15/12/2015

Porquê a Guerra?

Albert Einstein & Sigmund Freud

A Correspondência Einstein-Freud (1931-1932)


A correspondência entre Albert Einstein e Sigmund Freud acerca da paz e guerra foi publicada num panfleto com o título "Porquê a Guerra?".

O panfleto "Correspondências" onde se encontravam as cartas de Einstein-Freud foi publicada ao mesmo tempo em três línguas:
  • Alemão, Warum Krieg?, pelo Internationales Institut fur geistige Zusammenarbeit, Volkerbund, Paris
  • Inglês, Why War?, traduzido por Stuart Gilbert, International Institute of Intellectuel Co-operation, League of Nations, Paris
  • Francês, Porquoi la guerre?, traduzido por Blaise Briod, Institut International de Coopération Intellectuelle, Société des Nations, Paris
O panfleto surgiu logo após a subida de Hitler ao poder na  Alemanha, e teve uma circulação muito pequena. Tendo sido logo proibida a sua circulação neste país.
Einstein era conhecido como pacifista, tendo mesmo sido acusado por uma alta patente do Exército dos Estados Unidos de ensinar traição à juventude americana. O físico acreditava que a agressão tinha uma base biológica, como é demonstrado na sua correspondência com o seu amigo Heinrich Zangger de Zurique, em 1915: "O que leva as pessoas a matar e a mutilarem-se tão selvagicamente? Eu penso que é o caracter sexual masculino que leva a explosões selvagens."

Albert Einstein e Sigmund Freud partilhavam ambos o facto de terem criado uma revolução científica nos respectivos campos; ambos eram judeus internacionais de língua alemã e já Einstein já tinha tentado anteriormente envolver Freud num movimento que viria a abraçar, o sionismo.
Freud e Einstein tiveram um breve encontro no Ano Novo de 1927, em que o psicanalista disse de Einstein: "Ele é alegre, seguro de si e agradável. Sabe tanto de psicologia como eu de física, mas tivemos uma conversa muito agradável." O agradável da conversa deu-se por, como Einstein não acreditava na psicanálise, ambos terem falado de política, fugindo aos temas relacionados com os campos de cada um.
A presença de Einstein entre os membros da Comissão Internacional de Cooperação Intelectual foi irregular, e quando este trocou correspondência com Freud relativo ao assunto guerra, já se havia demitido da Sociedade há mais de um ano.
Em Maio de 1922, Einstein foi convidado para se associar à Comissão como "representante da ciência alemã", apesar de a Alemanha só ter sido admitida na Sociedade das Nações em 1926.
A correspondência deu-se numa altura negativa. Na época vivia-se debaixo da sombra de um paradoxo:
  • por um lado, devido aos horrores ainda vivos na memória, causados pela 1ª Guerra Mundial, havia uma profunda aversão à guerra;
  • por outro, devido a esta aversão, e também à grande crise financeira que se vivia, os governos estavam relutantes em fazerem frente aos ditadores agressivos que começavam a surgir no Japão, Alemanha e Itália.
Assim, o paradoxo era o de que para prevenir uma guerra, era necessário usar a força e agressão.

A carta que Einstein enviou a Freud, relativo ao projecto da Organização dos Líderes Intelectuais, foi enviada em 1931, ou 1932


Prezado Senhor Freud,

Admiro muito a vossa paixão para apurar a verdade - uma paixãp que veio a dominar tudo o resto no vosso pensamento. O senhor tem mostrado com uma lucidez irresistível a forma como os inseparáveis instintos agressivos e destrutivos estão ligados na psiche humana com os de amor e luxúria de viver. Ao mesmo tempo, os vossos argumentos convicentes manifstam a vossa profunda devoção ao grande objetivo da libertação interna e externa do homem dos males da guerra. Esta tem sido a profunda esperança de todos aqueles que têm sido reverenciados como líderes morais e espirituais, além dos limites do seu tempo e país, desde Jesus a Goethe e Kant. Não é significante que estes homens tenham sido reconhecidos universalmente como líderes, apesar do seu desejo de afectar o curso dos assuntos humanos ter sido bastante ineficaz?

Eu estou convencido que quase todos os grandes homens que, por causa das suas realizações, são reconhecidos como líderes até mesmo se pequenos grupos partilham dos mesmos ideais.  Quase que pareceria aue o próprio domínio da atividade humana mais importante para o destino das nações está inevitavelmente nas mãos de governantes políticos completamente irresponsáveis. Os líderes políticos ou governos devem o seu poder ou ao uso da força ou à sua eleição pelas massas. Não podem ser considerados como representativos dos elementos morais ou intelectuais superiores numa nação. No nosso tempo, a elite intelectul não exerce nenhuma influência directa na história do mundo; o próprio facto da sua divisão em muitas facções, torna impossível para os seus membros cooperarem na solução dos problemas atuais. O senhor não partilha o sentimento de que uma mudança poderia ser provocada por uma associação livre de homens cujo trabalho e realizações anteriores oferecem uma garantia da sua capacidade e integridade? Tal grupo de âmbito internacional, cujos membros teriam de manter contacto uns com os outros através de um intercâmbio constante de opiniões, pode ganhar uma influência significativa e saudável na solução dos problemas políticos, se as suas atitudes,  apoiadas pelos membros concordantes, fossem tornadas públicas através da imprensa. Tal associação iria, evidentemente, sofrer de todos os defeitos que têm tantas vezes levado à degeneração em sociedades eruditas; o perigo que tal degeneração possa desenvolver-se está, infelizmente, sempre presente devido às imperfeições da natureza humana. No entanto, e apesar destes perigos, não deveriamos nós fazer ao menos uma tentativa de formarmos tal sociedade? Parece-me, a mim, que é nada menos do que um dever imperativo!

Uma vez que tal associação de intelectuais - homens de intelectualidade e grandeza morais reais - tenha sido criada, pode então fazer um esforço energético, com uma lista de grupos religiosos, na luta contra a guerra. A associação iria dar poder moral à ação de muitas personalidades cujas boas intenções estão hoje paralizadas por uma atitude de resignação dolorosa. Também acredito que tal associação de homens, que são altamente respeitados pelas suas realizações pessoais, iriam providenciar suporte moral àqueles elementos na Liga das Nações que apoiam ativamente o grande objetivo para o qual essa instituição foi criada.
Eu ofereço-lhe estas sugestões a si, invés de qualquer outra pessoa no mundo, porque o vosso sentido de realidade é menos nublado por wishful thinking  do que é o caso com outras pessoas, e uma vez que combina as qualidades de juízo crítico, seriedade e responsabilidade.

(A tradução acima é minha, quaisquer erros presentes são da minha responsabilidade, pelos quais peço desde já desculpa)



O ponto alto na relação entre Einstein e Freud deu-se no Verão de 1932, quando por convite do Instituto Internacional de Cooperação Intelectual, Einstein iniciou um debate público com Freud sobre as causas e soluções da guerra.
A Carta oficial de Einstein data de 30 de julho de 1932, e era acompanhada da seguinte nota:

Eu gostaria de aproveitar esta oportunidade para lhe enviar os meus calorosos cumprimentos pessoais e para lhe agradecer as muitas horas agradáveis que tive ao ler o seu trabalho.
É sempre divertido para mim observar que mesmo aqueles que não acreditam nas vossas teorias, acham tão difícil resistir às vossas ideias que usam a vossa terminologia nos seus pensamentos e discurso, quando estão desprevenidos.

As cartas,  trabalho  da Fac.Belas-Artes da Univ. Lisboa







Fontes
Porquê a Guerra, Albert Einstein e Sigmund Freud, Publicações Europa-América, Junho de 2007


Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...