07/12/2015

O Diabo e o Contador de histórias

«Tem reputação assegurada por toda a cidade e ninguém contesta o seu êxito, pelo contrário... Sem a menor dúvida, Seifudine é o maior entre os contadores de histórias. Ninguém por estas bandas possui uma voz tão quente e expressiva, uma imaginação tão fértil. Pois Deus sabe quanto são apreciados os contos e as histórias à noite, ao serão, sob o céu estrelado do Oriente!


Quando a noite cai, o ilustre contador está instalado em casa do rico comerciante Bukara. Na mais bela sala da casa, aberta para o pátio, o tanque e os renques de laranjeiras, numerosos convidados estão reclinados sobre os divãs, instalados nos sofás ou simplesmente sentados nos almofadões colocados sobre os degraus. Toda a assembleia aqui presente, imponente e brilhante, observa o mais completo silêncio, esperando que Seifudine comece a falar. E eis que, ao erguer-se a voz melodiosa do contador de histórias, a magia se faz sentir: a audiência está presa...
Mesmo os animais parecem enfeitiçados. Por detrás dos muxarabis, os gatos erguem a cabeça; estendidos nos caminhos do jardim, os cães arrebitam as orelhas; nenhum burro zurra, nenhum camelo blatera; pousados sobre as árvores, os melros e os rouxinóis calam-se e as borboletas deixam de esvoaçar sobre os tufos de flores. O tempo pára... E os contos sucedem-se, cada um mais maravilhoso, mais cativante que os outros... Um pouco afastadas, duas crianças divertem-se a contá-los, alinhando pequenos seixos brancos no chão. Dez, quinze, vinte... Alguns ouvintes dormitam. Vinte e cinco, trinta... Outros adormecem de facto, não porque estejam enfadados, mas porque a Lua, lá no alto, já começou a descer. Ao trigésimo sétimo conto, os convidados nas filas de trás tombam, como que embriagados por tantas aventuras extraordinárias, Bebedos de palavras, de imagens e de sonhos. No jardim, os pássaros que ouviam caem ao chão, entorpecidos pelo sono! Pouco a pouco, toda a audiência, animais e homens, dorme, maravilhada mas exausta. As crianças pararam de contar e dormem a sono solto. Apenas Bukara sabe que vão no septuagésimo sétimo conto! Está morto de cansaço. No entanto, nada seria mais desonroso do que interromper um contador tão maravilhoso... «Quando será que ele acaba?», pensa para consigo. Ouve-o delicadamente, mas ao mesmo tempo pede a Deus que aquele fluxo ininterrupto cesse... Nada feito, as histórias de Seifudine sucedem-se umas atrás das outras. Já sem saber o que fazer, Bukara decide então interpelar Satanás: «Peço-te, imploro-te, livra-me de Seifudine!»
Vendo ali uma excelente ocasião de exercer o seu poder, Satanás aceita sem hesitações. Pega no contador de histórias pelos cabelos e leva-o de imediato para o seu reino! Depois, regressa para junto do comerciante - pois, como se calcula, o favor tem um preço! E que preço! «Bukara, livrei-te de Seifudine. Como recompensa do favor que te fiz, dar-me-às a tua esposa, a bela Saltan Bibi, que todos os homens da cidade cobiçam quando, por milagre, conseguem avistá-la... Sim, esse é o preço a pagar: amanhã, antes que o dia termine, voltarei para vir buscá-la.»
Reina o silêncio na residência de Bukara. A manhã já vai avançada quando todos acordam com a estranha sensação de terem dormido dias e dias... Por volta do meio dia, Satanás apresenta-se em casa de Bukara. Avisados da sua vinda, os criados recebem-no com toda a consideração que lhe é devida: mas porque estará ele com ar tão fatigado? Rosto cinzento, olheiras profundas. Um diabo cansado, ora aqui está algo de invulgar... Bukara, embora acabrunhado por ter de entregar a esposa, informa o demónio de que ela está pronta; e explica que, para sublinhar o sacrifício, ela quer acolhê-lo condignamente, oferecendo-lhe um entretenimento: vai contar-lhe todas as histórias que Seifudine contou na noite anterior! À simples evocação daquele nome, Satanás empalidece... Seifudine, precisamente aquele de quem ele, o Diabo, senhor dos infernos, não conseguira desembaraçar-se antes da madrugada! «Não, já basta! Chega de histórias fascinantes, mas que nunca mais acabam! Agora sou eu que peço misericórdia!»
É que, chegado ao reino das sombras, Seifudine continuara a contar histórias... E, à falta de outros ouvintes, fora Satanás a sua audiência. Perseguira-o até ao mais profundo dos fogos do inferno, contando 1000, 2000, 3000, 4000...
Ao chegar às 5000 histórias, fora demais... Reunindo todas as suas forças, Satanás, num derradeiro esforço, conseguira - é verdade, conseguira - fazer calar Seifudine!
Horrorizado só com a ideia de ouvir mais histórias, o Diabo decide renunciar à bela Saltan Bibi... De volta aos seus terríveis domínios, apressa-se a libertar Seifudine.
O contador de histórias, por seu lado, voltou às estradas para encantar e embalar o Mundo com os seus contos. Contudo, já não era o mesmo: compreendera que, para serem verdadeiramente apreciadas, até as mais belas histórias têm que ter... um fim.»




Fabulosos Mitos e Lendas de Todo o Mundo, Selecções Reader's Digest, 2010



Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...