16/12/2015

Japão na China


Sabe-se que o Japão sempre teve interesses no território chinês, e muito se fala da invasão deste de Xangai e Nanquim, com o desastre que foi (ver o 
Massacre de Nanquim), no entanto o que pouco se sabe é que estes não tinham intenção de invadir este território, pelo menos na altura, e não da forma efectuada. Pouco se conhece do papel e interesse, que os próprios chineses, das forças maoístas, tinham nesta invasão, pelo próprio interesse de invadirem o território chinês e de usarem as forças japonesas como um meio contra as forças nacionalistas de Chiang Kai-shek e do papel dos russos, que desejavam orientar a atenção dos japoneses para longe das suas fronteiras, e que para tal usava as forças de Mao (e este por sua vez usava Estaline para os seus próprios interesses). Também muito pouco conhecido são as "toupeiras adormecidas" que em momentos chaves "acordavam" e seguiam os interesses de Mao Tsé-Tung. Nem os nacionalistas queriam uma guerra aberta de grandes dimensões contra os japoneses.

Para tal, leiamos o que diz Chang Chung, autora de Cisnes Selvagens, no capítulo 19 de A História Desconhecida de Mao:
«A 7 de julho de 1937, deflagraram combates entre as tropas chinesas e japonesas num local, mesmo à saída de Pequim, chamado a Ponte Marco Polo. No final do mês, os japoneses tinham ocupado as duas principais cidades no Norte da China, Pequim e Tianjin. Chiang não declarou guerra. Não queria uma guerra em grande escala - não ainda, de qualquer forma. E os japoneses também não.
Neste ponto o Japão não tinha o objectivo de alargar os combates para além do Norte da China. Contudo, numa questão de semanas, a guerra aberta tinha deflagrado a mil quilómetros para sul, em Xangai, um local onde nem Chiang nem o Japão desejavam, ou planeavam ter uma guerra. O Japão tinha apenas cerca de 3.000 fuzileiros navais estacionados perto de Xangai, conforme o acordo de tréguas de 1932. O plano de Tóquio até meados de Agosto continuava a ser: "Exército para o norte da China apenas". Acrescentava especificamente: "Não há qualquer necessidade de enviar o Exército para Xangai."

O bem informado correspondente do New York Times, H.Abend, escreveu depois:
Foi um lugar-comum... declarar que os japoneses atacaram Xangai. Nada estava mais longe das suas intenções ou da verdade. Os japoneses não queriam e não esperavam hostilidades no vale Yangtze. Eles... tinham aí uma força tão pequena mesmo já a 13 de Agosto... que foram quase empurrados para o rio nos dias 18 e 19.


H. Abend percebeu que existiam "planos inteligentes" para contrariar o esquema dos japoneses de confinarem as hostilidades inteiramente ao Norte da China. Tinha razão sobre o facto de existirem "planos inteligentes" - só estava errado acerca de uma coisa: os planos não eram de Chiang, mas quase de certeza de Estaline.
Zhang Zhi-zhong
A pronta ocupação do Norte da China pelo Japão, em Julho, constituiu um perigo directo para Estaline. Os enormes exércitos de Tóquio estavam agora em posição de se virarem para Norte  e atacarem a Rússia em qualquer local numa fronteira com muitos milhares de quilómetros de extensão. No ano anterior Estaline identificara publicamente o Japão como a principal ameaça. Agora, ao que parece activou um agente comunista muito antigo, sediado no coração  do exército nacionalista, e detonou uma guerra em grande escala em Xangai, que atraiu inextricavelmente os japoneses para o vasto centro da China - e para longe da Rússia.
O agente "adormecido" agora desperto era um general chamado Zhang Zhi-zhong (a que nos referiremos como ZZZ), comandante da guarnição Xangai-Nanquim. [...]
Tentou (ZZZ) convencer Chiang a lançar um "primeiro ataque" contra o Japão - não no Norte da China, onde se davam os combates, mas a mil quilómetros para sul, em Xangai, onde  a pequena guarnição japonesa não estava envolvida em nenhuma acção militar nesta fase. Chiang não respondeu a esta proposta, embora ZZZ a repetisse muitas vezes. Xangai era o coração industrial e financeiro da China, uma metrópole internacional, e Chiang não a queria ver transformada num campo de batalha. Além disso, ficava muito próximo da sua capital, Nanquim. Ele até transferira tropas e artilharia para longe da zona de Xangai, para não dar aos japoneses qualquer desculpa para uma guerra nessa região.
No final de Julho, logo após os japoneses terem ocupado Pequim e Tianjin, ZZZ telegrafou de novo a Chiang, apresentando fortes argumentos para "tomar a iniciativa" de começar uma guerra. Depois de ZZZ ter dito que apenas o faria se os japoneses dessem sinais inequívocos de atacar Xangai, Chiang deu o seu consentimento condicionado, sublinhando: "Deve esperar por ordens sobre quando deverá acontecer".
Mas a 9 de Agosto, sem autorização, ZZZ encenou um incidente à porta do aeroporto de Xangai, onde uma unidade do exército chinês, que ele próprio aí estacionara especialmente, matou a tiro um tenente dos fuzileiros japoneses e um soldado. Um prisioneiro chinês com uma sentença de morte foi depois vestido com um uniforme chinês e morto à entrada do aeroporto para parecer que os japoneses tinham atirado primeiro. Os japoneses deram todos os sinais de desejarem minorar a importância do incidente [...] No dia 14, os aviões chineses bombardearam o navio-almirante Izumo, bem como tropas e aviões da Marinha no solo, e ZZZ ordenou uma ofensiva geral. Mas Chiang deteve-o: "Não deverá atacar esta noite. Espere por ordens".
Quando não chegou nenhuma ordem, ZZZ flanqueou Chiang emitindo um enunciado para a imprensa no dia seguinte afirmando, falsamente, que os navios de guerra japoneses tinham bombardeado Xangai e que as tropas japonesas tinham começado a atacar os chineses. [...]
Os japoneses infligiram tremendas baixas. Em Xangai, 73 das 180 divisões da China - e o melhor terço - mais de 400.000 homens, intervieram e foram aniquilados. [...] Os japoneses sofreram muito menos baixas, embora ainda pesadas: cerca de 40.000.
Logo que Chiang foi forçado a envolver-se numa guerra aberta, Estaline movimentou-se com alacridade para apoiar a capacidade de Chiang sustentar uma guerra. [...] A China não conseguia fabricar quaisquer armas, excepto espingardas. Estaline adiantou 250 milhões de dólares americanos a Chiang para comprar armas à Rússia.
Este foi provavelmente um dos maiores golpes de Estaline. Com apenas um agente adormecido afastou a ameaça japonesa à Rússia soviética. [...] 
O estalar da guerra em grande escala entre o Japão e a China trouxe a Mao benefícios imediatos. Chiank Kai-chek finalmente acedeu à exigência-chave dos comunistas, que até agora recusara considerar - que o Exército Vermelho podia manter a sua autonomia. Mao manteve assim o controlo do seu próprio exército, embora supostamente devesse fazer parte das forças armadas do Governo Central. [...]
 E contudo isto representou apenas o início dos benefícios que Mao retirou da Guerra Sino-Japonesa, que durou oito anos e roubou a vida a aproximadamente 20 milhões de chineses. Acabou por enfraquecer enormemente o Estado de Chiang e permitir a Mao emergir na posse de um exército gigantesco de 1,3 milhões. No inicio da guerra a proporção do exército de Chiang para o de Mao era de 60 para 1; no final, era de 3 para 1. [...]
A partir de finais de Agosto, as três divisões que constituíam o 8º Exército de Estrada começaram a atravessar o rio Amarelo em direcção à frente de batalha, que ficava a várias centenas de quilómetros para este, na província de Shanxi, Os comandantes do Exército Vermelho, assim como os soldados, estavam muito empenhados em lutar contra os japoneses. E assim acontecia também com a maior parte dos líderes do PCC.
Mas não Mao. [...]Não se via a si mesmo de maneira nenhuma do mesmo lado de Chiang. [...] Em anos futuros, mais de uma vez agradeceu aos japoneses por "darem uma grande ajuda"».


Excerto de A História Desconhecida de Mao, Jung Chang e Jon Halliday, 1ª edição, Quetzal Editores, Abril de 2013

Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...