03/12/2015

O anel dos Nibelungos

«Morreram todos. Diante da pira funerária de Siegfried, uma guerreira lamenta-se. Aquele que não temia nem o ferro nem o dragão foi vencido pela morte. E ela chora. Na mão, aperta um anel - o anel que é a causa de tudo o que aconteceu. Cabe-lhe a ela - sabe-o agora - levá-lo para onde tudo começou. De onde nunca deveria ter saído. O fundo do rio.
Foi num outro mundo, no tempo da inocência.
As filhas do Reno brincavam na água. Mergulhavam e perseguiam-se umas às outras, náiades de pele branca sacudindo a espuma. Foi então que surgiu Alberich, senhor dos Nibelungos, o povo das neblinas, possuidor de uma mina escavada longe, muito longe, por baixo da montanha. Alberich aproximou-se das três ninfas, com os olhos a brilharem de concuspicência.
"Minhas belas, venham para perto de mim... Ofereço o meu amor e o meu reino àquela que quiser seguir-me", sussurrou na sua voz mais doce.
Mas, perante a sua corcunda, pequena estatura e aparência pouco agradável, as três beldades desataram a rir: "Volta para a tua montanha, velho bode! Nada no Mundo nos faria ir ter contigo!", troçou a primeira.
"Como ele é repugnante!", acrescentaram as duas irmãs com ar enjoado.
Alberich ficou muito despeitado. É verdade que não era bonito... Mas tinha coração... E, sobretudo, desejos! Ali junto à margem, amaldiçoava as náiades quando ouviu uma voz chamá-lo do fundo do rio, como o canto de uma sereia: "Vem buscar-me... Eu, sim, quero ir contigo!" Então, sem hesitar, ele mergulhou.

As três ninfas, entretidas com as suas troças, tinham-se esquecido da missão que o pai lhes confiara de guardarem o ouro do Reno, o tesouro mais precioso do Mundo. Ao vê-lo atirar-se à água, mergulharam imediatamente atrás dele, mas já foi tarde... O anão já se apoderara do tesouro e regressava à margem, rápido como um relâmpago, com o seu saque bem apertado contra o peito peludo.
Então, as ninfas imploraram: "Leva-nos... Seremos tuas... Leva-nos, mas devolve-nos o ouro do Reno." Foi a altura de Alberich troçar. "Não, agora pouco me importam os prazeres! Com este metal precioso, vou forjar um anel... um anel que me dará a fortuna, o poder e o conhecimento... Sim, vou forjar um anel vingador! E - que as ondas sejam minhas testemunhas - hoje mesmo amaldiçoo o amor!"
E regressou às profundezas da Terra para cumprir o seu destino fatal.
Nesse mesmo momento, o grande deus Odin e a sua esposa, Frigg, felicitavam os gigantes gémeos, Fasolt e Fafnir. A pedido de Odin, estes tinham acabado de construir um magnífico castelo cujo topo roçava as nuvens. Este palácio seria daí em diante a morada dos deuses, o Valhalla sagrado. Em troca, Odin prometera aos gémeos a mão de Iduna, a deusa que possuía os pomos de ouro da juventude eterna.
Mas, apesar da presença de Odin e de Frigg, Fasolt e Fafnir não paravam de se insultar violentamente: na hora da recompensa, cada um deles queria Iduna só para si. Quanto a Odin, muito embaraçado, não podia voltar atrás com a sua palavra, inscrita nas runas da sua lança... Chamou então Loki, o deus do Fogo, pois sabia que este era muito astucioso e conseguiria arranjar uma solução.
Loki veio e disse: "Lá em baixo, debaixo da montanha, no mundo da neblina, foi forjado um anel mágico, o anel do poder absoluto. E creio que é possível resgatá-lo!" A cobiça brilhou nos olhos dos gigantes, mas, contra todas as expetativas, eles apoderaram-se de Iduna pela força, dizendo a Odin: "Traz-nos o anel ou nunca mais a verás!" Depois, levaram-na para longe - à deusa e aos seus frutos sagrados.
Sem as maçãs de Iduna, que até aí haviam preservado a eterna juventude dos deuses, estes começaram a envelhecer e enfraquecer. Para tentar salvar o seu mundo do declínio, Odin só tinha uma solução: descer às profundezas da Terra para procurar o tesouro de Alberich. Guiado por Loki, o Astucioso, o grande deus chegou à morada do anão, obrigou-o a sair, levou-o ao topo da montanha e ordenou-lhe: "Cede-me o anel!"
Alberich atirou-lhe um simples "Não" como resposta. Mas ao ver-lhe o ouro brilhar-lhe no dedo, Odin foi acometido pela cobiça e, sem mais cerimónias, decepou o dedo do anão e apoderou-se do anel.
Apresando-se a voltar ao Valhalla celeste, ainda ouviu o anão a proferir as seguintes palavras funestas: "Maldito seja o anel nascido na minha forja. Eu, o seu criador, decido hoje que quem o possuir receberá em herança a infelicidade e a destruição. E que todos os outros o cobicem até à morte!"
Odin começou por não dar grande atenção à profecia, mas, já de regresso, teve muita dificuldade em separar-se do anel. Foi necessária a intervenção de Freia, deusa da Terra, para lhe fazer ver a razão. Logo que o anel foi entregue aos gigantes, Fafnir atirou-se ao irmão gémeo e matou-o. De anel no dedo, fugiu, com os olhos subitamente cheios de desconfiança e com a pele envelhecida e enrugada como a de um lagarto. Odin percebeu então até que ponto era terrível a maldição de Alberich.
A guerreira estremece com a lembrança do que a seguir se passou na Terra. Foi a história de Sigfied, seu amante, seu herói... Sigfried, que matou Fafnir, transformado em dragão... Sigfried, o novo possuidor do anel, atormentado pelos perseguidores... Siegfried, o único que se manteve livre, insensível ao poder do anel. O único a dominá-lo. O senhor do anel.
Os olhos de Brunild enchem-se de lágrimas, e as suas mãos, que continuam a agarrar no anel, tremem. Porque tinha compreendido, muito antes de Siegfried, toda a trama. Vira o seu próprio pai, o deus dos deuses, vaguear miseravelmente, impelido pela cobiça. Nesse instante, percebera que o mundo dos deuses estava condenado.
Para salvar Siegfried, ela tinha renunciado à sua imortalidade, havia-se tornado mulher, mas demasiado tarde. O seu amante fora traído, traído pelos homens, e cobardemente assassinado com um golpe de lança nas costas.
Em frente da pira onde arde o seu amado, Brunilde, a guerreira, já não chora. Ela sabe o que tem de fazer... E, segundo a lenda, ordena aos dois corvos de Odin, empoleirados nos seus ombros, que anunciem aos deuses que a hora do crepúsculo chegou. Depois, sempre com o anel apertado entre os dedos, salta para o braseiro. Imediatamente, o fogo eleva-se e alastra por todo o lado, sobre a Terra e no céu. Incendeia o Valhalla, e os deuses perecem. O grande rio transborda, alagando tudo. Então, as filhas do Reno saltam graciosamente na espuma, apoderando-se do ouro de novo fundido e levam-no para sempre para o fundo do rio.
E é assim que um mundo novo nasce sobre a Terra.»


Fabulosos Mitos e Lendas de Todo o Mundo, Selecções Reader's Digest, 2010


Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...