elas, faz uma tocha que esconde imediatamente no interior de um caule oco de um funcho gigante, o que lhe permite escapar-se à socapa.
É este o motivo da grande agitação que reina no Olimpo e da gritaria que se ouve por todo o lado: "Roubaram o fogo!" Junto dos homens, Prometeu divulga os segredos de Atena, as chaves de todas as ciências e de todas as técnicas e a seguir oferece-lhes o fogo... O fogo, que dá força e calor, que purifica, que permite forjar o ferro e cozer o barro! Daí em diante, os homens têm o poder de tornar-se quase iguais aos deuses...
Talvez o grande Zeus deixe passar a ofensa se os homens consentirem em dar os deuses o que lhes é devido. Não seja por isso: o astuto Prometeu assa um boi inteiro, corta-o e divide-o em dois montes - de um lado, a pele, sob a qual esconde os melhores pedaços e sobre a outra espalha as vísceras; do outro, os ossos, cobertos de gordura bem-cheirosa. Cabe a Zeus escolher a parte que lhe será devolvida. Ludibriado pelos deliciosos aromas, ele escolhe o segundo monte... Assim, serão a gordura e os ossos que os homens deverão, dali para a frente, sacrificar aos deuses.
Mas aquilo foi demais. De volta ao Olimpo, Prometeu não tem direito a um julgamento formal, e nenhum protesto se ergue ao ser ouvida a terrível sentença pronunciada por Zeus. Por ter partilhado os segredos dos deuses com os homens, o titã será agrilhoado para a toda a eternidade e sofrerá os maiores tormentos! Hefesto em pessoa é encarregado de executar a sentença. Ele conduz Prometeu aos montes Cáucaso, prende-o, despido, a um rochedo e abandona-o. Pouco depois, surge uma águia que esvoaça sobre o local do suplício, precipita-se sobre Prometeu, rasga-lhe o ventre com o bico e devora-lhe o fígado... Os uivos de dor da vítima assolam toda a região. "Isto há-de passar", dizem alguns. Mas não passa: durante a noite, o fígado de Prometeu reconstitui-se, e no dia seguinte, ao alvorecer, a águia regressa! E tudo se repete, uma vez e outra; na verdade, o castigo daquele que ousou desafiar os deuses parece eterno! Só Herácles conseguirá pôr-lhe termo: mas, infelizmente, esse dia ainda vem longe...»

Fabulosos Mitos e Lendads de Todo o Mundo, Selecções Reader's Digest, 2010

Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...