04/12/2015

O Julgamento de Chang E

«Uma gigantesca amoreira, denominada Fusang, crescia no mar, por trás do oceano oriental, e nesta árvore moravam dez sóis. Estes sóis, que eram os filhos de Dijun, deus do Oriente, e de Xihe, deusa do Sol, ocupavam , cada um por sua vez, o seu lugar no céu. Todas as manhãs, um dos sóis era transportado pela sua mãe numa briga, trazendo assim luz e calor ao mundo. Um dia, os dez sóis rebelaram-se contra a rotina diária e decidiram sair todos juntos, brincando alegremente pelos céus. Divertiam-se muito, enquanto, sem se aperceberem, causavam grande desgraça. A terra secou, as colheitas murcharam e até as rochas começaram a derreter. Os alimentos escasseavam e havia pouca água para beber. Além disso, monstros e animais selvagens emergiram das florestas em busca de presas. Dijun e Xihe tiveram pena do sofrimento dos homens e pediram aos filhos que se portassem bem, mas sem êxito. Irritado, Dijun convocou o grande archeiro, Yi, e entregou-lhe uma aljava de flechas brancas e um arco vermelho.
"Depende de ti restaurar a ordem na Terra", disse ele, "Domina os meus filhos e mata os animais selvagens que estão a ameaçar o povo". Yi aceitou o desafio e partiu, acompanhado da sua mulher, Chang E. Yi sabia que não iria conseguir nada com ameaças ou persuasão, por isso colocou uma flecha no arco e lançou-a para o céu. Uma bola de fogo explodiu e o ar ficou repleto de chamas douradas. Um momento mais tarde, ouviu-se um baque quando algo caiu ao chão. O povo acorreu e verificou que um dos seus algozes fora transformado num corvo de três pernas. Yi atirou uma flecha atrás da outra atingindo cada uma o coração do alvo a que se destinava. De cada vez que Yi disparou, a alma do Sol caiu ao chão, tomando a forma de corvo de três pernas. O ar tornou-se rapidamente mais fresco, mas, se não tivesse sido a rápida intervenção do sábio rei Yao, tudo poderia estar acabado. Lembrando-se de que deveria sobrar um Sol, para trazer calor e luz à Terra, Yao, o rei sábio, contou o número de flechas da aljava de Yi e verificou que Yi as esgotara antes de matar o último Sol.
Depois de terminada a tarefa, Ye voltou a sua atenção para os monstros que ainda ameaçavam a Terra. Com agilidade e valentia, matou, um por um, todos os monstros horrendos até a paz voltar a reinar.
Yi foi considerado um grande herói e todos  lhe ficaram gratos por os ter salvo de um destino horrivel. Com o clamor dos louvores ainda a ressoar nos ouvidos, Yi voltou para o céu com a sua mulher Chang E, para relatar a sua missão bem sucedida. No entanto, em vez de ser recebido de braços abertos, Yi descobriu que o deus Dijun o evitava.

"Embora não possa negar que apenas cumpriste as minhas ordens, não sou capaz de olhar para ti, pois mataste os meus filhos. Ordeno que tu e Chang E deixem o céu e voltem para a Terra, para junto dos que tão bem serviram."
Chang E ficou furiosa com a injustiça desta decisão, achando particularmente injusto que também ela devesse pagar pelas ações do seu marido. Relutantes, juntaram os seus pertences e mudaram-se para a Terra.
Yi podia preencher os seus dias a caçar, mas Chang não conseguia encontrar consolo no seu novo lar e meditava sem parar na sua infelicidade. "Agora fomos enviados para viver no mundo dos homens e, um dia, tal como eles, morreremos e desceremos ao mundo subterrâneo. A nossa única esperança é ir ter com a Rainha-mãe do Ocidente que vive no monte Kulun, e obter dela o elixir da imortalidade." Yi partiu imediatamente e, depois de muitas demandas, chegou à presença da Rainha-mãe. Esta ficou emocionada com a triste história de Yi e de Chang E e concordou em ajudá-los.
"Esta caixa contém elixir suficiente para conceder a vida eterna a duas pessoas, embora vocês sejam obrigados a permanecer no mundo dos homens. Para obter a verdadeira imortalidade teriam de tomar o dobro desta quantidade. Toma cuidado com a caixa, pois é tudo o que possuo."
Yi voltou para casa com a preciosa caixa e confiou-a à gurda da mulher, pois desejava aguardar por um dia especialmente auspicioso, para tomar a droga. Porém, Chang E começou a pensar: "Porque não tomar eu todo o elixir sozinha e reaver assim a minha condição de deusa? Afinal, fui punida sem qualquer razão." Assim que tomou a mistura, Chang E sentiu que os seus pés se levantavam do solo. Começou a flutuar, cada vez mais alto, saindo pela janela e atravessando o ar escuro da noite.
"Pensando bem", disse para si própria, "talvez não seja uma boa ideia voltar directamente para o céu: os deuses podem criticar-me por não ter partilhado o elixir com o meu marido."

Chang E resolveu então ir primeiro até à Lua, que brilhava no céu estrelado e limpo. Quando lá chegou, Chang E descobriu que esta não passava de um local desolado, completamente vazio, à exceção de uma lebre que vivia sob uma acácia. No entanto, quando tentou partir, Chang E descobriu que os seus poderes a tinham abandonado e que estava destinada a manter uma vigília solitária até ao fim dos tempos.
Yi ficou chocado e triste, quando descobriu que a mulher o traíra. Chamou um aluno, Peng Meng, talvez esperançado de que, desta forma, as suas aptidões não morressem com ele. Peng Meng estudou afincadamente e acabou por conseguir ser tão hábil que apenas Yi era melhor archeiro do que ele. Todavia, cheio de ciúmes da superioridade do seu mestre, matou-o assim que teve oportunidade.»


Introdução à Mitologia Oriental, Coordenação de Clio Whittaker, Editorial Estampa, Abril 2000

Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...