07/12/2015

Islão

A Religião que veio do deserto

Maomé recebeu as suas revelações divinas aos quarenta anos numa caverna chamada Ghar Hira, perto de Meca, no que é atualmente a Arábia Saudita. Antes disso, o profeta tinha vivido no deserto por diversas décadas e estava completamente consciente dos perigos aí existentes. A vida no deserto é difícil, e as pessoas que vivem em tal ambiente sabem que só conseguem sobreviver se seguirem regras restritas dentro de uma comunidade forte. O deserto junta as pessoas pois para sobreviverem é necessário que mantenham laços fortes entre si.
Durante os primeiros séculos do calendário islâmico, isto é, desde o século VII d. C., esta solidariedade incondicional dentro da tribo teve um papel muito importante na ascenção do império dos Árabes Islamizados. Reciprocamente, a crença islamica num único, e poderoso Deus deu a confiança aos nómadas que renunciaram ao politeísmo a tornarem-se muçulmanos: puderam assim ser criadas comunidades funcionais num período de tempo relativamente curto, ao juntarem-se na crença de um único Deus, invés de muitos deuses.


Os valores do deserto

Um Deus - Alá - e uma lei - Sharia -, uma tribo e uma única fé: é basicamente o que define os Árabes e a  sua cultura tem sido moldada, se não exclusivamente, então extremamente influenciada, pelas condições de vida do deserto. Entender o Islão como é praticado no mundo árabe e a sua importancia no terceiro milénio, requer um reconhecimento da influência do deserto. Só para nomear um aspeto, o deserto dá a base aos valores tão importantes e intemporais como uma lealdade familiar bastante forte e a coesão tribal.



O Profeta Maomé

O início da vida de Maomé

Maomé (Abū al-Qāsim Muḥammad ibn ʿAbd Allāh ibn ʿAbd al-Muṭṭalib ibn Hāshim) nasceu cerca de 570 d.C. em Meca. Muito antes do nascimento de Maomé, a mãe deste, Amina, diz-se, que teria ouvido a voz de um anjo, que lhe profetizou: «O filho que esperas será o Senhor e Profeta do teu povo.»
O pai de Maomé morreu pouco antes do filho nascer, e a mãe também veio a morrer quando Maomé ainda só tinha seis anos. Pouco mais se sabe acerca da infância de Maomé, juventude ou mesmo quando era um jovem adulto. Geralmente é descrito como tímido e reservado, mas aberto quando entre amigos. Diz-se que tinha um sorriso caloroso e que falava de uma maneira particular, articulando cada silaba individualmente.
Os muçulmanos rejeitam as representações do Profeta, no entanto,ainda se pode fazer um esboço  da sua aparência exterior, com base nas descrições fornecidas pelas fontes que ainda sobrevivem.

Idolatria numa terra estéril

Maomé cresceu como um órfão em Meca. de acordo com o Corão, Meca está localizada num "vale sem plantas". Isto refere-se à enorme e árida Península Arábica, 2.000 km de comprimento e 1.200 km de largura, que em tempos pré-islâmicos era praticamente só deserto com uns oásis ocasionais. Os Verões dentro e à volta de Meca eram, e ainda são, quentes; no Inverno, a terra sofre chuvas intensas e fortes trovoadas ocasionalmente. Longos períodos de seca não são desconhecidos. A geografia particular da Arábia teve uma influência considerável na história de vida de Maomé. Compreendeu desde tenra idade que a vida em tal local era difícil e impiedosa.

Os dias de ignorância

O povo que Maomé encontrou enquanto jovem adulto eram essencialmente os nómadas árabes, sendo que a maioria tentava ganhar a vida através da pecuária, da caça e algum comércio, o qual os obrigava frequentemente a longas viagens.
Durante a primeira metade do século VI d.C., era comum as caravanas serem atacadas e roubadas, com excepção para três meses particulares. No sétimo, décimo primeiro e décimo segundo meses lunares do ano, todos os guerreiros das diversas tribos faziam uma peregrinação a Meca, suspendendo temporariamente a querelas que tivessem entre si. Os muçulmanos referem-se a este tempo pré-islâmico como os "dias da ignorância" (Ayyam al-Jahiliyah), quando os Árabes veneravam muitos deuses e seguiam diversos ritos, incluindo rituais de fertilidade e de chuva. As crenças religiosas da maioria dos árabes eram vagas, mas extremamente influenciadas pela magia. No entanto, não acreditavam na vida após a morte.


Kaaba e Meca

Antes da Ascenção de Meca, o centro do politeísmo religioso prevalecente era um templo quadrático chamado Kaaba, o qual, se diz, ter sido construído por Abraão como local para sacrifícios. De acordo com a fé islâmica Abraão foi um hanif, um procurador da verdade (e um precursor dos muçulmanos nesse sentido), o qual durante a época do idolatrismo acreditava num único Deus e submeteu-se incondicionalmente aos mandamentos de Deus. Durante várias gerações, o Quraish, a tribo de Maomé, haviam sido os zeladores deste local sagrado em Meca, que já se tinha tornado o centro económico e religioso do mundo árabe. O mundo árabe não estava unificado politicamente nesta altura, mas antes, estava fragmentado em grandes áreas tribais.

O digno de Confiança

Mesmo antes de Maomé se ter tornado o Profeta aos quarenta, aqueles que o conheciam referiam-se a ele como "O Digno de Confiança", pois ele tinha provado ser um árbitro em disputas religiosas. A questão era onde era o melhor local onde colocar a Pedra Negra que é venerada em Kaaba. Enquanto que um lado dizia que era melhor um local e outro partido defendia outro local diferente, Maomé resolveu a contenda ao colocar a Pedra Negra num manto, e deu um dos seus cantos a cada um dos representantes das diversas tribos. Desta forma eles levaram juntos a pedra para os destinos que queriam.

A mulher de Maomé

Enquanto jovem adulto, Maomé tornou-se empregado da viúva abastada Khadijah, por quem fez diversas viagens comerciais à Síria. Khadijah estava tão impressionada com Maomé, que se casou com ele, dando-lhe diversos filhos - incluindo Fátima, que é venerada como a filha favorita do Profeta em diversas partes do mundos islâmico (pelos muçulmanos Shia).
Maomé manteve-se fiela a Khadijah enquanto esta viveu. Após a morte dela, no entanto, diz-se que se casou pelo menos nove vezes. Diz-se que Manomé terá dito que "O casamento é o meu Sunnah," tendo-se tornado um guia aos princípios que regulam as relações dos homens muçulmanos e mulheres. Sunnah, o conjunto de leis e tradições baseadas nas palavras e vida de Maomé está vinculado a todos os muçulmanos.
Outro dito que se atribui a Maomé é "O Paraíso fica aos pés das mães."

Chamamento para ser o Profeta de Deus

Quando Maomé tinha quase quarenta anos, retirava-se com regularidade para uma caverna perto da montanha Hira, fora de Meca, para rezar. 
Maomé jejuou e meditou, e depois recebeu as suas primeiras revelações de Deus, uma experiência que ele considerou inquietante e, inicialmente, confusa. Ouviu uma voz que lhe disse: «Ergue-te e anuncia.» Tal como os profetas do Velho Testamento. Maomé, encorajado pela sua mulher, Khadijah, passou a considerara ser seu dever convencer as pessoas a mudarem e renunciarem à idolatria. Maomé estava fortalecido no seu dever por cumprir a vontade de Deus exclusivamente a partir das suas visões: o Arcanjo Gabriel apareceu-lhe várias vezes, instando-o.

A Jornada Noturna do Profeta

A Jornada Noturna  de Maomé outra das experiências visionárias de Maomé. Aqui, Deus  levou o Profeta de Meca a Jerusalém num animal mitológico, Buraq, e foi instruído a introduzir as cinco orações diárias, que têm caracterizado os rituais muçulmanos desde sempre.
Maomé estava profundamente agitado por esta experiência e muitas vezes sentiu receio. Durante três anos ele recusou-se a anunciar o que Deus lhe havia revelado, ele só falava das suas visões com a sua família e um pequeno grupo do seu circulo de pessoas em que confiava. No entanto, a sua mensagem não ficou confinada a este pequeno circulo durante muito tempo, e cada vez mais homens e mulheres convertiam-se ao Islão.
Maomé pregou que a submissão à vontade de Deus é o que Deus espera de todas as criaturas. Ele tinha aceite finalmente que era o Profeta de Deus.

Maomé como líder Religioso

Sem dúvida, a realização de Maomé deveu-se à sua ênfase na importância central e exclusiva de um só Deus, Alá, a todos os Árabes e a toda a criação. "Não há outra divindidade que não Deus," disse o Profeta, tudo o resto é um ídolo. Depois de compreender este facto, Maomé mandou destruir todos os ídolos que se encontravam na Kaaba, com exceção daqueles que representavam Jesus e Maria. A mensagem principal do Profeta é a submissão à vontade de Deus. Consequentemente, aqueles que se submetem completamente a Deus chamam-se a si mesmos Muçulmanos.
No entanto, não demorou muito para que Mohammed tivesse de deixar Meca: a sua natureza cada vez mais intransigente tinha começado a entrar em conflito com os habitantes de Meca, que viam o seu estilo de vida tradicional ameaçado pela mensagem de Maomé.

Os Sucessores de Maomé

Os Shias e os Doze Shia

Após a morte de Maomé, a disputa sobre a sucessão do Profeta, cedo levou a uma separação entre a maioria Sunni e o partido (shia em árabe) do Califa Ali ibn Abi Talib, o Shia. Os Sunnis, o maior grupo religioso no mundo islâmico (cerca de 90%), veêm-se a si mesmos como os seguidores da Sunnah (tradição) do Profeta. O desacordo político que levou a um cisma entre os crentes, que fez com que se dividissem em dois campos após a morte do Profeta, levou, igualmente, a um desacordo teológico.
Isto levou ao aparecimento dos Shia, ou Shiitas, Islão, que hoje em dia está principalmente concentrado no Iraque, Líbano e Bahrein. A maioria dos Shias fazem parte daquilo que é designado de os Doze Shias. Este grupo religioso diferencia-se dos Sunni islâmicos  principalmente por não reconhecerem a autoridade dos primeiros três califas: Abu Bakr (632-634), Umar (634-644) e Uthman (644-656). Em vez disso, eles acreditam que só os descendentes directos do Profeta, em número de doze e chamados de imãs, sãos os portadores legítimos da tradição e compreensão Islâmica.

Outras crenças Shia

Os muçulmanos Shia choram a morte do neto de Mohammed, Hussein, que foi morto num massacre no atual Iraque no ano de 681. Até hoje o martírio de Hussein move os seus seguidores a cometerem atos de auto-mortificação. Os Shia também veneram Ali, o seu fundador religioso (de facto o seu nome significa o "partido de Ali"). Na vida quotidiana, é permitido aos muçulmanos Shia comprometerem-se em casamentos temporários, logo negar a sua fé em épocas de perseguição religiosa.

Os Sete Shia

Outro grupo, os Sete Shias, só reconhecem importância a sete imãs. Mantêm os seus ensinamentos secretos.  Este grupo inclui os ismaelitas, que descrevem Deus praticamente só através de declarações negativas: Deus não é existente nem não-existente; nem poderoso nem não-poderoso, etc. O nome Ismaelita deriva do sétimo imã escondido, Mohammed ibn Ismail. Interpretam o Corão alegoricamente em vez de literalmente, o que levou a uma prática exegética mística e esotérica. Hoje em dia, vivem cerca de 18 milhões de Ismaelitas na África Ocidental, Índia, Afeganistão e Ásia Central.

O desenvolvimento do Islão

Bagdad - o centro da teologia islâmica
Depois da morte de Maomé em 632 d.C., o império muçulmano, em incrível expansão, foi governado por amigos íntimos do profeta. De entre os numerosos conflitos dentro da tribo do Profeta, a família Omíada prevaleceu. Fizeram de Damascos a capital do Islão e reinaram a partir daí desde 661, contribuindo sempre para a continua expansão do Islão. No entanto, a luxuria excessiva e corrupção ofendiam cada vez mais os muçulmanos mais pios. Eventualmente, em 750, os Abássidas substituíram os Omíadas. 
Os Abássidas reinaram durante cerca de 500 anos a partir de Bagdad, tornando a cidade tanto o bastião do Islão, como o centro cultural do mundo conhecido então. Sem vias de dúvida, o califa Abássida mais conhecido foi Harun al-Rashid (786-809), cuja magnifica corte é recontada nas "Noites Árabes". Bagdade tornou-se um centro para a literatura, ciência, música, e moda, mas também para os assuntos filosóficos, incluindo as questões da Livre Vontade do Homem e a Natureza de Deus. Estas considerações eram rejeitadas pelas escolas legais ortodoxas. De acordo com estas, não é permitido a ninguém debater ou filosofar acerca da natureza de Deus.

O nascimento de vários centros do Islão

No princípio do século X, os Fatimidas ascenderam ao poder no Magrebe (Marrocos, Tunisia e Algéria). Recusaram submissão ao califado Abissida em Bagdad e declararam-se a si mesmos dalifas. Os Fatimidas fizeram de Cairo, a recentemente inaugurada capital, a sua base. Ao mesmo tempo, a Dinastia Seljúcida conquistou as partes oriental do Império Islâmico, principalmente as partes habitadas pelos persas e turcos, enquanto que a Espanha veio a tornar-se o centro islâmico do Império Ocidental, debaixo do governo de um dos ramos dos Omíadas. Nos séculos que se seguiram o Islão contribuiu para o enriquecimento de diversas áreas da vida e ciência no ocidente; desde meados do século VIII até ao fi do século XV, cidades como Granada, Córdova e Sevilha foram centros importantes para a filosofia, literatura, ciência e misticismo.

O Islão na Península Ibérica

Em 711, Tarik Ibn Ziyad, juntamente com o seu exército, chegaram à Península Ibérica, através da Mauritania. O local onde desembarcou tem o seu nome desde então, Gibraltar, que significa "a montanha de Tarik". Dentro de apenas quatro anos, a Península Ibérica estava debaixo do poder islâmico, com a exceção de uma pequena parte de terra no norte. Foi dada à parte conquistada o nome de Al-Andalus, e Córdova tornou-se o seu centro. Com exceção às classes altas, as populações locais não só deram as boas vindas aos muçulmanos, como consideraram a sua vinda como uma libertação. Principalmente pela parte da população judaica, que lutaram ao lado dos muçulmanos e mais tarde vieram a adoptar a língua árabe como sinal de gratidão.

Florescimento da ciência e cultura

O Islão trouxe consigo um corpo enorme de conhecimento à Península Ibérica, contribuindo para o florescimento intelectual da região, assim como para a economia. Os muçulmanos tornaram produtiva a terra infértil, através dos seus sistemas de irrigação. Foram importadas novas plantações, como por exemplo as laranjas da Pérsia. Outras actividades produtivas incluíam a produção de couro, cerâmica, papel, e têxteis, todos considerados como artigos de luxo na Europa de então, uma vez que não havia o conhecimento necessário para a sua produção. Outro florescimento que se deu, foi nas ciências (matemática, astronomia e medicina). Através dos muçulmanos toda a Europa acabou exposta ao progresso cientifico, que inicialmente foi demonizado. Só vários séculos depois é que se colocaram em uso estes conhecimentos, como por exemplo a iluminação das ruas: enquanto que noutras partes da Europa, as cidades caiam sob a escuridão à noite, as ruas das cidades de Al-Andalus estavam iluminadas após o pôr-do-sol por lâmpadas ao ar livre. A arquitetura também teve um enorme desenvolvimento, e ainda hoje é possível ver a influencia muçulmana na Península Ibérica.

Egipto e Mad Al-Hakim

As relações entre as religiões

Durante os séculos X e XI, o Egito estabeleceu-se como e centro mais poderoso no mundo islâmico-árabe. Até ao final do século IX a maioria da população tinha sido cristã. De forma a não colocar em perigo as relações comerciais tradicionais, era necessário que os muçulmanos mantivessem boas relações com os cristãos e judeus dos outros países. Esta foi uma das razões pelas quais os governantes Fatimidas do Egito trataram os seus judeus e cristãos com extraordinária consideração. O Egito manteve o seu carácter até aos dias atuais.

Um governante louco?

A atmosfera de tolerância foi perturbada pelo governante despótico, o Fatimida Al-Hakim (996-1021). Al-Hakim implementou medidas dracorianas: proibiu todas as bebidas fermentadas e alguns alimentos, os astrólogos foram perseguidos, e não era permitido às mulheres saírem das suas casas. A desobediência era punível com a morte. Cerca do ano 1008, Al-Hakim iniciou perseguições brutais aos judeus e cristãos. Proibiu-os de beberem vinho e comerem porco, e reintroduziu a regulação das vestes discriminatórias que exigia aos judeus usarem um sino pendurado ao pescoço. Ao mesmo tempo os pregadores anunciaram que Hakim representava a razão divina, a encarnação mais elevada de Deus fora do Seu ser insondável. Hoje em dia, os Drusos, uma comunidade que vive no território atual do Sul do Líbano, sudeste da Síria e Norte de Israel, ainda seguem esta doutrina. Após a morte de de Al-Hakim os crentes desta facção acreditam que ele foi escondido e que voltará no Dia do Julgamento como o messias Mahdi.

Desde os Mongóis até aos Otomanos

Em 1258, o último califa Abissida de Bagdade caiu sob o ataque dos Mongóis, que tinham começado a fazer raides ao Império Muçulmano no século XIII. As Cruzadas também tiveram lugar durante esta altura. Os Cruzados ocuparam Jerusalém em 1099 e conseguiram manter uma posição contra os muçulmanos durante muitos anos. Os Cruzados foram batidos por Salah al-Din (1137-1193), um descendente da dinastia curda Aiúbida, tornou-se o sultão da Grande Síria e Egito e expulsou os Cruzados da Terra Santa. Os mongóis, por sua vez, não foram derrotados, foram islamizados. Anteriormente, eles quase acabaram com o poder do Islão - em parte pelo apoio dos países vizinhos cristãos - levando a cultura islâmica quase a um ponto de extinção. Como resultado das vastas conquistas dos mongóis, estes abriram rotas comerciais desde o final da Ásia até à Europa.

No Egito os Aiúbidas foram substituídos pelos Mamelucos, cujo reinado de 75 anos, tendo o Egito como o centro do mundo islâmico, garantiu estabilidade militar. No entanto, a descoberta das Américas no fim do século XV e o estabelecimento da nova rota marítima entre Portugal e a Índia revelaram-se como grandes reveses no reinado Mameluco. Em 1616/17, o estado mameluco caiu sob o poder dos Otomanos, que tinham vindo a expandir-se desde o século XIV. Para além disso, a partir de 1550, e desde então, o Islão completou a sua expansão aos países ao longo do Oceano Indico. Em 1453, Bizâncio (Constantinopla) foi conquistada por Mehmed II, acabando assim a existência do milenar Império Romano.

Debaixo da liderança Otomana, a Ásia Menor, lentamente, veio a unificar-se novamente. No início do século XVI, os Otomanos tornaram-se os governantes de toda a Mesopotâmia, a Terra dos Dois Rios, entre o Eufrates e o Tigre. Em 1517, Selim (1512-1520) e o seu armamento superior colocaram um fim ao estado Mameluco. Na altura de Selim e Solimão (1520-1566) o Império Otomano alcançou o pico do seu poder. Quando os Otomanos chegaram ao Yemen e Algéria, o império espalhou ao longo destes territórios a língua árabe, e quando conquistou Rodes (1522), Chipre (1570) e Creta (1669), também obtiveram o poder sob o comércio marítimo no Mar Mediterrânico. Apesar do reino islâmico de Granada ter sido passado para as mãos dos cristãos em 1492, os muçulmanos ganharam novos territórios na África Negra e no Sudeste Asiático.

O Islão na atualidade

O Ocidente e o Islão

A partir do século XVIII houve um aumento da influência da cultura e política do ocidente nas estruturas de alguns países muçulmanos. Foram aplicadas leis europeias em Estados Islâmicos, numa forma muitas vezes inaceitável para os muçulmanos. Só a Turquia, sob o governo de Kemal Atatürk adoptou uma forma de governo parecida com o modelo ocidental.
Desde 1975 que alguns países islâmicos têm tentado afastar a influencia ocidental. O que fez com que a certa altura o fundamentalismo, sob uma forma mortífera, surgisse.
Pelos seus princípios basilares o islão é uma fé baseada na paz, pelo que é muito importante que o ocidente tome em atenção às justificações daqueles que se revoltam contra o domínio do Ocidente, como é feito e qual as suas razões.

As crenças Islâmicas e a Filosofia


«Todas as crianças nascem com uma predisposição natural no sentido da verdadeira fé. São os pais que a torna judia, cristã ou numa feiticeira», escreveu Elias Khoury, nascido em Beirute em 1948, sendo atualmente um dos líderes intelectuais árabes e o autor de romances e peças com uma visão crítica dos assuntos sociais do Médio Oriente. 
A opinião de Khoury é um reflexo da assumpção islâmica que a religião original e perfeita da humanidade é realizada no islão. Logo, ser um não-islâmico, é estar num estado de imperfeição, apesar de a existência de várias comunidades religiosas seja descrito no Corão como um teste divino ordenado.
Tal como não há nenhum procedimento formal para a admissão no Islão (como o baptismo ou confirmação pela Igreja Católica), também não existe nenhum ritual estabelecido para a secessão: basicamente, não se antecipa a apostasia. Perder a fé no Islão, tal como o adultério e homicídio, é o tipo de pecado tradicionalmente punido com a morte. Na Europa, este tipo de castigo teve como última aplicação em 1843 no Império Otomano.
Enquanto que o Alcorão não dá nenhuma explicação para este tipo de castigo, não deixa para qualquer dúvida que a descrença será punida por Deus.

Os cinco pilares do Islão

Todos os muçulmanos estão sujeitos a cinco obrigações definitivas. Estes cinco pilares são, em conjunto, o suporte e formam a natureza ética e o ideal muçulmano.

  1. Shahada - «Não há outro Deus, mas Alá, e Maomé o Seu mensageiro». Dizer esta declaração perante duas testemunhas é o suficiente para tornar uma pessoa muçulmana, também ao nível formal - isto é, feito o compromisso verbal com Deus, este ecoa-se na atitude interna da pessoa. Um muçulmano tem de reconhecer antes de tudo que Deus encontra-se nos seus pensamentos e coração. Como consequência, os muçulmanos irão unir as suas crenças com as ações quotidianas como um só. Não há separação entre crença privada e atitudes públicas.
  2. Salat, o acto de oração - Os muçulmanos podem orar tantas vezes quantas desejarem, no entanto, cinco vezes ao dia (ao nascer do sol, meio dia, à tarde, ao pôr do sol e à noite) é obrigatório orar, é o salat, a oração ritual. Fora disto, a oração é um assunto privado (du'a). Para o salat é necessário: tem de ser feito num estado de purificação ritual, o que implica lavar as mãos, os cotovelos, a cara, orelhas, os pés e molhar o cabelo; as horas do dia são pré-determinadas; a oração tem de ser feita em árabe; o crente tem de estar virado para Meca.
  3.  Jejum - Durante o mês do Ramadão, os muçulmanos abstêm-se de comida, de bebida, de fumar, de relações sexuais ou de pensamentos negativos durante o período que decorre entre o amanhecer e o pôr-do-sol. As pessoas idosas, os doentes e as mulheres grávidas estão dispensadas deste jejum, mas devem realizá-lo noutra altura ou então alimentar pobres durante um período de dias correspondente aos dias que faltaram ao jejum. As crianças também não realizam jejum. A primeira vez que um muçulmano realiza o jejum funciona como um ritual de entrada na vida adulta.
  4. Zakat - a palavra zakat significa purificação e crescimento. Cada muçulmano deve calcular a sua zakat, que em geral corresponde a 2,5% dos seus rendimentos. As pessoas pobres não precisam pagar zakat, visto que um dos objetivos deste dever religioso é precisamente o de ajudar os mais pobres. No passado a maior parte dos países islâmicos cobravam a zakat, mas a prática foi abandonada.
  5. Haji, a peregrinação a Meca - Todos s muçulmanos que tenham capacidade financeira e de saúde devem realizar uma vez na sua vida uma peregrinação à cidade de Meca durante o mês de Dhu al-Hija. Se a peregrinação for realizada noutro mês do calendário islâmico, é considerado um ato positivo, mas não corresponde nem dispensa a Haji. Em Meca os muçulmanos realizam então uma série de rituais.


O Corão

O Corão consiste em 114 suras (capítulos), classificadas pelo comprimento (com poucas exceções), abrangendo 6.219 versos no seu todo. Cada sura tem um nome único: por exemplo a sura 2, que também é a mais longa de todas, é chamada de A Vaca. Os nomes não transmitem necessariamente uma ideia acerca do conteúdo da sura. Cada sura, com exceção da sura 9, "O Arrependido", começa com a basmala, a fórmula que diz "Em nome de Allah, o mais gracioso, o mais piedoso", considerada uma parte integral da forma da sura original. As suras são amarradas fracamente junto a declarações, não estando ordenadas de forma cronológica de acordo com a sua revelação. As sequências dentro das suras foram compiladas numa data mais tardia. O texto do Corão está dividido em trinta secções e está escrita na forma poética.
Maomé recebeu os textos do Corão na Caverna de Hira, perto de Meca, onde o Arcanjo Gabriel presenteou-o com um pano que continha a palavra de Deus, no entanto, Maomé não podia lê-lo pois pensa-se que seria analfabeto. Então, o anjo recitou as palavras de Deus. Para além do registo  escrito permanente do Corão que se seguiu às revelações do Profeta, surgiu outra tradição oral ainda durante a vida de Maomé: a Hadith, ditos do Profeta que foram passados oralmente. Só foram compilados na sua forma atual nos séculos IX e X. Juntamente com o Corão, esta tradição representa a segunda fonte de maior importância da instrução religiosa.
Os muçulmanos acreditam que o corão é uma cópia idêntica do original divino - sem a pontuação, títulos, ou ordenação das suras. Todas as partes de livros anteriores (as escrituras hebraicas e o Novo Testamento Cristão, que contradizem parcialmente o Corão - são vistos como falsificações (ver também Abraâmicas) De acordo com a visão da maior parte dos estudiosos islâmicos, o corão não pode ser interpretado sem os textos que têm sido passados oralmente desde a época do Profeta (os Hadiths). Embora sendo uma fonte bastante rica, os Hadiths não apresentam uma imagem completa e acurada de Maomé, pois estes relatos não foram escritos e compilados se não três séculos após a vida do Profeta.

A Charia

Unidade de fé e acção

A Charia é a lei totalmente abrangente do Islão e é baseada nos ensinamentos de Maomé, tanto no Corão quanto nas Hadiths. Para além das obrigações culturais e religiosas a Charia também inclui a lei civil. Charia, literalmente, significa "o caminho". Refere-se à unidade da fé e da ação, onde Deus é visto como a única fonte de lei. Nalguns países islâmicos, como o Irão, a Charia como conceito legal político e religioso está equiparada à lei estatal.
Para além da Charia, as obrigações religiosas, incluem cinco pilares, mas também a jihad, ou "guerra santa". O Corão é bastante explicito neste ponto; no entanto, tal como os estudiosos islâmicos continuam a assinalar, isto tem de ser visto num backround de uma situação histórica em que as forças de Maomé estavam envolvidos numa luta desesperada contra as populações à sua volta. O Corão contém passagens contraditórias, em que se por um lado exige a morte aos não-crentes, por outro enfatiza a origem comum dos povos e exige compreensão e amor entre todos.

A Suna e os Hadiths

Para além do Corão, que é o guia da vida religiosa dos muçulmanos, a Suna é a segunda fonte mais importante para as tradições, convenções e costumes provenientes das palavras e ações do Profeta. Como tal, a Suna é a base para as práticas religiosa, políticas e legais. Trata-se de um corpo de afirmações decisões e ações atribuídas a Maomé, compiladas na Hadith. No entanto, os muçulmanos dividem-se quanto à opinião se Maomé estaria a referir-se a assuntos teológicos ou a aspetos do quotidiano. Neste aspeto os muçulmanos guiam-se pela afirmação de Maomé: " Se eu ordeno algo de um assunto religioso, obedece; no entanto, quando eu falo de coisas comuns, eu falo como um homem normal".

O uso do véu

Apesar de não haver nenhuma indicação especifica no Corão de que as mulheres devem usar véu, o Corão requer que as mulheres se vistam de forma modesta, de forma a não provocar nenhuma indecência. Os véus começaram a usar-se por volta do século IX e tiveram o efeito de excluir as mulheres da sociedade. Nalguns países islâmicos, uma rapariga tem de usar um véu fora de casa logo que se torne sexualmente matura.
No Afeganistão durante o governo talibã, na Arábia Saudita e no Irão, as mulheres tiveram  de cobrir completamente o corpo e usar um véu que tapasse o rosto parcial o completamente.

Predestinação ou livre arbitrio?

Este é um assunto controverso no Islão. Existem duas opiniões prevalecentes, em que ambas se defendem com passagens do Corão. Aqueles que defendem a predeterminação (qadar), assumem que Alá como criador do mundo e da humanidade já predeterminou os caminhos "Certamente Nós criamos tudo de acordo com uma medida". Logo os humanos não possuem liberdade de decisão, uma vez que Deus conhece de antemão todos os acontecimentos. As consequências desta filosofia são óbvias: uma pessoa é boa porque essa é a vontade de Deus, e o mesmo é para uma pessoa má. Os defensores do livre arbítrio defendem-se dizendo que isto não faz sentido, pois sendo Deus misericordioso e justo nunca iria dar o mesmo tratamento para o bom como para o mau.
Estes dois campos do Islão nunca se reconciliaram. Na prática os muçulmanos acreditam do destino (kismet), enquanto possuidores de livre arbítrio.
Não existe nenhum assunto mais controverso no Islão do que a predeterminação do destino de um individuo e o curso de eventos na vida do mesmo.

O Conceito Islâmico de Deus e o Último Julgamento

Os muçulmanos adoram um único Deus, indivisível. Rejeitam por completo o politeísmo, nem podem aceitar o conceito cristão de Deus como uma entidade com três aspetos, isto é, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. 
Maomé introduziu o monoteísmo numa altura quando os seus conterrâneos adoravam muitos deuses, espíritos e demónios. Alá é visto como um Deus pessoal, o criador e o sustentáculo do mundo. O Corão tem 99 nomes para Alá e refere-se a Ele 2700 vezes.
A ausência do centésimo nome para Deus significa, em última análise, que Deus não pode ser compreendido, independentemente de quantos atributos Lhe sejam dados. Os muçulmanos fazem as suas orações usando as 99 contas da subba (ou tashib), um tipo de rosário. Os muçulmanos podem ter adoptado-as a partir dos budistas e das Cruzadas. 
Tal como na Bíblia Cristã, o homem foi feito a partir do barro e Deus exalou o Seus espírito nele. Desde então o Homem tornou-se o representante de Deus - khalifa - na Terra. Deus fez um pacto com os humanos, pelo que a criação inteira lhes pertence, logo podem servi-los.
No fim dos tempos, Deus iá proceder ao julgamento da criação. Deus é misericordioso, mas pune severamente os pecadores.

Tal como no Cristianismo, as revelações Islâmicas também falam do Último Julgamento de Deus no fim do tempo. Isto marca o fim do universo, tal como tudo criado por Deus, tem um princípio e um fim. O Corão mostra as imagens deste evento trágico: será um dia em que as crianças envelhecerão. Não se sabe onde é que as almas dos mortos permanecem até àquele dia. Tudo o que pode ser encontrado no Alcorão acerca disto é o chamado Punição das Sepulturas, sura 32:11 "Disse-lhes: O anjo da morte, que foi designado para vos guardar, recolher-vos-á, e logo retornareis ao vosso Senhor." A tarefa é realizada por um anjo, em nome de Deus, e de acordo com  a tradição os túmulos dos pecadores podem ser muito estreitos e apertados, considerado no Islão como sendo uma experiência muito desconfortável. O Além real, com todo o esplendor de Deus, só entra neste mundo no Dia do Julgamento, altura em que traz um fim a tudo: os mares levantar-se-ão, o sol escurecerá, as estrelas irão cair do céu e o céu irá desaparecer. Alá é o juiz supremo neste dia e ninguém além de Maomé poderá interceder em beneficio dos pecadores. Aqueles que serão punidos terão de comer a fruta da árvore de Zaqqum.
Alá é misericordiosos, mas há um pecado que nunca perdoa - a adoração de outros deuses em qualquer forma, incluindo o deus a que chamamos luxuria.
A entrada no paraíso é possível para todos os homens e mulheres que tiveram uma forte fé em vida, colocando Deus à frente de tudo. O paraíso é uma vida eterna num jardim onde correm rios, as árvores oferecem sombra, e os habitantes reclinam-se em divãs com jóias, debaixo de uma agradável luz, comendo alimentos deliciosos, com um parceiro perfeito. Muitos cristãos têm sido induzidos em erro pela houris (que significa "as brancas" em árabe) ou virgens bonitas que se diz satisfazerem os homens no paraíso, e têm imaginado cenas extremamente devassas. De facto, as houris só são mencionadas algumas vezes no Alcorão, e essas passagens são interpretadas por muitos como a promessa de parceiros perfeitos tanto para os homens como para as mulheres. A Sura 2:25 diz, por exemplo: "Ali terão companheiros imaculados e ali morarão eternamente".


Nota
Os 99 nomes de Deus 
Ele é Deus. Não há outro Deus além dele. O Clemente, o Misericordioso, o Rei, o Santo, a Paz, o Crente, o Muito forte, o Soberbo, o Criador, o Renovador, o Organizador, o Indulgente, o Dominador, o Doador, o Dispensador, o Vitorioso, o Omnisciente, Aquele que fecha, Aquele que abre, Aquele que abaixa, Aquele que ergue, Aquele que dá honra, Aquele que dá vileza, Aquele que ouve, o Vidente, o Juiz, o Justo, o Benévolo, o Sagaz, o Manso, o Inacessível, o Auscultador, o Reconhecido, o Alto, o Grande, o Guardião, o Nutridor, o Calculador, o Mestre, o Generoso, o Observador, o Ouvidor, o Omnipotente, o Sábio, o Amado, o Glorioso, o Revivificador, o Testemunha, o Real, o Garante, o Forte, o Indestrutível, o Amigo, o Digno de louvor, o Calculador, Aquele que ressuscita, o Criador da vida, o Criador da morte, o Vivente, o Subsistente, o Opulento, o Nobre, o Único, o Impenetrável, o Poderoso, Aquele que aproxima, Aquele que afasta, o Primeiro, o Último, o Evidente, o Escondido, o Soberano, o Sublime, Aquele que dá piedade, Aquele que retira, o Vingador, o Perdoador, o Indulgente, o Senhor do reino, o Senhor da majestade e da generosidade, o Equânime, o Unificador, o Rico, o Defensor, Aquele que aflige, Aquele que estimula, a Luz, o Guia, o Inventor, o Eterno, o Herdeiro, o Condutor, o Muito paciente. Que sua majestade seja glorificada e seus nomes santificados!








Fontes
World Religions, Franjo Terhart e Janina Schulze, Parragon Books, UK, 2007
Wikipédia
http://www.portal.ecclesia.pt/pub/14/noticia.asp?jornalid=14¬iciaid=23240
http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/alcorao.asp#AL_MUZAMIL




Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...