17/12/2015

Primeira Guerra Mundial - As Consequências

Armistício e Capitulações




O colapso dos Poderes Centrais veio de forma rápida. A Bulgária foi a primeira a assinar o armistício a 29 de Setembro de 1918 em Salaniki. A 30 de Outubro o Império Otomano rendeu-se  em Moudros, assinando o Armistício de Moudros.
A 24 de Outubro, os Italianos começaram a recuperar o território perdido na Batalha de Carporeto. Culminou na Batalha de Vittorio Veneto, que marcou o fim do Exército Austro-Húngaro como uma força efectiva de combate. A Ofensiva também desencadeou a desintegração do Império Austro-Húngaro. Durante a última semana de Outubro, foram feitas várias declarações de independência em Budapeste, Praga e Zagreb. A 29 de Outubro, as autoridades imperiais pediram um armistício à Itália, mas os italianos continuaram a avançar, chegando a Trento, Udine e Trieste. A 3 de Novembro a Áustria-Hungria enviou uma bandeira de tréguas a pedir novamente por armistício. Os termos, designados pelas Autoridades Aliadas em Paris, foram comunicadas ao comando austríaco e aceites. O Armistício com a Áustria foi assinado na Villa Giusti, perto de Padua, a 3 de Novembro. A Áustria e a Hungria assinaram armistícios separados, após a queda da Monarquia dos Habsburgos. Como consequência  da revolução alemã de 1918-19, foi proclamada uma república a 9 de Novembro. O Kaiser fugiu para a Holanda.
Às cinco horas da manhã de 11 de Novembro, foi assinado um armistício numa carruagem de comboio em Campiègne. Às onze horas, de 11 de Novembro de 1918 - "às 11 horas, do dia 11 do mês 11" - entrou em vigor um cessar fogo. Durante as seis horas entre a assinatura do armistício e este entrar em vigor os exércitos inimigos começaram a retirar-se das suas posições, mas os combates continuaram em muitas áreas, pois muito comandantes queriam recuperar território antes que a guerra terminasse.
Em Novembro de 1918, os Aliados tinham homens e materiais em quantidade ampla para invadirem a Alemanha, no entanto à altura do armistício, nenhuma força Aliada atravessou a fronteira alemã, a Frente Ocidental encontrava-se a 720 km de distância de Berlim, e os exércitos do Kaiser tinham-se retirado do campo de batalha de forma ordeira. Estes factores permitiram que Hindenburg e outros líderes séniores alemães espalhassem a história que não era bem verdade que o exército alemão havia sido derrotado. Isto resultou na lenda de traição, que atribuiu a derrota alemã não à sua incapacidade de continuar a lutar, mas ao fracasso público em responder ao "chamamento patriótico" e à suposta sabotagem intencional ao esforço de guerra, particularmente por Judeus, Socialistas e Bolcheviques.


Consequências

Nenhuma outra guerra provocou mudanças tão dramáticas no mapa europeu. Desapareceram quatro impérios: o Alemão, o Austro-Húngaro, o Otomano e o Russo. Diversas nações recuperaram a sua independência e foram criadas outras novas. Caíram quatro dinastias, juntamente com as suas aristocracias auxiliares: os Hohenzollens, os Habsburgos, os Romanovs e os Otomanos. A Bélgica e Sérvia ficaram com danos sérios, assim como a França com 1,4 milhões de soldados mortos, sem contar com as outras baixas. Tanto a Rússia quanto a Alemanha ficaram seriamente afetadas.

Fim de guerra formal

Durante sete meses persistiu um estado de guerra formal entre os dois lados, até à assinatura do Tratado de Versalhes com a Alemanha a 28 de Junho de 1919. No entanto, o público americano opôs-se à ratificação do tratado, principalmente devido à criação da Liga das Nações; os EUA não terminaram formalmente o seu envolvimento na guerra até à assinatura da Resolução Knox-Porter em 1921. Após o Tratado de Versalhes, foram assinados outros ratados com a Áustria, Hungria, Bulgária e Império Otomano. No entanto as negociações com o tratado posterior com o Império Otomano foram seguidas com o conflito (a guerra de independência da Turquia), e uma paz final entre os Poderes Aliados  e o país que rapidamente veio a se tornar a República da Turquia só se veio a concretizar a 24 de Julho de 1923 em Lausanne.
Enquanto que alguns memoriais de guerra datam o fim da Primeira Guerra Mundial com a assinatura do Tratado de Versalhes em 1919, que foi quando muitas das tropas que serviam no exterior finalmente retornaram aos seus países, a maior parte das comemorações do fim de guerra concentram-se na data de armistício de 11 de Novembro de 1918. Mas legalmente, os tratados de paz formais só foram concluídos com o Tratado de Lausanne. Seguindo os termos deste Tratado as tropas Aliadas começaram a evacuar Constatinopla a 23 de Agosto de 1923, acabando a evacuação a 23 de Setembro do mesmo ano.

Tratados de Paz e fronteiras nacionais

Em consequência das guerras napoleónicas, que desde 1815 que o Congresso de Viena havia estabelecido um novo equilíbrio europeu baseado na eventualidade de as nações virem a entrar em conflito, em que estas respeitariam um conjunto de princípios comuns. A Primeira Guerra Mundial veio a romper este equilíbrio, com o início de uma resposta desproporcionada da Áustria-Hungria relativamente ao atentado do arquiduque Francisco Fernando com vastas regiões da Europa arrasadas economicamente, cerca de 10 milhões de vidas perdidas, muitos outros milhões de inválidos e feridos e o desaparecimento de fronteiras.
Após a guerra, a Conferência de Paz de Paris impôs uma série de tratados de paz aos Poderes Centrais a oficializar o fim da guerra. O Tratado de Versalhes de 1919 tratou com os alemães, e os 14 Pontos de Wilson vieram a constituir a Liga das Nações a 28 de Junho de 1919.


A Alemanha foi forçada, apesar dos seus constantes protestos, a admitir a culpa por ter iniciado a guerra em 1914, e logo estar passível a enormes indemnizações. Especificamente, os alemães tinham de reconhecer a responsabilidade "por todos as perdas e danos a que os Aliados e Associados e as suas nações  foram sujeitos como consequência da guerra que foi imposta sobre eles pela agressão da Alemanha e seus aliados". Foram incluídas clausulas idênticas nos tratados que foram assinados pelos outros membros dos Poderes Centrais. Esta cláusula veio a tornou-se conhecida, para os alemães, como a cláusula da Culpa de Guerra; a grande maioria dos alemães sentiu-se humilhada e ressentida com este ponto e tornou-se um dos grandes pontos de campanha dos Nazis na década de 1920. No final os alemães sentiram-se que foram tratados de forma injusta pelos que eles chamaram de "ultimato de Versalhes." Schulze afirmou, o Tratado colocou a Alemanha "debaixo de sanções legais, privado de poder militar, economicamente arruinada, e politicamente humilhada." Entretanto, as nações libertadas da Alemanha viram o Tratado como o reconhecimento dos erros cometidos entre as nações mais fortes contra as nações vizinhas mais pequenas. A Conferência de Paz exigiu que todas as potências derrotadas pagassem indemnizações por todos os danos feitos a civis, mas na prática isto significou só a Alemanha.
Com o fim do conflito, impôs-se, por um lado, resolver a questão das fronteiras e, por outro, criar as bases para um novo equilíbrio mundial. Com base numa proposta do presidente americano, Woodrow Wilson, constituída por catorze pontos, a Conferência de Paz e o Tratado de Versalhes (1919) introduziram um conjunto de alterações importantes na geopolítica europeia e mundial. Os Impérios Centrais (alemão, austro-húngaro e otomano) foram desmembrados. A Alemanha viu-se obrigada a ceder diversos territórios: a Alsácia-Lorena à França, a Posnânia e a Alta Silésia à Polónia. Por sua vez, o Império Austro-Húngaro separou-se em três entidades distintas - a Áustria, a Hungria e a Checoslováquia,  grande parte de acordo de acordo com as linhas étnicas, embora não na sua totalidade. Para além de ter perdido territórios para a Itália (a Ístria), Roménia (Transilvânia) e Jugoslávia (Croácia e Eslovénia), entretanto independente.
Com a passagem da Transilvania  da Hungria para a Roménia, de acordo com o Tratado de Trianon 3,3 milhões de húngaros passaram a estar sob governo estrangeiro. Embora os húngaros constituissem 54% da população do Reino da Hungria antes da guerra, só foi deixado 32% do seu território para a Hungria. Entre 1920 e 1924 354.000 húngaros deixaram os antigos territórios  anexados à Roménia, Checoslováquia e Jogoslávia.
O Império Russo, que haviam deixado a guerra em 1917 depois da Revolução de Outubro, perdeu a maior parte das suas fronteiras a ocidente nascendo as novas nações independentes da Estónia, Finlandia, Letónia, Lituania e Polónia. A Roménia tomou controle da Bessarábia em Abril de 1918.
O Império Otomano desintegrou-se, e grande parte do território não-Anatoliano foi repartido por diversos países Aliados como protectorados. O núcleo turco na Anatólia passou a ser a República da Turquia. Estava designado que o Império Otomano seria repartido pelo Tratado de Sèvres em 1920, no entanto este tratado nunca foi ratificado pelo sultão e foi rejeitado pelo movimento republicano turco, que levou à Guerra de Independência Turca, e finalmente, ao Tratado de Lausanne em 1923. No final, o Império Otomano desmembrou-se na Turquia, Iraque, Síria, Líbano, Palestina e Transjordânia.

Identidades Nacionais

A Polónia reemergiu como um país independente, depois de mais de um século.. O Reino da Sérvia e a sua dinastia, uma "pequena nação Entente", o país com o maior número de mortes per capita, tornou-se a espinha dorsal de um novo Estado plurinacional, o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, mais tarde renomeado como Jugoslávia. A Checoslováquia, combinando o Reino da Boémia com partes do Reino da Hungria, tornou-se uma nova nação. A Rússia tornou-se a União Soviética e perdeu a Finlândia, a Estónia, a Lituânia e a Letónia, os quais se tornaram países independentes. O Império Otomano rapidamente foi substituído pela Turquia e diversos outros países no Médio Oriente. 
No Império Britânico, a guerra libertou novas formas de nacionalismo. Na Austrália e na Nova Zelândia a Batalha de Gallipoli tornou-se conhecida como o "Batismo de Fogo" dessas nações. Esta foi a primeira grande guerra em que os países recém formados lutaram,  e uma das primeiras vezes em que a Austrália combateu enquanto australianos e não como súbditos da Coroa Britânica.
Após a Batalha de Vimy Ridge, onde as divisões canadianas combateram juntas pela primeira vez como um Corpo único, os canadianos começaram s referir-se a si mesmos como uma nação "forjada no fogo". Ao obterem sucesso no campo de batalha onde os "países de origem" haviam falhado, trouxe-lhes o respeito internacional pelas suas próprias realizações. O Canadá entrou na guerra como um Domínio do Império Britânico e apesar de continuar a sê-lo, emergiu com uma independência muito superior. Quando a Grâ-Bretanha declarou guerra em 1914, os domínios desta ficaram automaticamente em estado de guerra, mas no final, o Canadá, a Austrália, a Nova Zelândia e a África do Sul apresentaram-se como signatários individuais no Tratado de Versalhes.
O estabelecimento do estado moderno de Israel e as raízes do conflito Israelita-Palestiniano encontram-se parcialmente na instabilidade do Médio Oriente que surgiu da Primeira Guerra Mundial. Antes do fim da guerra, o Império Otomano tinha mantido um nível modesto de paz e estabilidade no Médio Oriente. Com a queda do governo otomano, criou-se um vácuo no poder e surgiram conflitos reinvidicativos de territórios e nacionalidade. As fronteiras políticas desenhadas pelos poderes vitoriosos da Primeira Guerra Mundial foram impostos de forma rápida, às vezes após uma consulta superficial com as populações locais. Em muitos casos, esta luta por uma identidade continua a ser um problema contemporâneo em pleno século XXI.

Efeitos na saúde

A guerra teve consequências profundas na saúde das tropas. Dos 60 milhões de tropas europeias que foram mobilizadas de 1914 a 1918, foram mortos 8 milhões, 7 milhões ficaram com deficiências permanentes e 15 milhões foram feridos de forma grave. A Alemanha perdeu 15,1% da sua população masculina activa, a Áustria-Hungria 17,1% e a França 10,5%. As mortes civis na Alemanha foram 474.000 mais elevadas do que em tempo de paz, em grande parte devido à escassez  de alimentos e má-nutrição que enfraqueceram as resistências relativamente às doenças. Aquando do final da guerra, a fome já tinha morto cerca de 100.000 pessoas no Líbano. As melhores estimativas da fome na Rússia avaliam os números de mortos em 1921 de 5 a 10 milhões. Por volta de 1922, haviam entre 4,5 a 7 milhões de crianças sem lar na Rússia como resultado de cerca de uma década de devastação da Primeira Guerra Mundial, a Guerra Civil Russa e a fome de 1920-1922. 
Dos cerca de 416.000 australianos que serviram na guerra, 60.000 foram mortos e 152.000 foram feridos.


As doenças floresceram durante o caótico tempo de guerra. Só em 1914, uma epidemia de tifo transmitida por piolhos matou 200.000 pessoas na Sérvia. Entre 1918 a 1922, na Rússia o tifo infectou 25 milhões de pessoas e matou 3 milhões. Antes da guerra a Rússia tinha cerca de 3,5 milhões de casos de malária, em 1923 eram mais de 13 milhões. Para além disso uma epidemia de largas dimensões de gripe espalhou-se pelo mundo. No final, a pandemia de gripe de 1918 matou pelo menos 50 milhões de pessoas.

Crimes de Guerra

Incidents Baralong
A 19 de Agosto de 1915, o submarino alemão U-27 foi afundado pelo navio de guerra britânico HMS Baralong. Todos os sobreviventes alemães foram executados de forma sumária pela tripulação do Baralong por ordem do Tenente Dodfrey Herbert, o comandante do navio. O tiroteio foi relatado aos media por cidadãos americanos que estavam a bordo do Nicosia, um cargueiro britânico carregado com abastecimentos de guerra, que havia sido parado pelo U-27 alguns minutos antes do incidente.
A 24 de Setembro, o Baralong destruiu o U-41 que estava prestes a afundar o navio de carga Urbino.De acordo com Karl Goetz, o comandante do submarino, o Baralong continuou com a bandeira dos EUA asteada após atirar no U-41 e, em seguida embateu contra o salva-vidas que transportava os sobreviventes alemães, afundando-o.

Armas químicas na guerra
A introdução do uso de gás venenoso, como arma, foi feito primeiramente pela Alemanha Imperial a 31 de Janeiro de 1915 durante a Batalha de Bolimov, vindo a ser futuramente usado pelos principais beligerantes durante o resto da guerra. Estima-se que o uso de gás químico por ambas as partes, tenha causado cerca de 1,3 milhões de baixas. O uso de armas químicas violava a Declaração de Haia Relativa a Gases Asfixiantes de 1899 e a Convenção de Haia Sobre Guerra Terrestre de 1907.
O gás venenoso não estava limitado aos combatentes, mas estendia-se aos civis pois as cidades encontravam-se em risco devido aos ventos. Os civis raramente tiveram sistemas de avisos que avisasse os vizinhos do perigo. Para além dos sistemas de aviso deficitários, os civis morreram com frequencia por falta de máscaras eficazes. Estima-se que entre 100.000 a 200.000 baixas civis deveram-se devido a armas químicas durante o conflito e dezenas de milhar ou mais (juntamente com o pessoal militar) morreram devido a cicatrizes nos pulmões, danos na pele e lesões cerebrais nos anos que se seguiram.. Muitos dos comandantes de ambos os lados sabiam que o uso deste tipo de armas poderia afectar grandemente os civis devido aos ventos que estivessem nas cidades vizinhas, mas ainda assim continuaram a usá-las.

Genocídio e limpezas étnicas
A limpeza étnica da população Arménia do Império Otomano, que incluiu deportações em massa e execuções, durante os anos finais do Império Otomano é considerado genocídio. O Império Otomano vi-a toda a população arménia como um inimigo que havia escolhido estar do lado da Rússia no início da guerra. No início de 1915, alguns arménios juntaram-se às forças russas, e os governantes otomanos usaram este facto como pretexto para adionar a Lei Tehcir (Lei da Deportação). Com isto ficou autorizada a deportação de arménios das províncias orientais do Império para a Siria entre 1915 e 1917. Desconhece-se o número exacto de mortes: enquanto que Balakian oferece um valor que vai de 250.000 a 1,5 milhões de arménios mortos, A Associação Internacional de Estudiosos de Genocídio dá um número superior a um milhão. O governo da Turquia tem recusado de forma sistemática as acusações de genocídio, argumentando que os que morreram foram vitímas de conflitos étnicos, fome ou doença durante a Guerra Mundial. Houve outros grupos étnicos que foram atacados pelo Império Otomano durante este período, incluindo os assírios e gregos, e alguns eruditos consideram que fazia parte da mesma política de exterminação.

Império Russo
A Revolução Russa de 1917 foi acompanhada por muitos massacres e durante a Guerra Civil Russa que se seguiu, entre 60.000 a 200.000 judeus civis foram mortos nas atrocidades durante o antigo Império Russo. O grupo étnico alemão foi igualmente perseguido de forma brutal.

"A Violação da Bélgica"
Os invasores alemães tratavam qualquer resistência, tal como sabotar as linhas férreas, como ilegais e imorais e, em retaliação, atiravam sobre os agressores e queimavam edifícios. Ao que se juntava o facto de considerarem que a maioria dos civis eram potenciais "franc-tireurs" (guerrilheiros) o que fez com que tomassem e matassem muitos reféns civis entre a população. O Exército alemão executou mais de 6.500 civis belgas e franceses entre agosto e novembro de 1914, geralmente em tiroteios em grande escala, de forma quase aleatória, de civis ordenados por oficiais alemães júniores.  Destruiu entre 15.000 a 20.000 edifícios, sendo o mais conhecido o da biblioteca da Universidade de Louvain, e gerou uma onda de refugiados de mais de um milhão de pessoas. Mais de metade dos regimentos alemães na Bélgica estiveram envolvidos em incidentes graves. Milhares de trabalhadores foram enviados para a Alemanha para trabalhar em fábricas.
A propaganda britânica dramatizou o evento, designado "Rape of Belgium", o qual atraiu muita atenção por parte dos EUA, enquanto que Berlim disse que era tanto legal quanto necessário por causa da ameaça dos "franco-tireurs" como os da França de 1870.Os franceses e britânicos ampliaram o relatório e divulgaram-no tanto nos seus países quanto nos EUA, o que desempenhou um papel importante na dissolução do apoio para a Alemanha.


Prisioneiros de Guerra
Cerca de oito milhões de homens renderam-se e foram mantidos em campos de prisioneiros  durante a guerra. Todas as nações se comprometeram a seguir as Convenções de Haia sobre o justo tratamento dos prisioneiros de guerra. A taxa de sobrevivência entre estes prisioneiros era geralmente muito superior do que a dos seus pares que se encontravam na frente, sendo que não era comum as rendições individuais, pois geralmente eram efectuadas em massa de grandes unidades.
No cerco de Maubeuge renderam-se cerca de 40.000 soldados franceses; na Batalha da Galicia os russos levaram entre 100.000 a 120.000 prisioneiros austríacos; na ofensiva Brusilov, houve uma rendição para os russos  de entre 325.000 a 417.000 alemães e austríacos; na Batalha de Tannenberg renderam-se 92.000 russos. Quando a guarnição de Kaunas se rendeu em 1915, cerca de 20.000 russos tornaram-se prisioneiros; na Batalha perto de Przasnysz (Fev-Mar 1915) 14.000 alemães renderam-se aos russos; na Batalha do Marne 12.000 alemães renderam-se aos Aliados.
25-31% das perdas russas foram para o estatuto de prisioneiro de guerra; a percentagem da Áustria-Hungria foi de 32%, da Itália de 26%; da França 12%; da Alemanha 9%; da Grã-Bretanha 7%.
A Alemanha manteve 2,5 milhões de prisioneiros, a Rússia entre 2,2 a 2,9 milhões de prisioneiros, enquanto que a Grã-Bretanha e a França cerca de 720.000 e os EUA 48.000 prisioneiros. Muitos foram capturados pouco antes do armistício. O momento mais perigoso era no acto de rendição, quando muitos soldados indefesos eram mortos a tiro. Em geral quando os prisioneiros chegavam a um campo, as condições eram satisfatórias (e muito melhores do que na Segunda Guerra Mundial), em grande parte graças ao esforço da Cruz Vermelha Internacional e inspeção por parte de nações neutras. No entanto, as condições na Rússia eram terríveis: a fome era comum entre os prisioneiros, assim como para os civis. Cerca de 15 a 20% dos prisioneiros na Rússia morreram. Na Rússia, quando os prisioneiros da Legião Checa do Exército Austro-Húngaro foi libertado em 1917, eles rearmaram-se e durante algum tempo tornaram-se uma força militar e diplomática durante a Guerra Civil Russa.
Por sua vez, o Império Otomano também tratava os prisioneiros de guerra de forma pobre. Cerca de 11.800 soldados do Império Britânico, a maior parte indianos, tornaram-se prisioneiros depois do Cerco de Kut na Mesopotâmia em Abril de 1916 - 4.250 morreram em cativeiro. Embora muitos deles estivessem em más condições quando capturados, os oficiais otomanos obrigaram-nos a uma marcha de 1.100 km até à Anatólia. Então, os sobreviventes foram forçados a construir um caminho de ferro através da Montanha Taurus.
Enquanto que os prisioneiros Aliados das Potências Centrais foram rapidamente enviados para casa no fim das hostilidades, o mesmo tratamento não foi aplicado aos prisioneiros Potências Centrais dos Aliados e Rússia, sendo que muitos foram usados em trabalhos forçados, como por exemplo, na França, até 1920. Só foram libertados após muitas abordagens da Cruz Vermelha para o Conselho Supremo das Forças Aliadas. Prisioneiros alemães foram mantidos captivos na Rússia até 1924.

Memória Cultural

A Primeira Guerra Mundial teve um impacto social duradouro na memória. Foi vista por muitos britânicos  como um sinal do fim de uma época de estabilidade que remonta ao período vitoriano, e por toda a Europa muitos consideraram-na como um ponto de viragem. Como o historiador Samuel Hynes explica: 
"Uma geração de homens jovens inocentes, com as cabeças cheias de abstrações elevadas como Honra, Glória e Inglaterra foram para a guerra para tornar o mundo seguro para a democracia. Foram massacrados em batalhas estúpidas planeadas por generais estúpidos. Os que sobreviveram ficaram chocados, desiludidos e amargurados pela sua experiência de guerra, e viram que os seus inimigos reais não eram os alemães, mas o homem velho em casa que lhes havia mentido. Rejeitaram os valores da sociedade que os havia enviado para a guerra, e ao fazê-lo, separando a sua própria geração com o passado e com a sua herança cultural."

Esta tornou-se a percepção mais comum da Primeira Guerra Mundial, perpetuada pela arte, cinema, poemas e estórias publicadas posteriormente. Filmes como All Quiet on the Western FrontPaths of Glory e Kings & Country perpetuaram esta ideia, enquanto que outros filmes como CamradesPoppies of Flanders e Shoulder Arms apresentam uma visão mais contemporânea da guerra onde era, em geral, muito mais positiva. Da mesma forma, a arte de Paul Nash, John Nash, Christopher Nevinson e Henry Tonks, na Grã-Bretanha, representaram uma visão negativa do conflito que se manteve com uma percepção  crescente, enquanto que artistas populares do tempo de guerra como Muirhead Bone representaram nas suas pinturas cenas mais serenas e interpretações mais agradáveis, que vieram a ser rejeitadas como incorrectas. Diversos historiadores como John Terraine, Niall Ferguson e Gary Sheffield desafiaram estas interpretações como visões parciais e polémicas:
"Estas crenças não foram partilhadas de forma geral porque elas ofereciam a única interpretação acurata dos eventos de guerra. Em todos os aspectos, a guerra foi muito mais complicada do que eles sugeriram. Em anos recentes, os historiadores têm sugerido de forma persistente contra a maior parte dos clichés populares da Primeira Guerra Mundial. Tem sido apontado, que embora as perdas tenham sido devastadoras, o seu maior impacto foi social e limitado geograficamente. Tem sido reconhecidas as muitas emoções para além do horror experimentado pelos soldados na frente e fora desta, que incluiram camaradagem, aborrecimento, e até mesmo satisfação. Atualmente a guerra não é vista como "uma luta sobre nada", mas uma guerra de ideais, uma luta entre um militarismo agressivo e uma democracia mais ou menos liberal. Tem sido reconhecido que  os generais britânicos eram muitas vezes homens capazes perante desafios dificeis, e que foi debaixo do seu comando que o exército britânico teve um papel maior na derrota  dos Alemães em 1918: uma grande vitória esquecida." (The Great War: myth and memory, Daniel Todman, 2005)

Embora estas visões tenham sido passadas a "mitos", esta percepção da guerra é comum. Tem mudado dinamicamente de acordo com as influencias contemporâneas, reflectindo as percepções da década de 1950 da guerra como "sem objectivo" seguindo a contrastante Segunda Guerra Mundial e dando ênfase ao conflito dentro das fileiras durante os anos de 1960.

Trauma Social

O trauma social causado por taxas de baixas sem precedentes, manifestou-se de formas diferentes, que têm sido assunto nos debates históricos que se seguiram. Enquanto que por um lado houve revolta pelo nacionalismo e pelos seus resultados, e iniciou-se o trabalho para um mundo mais internacional, em apoio de organizações como a Liga das Nações, e o pacifismo tornou-se mais popular; por outro, a reacção oposta também se manifestou, o sentimento de que só uma força forte e militar poderia ser fiável num mundo humano caótico. Visões anti-modernistas encontravam-se em crescimento entre as muitas mudanças da sociedade. 
As experiências da guerra levaram a um trauma colectivo partilhado por muitos de todos os países participantes. O optimismo de la belle époque foi destruído, e aqueles que haviam lutado na guerra foram referidos como a Geração Perdida. Nos anos seguintes, as pessoas lamentaram a morte, a perda e os muitos os muitos inválidos. Muitos soldados voltaram com traumas severos, muitos sofrendo de neurastenia (uma condição relacionada com a desordem de stress pós-traumático). Muitos mais voltaram para casa com pequenas sequelas; no entanto o seu silencio sobre a guerra contribuiu para o crescimento do estatuto mitológico do conflito. Na Grã-Bretanha, a mobilização de massas, grandes taxas de baixas e o colapso da era eduardiana tiveram uma impressão forte na sociedade. Embora muitos participantes não partilhassem das experiências de combate ou passassem tempo significativo na linha da frente, ou tivessem lembranças positivas do seu serviço, as imagens de sofrimento e o trauma tornaram-se uma percepção largamente partilhada. Historiadores como Dan Todman, Paul Fussell e Samuel Heyns publicaram todos trabalhos desde a década de 1990, argumentando que esta percepção comum da guerra estava na realidade incorrecta.

Descontentamento na Alemanha

A ascensão do nazismo e fascismo incluíram um renascimento do espírito nacionalista e uma rejeição de muitas mudanças do pós-guerra. De forma semelhante, a popularidade da lenda de "facada nas costas" foi um testemunho para o estado psicológico da derrotada Alemanha e foi uma rejeição da responsabilização para o conflito. Esta teoria de conspiração de traição tornou-se muito comum, e a população alemã passou a ver-se como vítimas. A aceitação generalizada da teoria de traição desligitimizou o governo Weimer e destabilizou o sistema, abrindo-o aos extremistas de esquerda e direita. Um sentido de desilusão e cinismo tornou-se cada vez mais pronunciado com o crescimento do niilismo.
Os movimentos comunistas e fascistas cresceram com força pela Europa a partir desta teoria e gozaram de um aumento de popularidade. Estes sentimentos obtiveram uma maior pronunciação nas áreas mais duramente afectadas pela guerra. Adolf Hitler conseguiu obter popularidade ao usar o descontentamento alemão com o controverso Tratado de Versalhes. Em parte, a Segunda Guerra Mundial foi uma continuação da luta pelo poder, nunca concluído da Primeira Guerra Mundial. Além de que, era comum entre os alemães de 1930 justificarem actos de agressão em termos da percepção pelas injustiças impostas pelos vitoriosos da Primeira Guerra Mundial. 

A Visão nos EUA

A intervenção dos EUA na guerra, assim como a própria administração de Wilson, tornou-se bastante impopular. Isto reflectiu-se na rejeição por parte do Senado americano do Tratado de Versalhes e não adesão à Liga das Nações. Na época entre guerras, assumiu-se um consenso que a intervenção dos EUA tinha sido um erro, e o Congresso passou leis numa tentativa de manter a neutralidade dos EUA em face a futuros conflitos. Inquéritos feitos em 1937 e nos meses do início da Segunda Guerra Mundial mostraram que 60% dos inquiridos viam a intervenção americana na Primeira Guerra Mundial como um erro, contra 28%. Mas entre o tempo que se seguiu à queda da França e o o ataque de Pearl Harbor, a opinião do publico mudou e apenas uma pequena faixa considerou a intervenção americana ter sido um erro.

Efeitos Económicos

Economicamente a Europa saiu da guerra completamente desorganizada, com graves problemas nos sectores agrícola e industrial. Os grandes beneficiários desta situação foram os EUA e o Japão. No caso do Japão o país beneficiou com o afastamento dos  concorrentes europeus comuns, o que veio a permitir o estímulo e a diversificação da sua industria. Por seu lado, os EUA Lucraram ao verem as suas reservas de ouro a duplicarem, ficando na sua posse metade do ouro disponível a nível mundial. Este poderio económico permitiu aos EUA substituírem pouco a pouco a proponderância financeira europeia, em particular na América do Sul. 
Segundo o Tratado de Versalhes a Alemanha era considerada a grande responsável pela guerra, tendo que pagar 22 milhões de marcos/ouro como reparação dos danos às populações civis. A maior parte deste dinheiro foi para a França (52%) e Grã-Bretanha (22%).
Um dos efeitos mais dramáticos da guerra foi a expansão dos poderes governamentais e responsabilidades na Grã-Bretanha, França, Estados Unidos e domínios do Império Britânico. A fim de aproveitar todos os poderes das suas sociedades, os governos criaram novos ministérios e poderes. Foram cobrados novos impostos e promulgadas novas leis, todas elaboradas para reforçar o esforço de guerra. Da mesma forma, a guerra esforçou as habilidades de alguns governos de grandes dimensões e burocráticos, como a Áustria-Hungria e a Alemanha, no entanto, qualquer análise a longo termo destes efeitos foram obscurecidos pela derrota destes governos. 
Embora o PIB (Produto Interno Bruto) tenha aumentado para três países Aliados (Grã-Bretanha, Itália e EUA), desceu na França e Rússia, Holanda e nos principais três Poderes Centrais. A contração do PIB na Áustria, Rússia, França e Império Otomano chegou a valores que foram dos 30 a 40%. Na Áustria, por exemplo, a maior parte dos porcos haviam sido mortos, então no final da guerra não havia praticamente carne.
Desenvolveram-se consequências tanto a nível macro quanto micro da guerra. Muitas famílias viram o seu agregado familiar a ser alterado pela partida do homens. Com a morte ou ausência da principal fonte de rendimentos na família, as mulheres foram forçadas a entrar na força laboral como nunca antes. Ao mesmo tempo, a indústria necessitava de repôr os trabalhadores que haviam sido enviados para a guerra. Isto ajudou na luta pelo direito de votos das mulheres. Para além disso, a guerra agravou ainda mais o desequilíbrio entre os géneros, com um excedente de mulheres. O número de mulheres solteiras à procura de meios económicos aumentou dramaticamente. A estes factores somou-se o elevado desemprego causado pelo retorno dos homens aquando da desmobilização, e mesmo entre muitas mulheres que passaram a ser dispensadas.
Na Grã-Bretanha o racionamento foi finalmente imposto no início de 1918, limitando a carne, o açúcar e as gorduras (manteiga e margarina), mas não o pão. De 1914 a 1918 a filiação sindical duplicou, passando de pouco mais de quatro milhões para oito milhões. As paralisações e greves tornaram-se frequentes em 1917-18 como os sindicatos apresentavam reclamações em relação aos preços, controle do álcool, pagamento de disputas, fadiga devido às horas extraordinárias e trabalho aos domingos, e habitações inadequadas. A Grã-Bretanha voltou-se para as suas colónias para a obtenção de materiais de guerra essenciais, cujo fornecimento se tinha tornado difícil pelos meios habituais. Foram chamados geólogos como Albert Ernst Kitson para procurarem recursos de minerais preciosos nas colónias africanas. Kitson descobriu novos depósitos importantes de manganês, usado na produção de munições, na Costa Dourada.

Sociedade das Nações

Também se aprovou a 14ª proposta do presidente americano Woodrow Wilson no sentido da criação de uma nova organização internacional - a Sociedade das Nações. Esta decisão foi de encontro ao antigo desejo a nível internacional da criação de uma entidade supranacional capaz de regular as relações dos estados, com base em dois princípios:
  • a organização teria o dever de intervir nos conflitos entre os estados 
  • assegurar o primado do direito internacional.
Orgãos: 
  1. Assembleia - constituída por representantes  dos estados-membros (63 ao longo da sua história)
  2. Conselho - composto por membros permanentes, semipermanentes e temporários, que reunia três vezes por ano;
  3. Secretário Geral
A intervenção da Sociedade das Nações nos conflitos entre as nações previa sanções económicas e militares contra o estado agressor, ficando ao critério deste a decisão de acatar a sanção. As decisões tinham de obter a unanimidade de todos os membros.
Apesar de se ter ficado com a sensação de que a Sociedade falhou, grande parte devido a alguns membros mais poderosos que não investiram na sua sobrevivência (por exemplo, os EUA nunca foram membros apesar de a instituição ter surgido através de uma proposta do presidente americano Wilson), houve intervenções por parte desta positivas: a resolução de pequenos conflitos nos Balcãs e na América do Sul; a criação da Organização Internacional do Trabalho e do Tribunal Internacional de Justiça; acordos em assuntos sociais, económicos e culturais. No entanto, a organização não evitou as agressões do Japão à Manchúria (1931), o ataque da Itália à Etiópia (1935), o da Alemanha à Áustria e à Checoslováquia ou a intervenção estrangeira na guerra civil de Espanha. 




Fontes

http://en.wikipedia.org/wiki/World_War_I
http://www.infopedia.pt/$consequencias-da-primeira-guerra-mundial
História A - 12º, Mário Sanches, Edições Asa, 2009/2ª edição
Imagens: Google


Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...