04/12/2015

Judaísmo


Os Israelitas chamavam a Javé «O Deus dos nossos pais», embora pareça que Javé deva ter sido uma divindade muito diferente de El, o Alto Deus canaãses adorado pelos patriarcas, e que pode ter sido o deus de outros povos antes de se tornar o Deus de Israel. Em todas as suas primitivas aparições a Moisés, Javé insiste reiteradamente que é de facto o Deus de Abraão, apesar de ter sido primeiramente chamado de El Shaddai. Esta insistência pode preservar os ecos distantes de um antiquíssimo debate sobre a identidade do Deus de Moisés. tem-se sugerido que Javé era originalmente um deus guerreiro, um deus dos vulcões, um deus venerado no Midian, onde é hoje a Jordânia. Nunca saberemos onde é que os Israelitas descobriram Javé, se é que ele era de facto uma divindade inteiramente nova. Para nós, hoje, seria uma questão importante, mas não foi tão crucial para os escritores bíblicos. Na Antiguidade Pagã, os deuses eram muitas vezes integrados uns nos outros, amalgamados, ou então os deuses de uma localidade eram aceites como idênticos aos de outro povo. A única coisa de que podemos ter a certeza é que, independentemente da sua proveniência, os acontecimentos do êxodo fizeram definitivamente de Javé o Deus de Israel, e que Moisés foi capz de convencer os Israelitas de que esse deus era um e o mesmo que El, o Deus amado por Abraão, Isaac e Jacob.
Uma História de Deus, Karen Armstrong, Círculo de Leitores, 2ª edição, Outubro 2011



Parte I - O início

A sobrevivência do povo judaico ao longo da história das civilizações é algo de extraordinário. Dificilmente haverá outro povo na terra que possa traçar uma história contínua, cobrindo 4.000 anos (a civilização chinesa tem a mesma idade, mas trata-se de um povo geograficamente remoto). O verdadeiro milagre da sobrevivência judaica é ela ter ocorrido, primeiro, na região do mundo onde mais lutas tem havido - as encruzilhadas da Europa, da Ásia e da África - e, depois da Diáspora, em muitas nações espalhadas pelo mundo.
O Médio Oriente não foi apenas o berço de civilizações - tem sido também o seu cemitério. As culturas babilónica, suméria, egípcia, assíria e hitita foram absorvidas por conquistas posteriores, até qualquer vestígio delas ter praticamente desaparecido. Os judeus, no entanto, mantiveram-se como um grupo étnico auto-definido, descendendo diretamente dos antigos hebreus - os Filhos de Israel.
O singular sistema religioso dos judeus é mais do que uma religião. Para além da crença numa divindade única e indivisível, inclui uma série de preceitos éticos e morais que abrange todos os aspetos da vida do dia-a-dia, desde a higiene e o comportamento à justiça e à igualdade perante Deus e a lei.
A Bíblia afirma que o povo semita, que mais tarde veio a ser o povo judeu, descende de Abraão, que deixou a sua terra natal - «Ur dos Caldeus», ou «Ur dos Babilónios» - e vagueou para Oeste com os seus rebanhos, há pelo menos 4.000 anos. Embora não haja qualquer testemunho arqueológico da existência de Abraão como pessoa, a história da Bíblia é muito plausível.
Muitos aspectos da primitiva cultura hebraica, conforme é descrita na Bíblia, conservam sinais da influência da cultura babilónica/mesopotâmica.
Os dados arqueológicos mostram que um povo semi-nómada, falando uma língua proto-semítica, uma versão primitiva do hebraico, viveu nos desertos do norte da Arábia há cerca de três ou quatro mil anos. Talvez por serem pastores em busca de melhores pastagens para os seus rebanhos, alguns deslocaram-se para norte e fixaram-se em Canaã (que mais tarde veio a ser chamada de Palestina), enquanto outros viajaram para ocidente e para oriente, para fundar as duas cidades-estado de Suméria e Acádia, as duas grandes civilizações da idade do Bronze do Egipto e da Mesopotâmia, mais tarde conhecidas, coletivamente, como Babilónia. Um quarto grupo, os fenícios, estabeleceram-se na costa mediterrânica próximo de Tiro e de Sídon.


A Fé Judaica
A religião monoteísta mais antiga do mundo tem, pelo menos, mais de 4.000 anos.
A Tanach, ou Bíblia Hebraica, não reconhece outro deus que não o seu, o qual entra num acordo eterno com o seu povo escolhido, os Israelitas.
Deus deu ao seu povo duas tábuas de pedra com os Dez Mandamentos, os quais são os princípios obrigatórios para a fé judaica.
Todos os tipos de mandamentos, obrigações e rituais foram inscritos inicialmente na Tora (os cinco primeiros livros da Bíblia) ou foram passados por tradição oral.
A vida depois da morte não tem um papel significativo no judaísmo, no entanto, há uma fé, extremamente enraizada, de que um dia o Messias venha e transforme a população mundial no Povo Sagrado de Deus. O que será acompanhado pela destruição de todo o Mal.
Israel, em si mesmo, é o Povo escolhido por Deus. Escolhidos para dar o exemplo do comportamento crente e ético ao resto do mundo. Até que o Reino de Deus finalmente chegue, os devotos judaicos tentam viver o seu quotidiano de acordo com os mandamentos, dedicando as suas vidas a Deus.

O primeiro patriarca
Os judeus traçam as origens do povo israelita e da sua religião até à época de Abraão. É considerado o fundador da fé judaica e o primeiro patriarca dos Povos de Israel: Abraão, juntamente com o filho Isaac e o neto Jacob, são, frequentemente, referidos como os patriarcas.
O Islamismo também se refere a Abraão, ou Ibrahim em árabe. Juntamente com o primeiro filho deste, Ismael, é visto como aquele que restaurou o monoteísmo em Kaaba.
A Bíblia diz que Abraão deixou a sua cidade natal, Ur na Caldeia, no sul da Mesopotâmia (o atual Iraque) no princípio do segundo milénio antes de Cristo. Abraão vagueou pelo deserto da Arábia até chegar à Terra Prometida de Deus de Canaã. Deixou de praticar os cultos politeístas do seu povo para passar a adorar a um só Deus, o Criador do Mundo, o qual só poderia encontrar na terra chamada Canaã.
De acordo com o Panteteuco, Abraão viajou como um nómada pelas terras de Canaã com o seu clã e herdeiros, numa busca constante pela terra fértil.
Deus havia chamado este homem para ser o pai de muitos descendentes e o fundador de um grande povo. No entanto, só já numa fase muito avançada da vida de Abraão é que a esposa deste, Sara, concebeu o filho de ambos, a quem Isaac deu o nome de Issac.
A escrava Hagar também deu um filho ao patriarca, mais velho de nome Ismael. Depois de Isaac ter nascido, Ismael e Hagar foram banidos para o deserto, enquanto Isaac passou a ter um papel significativo para a fé judaica.
Quando Deus ordenou a Abraão que sacrificasse o seu amado filho, Abraão não hesitou. O sacrifício nunca foi efetuado: um anjo impediu Abraão e no lugar de Isaac foi sacrificado um cordeiro. Aparentemente, Deus só queria uma prova da obediência de Abraão.
Após a morte da sua esposa, Abraão comprou a caverna de Macpelah para adicioná-la à propriedade que ele possuía na cidade atualmente conhecida como Hebou. Ali sepultou Sara e, mais tarde, tanto ele como o seu filho Isaac foram igualmente sepultados naquela gruta.
A gruta tornou-se um local sagrado para os judeus, embora tenha sido edificada uma mesquita no seu lugar, mostrando a sua importância que também tem para os muçulmanos.

O Interpretador de Sonhos
As tribos de Israel têm o nome de dez dos doze filhos de Jacob, filho de Isaac, sendo que as restantes duas têm o nome dos filhos de José.
O nome "Israel" vem de Jacob, que uma noite lutou com um anjo de Deus e que assim recebeu o nome de Israel ("aquele que lutou com Deus").
O filho de Jacob, José, foi vendido como escravo a mercadores do Egipto, onde foi parar às prisões do faraó. Mas José possuía o dom da interpretação dos sonhos, e o faraó nomeou-o para interpretar os sonhos. José revelou que a sete anos de fartura se seguiriam sete anos de fome.


Parte II - O Êxodo do Egipto 
De volta à Terra Prometida
Pensa-se que o sofrimento dos israelitas começou no reinado do faraó Ramsés II, como é relatado no segundo Livro de Moisés (Êxodo).
Ramsés II (1279-1213 a.C.) foi o terceiro faraó da  19ª Dinastia  do Antigo Egipto. Debaixo do seu reinado os israelitas foram obrigados a fazer trabalhos forçados e tratados como escravos.
Foi Moisés quem os liderou de volta à Terra Prometida dos seus pais, Canaã.
Os hebreus viram Moisés como o Servo de Deus. A Bíblia descreve o seu êxodo a partir do Egipto, durante quarenta anos. Milagres como a separação do mar Vermelho, o qual puderam atravessar sem se molharem, enquanto que os soldados do faraó se afogaram quando as águas do Mar se abateram sobre estes, mostraram aos israelitas que Deus estava com eles e que os iria proteger.
A questão se as leis naturais foram suspensas pelo Criador, ou se as coisas se passaram de forma diferente, tem vindo a trazer as mais diversas teorias ao longo do último século.

Quarenta anos no deserto
Antes de os judeus terem chegado à Terra Prometida, chegaram ao Monte Sinai, onde Deus deu-lhes os Dez Mandamentos, passados a Moisés na montanha, como um sinal do acordo entre Deus e o Povo Escolhido.
O terceiro mandamento mostra claramente o que Deus espera do seu povo - "Não terás outros deuses diante de mim". Os israelitas passaram quarenta anos no deserto e Moisés morreu antes de entrarem na Terra Prometida.
Em Canaã, foram travadas batalhas sangrentas com os locais, principalmente com os filisteus, que formaram uma aliança de cindo cidades.
Os gregos e os romanos nomearam esta terra depois de Philistia (Palestina) ou Palaestina Tertia.
Os filisteus tinham armas de ferro e causaram muitas baixas nas tribos israelitas. Só o rei David conseguiu eliminar o tratado das cinco cidades.

Rei David, o Amado
O rei David (em hebraico "o amado", cerca de 1004-965 a.C) foi o primeiro governante de Israel que foi capaz de unir as tribos e estender as fronteiras territoriais.
É famoso por ter derrotado Golias da Tribo dos Filisteus (conhecido como o "gigante" devido ao seu enorme tamanho), matando-o com uma fisga. De acordo com a tradição, David era um pastor, um músico, poeta e guerreiro do rei Saúl e pertencia à Tribo de Judá. Ao casar-se com a filha de Saúl, Mical, tornou-se parte da família real. Apesar de cedo surgir uma rivalidade entre ele e o rei Saúl, David permaneceu leal ao sogro por bastante tempo. Só quando fez trinta anos é que se tornou rei de Israel.

O legado histórico do rei David
David entendeu como sendo o seu principal papel o alargamento do território israelita.
Através de vitórias conseguidas aos Moabitas, amonitas e Edomitas, o rei David estendeu o seu poder e levou Israel a uma situação de prosperidade económica.
Os historiadores descrevem David como um governante cruel que não poupou os prisioneiros.
Jerusalém tornou-se a nova capital: com a Arca da Aliança no Monte Sião, cresceu até se tornar o centro religioso do reino.
David fundou uma dinastia que viria a reinar durante muitos séculos. O seu talento musical fez com que se tornasse o autor de muitos Salmos, nos quais expressou o seu amor a Deus. Disse, também, que o Messias viria um dia, da Casa de David e traria o Reino de Deus para a Terra.

A Arca da Aliança
Durante a permanência temporária dos israelitas no deserto, a Arca da Aliança - a Casa de Deus-, era a ligação que mantinha todas as tribos de Israel unidas.
O Rei David levou a arca para Jerusalém, e quando Salomão construiu o Templo Sagrado, colocou-a lá.
Alguns historiadores pensam que a Arca foi destruída com o Templo em 587 a.C., quando Jerusalém foi conquistada pelo Babilónios, mas a busca pela Arca continua até aos nossos dias: na Etiópia, debaixo do Monte do Templo em Jerusalém e até no Sul de França.
A Arca é descrita em grande detalhe na Bíblia. É uma arca com 115 cm de comprimento e 70 de largura e altura, feita em madeira de acácia e dourada. Foi carregada usando bordãos inseridos em 4 anéis presos nos cantos inferiores.
Continha só as duas tábuas com os Dez Mandamentos. A tampa é de ouro puro, adornada com dois querubins com asas abertas - um símbolo da protecção e presença de Deus na Arca.

A sabedoria do Rei Salomão e a Rainha de Sabá
É dito que Salomão era um homem pacífico e sábio, e a Bíblia cita um exemplo da sua sabedoria: duas mulheres foram ter com o rei. ambas tinham dado à luz, mas só uma das crianças é que tinha sobrevivido, no entanto, as duas mulheres proclamavam serem a legítima mãe da criança. Salomão, então, ditou que a criança fosse cortada em duas, e que fosse dada uma metade a cada uma das mulheres. Uma delas, no entanto renunciou prontamente ao seu direito, revelando-se desta forma, como a verdadeira progenitora, pois colocou a vida do bebé acima dos seus interesses. Salomão entregou-lhe a criança.
A Bíblia revela que a Rainha Sabá foi ter à corte de Salomão para testar o governante colocando-lhe alguns enigmas.. Salomão resolveu todas as adivinhas colocadas pela misteriosa mulher, que vinha, claramente, da Etiópia.
No Livro dos Provérbios, Salomão deixa a Sabedoria falar por si mesma: «22-26O Senhor criou-me logo no princípio de tudo, antes mesmo de ter criado fosse o que fosse. Já desde a eternidade sou o que sou. Existo antes da Terra ter começado a sua existência; antes que os grandes oceanos se formassem, e que as águas da atmosfera começassem a derramar-se sobre a terra; antes das altas cordilheiras e das montanhas; sim, eu nasci antes que Deus tivesse feito tudo o que há na superfície do nosso planeta.» O Testemunho da Sabedoria revela  que existia antes de toda a Criação. O Rei Salomão e a Rainha de Sabá são vistos como um casal místico, que juntaram a sabedoria à união misteriosa entre um homem e uma mulher. A Canção de Salomão - um texto que celebra o amor erótico - é para ser compreendido, igualmente, neste contexto.

 A construção do Templo e a morte de Salomão
O Rei Salomão mandou erigir muitas construções. O primeiro Templo Sagrado em Jerusalém, cujas origens estão revestidas em mistério, foi construído a meio do século X a.C.
As cerimónias sacrificiais eram a única forma de veneração permitidas no Templo Sagrado, e só o Sumo Sacerdote podia entrar no interior do Santuário.
Depois da morte do Rei Salomão, reinou o filho deste, Reoboão, mas não foi capaz de manter as políticas do pai com sucesso por muito tempo, e o reino das doze tribos desmembrou-se.

Parte III - Grupos Religiosos no Judaísmo na viragem das Eras

Para além da comunidade enigmática em Qumram (no Mar Morto) conhecida como os Essénios, são conhecidos outros três grupos judeus na atualidade e mencionados nas fontes do Cristianismo inicial.

Os Saduceus
É difícil determinar a origem desta seita. Sabe-se que existiu nos últimos dois séculos do Segundo Templo, em oposição aos fariseus. O nome parece proceder de Sadoc, hierarca da família sacerdotal dos filhos de Sadoc, que segundo o programa ideal da constituição de Ezequiel devia ser a única família a exercer o sacerdócio na nova Judéia. Diferiam dos fariseus por não aceitarem a tradição oral. Na realidade, parece que a controvérsia entre eles foi uma continuação desta hostilidade que havia começado no templo dos macabeus, entre os helenizantes e os ortodoxos. Com efeito, os saduceus, pertencendo à classe dominante, tendo contacto próximo com  ambientes helenizados, estavam inclinados a algumas modificações ou helenizações. O conflito entre estes dois partidos foi o desastre dos últimos anos da Jerusalém judia.
Os Saduceus enfatizavam a supremacia da Tora. Ao contrário dos fariseus não acreditavam na continuação da vida da alma após a morte e estavam convencidos na existência de espíritos e anjos.
Os saduceus também rejeitavam a intervenção divina nos assuntos humanos através de milagres, ao contrario da tradição oral, e colocaram o plano divino de Deus acima do livre arbítrio humano. Rejeitavam qualquer esperança na ressurreição tal como descrita mais tarde pelo apóstolo Lucas.
Este grupo decaiu após a destruição do Templo pelos Romanos no ano de 70 d.C., deixando apenas parte do Muro das Lamentações, que sobreviveu até aos nossos dias: as crenças religiosas dos saduceus estavam muito dependentes da continuação da existência do Templo e do estado Judeu. Também não conseguiram angariar apoio no público, porque os seus ensinamentos e interpretações das leis não estavam ao alcance da maior parte dos judeus.
Sobreviveram, no entanto, as suas marcas em todas as tendências anti-rabínicas dos primeiros séculos (d.C.) e da época medieval.

Os Fariseus
Entre os ensinamentos dos fariseus estava a crença na imortalidade da alma e nos anjos, na ressurreição dos mortos, numa justa retribuição na próxima vida e no livre arbítrio de acordo com o plano divino de Deus. A influencia do helenismo é visível nestas ideias.
Os fariseus eram apocalípticos e esperavam que a vinda do Messias viesse a ocorrer durante a sua vida, de acordo com a Tora.
Este grupo insistia em seguir os mandamentos bíblicos à letra e estenderam a lei canónica ao introduzirem a "Tora Oral", chamada Mishnah.
Procuravam um equilíbrio com o poder governante (Roma) de forma a assegurar a sobrevivência do povo judeu. Por este motivo foram chamados de "hipócritas" pelos zelotas e outros grupos radicais. Esta caracterização negativa dos fariseus, que só aparece nas escrituras cristãs, resultaram no uso proverbial da palavra.
Muitos estudiosos, no entanto, vêem-nos como os iniciadores do judaísmo moderno, tolerante e mundano.

Os Zelotas
Depois da Judeia ter sido subjugada pelos romanos, a oposição à ocupação foi efectuada pelos zelotas.
Eram radicais nos métodos e não tinham medo de arriscar as próprias vidas na batalha contra a opressão, de forma a assegurar a independência nacional e religiosa para os israelitas.
Os zelotas recusaram-se a pagar impostos aos romanos e viviam como guerreiros livres.
Muitos deles eram oriundos da Galileia.
No ano de 70, quando viram que haviam perdido a batalha, os últimos zelotas cometeram suicídio durante o cerco à sua fortaleza na montanha, Masada, no Mar Morto.

Parte IV - Os Essénios - Uma comunidade judaica em Qumram no tempo de Jesus?

Os pergaminhos do Mar Morto
Em 1947, um rapaz de uma tribo de beduínos encontrou vários rolos de texto escondidos num ponte alto dentro de uma caverna perto do Mar Morto. O sitio onde foram encontrados fica a menos de uma milha de um local na costa sudoeste do Mar Morto, denominado Khirbert Qumran.
Nos anos que se seguiram foram encontrados outros textos noutras cavernas vizinhas, relativos à vida de uma comunidade que se presume ter vivido em Qumran, que escondeu os textos nas cavernas de 70 d.C, para salvá-los dos romanos.
Um dos textos inclui as palavras "guerra dos filhos da luz contra os filhos das Trevas". Os investigadores presumem que os "filhos das trevas" eram uma referência aos romanos.
De acordo com os achados da investigação que se seguiu com a escavação das ruínas, até à sua destruição no ano de 68, Qumran pode ter sido o centro de uma comunidade religiosa com uma disciplina muito restrita, semelhante a uma ordem religiosa.
Os autores dos pergaminhos são, supostamente, membros dessa comunidade (embora haja quem defenda que podem ser de diversos grupos religiosos, uma vez que são muitas vezes divergentes nos assuntos e estarem bastante dispersos. Outras razões que fundamentam esta hipótese são o facto de nem sempre utilizarem o mesmo  tipo de escrita e a comunidade de Qumran não ter dimensões suficientes para produzi-los), os Essénios.
Alguns dos manuscritos datam do  primeiro século d.C.. O texto mais longo tem 7,3m (Pergaminho de Isaías), o manuscrito do bíblico Livro de Isaías.

Parte V - Diferentes orientações de fé no judaísmo

Ao longo dos últimos 2.000 anos desenvolveram-se diversas correntes dentro do judaísmo, com fronteiras entre si bastante ténues.
Falando em termos generalistas, a distinção é feita entre os Ortodoxos, os Conservadores e o Judaísmo Reformista.

Ortodoxos e Ultra-ortodoxos
A interpretação literal da Tora e do Talmude é da maior importância para os judeus Ortodoxos.
O judaísmo Ortodoxo desenvolveu-se durante o século XIX (principalmente na Europa do Leste) com o objetivo de viver completamente de acordo com as instruções dos Livros Santos.
Os haredi são um subgrupo ortodoxo extremamente conservador. São reconhecíveis pelas suas roupas pretas, chapéus, barbas e longos cachos de cabelo.
As suas crenças religiosas incluem o misticismo ou Cabala e, tal como todos os judeus ortodoxos, cumprem regras muito rígidas de separação entre homens e mulheres durante as orações.
A separação física entre os sexos também é evidente no Muro das Lamentações em Jerusalém.
Enquanto Israel não tem nenhuma religião de Estado oficial, os assuntos religiosos são levados à Chefia do Rabinato, representado por dois rabis principais ortodoxos, um de tradição sefardita e outro ashkenazim.

Judeus Conservadores
O judaísmo Conservador é um tipo de fé relativamente recente que faz a ponte entre os Ortodoxos e os Reformistas.
Os judeus conservadores seguem as leis do Talmude e da Tora, embora que com uma interpretação menos literal, de acordo com a visão de que a Palavra de Deus foi registada por homens, logo, dada a erros e a diversas interpretações.
Acreditam que a Lei pode ser adaptada às circunstâncias, sem que se deixem de manter os valores judaicos.
Não há separação dos sexos nas sinagogas.

Judaísmo Reformador
Os judeus reformistas adaptaram o seu estilo de vida ao mundo moderno e as suas crenças religiosas tendem a defender mais uma ética social que o seguimento literal das regras do Talmude e da Tora.
Acreditam na imortalidade da alma e rejeitam a noção da ressurreição física.
Nas sinagogas Reformistas, homens e mulheres praticam as orações juntos. A sua atitude das leis Kashrut relativas ao preparo ritualistico dos alimentos é mais brando e o Sabath não é seguido de forma rígida. Enquanto que os Ortodoxos não conduzem nem acendem uma luz no Sábado, os Reformistas fazem-no.

Parte VI - Hassidismo

O renascimento do movimento judaico
O hassidismo (em hebreu "os piedosos") desenvolveu-se entre os Judeus da Europa do Leste como um renascimento da tradição rabínica.
Não só reconhecem os rabis eruditos como autoridades, mas também os zaddik - um intermediário entre as esferas terrestre e espiritual.
O hassidismo quis inspirar a alegrar uma religião que se tinha tornado rígida, afogada em leis e mandamentos, sem nenhum sentimento de espiritualidade, misticismo, magia e alegria.
O fundador do hassidismo, no sul da Polónia e Lituânia, foi o rabi Israel ben Eliezer (1700-1760), também conhecido como Ba'al Shem Tov.
Este homem invulgar foi um pregador errante e um milagroso, que sentiu a presença do divino em todos os fenómenos terrestres.

Ba'al Shem Tov
Os ensinamentos de Ba'al Shem Tov (em hebraico "Mestre do Nome Divino") são baseados na crença que o mundo natural e sobrenatural interagem entre si constantemente.
O Criador encontra-se no Mundo, que é apenas a sua capa. «Nenhum sítio sem Ele»: esta frase da Cabala (misticismo judaico) é o princípio formador dos ensinamentos hassídicos, nos quais Deus e os humanos olham para os outros nos olhos. Muitas histórias hassídicas e lendas de Ba'al Shem Tov e outros Mestres do Nome Divino, relatam isso, como demonstra o exemplo que se segue: "Depois de um intenso estudo, Ba'al Shem Tov estava ansioso por fazer bons trabalhos pelas pessoas na Terra. De uma vez, disse ter salvo um rapaz de uma fatalidade, ao anexar uma pequena placa de cera, com o nome da criança, numa árvore na floresta. De seguida, acendeu o pequeno pavio e recitou uma longa oração que não tinha sido proferido. Diz-se que a chama queimou durante a noite toda, e de manhã o rapaz estava novamente bom.

Voo mistico da alma
De acordo com Ba'al Shem Tov, as pessoas têm a capacidade de penetrar no âmago de toda a vida; mas só depois termos perceber porque se deu a Criação. Esta procura pelo significado de tudo funciona melhor - de acordo com Ba'al Shem Tov - através de um voo místico da alma para alcançar o reino superior ou sobrenatural do além.
De acordo com a Cabala, o céu tem uma hierarquia.
Num estado de êxtase, quando a alma deixa o corpo, conseguimos alcançar toda a Criação, desde o princípio até ao fim (sendo a fase final Deus). Também aprendemos que a morte não existe. Ba'al Shem escreveu um longo texto no qual ele conta uma experiência própria: "No dia de ano Novo do ano 5507  a minha alma subiu, como resultado de uns encantamentos com os quais vocês estão familiarizados, e eu vi coisas maravilhosas cara a cara que nunca havia encontrado desde que me tornei homem. E o que vi e aprendi não pode ser expresso ou explicado por palavras. Mas quando regressei ao Paraíso mais baixo eu vi muitas almas dos vivos e dos mortos, algumas conhecidas e algumas desconhecidas, em números incontáveis, ascendendo de mundo em mundo, naquela barra de luz conhecida daqueles que a experimentaram na sabedoria secreta. Mas entre as coisas que aprendi, haviam três palavras especiais, três nomes sagrados de Deus, que são fáceis de aprender e explicar. Mas eu não tive permissão para os divulgar".
E Ba'al Shem Tov explicou "cada letra contém mundos, almas e o  divino, e elas ascendem e combinam-se e ligam-se entre si e mais tarde as letras combinam-se para formar palavras  e tornarem-se unidas na verdadeira união com o divino".

Parte VII - Theodor Herzl Andzionism

A terra do Sião
Sião foi um dos nomes dados originalmente a uma das sete colinas de Jerusalém, assim como a uma fortaleza construída no topo desta. Mais tarde, o termo veio a ser usado para denominar a Terra Santa.
O sionismo tem sido um movimento nacionalista e idealista dos judeus da classe média desde os finais do século XIX, com o objectivo de criar um estado judeu no solo da Palestina.

Anti-judaísmo e anti-semitismo na Europa
A imagem dos judeus tem sido caracterizada por preconceitos anti-judaicos há séculos.
A hostilidade teológica do Cristianismo  contra os judeus (a Igreja responsabiliza os judeus pela morte de Cristo) ajudou a cimentar a imagem dos judeus. Este povo tem sido excluído da maioria das profissões, não lhes deixando outra opção que não a de se voltarem para os negócios  do cambio, empréstimos e outros trabalhos "indesejáveis", que só serviram para aumentar as tensões.
Na sociedade medieval, os judeus eram tolerados, mas não aceites como cidadãos, tendo acabado por serem expulsos de diversos países.
A imagem do "judeu explorador" estava firmemente enraizado no virar do sec. XX.
Na Europa do Leste houve um aumento de violência contra os judeus a partir de 1880. Isto fez com que houvesse uma onda de emigração judaica da Europa do Leste para a Terra Santa de Sião.
O período do Nacional Socialismo (1933-1945), na Alemanha, e os acontecimentos da Segunda Grande Guerra, trouxeram o anti-semitismo até um pico, com a tentativa de exterminar o povo judeu da Europa. Durante o Holocausto foram assassinadas quase 6 milhões de judeus.

Sionismo
Os judeus aguardaram por um estado seu desde a destruição do Primeiro Templo em Jerusalém no ano de 587 a.C. e o período de catividade babilónico que se seguiu. Estava associado ao seu desejo de poderem praticar a sua própria religião em paz e sem conflitos de outras pessoas.
No final do século XIX, Theodor Herzl tornou-se o fundador do Sionismo político. Reuniu o Primeiro Congresso Internacional Sionista, em Basel, na Suiça, no ano de 1897, sob a influência do Caso Dreyfuss - em 1894, um distinto capitão francês, de origem judaica, Alfred Dreyfuss, foi preso e condenado injustamente por traição, tornando-se uma vitima proeminente do ambiente anti-semita do seu país.

A Declaração Balfour
Depois da morte de Herzl, o movimento sionista continuou a crescer, e encontrou o seu mais forte defensor no Ministro dos Negócios Estrangeiros Britânico, Lord Arthur J. Balfour.
A 2 de Novembro de 1917, Lord Balfour, redigiu um documento no nome da Coroa Britânica - a Declaração Balfour - no sentido de ajudar os sionistas a estabelecerem um Estado Nacional Judaico na Palestina, uma área que os britânicos controlavam desde a I Guerra Mundial. O resultado foi a imigração de muitos judeus para a Palestina.
Devido ao aumento da perseguição aos judeus e do seu assassínio na Europa, o número de imigrantes para a Palestina cresceu exponencialmente nas décadas que se seguiram.

Divisão e criação de um Estado
No final da II Guerra Mundial a Grã-Bretanha trouxe a "Questão Palestiniana" perante as Nações Unidas.
A 29 de Novembro de 1947 foi assinada a aprovação para a divisão da Palestina em dois Estados - Um Estado Judaico e a Palestina Árabe.
A 14 de Maio de 1948 a Assembleia Nacional Judaica proclamou o Estado de Israel.

Parte VIII - Escritos e Livros Sagrados

A Tanach (Tanakh)
A Tanach é a Bíblia hebraica e consiste em trinta e nove livros divididos em três partes principais:
  1. A Tora - os cinco Livros de Moisés, também chamado de Pantateuco;
  2. Nevi'im - os Livros dos Profetas
  3. Ketuvim - os Escritos, as escrituras adicionais.
A palavra Tanakh é derivada das primeiras letras três letras destas três partes.
Só algumas partes do Nevi'im e Ketuvim são lidos com regularidade na sinagoga - especialmente em dias santos e em ocasiões especiais após a leitura da Tora.
As escrituras foram redigidas entre 950 a 550 a.C.
A Tanach com os seus muitos Livros diferentes oferece várias versões da Tora.

A Tora
São lidas em voz alta passagens da Tora (em hebraico "ensinamentos, doutrina, instrução") na sinagoga. É a principal fonte das leis, ética, modo de pensar e de viver dos judeus praticantes. Também define as regras de relacionamento entre as pessoas e Deus, assim como entre os relacionamentos humanos na sua generalidade.
São recitadas passagens da Tora em todos os Sabbath, dias santos e nas segundas e terças ao longo do ano. O leitor recita as passagens para a congregação a partir de um pergaminho escrito à mão que é enrolado em dois rolos. A congregação levanta-se quando a Tora é levada ou colocada novamente no relicário.
Na Tora há um total de 613 mandamentos individuais (mitzvot ou mitzvah). Estão subdivididos em 248 mandamentos positivos (um por cada osso do corpo humano) e 365 proibições (um pr cada dia do ano solar). É o dever de cada crente judaico de lhes obedecer e viver a sua vida de acordo com a vontade de Deus.

O Pentateuco
Os Livros da Tora têm muitos nomes. São conhecidos como os cinco Livros de Moisés, o Pentateuco (do grego penta = cinco; teuch = pergaminho), e o seu nome em hebraico é tirado das palavras e frases de abertura de cada livro.
  1. O Livro de Bereshit ("No Princípio"), contém a história da Criação (Génesis);
  2. O Livro de Shemet ("Os Nomes"), contém a história do Êxodo do Egipto, a longa viagem através do deserto e os Dez Mandamentos;
  3. O Livro de Vayikra ("Ele chamou"), fala  sobre os serviços cerimoniais dos sacerdotes e as leis básicas (Levítico);
  4. O Livro de Ba-midbar ("No deserto"), o Livro dos Números. Trata da viagem dos israelitas através do deserto, razão pela qual muitos investigadores consideram-no o livro mais antigo do Pentateuco - ou pelo menos mais antigo do que o segundo Livro de Moisés (Êxodo);
  5. O Livro de Devarim ("As Palavras"), o discurso de despedida de Moisés ao povo de Israel, juntamente com a repetição dos Dez Mandamentos e um resumo da fé (Deuteronómio).
De acordo com os achados de especialistas das histórias biblícas, o Pentateuco foi sendo redigido a partir de histórias mais antigas no período de 950 a 550 a.C. Já por  volta do ano 400 a.C., os escritos são compilados, organizados e, muitas vezes, aumentados. É nesta altura que se faz a delimitação do Pentateuco, separando o Deuteronómio do resto da história deutoronomista.

Os outros Livros da Tanach
Entre os outros livros da Tanach estão os Nevi'im ou o Livro dos Profetas mais Antigos e mais Recentes:
  •  Os profetas mais antigos contêm os livro históricos - por exemplo a possessão israelita da terra de Canaã - e descreve a vida dos profetas, Josué e Samuel, assim como dos juízes no Antigo Israel. Os profetas viam-se a si mesmos como os mensageiros de Deus e eram considerados pelos israelitas como conselheiros.
  • Os profetas tardios são divididos em três grandes livros e doze mais pequenos. Os autores dos quinze livros vieram de vários segmentos da população e escreveram juntos a palavra de Deus, ensinamentos e profecias, assim como a descrição da vida e do trabalho dos profetas Isaías, Jeremias, Ezequiel e outros doze profetas.
As mensagens dos profetas para os governantes e povo de Israel são bastante semelhantes entre si: denunciam a desigualdade social e o culto de deuses estrangeiros; os governantes, no entanto, raramente  seguiam os seus conselhos.

O Ketuvim: as escrituras
O Ketuvim é a terceira parte da Tanach e é usada de diversas formas na oração judaica.
Estas escrituras datam da época do cativeiro babilónico (587-537 a.C.). Durante esta época obscura, os israelitas foram expulsos da Babilónia e viveram em escravatura durante cinquenta anos.
O Ketuvim inclui, entre outras coisas, os Salmos, o Livro de Jobe e o Lamento de Jeremias. Presume-se que foram incluídos na Tanach por volta do ano 100, e cerca de 190, muitos dos documentos do Ketuvim já eram considerados sagrados.

O Talmud e o Mishnah
Os debates religiosos e as interpretações dos estudiosos judeus foram passados oralmente desde os dias do cativeiro babilónico, até serem registados na forma escrita no séc. III. 63 tratados incluem regras de governação, limpeza ritualística, doutrina, Sabbath, casamento, dias santos e lei criminal. Estes são os Mishnah.
A discussão e interpretação das tradições e leis no Mishnah continuaram, e foram registadas entre os secs. III e V na Gemara. Contém explicações e comentários sobre o Mishnah de diversos estudiosos das escrituras.
Há duas versões do Talmud: o Talmud de Jerusalém e o Talmud da babilónia. O Talmud de Jerusalém, escrito no sec. IV, é mais pequeno e contém só a Gemara, ou interpretações do Mishnah, escrito por estudiosos que viveram em Israel. O Talmud Babilónico, compilado no séc.V, inclui o Mishnah e a Gemara Babilónica. Varia do Talmud original em algumas partes, e é o mais influente. O Talmud Babilónico compreende doze volumes finos relativos a todos os aspectos da humanidade entre o céu e a terra.

Parte IX - Mandamentos e proibições

Halakha - o coração do judaísmo
A religião judaica desafia todas as tentativas sistemáticas de classificação. Estas tentativas falharam sempre porque uma estrutura lógica e sistemática nos seus ensinamentos, nunca foi tão importante na lei judaica quanto viver de acordo com a Lei de Deus. Assim sendo, a prioridade tem sido sempre o desenvolvimento dos costumes, das práticas, regras e tradições, do que estabelecer o que significa viver uma vida religiosa.
A Tora impõe um total de 613  obrigações religiosas. os eruditos rabínicos, ao longo das eras, colocaram a tarefa a si mesmos de providenciar a interpretação destas leis - mas sem o objectivo de criar um dogma judaico.
A teologia, em si mesma, está contida na Halakhah, o corpo das leis judaicas, que é orientado principalmente para o comportamento humano.
Os dois princípios principais do judaísmo também estão reflectidos no conjunto de leis: a omnipotência de Deus e a sacralidade do individuo.

Um caminho que se toma
A Halakhah é o conjunto inteiro de leis judaicas, e não se baseia só nos mandamentos da Tora escrita, mas também da Tora oral, das leis rabínicas e das suas instruções e comentários - que têm sido registados ao longo dos séculos. Os costumes e tradições acabaram por estar vinculados à lei. Isto significa que a  Halakhah é toda acerca da prática, e não de teoria; obrigações religiosas e não de percepções religiosas. Está centrada na correcta aplicação dos mandamentos (mitzvot) em todas as situações.
É por isto que a Halakha, enquanto sistema legal judaico, inclui todos os aspectos e todas as relações da vida - seja entre os indivíduos ou entre os indivíduos e Deus.

Mandamentos para todos os aspectos da vida
A Halakhah não está só preocupada com áreas que são consideradas parte da vida religiosa e ritualística, mas também com matérias que os estudiosos não-judeus tenderiam a definir como morais ou civis, ou ainda leis criminais. Assim, é bastante abrangente, tal como a própria religião judaica. Nenhum problema humano está fora da visão desta religião, e todos os aspectos da vida são regulados por uma directiva da Halakhah - seja nos hábitos alimentares, na vida sexual, na ética empresarial, na vida social, no entretenimento, e até mesmo, na expressão artística.
Estas instruções precisas só são seguidas à letra, na actualidade, pelos judeus ortodoxos; ainda assim, o espírito da Halakhah é de melhorar até a mais pequena acção espiritual, tendo sempre Deus em mente.

Razões para a diversificação nos mandamentos
Uma quantidade prodigiosa de literatura testemunha o interesse judeu em explicar as leis e regras que se desenvolveram ao longo da história judaica. As escrituras, em si, não apresentam razões para a maioria dos mandamentos. A razão pela qual os judeus devotos devem ter em conta as regras rígidas no seu quotidiano, é simplesmente para demonstrarem a obediência a Deus. Isso nunca impediu os judeus de tentarem compreender as razões que estão por detrás das leis e mandamentos, e no curso da história, muitos rabis têm-se debruçado sobre eles. A sua própria busca por respostas, independentemente do sucesso, é sempre uma expressão dos seus esforços para se tornarem mais próximos da intenção divina.

Parte X - Morte, funeral e vida após a morte

Concentração neste mundo
A religião judaica é a mais focada na vida deste mundo, comparativamente a todas as outras religiões.
Se uma pessoa moribunda ainda é capaz de reflectir, deve preparar a sua morte iminente através da oração, repetindo quaisquer pecados que tenha cometido e abençoar os seus filhos. Imediatamente antes da morte, os membros da família devem reunir-se junto ao moribundo, para professar a sua fé na unicidade de Deus.
As palavras finais de um judeu devem ser, idealisticamente, a Shuma Yisrael, a declaração mais importante da soberania de Deus. O Shema Yisrael é a oração mais importante na vida quotidiana e é recitada todas as manhãs e tardes, e noutras situações críticas ou de transição.
Não se deve tocar no corpo de um judeu mal este morre; mais tarde será colocado no chão e serão acesas velas. O corpo é lavado e enrolado numa mortalha de linho. Até ao funeral o corpo nunca é deixado sozinho, por respeito com o morto. Geralmente, uma shomer senta-se perto do corpo e recita os salmos.

Sheol, Dia do Julgamento e Vida após a morte
O que acontece após a morte não é uma preocupação principal para os judeus, e têm uma vasta gama de crenças. Ainda assim, podem ser feitos alguns comentários generalistas. O conceito do além tem sempre feito parte do judaísmo, no entanto, só os fariseus acreditavam na vida após a morte. Na Bíblia o local sombrio, debaixo da terra, para onde vão todas as almas é denominado de Sheol. Este é um local de desolação, escuridão e anarquia, para onde todos (ricos ou pobres, senhores ou escravos, reis e princesas, grandes e pequenos) vão quando morrem. Os judeus devotos acreditam que no Dia do Julgamento, os mortos irão comparecer perante Deus, que irá permitir que só os justos se levantem novamente, tal como está escrito nos Salmos, enquanto que os injustos enfrentam a morte eterna.
O conceito tradicional de ressurreição do corpo continua a ser um principio fundamental para o judaísmo Ortodoxo. O judaísmo Progressivo, por outro lado, há muito que abandonou a ideia a favor da crença na imortalidade da alma.

A espera pelo Messias
Os judeus vivem na expectativa da vinda do Messias (em hebreu mashi'ah, "o ungido"). Esta expectativa está associada à redenção de Israel de todo o mal a reconstrução do Templo Sagrado em Israel.
Não são permitidas imagens de como será o novo mundo de Deus, no judaísmo.
O Livro de Orações judeu inclui o seguinte: «Ele irá enviar o nosso Ungido no fim do tempo, para salvar todos aqueles que aguardam o objectivo final da redenção».

O fim do mundo
O fim do mundo (Apocalipse) irá ser determinado somente por Deus. Para os judeus devotos, está associado à esperança da vinda de uma nova governação de Deus na Terra - tanto para o povo judeu, quanto para as outras pessoas que sigam os desejos de Deus, dado pelo reconhecimento destas da supremacia de Deus.
Os israelitas irão ser resgatados do seu sofrimento e tormento; todas as perseguições, degradações e desgraças irão desaparecer.
Entende-se  por  "redenção" não do pecado e culpa, mas como uma forma de liberdade nacional e paz para todas as pessoas. Quando a terra for renovada, os mortos irão, igualmente, ser ressuscitados. Esta é a razão pela qual devem permanecer na terra e não podem ser cremados.
A miséria, fome e pobreza irão desaparecer para sempre. No entanto, a forma que esta redenção tomará, não pode ser imaginada por ninguém, pois só Deus irá determinar a sua forma.

Notas
Quem era Moisés?
Moisés é conhecido como o homem que libertou os Israelitas e entrou num acordo com Deus. Foi através de Moisés que os israelitas receberam os Dez Mandamentos.
Os cinco primeiros livros da Bíblia são chamados os Livros de Moisés, em sua honra. Mas terá esta famosa figura realmente existido? Os arqueólogos continuam a procurar traços dele nos nossos dias.
A procura do Moisés histórico leva-nos até ao Egipto, onde se levantam determinadas questões pertinentes, como se terá de fato um dos faraós escravizado o Povo Israelita. Alguns investigadores modernos, como o arqueólogo israelita Israel Finkelstein (nascido em 1949) defendem que a história da Bíblia é acerca de um Povo da Antiguidade da Ásia Menor, que assentou no Delta do Nilo por volta de 1700 a.C., os Hicsos ("governantes de terras estrangeiras"). Chegaram mesmo a deter o poder do Egipto por algum tempo (durante as 15º e 16ª Dinastias, cerca de 1600 a.C.), até que foram derrotados pelo faraó.
Por seu lado, o egiptólogo Roft Krauss, está convencido que Moisés foi na realidade Amunmasesa, um vice-rei egípcio do sec. XIII a.C., que instigou uma rebelião contra o faraó. A Bíblia terá preservado a memória das rebeliões e, simplesmente, reescreveu-as. O egípcio tornou-se israelita, e o o chefe da rebelião, um lutador pela liberdade.

Os Dez Mandamentos
1. Então falou Deus todas estas palavras, dizendo: Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.
Não terás outros deuses diante de mim.
2. Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás diante delas, nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam, e uso de misericórdia com milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos
3. Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente aquele que tomar o seu nome em vão.
4. Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás todo o teu trabalho; mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o Senhor o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia do sábado, e o santificou.
5. Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá.
6. Não matarás.
7. Não adulterarás.
8. Não furtarás.
9. Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.
10.  Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.




Fontes
World Religions,Franjo Terhart e Janina Schulze, Parragon Books, Uk; 2007
Atlas Ilustrado da Civilização Judaica, Josephine Bacon, Dinalivro, 1ª edição Março 2003


Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...