07/12/2015

Lilit, a primeira de todas as mulheres

«Ela foi criada no final do sexto dia, quando o crepúsculo caía sobre o Éden... Já havia a Terra e o Céu, as trevas e o dia, o reino das águas, as plantas e os pássaros. Os leões, os ursos e os lobos vagueavam pela selva. Então, o Senhor disse: "Façamos o ser humano à nossa imagem." Com a mesma argila fina, moldou o homem e uma mulher, Adão e Lilit.
Ela surgiu à beira da água quando a sombra descia. A princípio, foi apenas um sopro sobre a Terra, um estremecimento que trespassava sobre o pó. Depois, o vento modelou-a e a noite deu-lhe carne. Quando abriu os olhos, as estrelas tremeram. Então, Deus disse: "O teu nome será Lilit porque nasceste da noite e do vento. Eis aqi Adão, teu igual e tua cópia."
Quando a viu, com a sua pele escura e olhos ardentes, Adão sentiu desejo - e Deus soube que podia descansar. "Crescei e multiplicai-vos", disse-lhes. Depois, adormeceu.
De início, tudo corria pelo melhor. Adão amava Lilit. Recitava-lhe poemas, entrançava-lhe colares de flores. Gostava de deitar-se sobre ela e sentir as suas coxas abrirem-se docemente por baixo dele. Queria que seguissem as ordens do Eterno, que ela lhe desse muitos filhos. Mas Lilit começou a achar a perspetiva demasiado aborrecida... Tinha horror a deitar-se na terra e ser coberta, fazia-lhe lembrar as lobas que rastejam, rosnando, na selva. Não queria ver o seu ventre deformado todos os anos. O que ela queria era ser mulher aos olhos de Adão e montá-lo, livre e ligeira, como sua igual!

Adão, vendo-a tão rebelde, encheu-a de recriminações. Exaltada, Lilit invocou então o nome do Eterno: nasceram-lhe nas costas duas asas que a transportavam para longe, muito longe, do paraíso. Adão viu-se sozinho no meio do Éden, desesperado. Não podia crer que Lilit o tivesse abandonado e lamentava-se dia e noite enquanto percorria a floresta primordial...
As suas queixas acordaram o Altíssimo, que enviou três dos seus mais hábeis anjos para fazer ver a razão a Lilit. Mas a resposta da beldade foi sem apelo nem agravo: "Antes morrer do que regressar àquele inferno!"
Deus percebeu que não havia nada a fazer. Sem demoras, criou uma segunda mulher para consolar Adão. Desta vez, criou-a a partir de uma costela de Adão para que ela sentisse na sua carne que precisava dele. Fê-la tão loura como Lilit era morena, tão doce quanto Lilit era bravia. Foi Eva, "a mãe de todos os seres humanos".
Pois, no coração de Deus, Lilit já tinha morrido... Ela recusara Adão, portanto tinha negado Deus. Merecia ser castigada. Deus decidiu que ela nunca daria à luz, pois todos os seus filhos seriam nados-mortos. Tinha recusado ser mãe, pois bem, seria estéril. Vaguearia através do Mundo por entre silvas e urtigas, rosnando com os chacais ao cair da noite e correndo com os bodes para satisfazer as suas pulsões.
Ao saber disto, Lilit quis morrer. Dirigiu-se para a montanha, debruçou-se sobre o vazio e convocou o anjo da Morte para que viesse buscá-la. O anjo, ao vê-la, ficou deslumbrado.
Ela disse-lhe: "O meu nome é Lilit. Sou negra, mas sou bela e quero que me leves." O anjo respondeu-lhe: "Chamo-me Samael e tu agradas-me como és."
Então, partiram os dois para o mundo inferior, onde se tornaram marido e mulher. Desde então, contam-se muitas histórias sobre Lilit... Ela teria tomado a forma de uma serpente e seduzido Eva, instigado Caim a matar Abel, seu irmão... E todas as noites, ao crepúsculo, subiria para vaguear sobre a Terra, cabelos negros em desalinho e um perfume de tempestade na pele. Diz-se mesmo que ela suga por vezes a respiração dos recém-nascidos e que o seu maior prazer é montar os homens durante o sono para aspirar a sua semente...»

Fabulosos Mitos e Lendas de Todo o Mundo, Reader's Digest, 2010




Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...