10/12/2015

O Livro de Enoque




O Livro de Enoque é um documento religioso antigo judaico, atribuído pela tradição a Enoque, o bisavô de Noé, embora os estudiosos modernos estimem que as secções mais antigas (principalmente no Livro dos Vigilantes) date de cerca de 300 a.C., e a última parte do Livro seja provavelmente do século I a.C.

Com exceção dos Beta Israel, este Livro não faz parte do Cânone bíblico judaico. A maioria das denominações e tradições cristãs aceitam os livros de Enoque como tendo valor histórico ou teológico, mas na sua generalidade o cristianismo considera os livros de Enoque como não-canónicos ou não inspirados. Na realidade só é considerado canónico pelas Igreja Etíope Ortodoxa Tewahedo e Igreja Ortodoxa Eritreia Tewahido.
O Livro só existe na íntegra no idioma Ge'ez, com fragmentos em aramaico dos Manuscritos do Mar Morto e outros em grego e latim. Entre outras, esta é a principal razão para a crença etíope de que a língua original do trabalho seja o Ge'ez, enquanto que os académicos não-etíopes tendem a defender que o Livro tenha sido escrito pela primeira vez ou em aramaico ou em hebraico. E. Isaac sugere que o Livro de Enoque, tal como o Livro de Daniel, tenha sido parcialmente escrito em aramaico e parcialmente em hebraico. Não se conhece nenhuma versão em hebraico que tenha sobrevivido.
Os autores do Novo Testamento estavam familiarizados com o conteúdo da história e foram influenciados por ela.


Conteúdo

Versão aramaica de Qumram
Existem muitos excertos aleatórios no livro que estão descontextualizados ou simplesmente não fazem sentido. Fazendo uma breve referencia ao conteúdo dos excertos que fazem sentido no livro, estes resumem-se da seguinte forma:
  • 4Q201 – Enumera os nomes em aramaico dos vinte chefes dos anjos caídos;
  • 4Q204 – Relata o milagroso nascimento de Noé cujo paralelismo é notório com o de Génesis Apócrifo e os fragmentos do Livro de Noé;
  • 4Q206 – Este é o mais divergente com a versão etíope;
  • 4Q209 – Chamado Livro Astronómico, é consideravelmente mais longo que a versão etíope.
Versão etíope (versão copta)
  • 1–36 O Livro dos Vigilantes (ou Sentinelas, ou ainda, Observadores)
  • 37–71 O Livro de Parábolas (também chamado: O Similitudes de Enoque)
  • 72–82 O Livro Astronómico
  • 83–90 O Livro dos Sonhos
  • 91–108 A Epístola de Enoque

Versões em grego e latim
O trabalho do século VIII Chronographia Universalis do historiador Jorge Sincelo preservou algumas passagens do Livro de Enoque em grego (6:1 - 9:4, 15:8 - 16:1). Outros fragmentos conhecidos são:
  • Codex Panopolitanus (Papiro do Cairo 10759), também designado de Codex Gizex ou Fragmentos de Akhmim, que consistem em fragmentos de dois papiros do sec. VI, contendo duas partes dos capítulos 1 - 32, que foram recuperados por uma equipe arqueológica francesa em Akhmim, no Egito, e publicado cinco anos depois, em 1892.
  • Codex Vaticanus Gr. 1809, f. 216v (século XI), incluindo 89: 42-49
  • Chester Beatty Papyri XII: incluindo 97:6 - 107:3
  • Oxyrhynchus Papyri 2069: inclui apenas algumas letras, o que torna a identificação incerta de 77:7-78:1, 78:1-78:8, 85:10-86:2, 87:1-3
Tem-se afirmado que foram encontrados mais alguns fragmentos em grego em Qumram (7QEnoque: 7Q4, 7Q8, 7Q10-13), que datam de cerca de 100 a.C, que vão desde 98:11? a 103:15, e escrito em papiro, mas trata-se de afirmações bastante contestada.
Quanto à tradução latina, só são conhecidas as 1:9 e 106:1-18. A primeira passagem dá-se em Pseudo-Cipriano e Pseudo-Vigilius, a segunda foi descoberta em 1893 por M.R. James num manuscrito do século VIII, no Museu Britânico e publicado nesse mesmo ano.

Canonicidade

Judaísmo
Embora fosse bastante conhecido durante o desenvolvimento do cânone da Bíblia Hebraica, o Livro de Enoque foi excluído tanto do cânone formal do Tanakh, como da Septuaginta, logo, do que é atualmente conhecido como o Deuteronómio. Uma razão possível para a rejeição judaica do livro pode ter sido a natureza textual de várias secções primitivas do Livro que fazem uso de material da Torá. O conteúdo, particularmente a descrição detalhada dos anjos caídos, também seria uma forte razão para a exclusão do cânone hebraico da época.

Cristianismo
Aquando do séc. IV, o Livro de Enoque encontrava-se excluído pela maior parte dos cânones cristãos, fazendo apenas parte das Escrituras da Igreja Ortodoxa Etíope e da Igreja Ortodoxa Eritreia.
Referências no Novo Testamento
Enoque é referido como uma pessoa histórica e um profeta, e é citado em Judas 1:14-15
Também Enoque, o sétimo depois de Adão, profetizou acerca desses indivíduos, quando disse: «Eis que o Senhor veio com os Seus exércitos de anjos para fazer o julgamento universal e convencer todos os ímpios de todas as suas impiedades criminosas e de todas as palavras insolentes que os pecadores ímpios proferiram contra Ele.»
Compare-se esta passagem com a versão do Livro de Enoque Etíope (encontrada igualmente no pergaminho de Qumran 4Q201=4QEnochc ar, col I 16-18):
1.9 E veja! Ele vem com dez mil Santos, para realizar julgamento sobre eles, e destruir os ímpios, e contender com toda a carne concernente a tudo que os pecadores e os ímpios fizeram e laboraram contra Ele.
Compare-se ainda com o Deuteronómio 33:2:
Javé veio do Sinai
amanheceu para eles de Seir,
resplandeceu do monte Farã
Veio ter com eles
da assembleia de Cades,
desde o Sul até às encostas.

A nível canónico não é possível demonstrar que algo é citado. Em vez disso é necessário demonstrar a natureza da citação. No caso de Judas 14 de 1 Enoque 1:9, seria difícil argumentar-se que Judas não cita Enoque como um profeta histórico uma vez que cita Enoque pelo nome. No entanto, continua a persistir a questão se o autor de Judas atribuiu a citação por acreditar que a fonte seria o Enoque histórico antes da inundação ou um midrash (maneira de interpretar histórias bíblicas que vai além de simples destilação de ensinamento religioso, legal ou moral) do Deuteronómio 33:2-3.
Peter H. Davids aponta para as evidências dos Pergaminhos do Mar Morto, mas deixa em aberto se em Judas 1 Enoque foi visto como cânone, deuterocanónico ou outra coisa: " Considerou Judas, então, esta escritura ser como o Génesis ou Isaías? Certamente considerou-o com autoridade, uma verdadeira palavra de Deus. Não podemos dizer se ele o classificou juntamente com outros livros proféticos como Isaías e Jeremias. O que sabemos é, em primeiro lugar, que outros grupos judaicos, principalmente aqueles que viveram em Qumram, perto do Mar Morto, também utilizaram e valorizaram o Livro de Enoque, mas não o encontramos junto com os pergaminhos das escrituras."

Receção

O Livro de Enoque que havia sido considerado como escritura na Epístola de Barnabé e por muitos dos Padres da Igreja, como Atenágoras, Clemente de Alexandria, Irineu e Tertuliano, o qual, cerca de 200 d.C, foi rejeitado pelos judeus por conter profecias referentes a Cristo. No entanto, mais tarde, também os Padres vieram a negar a canonicidade do Livro e, alguns, consideraram mesmo a carta de Judas não-canónica pois fazia referência a um trabalho apócrifo.

Igreja Ortodoxa Etíope
A crença tradicional da Igreja Ortodoxa Etíope que vê o Livro de Enoque como um documento inspirado, é de que o texto Etíope é o original, escrito pelo próprio Enoque.
Esta igreja acredita que a frase de Enoque: "Palavra de benção de Henok, com os quais ele abençoou os escolhidos e justos que estariam vivos no dia da tribulação para a remoção de todos os malfeitores e apóstatas.", é a primeira e mais antiga frase escrita em qualquer linguagem humana, uma vez que Enoque foi o primeiro a escrever cartas.

História

Período do Segundo Templo
A publicação de 1976 por Milik dos resultados da datação paleográfica dos fragmentos enoquianos encontrados em Qumran provocaram um grande avanço nos estudos enoquianos. De acordo com este académico, que estudou os manuscritos originais durante muitos anos, os fragmentos mais antigos do Livro dos Vigilantes datam de 200-150 a.C. Uma vez que o Livro dos Vigilantes apresenta sinais de múltiplos estágios de composição, é provável que esta obra já existisse no século III a.C., assim como o Livro Astronómico.
Deixou de ser possível afirmar-se que o núcleo do Livro de Enoque tenha sido elaborado na sequência da Revolta dos Macabeus como uma reação à helenização. Desta forma, teve de se olhar para as origens das secções qumrânicas do Livro de Enoque, no período anterior, e a comparação com o material tradicional da época mostram que estas secções não estabelecem exclusivamente em categorias e ideias de destaque na Bíblia hebraica. Alguns académicos falam mesmo de um "judaísmo enoquiano" a partir dos quais descenderam os escritores dos manuscritos de Qumran. Margaret Barker defende, "Enoque é a escrita de um grupo muito conservador cujas raízes vão diretamente à época do Primeiro Templo".
Os principais aspectos peculiares do judaísmo enoquiano são:
  • A ideia da origem do mal causada pela queda dos anjos, que vieram à Terra para se unirem com mulheres humanas. Estes anjos caídos são considerados, em última instância, responsáveis pela disseminação do mal e impureza sobre a Terra;
  • A ausência no Livro de Enoque de paralelos formais com as leis e mandamentos específicos encontrados na Torá mosaica e de referências a questões como a observância do sabat ou do rito da circuncisão. A aliança do Sinai e a Torá não são de importância central no Livro de Enoque;
  • O conceito do "Fim dos Dias", como o tempo do julgamento final que toma o lugar de recompensas terrenas prometidas;
  • um calendário solar por oposição ao calendário lunar do Segundo Templo (um aspecto muito importante para a determinação das datas dos festivais religiosos);
  • Um interesse no mundo angélico que envolve a vida depois da morte.
A maior parte dos fragmentos de Qumran são relativamente primitivos, com nenhum a ser escrito após o período da experiência qumrânica, o que pode ser demonstrativo de que a comunidade de Qumran tenha vindo a perder o interesse no Livro de forma gradual.
A relação entre o Livro de Enoque e os Essénios foi notada antes mesmo da descoberta dos Manuscritos do Mar Morto. Apesar de haver consenso ao se considerar que as secções do Livro de Enoque encontradas em Qumran seriam textos usados pelos Essénios, o mesmo não se pode dizer para os textos enoquianos não qumrânicos (principalmente o Livro das Parábolas). Os principais aspetos peculiares das unidades so Livro de Enoque não-qumrânicos são:
  • Um Messias chamado de "Filho do Homem", com atributos divinos, gerado antes da Criação, que atuará diretamente no julgamento final e sentar-se-á num Trono de Glória (Livro de Enoque 46:1-4; 48:2-7; 69:26-29);
  • Os pecadores são geralmente vistos como os ricos e os justos como os oprimidos (um tema encontrado igualmente nos Salmos de Salomão).

Influência Inicial

A literatura clássica rabínica é caracterizada por um quase silêncio total no que diz respeito a Enoque. É possível que a polémica contra os textos de Enoque e tradições pode ter levado a uma perda destes livros no Judaísmo Rabínico.
O Livro de Enoque tem um papel importante na história do misticismo judaico: o grande académico  Scholem Gershom escreveu: "O assunto principal do misticismo Merkabah tardio já ocupava uma posição central na antiga literatura esotérica, com a sua melhor representação no Livro de Enoque". É dada uma atenção particular à descrição detalhada do trono de Deus no capítulo 14 do Livro de Enoque.
Não existem dúvidas que o Livro de Enoque influenciou as doutrinas do Novo Testamento acerca do Messias, o Filho do Homem, o reino messiânico, a demonologia, a ressurreição e a escatologia. Os limites da influencia do Livro de Enoque são bastante discutidos por R.H Charles, E.Isaac e G.W. Nickelsburg nas suas traduções e comentários. É possível que as secções mais antigas do Livro de Enoque tivessem influencia direta no conteúdo de muitos livros apócrifos da Bíblia como o Jubileu, o Livro Dois de Baruque, o Apocalipse de Abraão e o Livro Dois de Enoque, embora mesmo nestes casos, a ligação é feita através de ramificações do que do texto original principal.
Os textos gregos são conhecidos, e citados, tanto positiva quanto negativamente pelos Padres da Igreja. As referências ao Livro de Enoque podem ser encontradas no Mártir Justino, em Marcos Minúcio Félix, Santo Irineu, Orígenes, Cipriano, Hipólito de Roma, Comodiano, Lucio Célio Firmiano Lactâncio e João Cassiano, embora estas referências sejam exclusivas aos cinco primeiros capítulos do Livro de Enoque. Após Cassiano e antes da "redescoberta" moderna, alguns excertos são dados pelo monge Jorge Sincelo do Império Bizantino, no século VIII na sua cronografia, e no século IX é listado como um apócrifo do Novo Testamento pelo Patriarca Nicéforo I de Constatinopla.

Redescoberta

Sir Walter Raleigh, na sua História do Mundo (escrita em 1616, enquanto se encontrava prisioneiro na Torre de Londres), faz uma declaração interessante de que a parte do Livro de Enoque "que contém o curso das estrelas, os seus nomes e movimentos" havia sido descoberto em Saba (Sheba) no século I, estando, portanto, disponível a Orígenes e a Tertuliano. Raleigh atribui esta informação a Orígenes, embora não tenha sido encontrada confirmação para esta afirmação.
Fora da Etiópia, o texto do Livro de Enoque foi considerado perdido até ao início do século XVII, quando se confirmou que o Livro fora encontrado num idioma etíope, Ge'ez, e Nicolas-Claude Fabri de Peiresc comprou um livro que se dizia ser uma cópia idêntica à citada na Epístola de Judas e pelos Pais da Igreja. Hiob Ludolf, o grande académico etíope dos séculos XVII e XVIII, rapidamente declararam-na como uma falsificação produzida por Abba Bahaila Michael.
Mais sucesso teve o famoso viajante James Bruce que, em 1773, voltou à Europa após seis anos na Abissínia, com três cópias da versão Ge'ez. Uma encontra-se preservada na Biblioteca Bodleiana, outra na Biblioteca Real de França, enquanto que a terceira ficou com Bruce. As cópias ficaram sem uso até ao século XIX quando Silvestre de Sacy, nas "Notices sur le livre d'Enoch" inclui extratos dos livros com traduções em latim (capítulos de Enoque 1,2, 5-16, 22 e 32). A partir daqui foi feita uma tradução alemã por Rink em 1801.
A primeira tradução em inglês do manuscrito Bodleiano/Etíope foi publicado em 1821 por Richard Laurence, intitulado O Livro de Enoque, o profeta: uma produção apócrifa, supostamente perdida por séculos; mas descoberta no final do século passado na Abissínia; agora traduzida pela primeira vez a partir de um manuscrito na Biblioteca Bodleiana. Oxford, 1821. Apareceram entretanto edições revistas em 1833, 1838 e 1842.
Em 1838, Laurence também publicou o primeiro texto etíope do Livro de Enoque no Ocidente, sob o título Libri Enoch Prophetae Versio Aethiopica. O texto, dividido em 105 capítulos, foi considerado duvidoso uma vez que se tratava da tradução de apenas um único capítulo do manuscrito Etíope.
Em 1833, o Professor Andreas Gottlieb Hoffmann, da Universidade de Jena, publicou uma tradução alemã, baseada no trabalho de Laurence, chamada Das Buch Henoch in vollständiger Uebersetzung, mit fortlaufendem Kommentar, ausführlicher Einleitung und erläuternden Excursen. Por volta da mesma altura, apareceram mais duas traduções, uma em 1836 Enoch Restitutus, or an Attempt (Rev. Edward Murray) e outra em 1840, com o título Prophetae veteres Pseudepigraphi, partim ex Abyssinico vel Hebraico sermonibus Latine bersi (A. F. Gfrörer). No entanto, ambas são consideradas pobres - principalmente a tradução de 1836 - que é discutida em Hoffmann.
A primeira edição critica, baseada em cinco manuscritos, apareceu em 1851 como Liber Henoch, Aethiopice, ad quinque codicum fidem editus, cum variis lectionibus, de August Dillmann. Foi seguida por uma tradução alemã, em 1853, do livro do mesmo autor com comentários intitulado Das Buch Henoch, übersetzt und erklärt e foi considerada a edição standart do Livro de Enoque até aos trabalhos de Charles.
A geração de estudiosos de Enoque desde a década de 1890 até à Primeira Guerra Mundial foi dominada por Robert Henry Charles. A sua tradução de 1893 e comentários do texto etíope já representava um avanço importante, uma vez que eram baseados em mais dez manuscritos. Em 1906 R.H. Charles publicou uma nova edição de grande importancia do texto etíope, em que usou 23 manuscritos etíopes e todas as fontes disponíveis no seu tempo.
A publicação, no início dos anos de 1950, dos primeiros fragmentos aramaicos do Livro de Enoque, juntamente com os Manuscritos do Mar Morto, alteraram de forma significativa o estudo do documento, uma vez que forneceu indicios da sua antiguidade e texto original. A edição oficial de todos os fragmentos enoiquianos apareceram em 1976, por Jozef Milik.
Em 1978 foi lançada uma nova edição do texto etíope por Michael Knibb, com uma tradução inglesa, enquanto que um novo comentário apareceu em 1985 por Matthew Black. O interesse renovado do Livro de Enoque originou outras novas traduções: em hebraico (A. Kahana, 1956), dinamarquês (hammershaimb, 1956), italiano (Fusella, 1981), espanhol (1982), francês (Caquot, 1984), e outras línguas modernas.
Em 2001 George W.E. Nickelsburg publicou o primeiro volume de um comentário global do Livro de Enoque na série Hermeneia. Desde o ano de 2000, o seminário Enoque tem dedicado diversos encontros relativos à literatura enoquiana e tem-se tornado o centro de um debate vivo relativo à hipótese de que a literatura de Enoque prova a presença de uma tradição independente não-Mosaica de dissidencia no Judaísmo do Segundo Templo.

O Livro dos Vigilantes

A primeira secção do Livro de Enoque descreve a queda dos Vigilantes, os anjos que conceberam os Nefilins e narra as viagens de Enoque pelos céus. De acordo com os académi  esta parte do Livro é do século IV ou III a.C.

Conteúdo
  • I - V: Parábola de Enoque sobre o futuro dos malditos e dos justos
  • VI - XI: A que dos anjos: a desmoralização da Humanidade, a intercessão dos anjos a favor da Humanidade. A sentença pronunciada por Deus sobre os anjos do Reino Messiânico.
  • XII-XVI. O sonho-visão de Enoque. A intercessão de Enoque por Azazel e pelos anjos caídos e o seu Anúncio do seu primeiro e último Condenação.
  • XVII-XXXVI. A viagem de Enoque através da terra e do Sheol.
  • XVII-XIX - A Primeira Viagem.
  • XX - Nomes e funções dos sete arcanjos.
  • XXI - Local preliminar e final do Castigo dos anjos caídos (estrelas).
  • XXII - Sheol ou o Submundo.
  • XXIII - O fogo que oferece as Luminarias do Céu.
  • XXIV-XXV - As Sete Montanhas no noroeste e a Árvore da Vida.
  • XXVI - Jerusalém e as montanhas, ravinas ecursos de água.
  • XXVII-XXXIII - Continuação da viagem para o Este
  • XXXIV-XXXV - Viagem de Enoque para o Norte
  • XXXVI - Viagem para o Sul
Descrição
A descrição do Livro de Enoque afirma que "Enoque é apenas um homem, cujos olhos foram abertos por Deus para que ele visse uma visão do Santo nos céus, que os filhos de Deus me mostraram, e deles ouvi tudo, e soube o que vi, mas [estas coisas que vi] não [passarão] para esta geração, mas para uma geração ainda por vir".
Fala da vinda de Deus à Terra no Monte Sinai com os seus exércitos para fazer o julgamento à humanidade. Também fala da ascensão das luminárias, das suas ordens, dos seus tempos e da sua imutabilidade.

O Livro das Parábolas

Os capítulos 37 - 71 do Livro de Enoque são designados como o Livro das Parábolas. O debate académico centra-se em torno destes capítulos. O Livro das Parábolas parece ser baseado no Livro dos Vigilantes, mas apresenta um desenvolvimento tardio da ideia do julgamento final e da escatologia, relativo não apenas ao destino dos anjos caídos mas também aos reis malignos da Terra. O Livro das Parábolas usa a expressão "Filho do Homem" para o protagonista escatológico, que é designado como o "Justo", o "Escolhido" e o "Messias", e que está sentado num trono de glória no julgamento final. O primeiro uso conhecido do termo "Filho do Homem" como um título definitivo na escrita judaica vem do Livro de Enoque e o seu uso pode ter tido um papel no seu uso no Cristianismo primitivo.
Tem-se sugerido que todo o Livro das Parábolas é uma adição tardia. Ao apontar semelhanças com os Oráculos Sibilinos e outros textos anteriores, J.T. Milik, em 1976 datou o Livro das Parábolas como pertencente ao século III d.C. Milik acreditava que os eventos nas parábolas estavam ligados aos eventos históricos de 260 a 270 d.C. Esta teoria está de acordo com a linha seguida por muitos académicos do século XIX - Lucke (1832), Hofman (1852), Wiesse (1856) e Philippe (1868). De acordo com esta teoria, estes capítulos foram escritos já no tempo do cristianismo, por um judeu cristão, de forma a ligar as crenças cristãs ao nome de Enoque. Num artigo de Michael Knibb de 1979, este seguiu o raciocínio de Milik e sugeriu que por isso não se haviam encontrado nenhuns fragmentos 37-71 em Quamran. Os capítulos 37-71 também se encontram em falta  na tradução grega. No entanto, há que acrescentar que ainda não há consenso entre os académicos quanto à datação do Livro das Parábolas. A datação de Milik, de cerca de 270 d.C foi rejeitada pela maior parte dos académicos. David W. Suter afirma que há uma tendência para datar o Livro das Parábolas entre 50 a.C e 117 d.C.
Em 1893, Robert Charles defendeu qu o capítulo 71 seria uma adição posterior, mas viria a mudar de opinião mais tarde. Deu uma data inicial para o trabalho entre 94 e 64 a.C. Na enciclopédia judaica de 1906, no Livro de Enoque, é encontrada a expressão de o "Filho do Homem", mas nunca no material original.  Ocorre nas "Interpolações de Noé", nas quais claramente não tem outro significado para além de "homem". O autor do trabalho dá má utilização ou corrompe o nome dos anjos. Charles viu o nome do título de filho do homem no Livro das Parábolas como referindo-se a uma pessoa sobrenatural, um Messias que não é descendente de humanos. Nesta parte do Livro de Enoque, conhecido como "Similitudes" é cumprido no sentido técnico de um Messias sobrenatural e juiz do mundo. Uma dominação universal e uma pre-existência são seus predicados. Senta-se no trono de Deus, que é o Seu próprio trono. Embora Charles não o admitisse, esta passagem vai contra a revisão e emenda cristã. Muitos académicos têm sugerido que as passagens no Livro das Parábolas são interpolações de Noé. Estas passagens parecem quebrar a fluidez da narrativa. Darrell D. Hannah sugere que estas passagens não são interpolações mas antes derivações de um apócrifo de Noé anterior. Acredita que algumas interpolações referem-se a Herodes, o Grande, e deviam ser datadas de cerca de 4 a.C.
Para além da teoria das interpolações de Noé, que será apoiada pela maior parte dos académicos, também acreditam que os capítulos 70-71 são adições posteriores ao conjunto. O capítulo 69 acaba com "Esta é a terceira parábola de Enoque". Nos capítulos 70-71, tal como Elijah, pensa-se que Enoque foi levado ao céu ainda vivo por Deus. Enquanto que outros sugeriram que o texto se refere a Enoque como tendo tido uma morte natural e ter ascendido aos céus. O Filho de Deus é identificado com Enoque. O texto implica que Enoque terá sido entronizado no Céu. Estes dois capítulos parecem contradizer as passagens anteriores na parábola onde o Filho do Homem é uma entidade separada. A parábola também muda da terceira pessoa para a primeira pessoa. Por sua vez, James H. Charlesworth rejeita a teoria de que os capítulos 70-71 são adições posteriores, acreditando que não houve adições ao Livro das Parábolas.

Conteúdo
XXXVIII-XVIV - A Primeira Parábola
  • XXXVIII. - A vinda do Julgamento aos ímpios
  • XXXIX - A morada dos justos e do Eleito: as preces dos abençoados
  • XL-XLI 2 - Os quatro arcanjos
  • XLII 3-9 - Segredos astronómicos
  • XLII - As moradas da Sabedoria e da Injustiça
  • XLIII-XLIV - Segredos astronómicos
XLV- LVII A segunda parábola
  • XLV. O destino dos apóstatas: o Novo Céu e a Nova Terra
  • XLVI. Os Dias Antigos e o Filho do Homem
  • XLVII. A Prece dos Justos por Vingança e a sua alegria à sua vinda.
  • XLVIII. A fonte da justiça: o Filho do Homem - o Local dos justos: julgamento dos reis e dos poderosos
  • XLIX. O Poder e Sabedoria do Eleito
  • L. A glorificação e vitória dos justos: o arrependimento dos gentios
  • LI. A ressurreição dos mortos, e a separação pelo Juíz dos justos dos ímpios.
  • LII. As seis montanhas e o Eleito
  • LIII-LIV. O Vale do Julgamento: os Anjos do Castigo, as comunidades do Eleito
  • LIV.7.-LV.2. Fragmento de Noé no primeiro julgamento do mundo.
  • LV.3.-LVI.4. - Julgamento Final de Azazel, os Vigilantes e os seus filhos.
  • LVI.5-8. A última batalha dos poderes gentios contra Israel.
  • LVII. O retorno da dispersão.
LVIII-LXXI. A terceira parábola
  • LVIII. A Boa Aventurança dos santos.
  • LIX. As Luzes e o Trovão.
  • Livro de Noé - fragmentos
  • LX. O Tremor do Céu: Beemote e Leviatã - os elementos.
  • LXI. Os anjos saem para medir o Paraíso: o julgamento dos justos pelo Eleito - a Prece do Eleito e de Deus.
  • LXII. O julgamento dos Reis e dos Poderosos: a Benção dos Justos.
  • LXIII. O vão arrependimento dos reis e dos poderosos.
  • LXIV. Visão dos Anjos Caídos no Local de Castigo
  • LVV. Enoque prediz o Dilúvio de Noé e a sua própria preservação.
  • LXVI. Os anjos das águas são convidados a mantê-las sob controle.
  • LXVII. A Promessa de Deus a Noé. Os locais de castigo dos anjos e dos reis.
  • LXVIII. Miguel e Rafael surpreendidos com a severidade do Julgamento.
  • LXIX. Os nomes e funções dos [anjos caídos] e de Satã. O juramento secreto.
  • LXX. A versão final de Enoque.
  • Duas visões anteriores de Enoque.

O Livro Astronómico

Foram encontrados quatro edições fragmentadas do Livro Astronómico em Qumran, com datação do início do séc. II a.C., colocando um terminus ante quem (limite antes do qual) para o Livro Astronómico no século III a.C. Os fragmentos encontrados em Quamran também incluem material que não se encontra nas versões posteriores do Livro de Enoque.
Este livro contem descrições dos movimentos dos corpos celestes e do firmamento, como conhecimento revelado a Enoque nas suas viagens ao Céu, guiado por Uriel e descreve um calendário solar que foi mais tarde descrito igualmente no Livro do Jubileu que foi usado pela facção do Mar Morto. O uso deste calendário fez com que fosse impossível celebrar os festivais simultaneamente com o Templo de Jerusalém.

Correspondência dos dias semanais no ano Qumranico
 Months 1,4,7,10  Months 2,5,8,11  Months 3,6,9,12 
Quar18152229
6132027
4111825
Quin29162330
7142128
5121926
Sext3101724
18152229
6132027
Sáb4111825
29162330
7142128
Dom5121926
3101724
18152229
Seg6132027
4111825
29162330
Ter7142128
5121926
310172431


O ano foi composto por 364 dias, dividido em quatro estações de 91 dias cada. Cada estação tinha três meses de trinta dias, mais um dia no final do terceiro mês. O ano todo era, assim, composto por cinquenta e duas semanas, e todos os dias do calendário ocorriam sempre no mesmo da da semana. Cada ano e cada semana começavam sempre à quarta-feira, que era o quarto dia da criação narrado no Génesis, o dia quando as luzes no céu, as estações, os dias e os anos foram criados. Não se sabe qual o método que usavam para reconciliar este calendário com o ano tropical de 365,24 dias, e nem se sabe se sentiram a necessidade de o ajustar.

Conteúdo
  • LXXII. A luz da Lua
  • LXXIII. A Lua e as suas fases. O ano lunar.
  • LXXIV. Os luminares que controlam a criação. 
  • LXXV. Os doze ventos e os seus portais
  • LXXVI. Os quatro quadrantes do mundo: as sete montanhas, os sete rios, as sete grandes ilhas.
  • LXXVII. O Sol e a Lua: o crescente e o minguante da lua.
  • LXXVIII. Recapitulação de diversas leis.
  • LXXX. Retorno de Enoque a casa. Instruções dos anjos a Enoque. A condenação dos pervertidos.
  • LXXXI. Enoque instrui o filho Matusalém das leis que os anjos lhe haviam transmitido. Os condutores do ano, das estrelas e das estações.

O Livro dos Sonhos

O Livro dos Sonhos-visão contém uma visão de uma história de Israel até ao que a maioria tem interpretado como a Revolta dos Macabeus, e é datada por volta desta altura, cerca de 163-142 a.C. De acordo com a Igreja Ortodoxa Etíope foi escrita antes do Dilúvio

Conteúdo
LXXXIII-LXXXIV. Primeiro Sonho-Visão sobre o Dilúvio. LXXXV-XC. Segundo Sonho-Visão: a história do mundo à fundação do reino messiânico.

  • LXXXVI. A queda dos anjos e a desmoralização da humanidade
  • LXXXVII. A chegada dos sete arcanjos
  • LXXXVIII. O castigo dos anjos caídos pelos arcanjos
  • LXXXIX.1-9. O Dilúvio e a salvação de Noé.
  • LXXXIX.10-27. Desde a morte de Noé até ao Êxodo.
  • LXXXIX.28-40. Israel no deserto, a entrega da Lei, a entrada em Canaã.
  • LXXXIX.41-50. Desde o tempo dos Juízes até à construção do Templo.
  • LXXXIX.51-67. Os dois reinos, de Israel e Judá até à destruição de Jerusalém.
  • LXXXIX.68-71. O primeiro período dos governantes angélicos - desde a destruição de Jerusalém até ao Retorno do Cativeiro.
  • LXXXIX.72-77 Segundo Período - desde o tempo de Ciro até ao de Alexandre o Grande
  • XC. 1-5. Terceiro Período - desde Alexandre o Grande até ao domínio grego-sírio.
  • XC.6-12. Quarto Período - desde a dominação grega-siria até à Revolta dos Macabeus (em discussão).
  • XC.13-19. O último assalto dos pagãos aos judeus (onde os vv. 13-15 e 16-18 são duplicados).
  • XC.20-27. O julgamento dos anjos caídos, os pastores e os apóstatas.
  • XC.28-42. A Nova Jerusalém, a conversão dos pagãos sobreviventes, a ressurreição dos justos, o Messias. Enoque acorda e chora.

Os animais no segundo sonho visão
O segundo sonho-visão nesta secção do Livro de Enoque é uma alegoria da história de Israel, que usa animais para representar os seres humanos e os seres humanos para representar os anjos.
Uma das muitas reconstruções hipotéticas do significado dos sonhos, com base nos trabalhos de R.H. Charles e G.H. Shodde, é:
  • A cor branca representa a pureza moral. O preto para o pecado e contaminação por parte dos anjos caídos. O vermelho para o sangue em referencia ao martírio.
  • O touro branco é Adão e a vitela é Eva. O bezerro vermelho é Abel, o bezerro preto é Caim e o bezerro branco é Seth.
  • Touro branco/homem é Noé. O touro branco é Sem, o vermelho Cam, filho de Noé. O touro preto é Jafé. O senhor das ovelhas é Deus. A estrela caída ou Samyaza ou Azazel. Os elefantes os gigantes, os camelos os nefilins, e os burros Elioud.
  • As ovelhas são fiéis, os carneiros são líderes, os rebanhos são as tribos de Israel, os Asnos selvagens são Ismael e os seus descendentes, incluindo os midianitas, os javalis são Esaú e os seus descendentes, Edom e os amalequitas,  os ursos (Hienas / lobos em Etíope) são os egípcios, os cães são os filisteus, os tigres são Arimatéia, as hienas os assírios; os corvos são os Seleucidas (sírios); os papagaios os Ptolomeus; as águias são, possivelmente, os macedónios; as raposas são os amonitas e moabitas.

A Epístola de Enoque

Alguns académicos propõem uma data entre 170 a.C. e o primeiro século a.C. para a Epístola.
Esta secção pode ser dividida em cinco sub secções, misturadas pelo redator final:
  • O Apocalipse das Semanas (93:1-10 91:11-17): esta sub-secção, datada geralmente da época da primeira metade do segundo século A. C., narra a história do mundo usando um esquema de dez períodos (designado de "semanas"), dos quais sete são respeitantes a eventos do passado e três ao futuro (julgamento final). O climax dá-se na sétima parte da décima semana onde um novo céu deve aparecer e haverá muitas semanas sem número para sempre, e tudo estará em bondade e justiça.
  • A Exortação (91:1-10 91:18-19): esta breve lista de exortações para seguir a justiça, de Enoque para o filho Matusalém, parece ser uma ponte para a sub-secção seguinte.
  • Epístola (92:1-5 93:11-105:2): a primeira parte da epístola esboça a sabedoria do Senhor, a recompensa final dos Justos e a punição dos ímpios, e os dois caminhos separados da justiça e da injustiça. Os seis oráculos contra os pecadores, o testemunho de toda a criação contra eles e a garantia do destino depois da morte. Segundo Boccaccini, a epístola é composta por duas camadas: uma "proto-epístola", com uma teologia perto da doutrina determinista do grupo de Qumran, e uma parte um pouco mais tardia (94: 4-104:6) que aponta para a responsabilidade pessoal do individuo, descrevendo muitas vezes os pecadores como os ricos e os Justos como os oprimidos (um tema, também encontrado no Livro de parábolas).

Notas
Alguns exemplos de semelhanças entre o Novo Testamento e o Livro de Enoque:
ENOQUE 6:9 Os eleitos possuirão luz, alegria e herdarão a terra.
MATEUS 5:5 Bem aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra.

ENOQUE 18:16 As estrelas que rolam sobre o fogo são as que transgrediram o mandamento de Deus antes de chegada a sua hora...
JUDAS 13 Estrelas errantes, para as quais tem sido eternamente reservada a escuridão das trevas.

ENOQUE 38:2 ...E qual será o local de descanso dos que rejeitaram o Senhor dos espíritos? Seria melhor para eles se jamais tivessem nascido.
MATEUS 26:24 ...Mas ai daquele por quem o Filho do homem é traído! Melhor lhe fora se não tivesse nascido.

ENOQUE 56:5 ...Uma luz interminável haverá: a passagem do tempo não os afetará; pois as trevas foram previamente destruídas.
I JOÃO 2:8 ...porque as trevas vão passando, e já brilha a verdadeira luz.

(entre muitos outros)




Fontes
https://drive.google.com/folderview?usp=sharing&id=0By5krRhBSK5zSmxTakowMENneEk
https://pt.wikipedia.org/wiki/Primeiro_Livro_de_Enoque
https://en.wikipedia.org/wiki/Book_of_Enoch
http://www.diocesenet.com.br/home/?p=520
http://www.adventistas.com/wp-content/uploads/2015/01/Uma-Tradu%C3%A7%C3%A3o-Moderna-Do-Livro-de-Enoque-em-Et%C3%ADope-Com-introdu%C3%A7%C3%A3o-e-notas-por-Andy-McCracken.pdf
Bíblia Pastoral, São Paulo, 1993
Anjos Caídos, Elizabeth Clare Prophet, 2005, Nova Era





Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...