02/12/2015

O Princípio

 «No princípio era o caos. E do caos nasceram Úrano, o céu, e Gaia, a terra. Úrano foi o primeiro soberano do universo. Repousava sempre em cima de Gaia, a fértil deusa dos longos flancos, e cobria-a toda inteira, de uma ponta à outra até ao infinito, e por isso ambos foram, com o tempo, os progenitores de todas as criaturas viventes. Então não havia noite nem dia porque Hélio, o Sol, e Selene, a Lua, não haviam ainda nascido. As próprias estrelas foram procriadas mais tarde. E entre os seus filhos estiveram os hecatonquiros, com cem mãos e cinquenta cabeças, os ciclopes, assim chamados, olhos de roda, porque só tinham um na testa, e os titãs, de elevada estatura. Úrano detestava-os a todos e conforme nasciam encerrava-os no tártaro, tão longe da terra como a terra do céu, até que Gaia, farta da assiduidade de Úrano, o tempo todo sobre sobre ela, e do destino que reservava aos seus filhos, decidiu pôr-lhe um fim armando Cronos, seu filho, o mais novo dos Titãs, com uma enorme foice de gume dentado. Depois ocultou-o entre as pernas de modo que, ao aproximar-se Úrano com o desejo de copular uma vez mais com ela, Cronos estendeu o braço armado e arrebanhou de um só golpe o sexo do seu pai. Algumas gotas de sangue salpicaram a terra e delas nasceram as Eríneas ou fúrias, deidades da expiação e da vingança em cujas cabeças cresceram serpentes em vez de cabelos. Por sua vez, os genitais do deus caíram ao mar, que começou a remover-se, a agitar-se, a ferver, a borbulhar, a fazer espuma. E dessa efervescência, desse membro mutilado de Úrano, brotou, navegando sobre uma concha de nácar, a celeste Afrodite, deusa do amor e do desejo, cujo nome significa, por esse motivo, "nascida da espuma"».


Tróia ao Entardecer, António Sarabia, Setembro de 2008, Casa das Letras

Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...